Blog do João Freire



Aprendendo a sentar

Tenho bastante dificuldade com cálculos. Parece que fiquei traumatizado com meus professores de matemática, e julgo que o principal responsável foi o primeiro deles, quando eu estava no ginásio. Chamava-se Elpídeo, os cabelos sempre desalinhados, a barba por fazer. Usava gravatas listradas e folgadas, o primeiro botão da camisa desabotoado, tudo encimado por um paletó cinza puído nas mangas e na gola. Ele chegava e começavam os castigos. Nada aprendi de sua matéria, mas aprendi a detestar sua disciplina. Levei anos e anos, depois do trauma Elpídeo, até reconhecer o valor que a matemática tem na vida de todos nós.

Depois vieram os economistas oficiais e suas mentiras, transformando o Brasil num emaranhado numérico. Eles têm números para explicar tudo, especialmente o passado e o futuro; quanto ao presente, aparentemente o ignoram. Minha tia, que é bem velhinha, costuma acertar mais nas previsões que eles (desculpem-me os bons economistas, que, sem dúvida, existem).

Porém, vez por outra, umas continhas são úteis, como, por exemplo, somar o número de horas que a gente passou sentada em uma carteira escolar, aprendendo, segundo nos diziam, as coisas da ciência. Somando as horas do ensino fundamental (nove anos, 200 dias letivos em cada), mais as horas do ensino médio (três anos, 200 dias letivos em cada), são aí doze anos multiplicados por 200, ou seja (espera só um pouquinho, estou aqui ligando a calculadora…), 2400 dias dentro de uma sala de aula.

Com boa vontade a gente ficou, a cada dia, quatro horas sentada, assistindo aulas, portanto, 9.600 horas ouvindo falar de matemática, português, geografia, história, química, física, etc, etc. É tanto tempo que daria para aprender muito sobre qualquer coisa. Olha, se eu passasse 9.600 horas treinando jogar pião, bolinha de gude, pular corda, pega-pega, iô-iô, iria parar no circo, e num desses circos bacanas como o de Soleil, no picadeiro central. No entanto, o que é que aprendi de matemática, de física, de geografia (uma professora queria que eu estudasse as características do sub-solo da Mauritânia)?

Por baixo, cada um de nós que concluiu o ensino médio teve 2000 horas de matemática. E o que restou de conhecimentos sobre essa matéria? Pode ser que a gente tenha até vergonha de responder, mas, sem dúvida alguma, a ficar sentada a gente aprendeu. Ora, quem fica sentado 9.600 horas, aprende a ficar sentado, porque o que a gente aprende, mesmo, é a atitude que tomou. O que cada um de nós sabe está de acordo com as atitudes que teve que tomar ao longo da vida. Atitudes de coragem ensinam a ser corajoso, as de covardia ensinam a ser covarde; atitudes amorosas ensinam a amar, enquanto que as de indiferença ensinam a ser indiferente.

Se quisermos que nossos alunos aprendam a pensar, eles precisam, em nossas aulas de biologia, química ou história, ter atitudes de pensar. Quando amadurecemos, por fim, somos um conjunto de atitudes tomadas. As pessoas que trabalham com Educação Física dedicam-se muito pouco a refletir sobre uma outra educação física que é praticada nas escolas, não aquela que os alunos fazem quando vão para a quadra, mas a que fazem na sala de aula, quatro horas por dia, 200 dias por ano, 12 anos, 9.600 horas no total.

Isso é educação física, educação corporal, marcante, significativa, decisiva para a formação de cada um de nós no tempo da escolaridade. É preciso refletir sobre o que isso representa para os alunos. Por exemplo, como já mencionei anteriormente, ficar tanto tempo sentado ensina, antes de tudo, a ficar sentado. A gente pode não aprender biologia, mas aprende a sentar. Do ponto de vista físico, isso já seria um desastre, pois não há qualquer orientação para evitar os danos contra a estrutura corporal.

Além disso, parece que ninguém se preocupa com o fato de que é impossível manter a concentração depois de horas nessa posição. Duvido que algum professor permaneça atento a qualquer assunto se tiver que ficar sentado e imóvel mais que uns quarenta minutos. O professor não consegue, mas o aluno tem que conseguir, não é? Tomando inicialmente apenas esse aspecto, um profissional de Educação Física que pudesse atuar com maior prestígio e competência na escola, iria orientar o currículo para impedir que qualquer aluno permanecesse mais que uns trinta, quarenta minutos sentado e imóvel.

Se ele agisse profissionalmente para impedir isso, estaria impedindo a prática de uma atitude, cujas consequências, se não se fizerem sentir de imediato, repercutirão prejudicialmente ao longo dos anos. Em seguida, durante os trinta, quarenta minutos de posição sentada de cada vez, ele e os demais professores orientariam cada aluno a sentar de maneira mais relaxada, mais correta, de modo a fixar hábitos posturais saudáveis. Se o problema parasse por aí, restrito aos prejuízos físicos, corrigia-se, quem sabe, com uma boa dose de terapias e reeducação corporal, caso o paciente tivesse consciência do mal que lhe foi feito.

Mas o problema não para aí, pois, quem é físico, é também psicológico e social, e uma coisa nunca é separada da outra. Onze anos sentado não significa apenas aprender (mal) a sentar, tradução de uma postura corporal. Foram 9.600 horas confinando o aluno a um espaço aproximado de meio metro quadrado, onde, muitas vezes, não era permitido se mexer, nem falar, rir ou chorar. Nessa posição, também é muito difícil criar, muito mais ainda se comunicar ou cooperar. Engraçado é que, depois de doze anos de isolamento individual, dão um diploma para o aluno e lhe dizem: agora vá e viva como um cidadão, assuma seu papel na sociedade.

