Cada aula um laboratório

Professoras e professores de Educação Física poderiam fazer de cada aula sua um laboratório de produção de jogos. Os alunos participariam dando sugestões e discutindo as atividades com seus professores. Lembro que é imprescindível que os professores não apenas brinquem com seus alunos, mas que ensinem e saibam o que estão ensinando. Transcrevo um jogo adaptado por meus alunos em uma das aulas que dei na Udesc.

Nome do jogo: bola ao alvo

Alunos: Bruna Turczyn, Isabela Feijó, Jonas Godtsfriedt, Leonardo de Lucca e Ricardo Jorge C. Silvestre.

O material principal usado nesta aula foram bolas de meia, feitas pelos próprios alunos, com meias usadas, papel, sacos plásticos e areia. Para saber como fazer as bolas, consulte o endereço www.oficinasdojogo.org, seção Material didático. No jogo adaptado por meus alunos, é imprescindível que as bolas sejam coloridas (tinge-se antes as meias em vermelho, azul, verde e amarelo). Trata-se de uma brincadeira muito boa para as primeiras séries do Ensino Fundamental, mas nada impede que seja oferecida a séries mais adiantadas.

Inicialmente traça-se no chão cinco círculos, um dentro do outro, sendo que cada um receberá uma pontuação, de 1 a 5, de modo que o círculo menor, o do centro, receberá o número 5, o segundo menor 4, e assim por diante, até o maior, que terá o número 1.

Os alunos, organizados em equipes, colocam-se atrás de uma linha, a cerca de seis metros dos círculos. Na primeira rodada de lançamentos, o primeiro aluno de cada equipe lançará sua bola na direção dos círculos. Receberá a pontuação correspondente ao círculo em que sua bola parar (uma equipe ficará com as bolas amarelas, outra com as bolas verdes, outra vermelhas, outra azuis). Na segunda rodada os segundos alunos de cada equipe farão seus lançamentos, e assim por diante, até que todos realizem seus lançamentos. Ao final, cada equipe soma seus pontos, comparando-os com a soma dos pontos das outras equipes.

A brincadeira deve ser repetida diversas vezes, para que os alunos possam, a cada uma delas, reavaliar as características das bolas e coordenar seus movimentos, pois as bolas de meia variam, não só em cores, mas também em pesos e tamanhos.

Uma das variações possíveis desse jogo é aumentar a distância entre a linha de lançamento e os círculos.

Outra variação é fazer com que cada aluno, na sua vez de lançar, lance três ou quatro bolas (com variações em peso e tamanho) seguidas (o que chamará sua atenção para a questão dos pesos e tamanhos).

Pode-se pedir também que lancem com a mão não dominante.

Pode-se fazer uma combinação entre as cores e os círculos, traçando os círculos em cores.

Muitas outras variações são possíveis, dependendo da criatividade de alunos e professores.

Sem dúvida, um dos objetivos desse jogo é desenvolver a habilidade de lançar. Outro é desenvolver conceitos lógicos. Outro ainda é desenvolver a noção de espaço.

Mundo pequeno

Hoje foi meu último dia na universidade. Foram 33 anos. Comecei na USP e terminei na UDESC. O mundo da universidade ficou muito pequeno. Não cabem nele eu e os professores avaliadores da CAPES; ou eles ou eu. Claro que saio eu. Deixo a eles o ônus de explicar, para as próximas gerações, o estrago que talvez estejam fazendo. Tomara que estejam eles certos e eu errado. Se eu estiver certo eles estão ajudando a produzir gerações de professores medíocres; se eu estiver errado, isso não acontecerá, ainda bem. Não torço pelo pior, mas temo. Julgaram-me incompetente para trabalhar na pós-graduação. Eu os julguei incompetentes para me avaliar. No meu julgamento, não sabem o que é Educação Física e não sabem avaliar. No seu julgamento, não sei Educação Física e não sei ser avaliado. O tempo dirá. Mas, há um mundo bem grande fora da universidade, e é para lá que vou. Um abraço aos colegas que deixo.

Campanha pela implantação da educação física

Vocês já firam professor de Química caçando talentos entre seus alunos de Química? Ou professora de História caçando talentos entre seus alunos de História? Nunca! A gente só vê coisas assim em Educação Física. Na década de 1970, por exemplo, os governos da ditadura militar incentivavam os professores e professoras de Educação Física a caçarem talentos em suas aulas; e premiavam, com viagens ao exterior, por exemplo, vários dos que encontravam os tais talentos. E o que virá por aí, caso o Brasil seja escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016? De minha parte, acho, no mínimo, ridículo, transformar a aula de Educação Física em espaço de garimpagem de talentos olímpicos. Educação Física, como qualquer outra disciplina, tem que ensinar, ensinar a viver, ensinar a viver corporalmente, ensinar a viver eticamente, recorrendo, para isso, aos seus conteúdos típicos, típicos de sua cultura, tais como o jogo, em todas as suas manifestações possíveis na aula de Educação Física, e o exercício (com toda a sua ampla gama de cultura).

