Blog do João Freire



Os craques da várzea de Santos

Quando eu era menino, meu sonho era ser jogador de futebol. Ia na Vila e via Tite, Álvaro, Pagão, Pelé, Pepe, Zito, Ramiro, mais tarde Mengálvio, Coutinho, e tantos e tantos outros. Tinha coisa melhor que ser como eles? Claro que não. E aí eu pegava a bola, em qualquer pedacinho de chão, e treinava. Aprendi a fazer um mundo de malabarismos e aquilo alimentava meu sonho. Jogava no campo de terra e pedra perto de casa, lá no alto do morro São Bento, e não era dos piores. Aos domingos, além de jogar no meu timinho de camisas furadas, eu via os jogos do campeonato de várzea de Santos. De manhã jogavam os times mais fortes, os de pés no chão. À tarde jogavam os de chuteira, mas para esses eu não ligava não. Pela manhã a gente via gente como o João Enguiça, o Edmur e o Walter Negrelli. Só craques. Depois o Clodoaldo também virou craque da várzea e foi para o Santos. Chegou na hora boa, quando Zito estava pendurando as chuteiras e passou a camisa para ele. Deu no que deu. Mas a lembrança que ficou mais forte mesmo foi a dos jogos de várzea pela manhã nos campos de Santos. Olha, não tenho a menor dúvida que a gente via jogos bem melhores que algumas coisas que tenho visto no nosso brasileirão e, sem querer exagerar, até melhores que esse Brasil x Colômbia vexaminoso, sem pé nem cabeça, sem rumo e sem fronteira, que eu vi cheio de vergonha na noite de quarta-feira, no dia fatídico de 17 de junho de 2015, mais um fatídico na história de nossa seleção.

A resistência da educação tradicional

Leio no jornal o texto de um jornalista criticando o secretário de educação do Estado de São Paulo, em sua proposta para construir o currículo do Ensino Médio com os alunos, isto é, torná-lo aberto a outras possibilidades de educação que não somente aquela tradicional de salas e carteiras, português, matemática e as ciências. O receio do jornalista é que, trabalhando em forma de projetos, abrindo brechas para romper com o ensino tradicional, corre-se o risco de termos muito teatro e pouca matemática. Para ele, aprender adequadamente os conhecimentos básicos de matemática continua sendo indispensável.

Concordo plenamente com o jornalista da Folha de São Paulo quando ele diz que aprender matemática é indispensável. Assim como concordo com o secretário de educação em sua proposta de abrir o currículo. Lembro ao jornalista, no entanto, que nossos jovens não aprendem matemática adequadamente, pelo menos não na rede pública de ensino e em boa parte da rede particular. Os que aprendem são exceção. E não preciso de pesquisas para confirmar o que digo. Basta perguntar às pessoas ao nosso lado o que sabem de matemática depois de doze anos passados no ensino básico. Mais precisamente nove anos de Ensino Fundamental e três anos de Ensino Médio, quatro horas por dia, duzentos dias por ano, ou 9.600 horas em carteiras escolares que paralisam as pernas e permitem um espaço de movimentação restrita do tronco de apenas meio metro quadrado. E, depois de tanto tempo sentados para aprender matemática e português, os alunos terminam o ensino básico sabendo pouquíssimo sobre essas matérias. Muito pouco barulho por nada. Um imenso investimento com pouquíssimo retorno.

Portanto, se o secretário de educação tem razão em sua proposta, e o jornalista tem razão em seu receio, a favor do secretário há o fato de que os investimentos no ensino tradicional que tanto preservaram a aprendizagem de matemática, não frutificaram. Continuamos, agora adultos, sabendo muito pouco de português e matemática. Pouco lemos e, de matemática, como disse um amigo meu, sabemos mal e mal as quatro peças de conta (subtração, soma, multiplicação e divisão).

Nossos craques milionários

Que papel representam os grandes expoentes do futebol, com seus salários milionários, no fantástico jogo de xadrez das aves de rapina do futebol, encasteladas em seus cargos pomposos na FIFA e Confederações espalhadas por mais de 200 países? Sem eles não haveria a ciranda financeira, assim como, sem nós, nada de rapinagem. Quanto a nós, enfim, quem tomaria Heineken, usaria cartão Visa, ou rasparia o rosto com Gilette? Sem os grandes nomes do futebol, como lavar o dinheiro sujo proveniente sabe-se lá de que mutretas? E ainda achamos que Messi e companhia recebem exageros de dinheiro! Sim, seria muito se fosse para jogar futebol, mas é troco quando se trata de movimentar a fantástica máquina de dinheiro que torna o futebol um dos maiores negócios do mundo financeiro. Ora, se eu precisasse esconder meu dinheiro sujo, que lugar melhor haveria que sob os olhos embevecidos de bilhões de torcedores apaixonados. Confesso que quando Messi faz gols como aquele que fez contra o Atlético de Bilbao, como diria Rui Guerra, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora. E, prosseguindo, meu coração fecha meu cérebro e, sinceramente, nada percebe.