 

As repercussões de um confinamento

Supostamente a escola não é uma instituição cuja produção se aplique integralmente nela mesma. Sua principal produção é o conhecimento, que o aluno deveria levar para exercitar em sua vida pessoal e nas suas relações em sociedade. Com seus conhecimentos, que podem ser ampliados na Universidade, o aluno contribuirá para que sua vida pessoal e a das outras pessoas de sua sociedade, melhorem. Melhorem no sentido de conforto, de harmonia social, segurança, saúde, felicidade.

Porém, quem aprendeu a viver só, por qual motivo, de repente, sairia pelo mundo pregando solidariedade, ou melhor, praticando solidariedade? Mas é claro que a escola não é só confinamento em sala de aula. O espaço de socialização vai bem além da sala. Acho bom que os professores de Educação Física acordem. Eles acham que se ensina educação física apenas nas poucas horas destinadas a essa disciplina fora da sala de aula, e se enganam redondamente. Não percebem que há uma forte presença de educação corporal ocorrendo dentro de sala de aula.

E já que tudo o que a gente aprende na escola repercute na vida, reparem em algumas hipóteses acerca de como podem se dar essas repercussões na vida de cada um de nós. Antes, porém, deixemos claro que a escola não é a única vilã. Quanto aos problemas de postura corporal, não é só ela que nos habitua mal. Há também os hábitos familiares, a televisão, o videogame, o computador e o celular.

Para interagir com esses ambientes e seus objetos, costumeiramente, as crianças praticam posições corporais inadequadas que se transformam em vícios e, posteriormente, em danos à saúde. Com muito sacrifício, pode-se corrigir, ao menos parcialmente, tais problemas. Creio que as repercussões mais negativas são as outras, que decorrem da atitude corporal restritiva, na escola e fora dela, as que atingem a formação intelectual, a formação social, a formação emocional, sensível e moral, entre outras possíveis. Vamos a elas.

Não afirmo que a escola nada ensina que se aproveite. Todos aprendemos boas coisas em matemática, em ciências, história ou português. Porém, após terminarmos o ensino médio, quando paramos para inventariar o conhecimento adquirido, não sobra muito. Boa parte do que teríamos que aprender durante a formação básica, é sacrificada aos famigerados vestibulares. Com frequência esquecemos que, na base dos cálculos, das palavras, das frases, da memória e do pensamento lógico, estão as atitudes de criatividade, de autonomia, de obediência e de transgressão, as iniciativas e o poder de decisão, entre outras possibilidades.

A atitude que somos obrigados a assumir nas salas de aula muitas vezes coíbe atitudes de independência, uma vez que reflete a submissão que a escola impõe aos alunos. Não poder conversar, não poder mover-se, não poder erguer-se, tem a ver com submissão e não com coragem, iniciativa e criatividade. Antes de tudo, a atitude de permanecer sentado durante tanto tempo em uma sala de aula ensina a ficar sentado. Se a escola pretende, realmente, ensinar criatividade, tem que provocar atitudes criativas nos alunos; se pretende ensinar autonomia, deve produzir ambientes favoráveis à autonomia; se pretende que os alunos sejam independentes e inventivos, tem que conviver com as transgressões (e eu falo das boas transgressões).

Ainda em relação às questões intelectuais, gostaria de chamar a atenção para um problema muito grave que toca de perto nos problemas sociais. Trata-se da maneira individualista de pensar que desenvolvemos em nossas escolas. Aprendemos durante doze anos a nos manter isolados, sem nos comunicar com os outros, a receber e a resolver problemas apenas individuais. Os mais graves problemas do mundo atual, no entanto, são aqueles que exigem atitudes coletivas.

Do ponto de vista intelectual, tais problemas exigiriam que aprendêssemos a pensar junto com os outros, trocando idéias, chegando a acordos, sem impor nosso modo de pensar como se fosse a verdade final. De que forma pode-se resolver o problema da destruição das florestas tropicais, que é um problema coletivo, se só sabemos pensar individualmente? Geralmente não aprendemos, nas escolas, a conectar nossos pensamentos com os pensamentos dos outros alunos. Pretender que, depois de doze anos de isolamento, os alunos sejam capazes de socializar suas idéias, é uma grande ilusão.

Trata-se de uma questão intelectual fortemente ligada à formação social, mesmo porque não se pode separar em escaninhos desconectados as diversas formações dos alunos. De modo geral, a escola pouquíssima importância dá a qualquer formação que não seja a intelectual e a moral. Isolar os alunos em um espaço de meio metro quadrado durante 9.600 horas, indica a estreita visão da escola quanto à formação social. Nosso sistema educacional forma, e mal, indivíduos. Para serem educados socialmente, nossos alunos teriam que ter, ao longo da formação, atitudes sociais.

Deveriam poder fazer, além dos trabalhos individuais, tarefas e provas coletivas, além de ter contato permanente com as coisas que acontecem fora da escola. Por que um aluno não pode realizar consultas sobre os conteúdos exigidos nas provas? Uma atitude realista da escola seria reconhecer que hoje, com o grande acesso que temos à informação, os alunos não precisam mais guardar na memória todos os dados necessários à realização de uma tarefa; eles deveriam poder consultar bancos de dados para cumprir suas tarefas, inclusive, as provas. Em nenhum outro momento da vida eles terão que resolver seus problemas solitariamente.