Confidências

Gosto tanto de viver, que ninguém sentirá mais minha morte que eu.

Confidências

Trabalho há 46 anos, 38 deles como professor. Tenho projetos para mais uns 50 anos de trabalho. Só não solucionei ainda o problema de como chegar aos 110 anos.

Confidências

Creio que não se deve gastar energias lutando contra as coisas de que não gostamos, mas produzindo outras que sejam melhores que elas e que possam ficar em seu lugar. Muitas vezes gastei tanta energia lutando contra coisas que julguei ruins, que minha energia para fazer coisas boas se esgotou. Aos poucos estou aprendendo isso. Acho que, em breve, conseguirei não lutar mais contra essa coisa ridícula das pontuações da Capes. A energia que vai sobrar dará para fazer coisas, no meu entender, bem mais interessantes que o empenho pelos quatro ou cinco pontinhos de cada ano.

Campanha pela implantação da educação física

Vez por outra destacarei neste espaço algum comentário. Infelizmente não posso destacar todos, apesar de, sistematicamente, autorizar a publicação dos comentários no espaço devido. Vai aí:

Oi, Boa Noite Professor!
Acabei descobrindo seu blog por acaso, procurando alguns artigos no site pedagogia do futsal, do Professor Santana. Sou professor de Educação Física, recentemente formado pelo Centro Universitário FIEO ( Osasco - SP ), e durante meus quatro anos de graduação estive muito próximo de seus trabalhos , e acredito que por isso tenha conseguido executar projetos com muito sucesso nas Escolas Municipais da cidade de Barueri onde leciono. Lendo sua confidência atual, me deparei com a minha situação nas escolas, onde o objetivo maior é aproximar a Educação Física das outras áreas educacionais e o mais importante aproximá-la da realidade dos nossos alunos. Professor hoje é um dia muito feliz para mim, pois tenho a oportunidade, mesmo que de longe e informalmente de “conversar´´ com uma referência tão importante da Educação brasileira. Espero que esse espaço possa servir como parâmetro de novas idéias para nossa área e para educação brasileira e que nossos colegas professores possam usufruir de informações que servirão para a vida.

Desde já agradeço pelo empenho durante esses anos.

Professor Tiago Gustavo Ferreira

O que o Tiago, um professor,  escreve lembra-me o seguinte: as pessoas da Educação Física que só teorizam, no conforto de seus gabinetes universitários, preparando seus papers para satisfazer a cobiça de celulose dos avaliadores da Capes, não têm a menor idéia do valor que tem a prática. Precisariam conviver com os professores da rede de ensino, por uma semana que fosse, para conhecer de perto o trabalho dessas pessoas, que criam, em cada aula, um tanto precioso de pedagogia, porém, uma pedagogia que nunca será conhecida por mais ninguém, porque não tem espaço para ser publicada. Esses professores, alguns com até 60 aulas semanais, não têm tempo de ler ou de escrever, não desenvolvem um belo discurso, não escrevem com requinte. Porém, sabem o que fazer com os alunos, sabem ensinar. Sendo da Educação Física, lidam com práticas: danças, esportes, lutas, festas, musculação, corridas, e por aí afora. Para a educação culta, erudita, universitária, valor tem quem fala bonito, quem faz os alunos estudarem teorias maravilhosas. Não têm a menor idéia do quanto aprende uma criança ou um adolescente que fazem práticas, não sabem o tanto que se pode aprender com boas práticas. Não importa que em uma prática não se fale. É bom que se fale, mas, mesmo sem falar, uma pessoa pode aprender muito porque corre, porque ri, porque salta, porque pula corda, porque chuta bola, porque se emociona, porque segue regras, porque transgride regras, etc, etc.

Confidências

Uma confidência: meu compromisso maior não é com a Educação Física, mas com a educação. Não me importo que as aulas que damos no projeto Oficinas do Jogo, não se pareçam com a aula típica, tradicional de Educação Física. Procuramos praticar aulas transdisciplinares, em muitos casos, com uma cara bem diferente do hábito em nossa área. Tenho por mim que a sociedade só vai ter respeito pela Educação Física se ela apresentar, um dia, um modo bom de educar nossos escolares. O que precisam aprender os alunos nas escolas? Aquilo que a escola selecionou de melhor em milhares de anos de produção de conhecimento. Esse conhecimento aparece em forma de matemática, português, física, química, geografia, história, etc. Mas é pouco, é insuficiente. O mundo mudou. Temos que ensinar ética, estética, ecologia, amor, solidariedade, cooperação, e assim por diante. Não dá tempo, dirão. O segredo é, ensinando uma coisa específica, ensinar, ao mesmo tempo, outras coisas embutidas. Isso pode ser feito numa prática transdisciplinar. A Educação Física poderia entrar forte nessa idéia. Ensinando nossos conteúdos típidos (as manifestações possíveis do jogo e as formas diversas de exercícios corporais), poderíamos fortalecer o pensamento dos alunos, favorecer suas relações sociais, promover uma boa educação moral, ensiná-los a lidar com as emoções, etc. Temos feito isso no projeto Oficinas do Jogo, com bastante sucesso. Quando nossa página estiver bem feita, avisarei para que possam visitar e colher o conhecimento produzido que colocaremos lá.