Sempre poderão recorrer aos livros, aos amigos, à internet, à televisão, aos parentes, etc. Só a escola ainda acredita que é importante a atitude isolada para resolver problemas. Seu temor é que, numa prova de matemática, se houver consultas, o aluno vai “colar” e apenas colocar os resultados das contas sem raciocinar. Ora, se a questão é essa, bastaria que a escola sugerisse questões onde, de fato, o aluno tenha que raciocinar, não só individualmente, mas em conexão com os outros. Economizemos memória e nos dediquemos a compreender a história, a geografia, a apreciar a beleza da literatura e das artes. Por ser muito difícil mensurar emoções em números, o sistema educacional prefere ignorar a educação emocional.

Em vez de assumir essa tarefa, esse sistema opta pela imposição de disciplinas rígidas, castigos, chantagens, tudo para manter o controle sobre as emoções dos alunos. Imaginem o que sente uma criança de oito anos depois de quatro horas imobilizada no seu cantinho de meio metro quadrado. Deve ficar a ponto de explodir. Sua imaginação vai tirá-la da sala de aula, ocupando-a com as fantasias sobre brincadeiras, comidas, liberdade, qualquer coisa que não seja a tarefa escolar. A hora do recreio e o sinal da saída passam a ser as coisas mais queridas da escola. A grande defesa da criança contra a opressão da imobilidade é a imaginação.

A professora fala e ela não houve, desliga-se de tudo, viaja nas imagens que cria. Em resumo, a atitude corporal de uma criança no ambiente escolar, resume-se, de modo geral, a uma única coisa: ficar sentada e não se mexer, até que essa atitude seja incorporada de maneira a fazer com que ela não mais se erga. Poderá ficar sentada para sempre, mesmo quando tiver a oportunidade de se levantar. Por outro lado, a escola, como parte do mundo, poderia ser um rico e acolhedor ambiente de sons, visões, cheiros, sabores e toques, em vez de apenas seguir a tradição, segundo a qual, quem vai a uma escola, vai apenas para obedecer ordens e aprender discutíveis conteúdos de ciências. Quem garante que aprender gramática é mais importante que aprender a ouvir?

Porém, dirão os defensores da má tradição, ouvir a gente aprende por aí e gramática tem que ser aprendida num lugar especializado de ensino, porque não está à disposição em qualquer lugar. Em primeiro lugar, claro que a gramática também está por aí, como os sons, e podem ser aprendidos pelas crianças, mas não da forma como os tem que ensinar o sistema de ensino, de maneira sistematizada, consciente, de acordo com um projeto de formação para a cidadania. Mozart e Beethoven também estão por aí, e, no entanto, só parte da população consegue ouvi-los.

Por mais que a natureza cante, nós, que deveríamos nos deliciar com sua música, a destruímos. Igualmente, se se deixar por conta do por aí aprender a ver, ouvir, cheirar, tocar e saborear, só alguns, aqueles que tiverem o privilégio de frequentar ambientes favorecedores, aprenderão essas coisas. Os outros ficarão à disposição dos programas da televisão aberta e de vários outros ambientes culturalmente empobrecidos. Com raras exceções, os programas infantis de televisão, por exemplo, conseguem sempre piorar, em sua luta por audiência.

Só há um aspecto que a escola privilegia tanto quanto o intelectual: o moral. A imposição de posturas corporais constitui um fortíssimo componente de educação moral. Toda vez que reduzimos o espaço de mobilização corporal, diminui, por exemplo, o barulho, restaurando-se a tradicional disciplina. A conformação corporal a um espaço de meio metro quadrado durante tantos anos, obviamente que correspondente a conformações de ordem moral.

Trata-se de uma atitude disciplinada de subserviência, incorporada a cada aula pelos alunos, de forma que, ao longo da educação escolar, a escola educa para a subserviência, para a obediência, para a aceitação das regras tradicionalmente estabelecidas. Se o objetivo final da escola for, de fato, esse, isto é, a conformação disciplinada às regras estabelecidas na sociedade, tanto do ponto de vista afetivo, quanto intelectual ou moral, tiremos o chapéu à escola. Ela é, de fato, competente. Não é por outros motivos que o jogo é tão repudiado no ambiente educacional. Ele é transgressor, na sua raiz. Atura-se o jogo na educação formal apenas quando ele é suficientemente domesticado, atrelado a conteúdos escolares, aos quais deverá servir como fator motivacional. Porém, naquilo que ele pode ter de mais educativo, a escola não o aceita. O jogo subverte a disciplina moral da escola, recupera a mobilidade física e mental do aluno e isso contraria algumas das tradições já emboloradas do sistema escolar.

 

Jogo como elemento de transgressão

Não é por estar presa diariamente durante horas a uma carteira escolar, que a criança fica necessariamente impedida de jogar. Pelo contrário, frequentemente o jogo serve-lhe de fuga de uma situação angustiante, indesejável. Enquanto a professora se esforça para que o aluno preste atenção às lições, ele se refugia em seu mundo imaginário e joga. As consequências dessa dispersão, no entanto, podem ser desastrosas, pois, ao final de tanta fantasia, a criança não aprende as lições escolares e deverá ser punida por isso com notas baixas.

De modo que, fantasiar em sala de aula, implica em punições. Nesse caso, o jogo como elemento de transgressão foi danoso, criou, na criança, uma relação direta com prejuízos escolares. De acordo com a linha de raciocínio que tenho seguido neste texto, conclui-se que minha solução pedagógica óbvia teria que ser propor que as crianças aprendam, também fora da sala de aula, conteúdos de qualquer disciplina.

Ora, não adianta eu sugerir isso para agora, pois, tão cedo, essa medida não será tomada. Realmente eu gostaria que toda a estrutura física da escola fosse mudada, para que os alunos tivessem espaço e liberdade de movimentação corporal. Enquanto isso não for feito, contudo, é preciso que tenhamos outras soluções. Todavia, em qualquer escola as crianças têm momentos fora de sala de aula. Elas têm as aulas de Educação Física, as de Educação Artística e os recreios. Se as aulas de Educação Física fossem boas, o resultado educacional já seria maravilhoso.

Acrescentando-se a isso boas aulas de Educação Artística e, supondo que as boas aulas dessas duas disciplinas repercutiriam nos recreios, já teríamos uma melhora significativa na educação geral de uma criança na escola. Porém, pelo menos naquilo que conheço melhor, isto é, as aulas de Educação Física, quando existem, nem sempre se caracterizam por boa qualidade. Vou tratar aqui, portanto, de dar sugestões para a disciplina que está ao meu alcance.

Nada impede que a Educação Física, tomando consciência de que existe uma prática corporal feita permanentemente em sala de aula, que costuma ser danosa em vários sentidos, interfira nessa prática corporal. Não precisamos reforçar a idéia de que nada se pode fazer para mudar a situação escolar. As crianças não teriam que ficar imóveis o tempo todo; conheço algumas escolas que, percebendo os prejuízos da imobilidade corporal, têm tomado iniciativas de tirarem as crianças da formação tradicional, isto é, presas atrás de uma carteira.

Nesses casos elas podem, inclusive, jogar dentro da classe. Na sala as crianças podem ficar em pé, podem andar, podem se movimentar pela sala, podem mudar a disposição das carteiras. Isso só depende de um bom planejamento. Se há uma educação física marcante na educação das crianças sendo realizada dentro de sala de aula, creio que é necessário que a disciplina Educação Física interfira nesse ambiente. E interfira sugerindo hipóteses de que um de seus conteúdos privilegiados seja contemplado em classe: o jogo.

Muitas coisas poderiam ser comentadas a respeito do jogo, tantas são as suas características. Meu interesse imediato, no entanto, é comentar apenas o caráter de transgressor que o jogo assume frequentemente. Tenho escrito que jogar é retomar ações já aprendidas anteriormente. Ou seja, joga-se com coisas que são conhecidas pelo jogador. Daí o paradoxo: como o jogo pode ser transgressor se ele apenas faz retomar aquilo que já foi realizado anteriormente? Pois é exatamente por isso que ele é transgressor.

Quando as coisas são realizadas a título de adaptação, isto é, feitas pela primeira vez, para suprir uma necessidade, não se pode transgredir, já que as ações são orientadas pelas faltas, pelas necessidades. No entanto, quando são repetidas, não mais porque são necessárias, mas porque dão prazer (mesmo que apenas o prazer sutil advindo da sensação de ser capaz de fazer, nem sempre consciente), podem ser feitas das mais diversas formas, independentemente de haver êxito ou fracasso. Nesse caso, o fracasso, por exemplo, não resulta em danos graves, já que não busca satisfazer uma necessidade.

Não há, portanto, o compromisso objetivo que há nas ações adaptativas; no trabalho, por exemplo. E é exatamente quando jogamos com esses elementos já dominados anteriormente, que podemos correr riscos, transgredindo os compromissos assumidos nas tarefas objetivas. E, sem risco, não há jogo. Se nas ações escolares as crianças puderem jogar, poderão, consequentemente, arriscar, isto é, aventurar-se em situações novas, desconhecidas, correr o risco de fazer, de modo diferente, aquilo que já conheciam anteriormente.

Não só se vivencia o caráter prazeroso de reviver ações dominadas, como se vivencia o caráter prazeroso de vivenciar desafios, riscos. Nesse caso, as crianças podem transgredir as ações compromissadas com as tarefas. Dentre as marcas mais fortes do jogo, uma delas é a do risco, do inusitado, do imprevisível. Outra é o caráter subjetivo do jogo, isto é, o compromisso do jogador não é mais, acima de tudo, com algum objetivo externo a ele, mas com seus interesses pessoais.

De forma que o jogador pode usufruir os meios de sua própria ação, mais que quando tem que atender compromissos exteriores. Isso eliminaria as possibilidades de sala de aula de recorrer ao jogo? De forma alguma, desde que a metodologia utilizada em classe pudesse levar em conta que as aprendizagens que a criança realiza podem ser retomadas, desta vez em forma de repetições de coisas já aprendidas, em forma de desafios de novas soluções, de novas criações, em um ambiente lúdico.

Se não for pressionada pelos compromissos de cumprimento objetivo das tarefas, ou das avaliações objetivas, das notas, etc., os alunos podem recriar as tarefas, desta vez em forma de jogo, vivendo o inusitado, o imprevisível, as múltiplas possibilidades de ação que qualquer tarefa confere. Talvez persista a idéia de que o jogo só faz sentido quando é jogado livremente, sem qualquer interferência do professor; quando ela ocorre, eliminar-se-ia seu caráter livre, transgressor. Mas não é assim. O jogo pode ser perfeitamente livre, mesmo orientado por temas gerais.