Universidade do vale das antas - unianta

Sabem quantos pontos valem boas aulas na avaliação da Capes? Nada. Só pontua quem é cientista. Por melhor que seja o professor, por mais que ele domine a arte de educar, se não se transformar em cientista, seu valor equivale a zero. Reduzir toda a produção do conhecimento universitário à publicação de papers chega a ser ridículo. Seguimos o modelo americano, claro que, substituindo as verbas que os laboratórios americanos recebem das corporações, por pontinhos com que nosso governo adoça a boca dos professores de pós-graduação. Sabem qual a paga por totalizar quatro pontos ou mais na avaliação? O direito de continuar participando do programa de pós-graduação.

Aguardem: vem aí um novo sistema de avaliação. Vamos instituir a medida Quilattes. De modo que, para poder continuar tendo o nome publicado como docente do quadro de pós-graduação, o professor terá que valer, por exemplo, 18 Quilattes. Caso contrário, vai para o limbo.

Campanha pela implantação da educação física

  Meus alunos da sexta fase aqui na escola de Educação Física da Udesc têm mostrado bastante criatividade na apresentação de seus trabalhos práticos. Não só pela boa escolha dos conteúdos, mas pelo modo como orientam as atividades. Apresentarei alguns desses trabalhos. Infelizmente não sei como editar os desenhos, tão bonitos, que meus alunos fizeram para ilustrar as atividades. Ficam por conta da vossa imaginação.

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE E DO ESPORTE – CEFID

Disciplina: Pedagogia da Educação Física

Professor: João Batista Freire

Acadêmicos: Fernanda Leal Kretzer

                      Jeferson Coutinho de Souza

                        Kriscia Germano Fávero

                        Luiza Sagaz Magalhães

                        Rodrigo Prosdossimi Campos

6ª fase - Licenciatura

Atividade: Jogo da Velha

Materiais: Arcos e bolas

Formação:

             Os participantes são divididos em dois grupos com o mesmo número de integrantes. A formação sugerida é a de colunas. O jogo é uma adaptação dos jogos de estafetas e jogo da velha.


 

 

            Os bambolês são colocados a uma distância de cerca de dez metros à frente das colunas de alunos de maneira que formem um quadrado com três banbolês em cada lado. Esses banbolês serão as casas do Jogo da Velha. À frente dos bambolês, uns cinco metros de distância, colocam-se as bolas de meia coloridas, ou outros objetos coloridos na falta de bolas. Bolas de uma cor, por exemplo, vermelhas, para a equipe A e bolas de outra cor, por exemplo, azuis, para a equipe B.

Objetivo:  cada equipe tentará, o mais rapidamente possível, formar, com as bolas de seu grupo, uma linha em diagonal, vertical ou horizontal, ao mesmo tempo, tentando impedir, com a colocação das bolas, que a outra equipe faça o mesmo, tal como ocorre no Jogo da Velha.

 

Desenvolvimento:     ao sinal do professor, sairá um aluno de cada grupo em direção às bolas. Cada aluno pega uma das bolas, correspondentes ao seu grupo, colocando-as em uma certa posição dentro de um dos bambolês. Após isso, volta para sua equipe, batendo na mão do próximo colega, que repetirá seu procedimento. Cada rodada do jogo termina quando uma das equipes colocar três bolas seguidas, na horizontal, na vertical ou em diagonal.

As variações desse jogo são inúmeras, podendo ser modificadas em relação à formação dos alunos (em círculo, de costas…), como também com as próprias bolas (várias cores no mesmo aglomerado…).

Essa brincadeira já foi feita por outros grupos, por outros professores (por exemplo, o Prof. Pablo Greco). Neste caso, a idéia central, além de ensinar o próprio jogo, é fazer com que os alunos integrem a ação motora a uma ação intelectual objetiva, voltada para a solução de um problema específico. Enquanto correm, os alunos precisam observam bem a posição das bolas colocadas pelos colegas precedentes, impedindo que a outra equipe forma uma linha de três bola e, ao mesmo tempo, tentando garantir que sua equipe o faça. É um trabalho cooperativo (portanto social), intelectual (exige um raciocínio lógico voltado para o jogo da velha), e motor (correr, pegar, colocar, etc.). É muito importante que, ao levar uma brincadeira para uma aula, o professor defina objetivos, temas, conteúdos, etc. Neste caso, o tema central da aula chamaremos de Brincadeiras Populares. Os sub-temas, isto é, o que mais se ensina além de ensinar a brincadeira em si, são cooperação, raciocínio lógico-matemático e corridas de velocidade. O método consiste em jogar resolvendo tarefas que produzam conflitos. Produzindo conflitos, os alunos, além de um saber-fazer, desenvolvem uma compreensão sobre os elementos envolvidos na ação, tais como os sub-temas mencionados.

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