É quanto à temática sugerida que o professor pode interferir no jogo, assim como quanto às sugestões de variações de cada jogo realizado. Resta, para a sala de aula, a questão da disciplina. A objetividade das ações escolares, a pressão das notas, a imobilidade corporal própria das restrições espaciais da carteira escolar, são alguns dos fatores que mantêm a tradicional disciplina de sala de aula. Sem isso, seria possível controlar a disciplina corporal e mental dos alunos? Claro que sim, desde que o conceito de disciplina, sempre associado à não criatividade, à imobilidade física, fosse outro.

Movimentar-se, criar, encontrar soluções diferentes, falar, não poderiam ser, de imediato, considerados fatores de indisciplina. Sem dúvida isso conturbaria a tradicional arquitetura da classe, mas, afinal, trata-se de algo que terá que mudar um dia. Não é possível continuarmos a conviver tão placidamente com o fracasso escolar, experiência de múltiplos fatores, dos quais, sem dúvida, um deles é a postura educacional de não tratar criança como criança ou adolescente como adolescente.

O fracasso escolar é um fato, com raras exceções. Nossos alunos não aprendem adequadamente os conteúdos declarados nos discutíveis programas educacionais, mas esse fracasso não é responsabilidade exclusiva do sistema escolar. Porém, mais que em qualquer outro aspecto, o fracasso, em meu modo de entender as questões educacionais, refere-se, especialmente, ao fato de que a escola ainda não desenvolveu pedagogias que tratem crianças como crianças e adolescentes como adolescentes. Seria possível ensiná-los se não puderem ser quem são?

O remédio que proponho para lidar com esse problema, doce para os alunos, amargo para a escola, é o jogo.

Poema para os excluídos

Ele morreu porque era negro,

Ela morreu porque era índia,

Ele morreu porque era pobre,

Ela morreu porque era muçulmana,

Ele morreu porque era gay,

Ela morreu porque era deficiente,

Ele morreu porque era africano,

Ela morreu porque era chicana,

Ele morreu porque era obeso,

Ela morreu porque era anã,

Ele morreu porque era nordestino,

Ela morreu porque era mulher.

Soçobraram!

Só sobrou ele,

Só sobrou ela,

Só sobraram eles, os de sempre.

Os craques da várzea de Santos

Quando eu era menino, meu sonho era ser jogador de futebol. Ia na Vila e via Tite, Álvaro, Pagão, Pelé, Pepe, Zito, Ramiro, mais tarde Mengálvio, Coutinho, e tantos e tantos outros. Tinha coisa melhor que ser como eles? Claro que não. E aí eu pegava a bola, em qualquer pedacinho de chão, e treinava. Aprendi a fazer um mundo de malabarismos e aquilo alimentava meu sonho. Jogava no campo de terra e pedra perto de casa, lá no alto do morro São Bento, e não era dos piores. Aos domingos, além de jogar no meu timinho de camisas furadas, eu via os jogos do campeonato de várzea de Santos. De manhã jogavam os times mais fortes, os de pés no chão. À tarde jogavam os de chuteira, mas para esses eu não ligava não. Pela manhã a gente via gente como o João Enguiça, o Edmur e o Walter Negrelli. Só craques. Depois o Clodoaldo também virou craque da várzea e foi para o Santos. Chegou na hora boa, quando Zito estava pendurando as chuteiras e passou a camisa para ele. Deu no que deu. Mas a lembrança que ficou mais forte mesmo foi a dos jogos de várzea pela manhã nos campos de Santos. Olha, não tenho a menor dúvida que a gente via jogos bem melhores que algumas coisas que tenho visto no nosso brasileirão e, sem querer exagerar, até melhores que esse Brasil x Colômbia vexaminoso, sem pé nem cabeça, sem rumo e sem fronteira, que eu vi cheio de vergonha na noite de quarta-feira, no dia fatídico de 17 de junho de 2015, mais um fatídico na história de nossa seleção.

A resistência da educação tradicional

Leio no jornal o texto de um jornalista criticando o secretário de educação do Estado de São Paulo, em sua proposta para construir o currículo do Ensino Médio com os alunos, isto é, torná-lo aberto a outras possibilidades de educação que não somente aquela tradicional de salas e carteiras, português, matemática e as ciências. O receio do jornalista é que, trabalhando em forma de projetos, abrindo brechas para romper com o ensino tradicional, corre-se o risco de termos muito teatro e pouca matemática. Para ele, aprender adequadamente os conhecimentos básicos de matemática continua sendo indispensável.

Concordo plenamente com o jornalista da Folha de São Paulo quando ele diz que aprender matemática é indispensável. Assim como concordo com o secretário de educação em sua proposta de abrir o currículo. Lembro ao jornalista, no entanto, que nossos jovens não aprendem matemática adequadamente, pelo menos não na rede pública de ensino e em boa parte da rede particular. Os que aprendem são exceção. E não preciso de pesquisas para confirmar o que digo. Basta perguntar às pessoas ao nosso lado o que sabem de matemática depois de doze anos passados no ensino básico. Mais precisamente nove anos de Ensino Fundamental e três anos de Ensino Médio, quatro horas por dia, duzentos dias por ano, ou 9.600 horas em carteiras escolares que paralisam as pernas e permitem um espaço de movimentação restrita do tronco de apenas meio metro quadrado. E, depois de tanto tempo sentados para aprender matemática e português, os alunos terminam o ensino básico sabendo pouquíssimo sobre essas matérias. Muito pouco barulho por nada. Um imenso investimento com pouquíssimo retorno.

Portanto, se o secretário de educação tem razão em sua proposta, e o jornalista tem razão em seu receio, a favor do secretário há o fato de que os investimentos no ensino tradicional que tanto preservaram a aprendizagem de matemática, não frutificaram. Continuamos, agora adultos, sabendo muito pouco de português e matemática. Pouco lemos e, de matemática, como disse um amigo meu, sabemos mal e mal as quatro peças de conta (subtração, soma, multiplicação e divisão).

Nossos craques milionários

Que papel representam os grandes expoentes do futebol, com seus salários milionários, no fantástico jogo de xadrez das aves de rapina do futebol, encasteladas em seus cargos pomposos na FIFA e Confederações espalhadas por mais de 200 países? Sem eles não haveria a ciranda financeira, assim como, sem nós, nada de rapinagem. Quanto a nós, enfim, quem tomaria Heineken, usaria cartão Visa, ou rasparia o rosto com Gilette? Sem os grandes nomes do futebol, como lavar o dinheiro sujo proveniente sabe-se lá de que mutretas? E ainda achamos que Messi e companhia recebem exageros de dinheiro! Sim, seria muito se fosse para jogar futebol, mas é troco quando se trata de movimentar a fantástica máquina de dinheiro que torna o futebol um dos maiores negócios do mundo financeiro. Ora, se eu precisasse esconder meu dinheiro sujo, que lugar melhor haveria que sob os olhos embevecidos de bilhões de torcedores apaixonados. Confesso que quando Messi faz gols como aquele que fez contra o Atlético de Bilbao, como diria Rui Guerra, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora. E, prosseguindo, meu coração fecha meu cérebro e, sinceramente, nada percebe.

Desculpem-me Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi, Iniesta e companhia. Vocês são realmente grandes artistas, mas o que ganham ainda é pouco para fazer o que fazem a serviço dessa grande máquina de fazer dinheiro que é o sistema confederado do futebol internacional. São vocês os encarregados de fechar os nossos olhos, de seduzir nossas frágeis autoridades, de ludibriar nossas sempre vigilantes polícias e abrir os cofres das megaempresas sedentas de exposição. É com sua imagem que os agentes da rapinagem se apresentam. Sem vocês não haveria show, as luzes não seriam apagadas, e as aves de rapina teriam que produzir seu dinheiro sujo em outros terreiros.

É por causa disso que sempre teremos grandes craques. Mais que nunca são necessários. Por seus pés escoam rios de dinheiro. Vocês, meus queridos grandes artistas, representam hoje, sob a batuta dos Blatters da vida, o mapa da mina do dinheiro sujo do mundo.

E poderia não ser assim, porque, se não existisse essa ladroagem que vocês servem, ainda seriam craques, com menos dinheiro na conta, mas igualmente dando seu espetáculo, quem sabe, menos a serviço das aves de rapina e mais a serviço da arte.

Amor perfeito

Quando menino, encantei-me com o amor-perfeito. Não que estivesse apaixonado; era a flor. Ofereciam-se num canteiro à beira do caminho por onde eu passava para ir à escola. Gostava mais das roxas com um pontinho amarelo no centro. Além de apreciar as flores, ato oculto dos colegas, eu era jogador de futebol; o melhor do mundo, título conquistado numa eleição feita por mim mesmo. Só que o veredicto que valia mesmo era a escolha no par ou ímpar antes da pelada. Às vezes era o primeiro a ser escolhido, às vezes o segundo, ora o rei, ora o príncipe do campinho de terra onde se chutava qualquer coisa redonda que aparecia. Nada superava ser o primeiro escolhido no par ou ímpar, mas se agregavam à fama as canetas, os chapéus, os passes perfeitos e os gols de placa. Sozinho, treinava embaixadas de todos os tipos para exibir na rua. Fora a bola, jogava pião, pipa e bolinha de gude, cada qual em sua época. Uma infância boa: escola, muita brincadeira e amores-perfeitos, até surgir o primeiro amor, que julguei perfeito. Flores de todas as cores: roxas, amarelas, azuis, laranjas, um festival colorido que me esperava no caminho. Bolas de todos os tipos e tamanhos; meus pés descalços de menino raramente conheceram uma de couro.

Deparei-me de novo com elas hoje, a caminho da cidade; as flores. Continuam perfeitas. Vai longe o tempo em que parei de jogar futebol; a idade deu-me cartão vermelho para a bola. Que saudade senti, dos amores-perfeitos, da meninice e do futebol. Lembrei-me das tantas paixões nessa tanta vida, três tão vivas ainda: as flores, uma mulher, e o futebol.

As desigualdades no esporte

 

Quando falamos de desigualdade, geralmente nos referimos a questões econômicas e sociais; pouco falamos das desigualdades de conhecimento. Na área do esporte, por exemplo, ele é reservado quase que exclusivamente para alguns poucos atletas de alto rendimento, dirigentes e empresários da área. O povo é plateia, na maior parte das vezes, pouco esclarecida e financiadora de uma bela fatia do mercado das corridas e bolas. Se o esporte de alto rendimento fosse um país, estaria entre os vinte mais ricos do mundo. E quanto menos esclarecido for o povo, mais brotarão do chão, como ervas daninhas, os Marins e Teixeiras da vida.

Esporte educacional, nem pensar em nosso país; fica restrito aos enfadonhos projetos governamentais para cumprir tabela (com as exceções de praxe) e aos esforços heroicos de algumas entidades não-governamentais. O esporte de lazer ou de participação é praticado por aí, e nem sabemos a quantas anda, porque não ocupa as preocupações do poder público. E o povo vai morrendo enquanto morre de inanição educacional, vítima dos infartos, diabetes e desesperanças.

O saldo é dramático. Não há políticas públicas consistentes na área do esporte. O protagonismo do esporte em um país carente de educação como o Brasil teria que ser do esporte educacional. O esporte de alto rendimento deveria ser apenas um caso do educacional. Pois que, até para se tornar atleta de alta competição ou plateia, seria preciso ter educação adequada. Não podemos sentar à frente da TV e assistir qualquer coisa sem nenhum poder de apreciação crítica. Não poderíamos representar as altas competições como atletas sem ter condições mínimas de governar a própria carreira.

Porém, o que falta mesmo é uma consistente política de esporte educacional que se preocupe em com a educação esportiva dos brasileiros. Nós brasileiros não somos educados em nossas escolas (com as exceções de praxe). Nem matemática e português aprendemos depois de 9600 horas de ensino básico, quanto mais esporte. Mas deveríamos. E não somos por falta vontade política. Nossos governos apenas tentam remendar os buracos econômicos e explicar os estragos produzidos pela corrupção. Educação é discurso de palanque, e não sai dele. Educação esportiva até parece que seria, para os governos, um luxo, quando não é, é obrigação do Estado, pelo menos segundo a Constituição de 1988.

Esporte é um patrimônio cultural rico demais para ficar nas mãos das confederações nacionais e internacionais. Não é justo alimentarmos as máquinas de fabricar dinheiro de entidades como a FIFA. Assim como é inadmissível que, para prender facínoras do futebol brasileiro a gente tenha que chamar a cavalaria norte-americana.

Manhê!!!

Manhêêê!!!! Não sei quantas vezes por dia minha mãe ouvia isso dos filhos. Chamar a mãe assim servia para muitas coisas: para reclamar dos irmãos, para pedir comida, para dizer que a vizinha estava chamando, para reclamar dela quando brigava com a gente, para dizer que estávamos brincando na casa ao lado… Não tenho estatística das palavras que eu dizia quando pequeno, mas acho que mãe ganhava disparado. Fiz um exercício outro dia para ter uma ideia de qual palavra é mais fácil de dizer e concluí que é “mãe”. Pareceu-me que é a mais fácil porque é só abrir a boca. Experimentem; se abrirmos a boca, descolando os lábios, e colocarmos algum som no movimento, o que sai é mãe. Então, eu nem sei se a gente gritava mãe o dia inteiro porque era um som mais fácil, se porque acreditávamos que nossa mãe era sempre a tábua de salvação, ou se porque era o que estava mais à mão e nunca nos faltava. Outro exercício que fiz foi o de rastrear as possibilidades de alguém ter tanta paciência para aguentar alguma coisa como nossa mãe tinha para aguentar a gente. Não encontrei nenhum outro exemplo sequer semelhante. Meu Deus, como ela conseguia nos aguentar! Só depois eu descobri que é assim mesmo, é o jeito de educar, um jeito de brigar aqui, alisar ali, conversar, contar uma história, colocar de castigo, incentivar, e a gente vai crescendo, sem nem perceber, e quando vê já é gente grande, depois gente madura, os cabelos começam a ficar grisalhos, alguns a cair, e quando vemos, nossa mãe já é velhinha e ainda se preocupa quando a gente dá um espirro e logo pergunta se quer um chá de limão. Ah, mãe, que incuba em cada um de nós uma semente de amor. E faz de tudo para regar a semente. Mas a tarefa de ser amorosa, no fim, é da gente. Deixar a semente já é muita coisa. Foram as mulheres e mães que inventaram o amor. O amor é muito feminino e muito maternal. De forma que até os homens, quando amam, são femininos. Não, não se preocupem, ninguém vai lhes tirar a masculinidade. Só estou dizendo é que ser feminino não é coisa só de mulher, é coisa de quem ama porque recebeu a semente da mãe.

Prefácio ao novo livro de Manuel Sérgio

Prefácio de José Mourinho no Livro Novo do Manuel Sérgio

Cevnautas do Futebol, Novo livro do prof Manuel Sérgio “O futebol e eu” é prefaciado por ninguém menos do que o seu aluno José Mourinho.
Laercio
Prefácio do livro de Manuel Sérgio, «O futebol e Eu»
Por José Mourinho
«Mais um livro do Prof. Manuel Sérgio, mais umas páginas que vou ler, mais umas lições que vou receber de um filósofo do desporto, que vem ensinando aos seus leitores o que o desporto tem de mais profundo, de mais científico, de mais autêntico. O José Peseiro, meu colega na universidade e também treinador de futebol, já disse publicamente que só agora, como profissional do desporto e com a cabeça a embranquecer, é que passou a entender verdadeiramente o que o Prof. Manuel Sérgio nos ensinava nas aulas. Eu digo o mesmo. Mas, o que nos ensinava ele? Que não sabe de Desporto quem sabe só de Desporto, porque está na prática desportiva tudo o que é tipicamente humano.

E, ao dizer isto, aconselhava-nos a ler os grandes autores que nos mostram o que é a vida e quem nos ensina o que é a vida está a ensinar-nos o que é o desporto. Repetia, muitas vezes, que Desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo e que deveria ser estudado como se estuda uma ciência humana. Para ele, o treinador do futuro teria de ser um homem culto: com prática constante do futebol, mas também com grande erudição, no que respeita às grandes correntes do pensamento. E, a coroar tudo isto, tinha uma opinião, para o tempo curiosa: o treino, no futebol, ou é com bola, ou não é treino. E dava o exemplo do pianista que não se prepara, saltando e correndo, mas tocando piano. Discordava, muito frontalmente, do biologismo que dominava o treino, dizendo que era a complexidade humana que estava em jogo, na prática do desporto. D ava-nos uma síntese do cartesianismo, para concluir que a Educação Física é um produto do “erro de Descartes”. De quando em vez, falava de um ou de outro filósofo, mas não estou agora em condições para relatar, com verdade, tudo o que a sua erudição espantosa nos apresentava. Não tenho receio em acrescentar que foi um dos professores de maior e melhor cultura que tive, durante a minha vida de estudante liceal e universitário.

E uma faceta curiosa no seu ensino: procurava mostrar a filosofia como um dos fundamentos do desporto. Por isso, vários treinadores dele se aproximavam e aproximam, surpreendidos com as suas ideias, que ele não perde o ensejo de referir que só terão algum valor, se confirmadas na prática. Não esqueço uma das suas frases preferidas: “A prática é o critério da verdade”.

Nasceu, na freguesia da Ajuda, em Lisboa, a poucos metros do Estádio José Manuel Soares, ou das Salésias e, desde criança, se habituou a conviver com jogadores de futebol. E até com jogadores de mais três modalidades, em que o Belenenses daquele tempo se distinguia: o andebol de onze, o basquetebol e o râguebi. Não tendo praticado desporto federado, sente-se perfeitamente à vontade, no trato com os praticantes ou ex-praticantes de qualquer modalidade desportiva. Não é o intelectual distante, é o companheiro próximo de todos os desportistas. Nunca faltávamos às suas aulas, por dois motivos: os conteúdos eram diferentes das outras aulas e ele sabia despertar o interesse dos alunos por tudo o que dizia. É de facto um grande comunicador! As suas aulas e os seus livros permitiram-nos e permitem-nos o contacto direto com os nomes mais sonantes da Filosofia e da Cult ura. Um ponto ainda eu quero referir: muito antes de António Damásio, Manuel Sérgio falava nas aulas do “erro de Descartes”, quando nos dizia que a expressão “educação física” aparece, pela primeira vez, em França, no século XVIII. Para ele, a Educação Física é uma expressão que reflete o dualismo antropológico de Descartes.

Sou treinador de futebol, sem tempo e grande jeito, para a escrita. Sou um prático mas que não descura uma constante informação. E fui aluno do Prof. Manuel Sérgio e sou seu leitor, com grande proveito meu. Julgo, por isso, ser meu dever afirmar, publicamente, que o seu conceito de motricidade humana, que ele começou a teorizar, em 1979, ou seja, há 36 anos, se confirma inteiramente, nos dias de hoje: o desporto só como ciência humana se pode entender; a sua metodologia é a específica das ciências humanas.

O trabalho epistemológico que fez foi verdadeiramente inovador, no desporto e até na cultura, em Portugal. Só uma grande ignorância deixará de reconhecer isto mesmo. Termino dizendo, sem problemas, que Manuel Sérgio é um dos grandes teóricos mundiais do Desporto. Se acaso se pudesse fazer uma competição, eu propunha esta: comparem a obra dele, com a de qualquer outro autor, em qualquer língua, que tenha escrito sobre esta problemática. Não é o primeiro, em erudição e inovação? Mas está no pódio, com toda a certeza.

Sou um homem grato a Manuel Sérgio. Ele não me ensinou técnica, nem tática. Mas ensinou-me esta coisa simples: o Desporto é muito mais do que uma Atividade Física e só como ciência humana deverá estudar-se e praticar-se. E isso bastou-me para que o futebol, para mim, passasse a ser uma atividade de meridiana compreensão e de significação e sentido verdadeiramente humanos. Como obra da autoria de Manuel Sérgio, este é um livro que lerei atentamente, porque sei que da sua leitura sairei mais homem e mais treinador de futebol.»

O quintal do vizinho é bem melhor

Encontro passeando de bicicleta com o filhinho, um vizinho de rua. Como cresceu, diz minha esposa, referindo-se à criança. Esse já é outro, responde. Outro?, pergunta minha esposa. É, tem a menina que já está com dois anos e meio, ele diz. E agora eu não trabalho mais, não faço mais nada além de cuidar dos filhos. Sou aposentado desde os 47 anos, mas nem os serviços que eu fazia por aí faço mais. Parei com tudo. Que legal, eu digo, um pai em tempo integral. Nem precisa de babá ou creche. Exatamente, ele responde, substituo babá, professora, até a mãe. E, por falar nisso, cadê a mãe?, pergunta minha esposa. Tá em casa, ela não sai nunca, ele diz.

E a conversa prossegue assim, sobre filhos, casa, trabalho, até que ele pergunta. Vocês conhecem Portugal? Conhecemos eu respondo. Pois estive lá a semana passada, e fala assim, como se tivesse ido à rua ao lado. Que país lindo, ele prossegue, que ordem, que limpeza. É, realmente muito lindo, pena que estão atravessando crise tão grave, completo. Não, ele retruca, eles estão saindo da crise. Mas, e a dívida com a União Europeia?, insisto. Estão pagando tudo, ele responde. Logo não deverão mais nada. É um exemplo para nós. Em Portugal tudo funciona, não tem violência, não tem pobreza. Não é como aqui, com essa corrupção, esse mundo de problemas que não se resolvem. Portugal é que é país. Quem dera o Brasil fosse assim.

E por aí foi, tecendo as maravilhas de Portugal e as misérias de nosso país, reclamando de sua situação aqui. Afinal, aposentado, só cuidando dos filhos, passeando o tempo todo de bicicleta e viajando para onde quiser. Precisamos melhorar, do jeito que está não pode mais ficar, ele conclui.

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