Desculpem-me Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi, Iniesta e companhia. Vocês são realmente grandes artistas, mas o que ganham ainda é pouco para fazer o que fazem a serviço dessa grande máquina de fazer dinheiro que é o sistema confederado do futebol internacional. São vocês os encarregados de fechar os nossos olhos, de seduzir nossas frágeis autoridades, de ludibriar nossas sempre vigilantes polícias e abrir os cofres das megaempresas sedentas de exposição. É com sua imagem que os agentes da rapinagem se apresentam. Sem vocês não haveria show, as luzes não seriam apagadas, e as aves de rapina teriam que produzir seu dinheiro sujo em outros terreiros.

É por causa disso que sempre teremos grandes craques. Mais que nunca são necessários. Por seus pés escoam rios de dinheiro. Vocês, meus queridos grandes artistas, representam hoje, sob a batuta dos Blatters da vida, o mapa da mina do dinheiro sujo do mundo.

E poderia não ser assim, porque, se não existisse essa ladroagem que vocês servem, ainda seriam craques, com menos dinheiro na conta, mas igualmente dando seu espetáculo, quem sabe, menos a serviço das aves de rapina e mais a serviço da arte.

Amor perfeito

Quando menino, encantei-me com o amor-perfeito. Não que estivesse apaixonado; era a flor. Ofereciam-se num canteiro à beira do caminho por onde eu passava para ir à escola. Gostava mais das roxas com um pontinho amarelo no centro. Além de apreciar as flores, ato oculto dos colegas, eu era jogador de futebol; o melhor do mundo, título conquistado numa eleição feita por mim mesmo. Só que o veredicto que valia mesmo era a escolha no par ou ímpar antes da pelada. Às vezes era o primeiro a ser escolhido, às vezes o segundo, ora o rei, ora o príncipe do campinho de terra onde se chutava qualquer coisa redonda que aparecia. Nada superava ser o primeiro escolhido no par ou ímpar, mas se agregavam à fama as canetas, os chapéus, os passes perfeitos e os gols de placa. Sozinho, treinava embaixadas de todos os tipos para exibir na rua. Fora a bola, jogava pião, pipa e bolinha de gude, cada qual em sua época. Uma infância boa: escola, muita brincadeira e amores-perfeitos, até surgir o primeiro amor, que julguei perfeito. Flores de todas as cores: roxas, amarelas, azuis, laranjas, um festival colorido que me esperava no caminho. Bolas de todos os tipos e tamanhos; meus pés descalços de menino raramente conheceram uma de couro.

Deparei-me de novo com elas hoje, a caminho da cidade; as flores. Continuam perfeitas. Vai longe o tempo em que parei de jogar futebol; a idade deu-me cartão vermelho para a bola. Que saudade senti, dos amores-perfeitos, da meninice e do futebol. Lembrei-me das tantas paixões nessa tanta vida, três tão vivas ainda: as flores, uma mulher, e o futebol.

As desigualdades no esporte

 

Quando falamos de desigualdade, geralmente nos referimos a questões econômicas e sociais; pouco falamos das desigualdades de conhecimento. Na área do esporte, por exemplo, ele é reservado quase que exclusivamente para alguns poucos atletas de alto rendimento, dirigentes e empresários da área. O povo é plateia, na maior parte das vezes, pouco esclarecida e financiadora de uma bela fatia do mercado das corridas e bolas. Se o esporte de alto rendimento fosse um país, estaria entre os vinte mais ricos do mundo. E quanto menos esclarecido for o povo, mais brotarão do chão, como ervas daninhas, os Marins e Teixeiras da vida.

Esporte educacional, nem pensar em nosso país; fica restrito aos enfadonhos projetos governamentais para cumprir tabela (com as exceções de praxe) e aos esforços heroicos de algumas entidades não-governamentais. O esporte de lazer ou de participação é praticado por aí, e nem sabemos a quantas anda, porque não ocupa as preocupações do poder público. E o povo vai morrendo enquanto morre de inanição educacional, vítima dos infartos, diabetes e desesperanças.

O saldo é dramático. Não há políticas públicas consistentes na área do esporte. O protagonismo do esporte em um país carente de educação como o Brasil teria que ser do esporte educacional. O esporte de alto rendimento deveria ser apenas um caso do educacional. Pois que, até para se tornar atleta de alta competição ou plateia, seria preciso ter educação adequada. Não podemos sentar à frente da TV e assistir qualquer coisa sem nenhum poder de apreciação crítica. Não poderíamos representar as altas competições como atletas sem ter condições mínimas de governar a própria carreira.

Porém, o que falta mesmo é uma consistente política de esporte educacional que se preocupe em com a educação esportiva dos brasileiros. Nós brasileiros não somos educados em nossas escolas (com as exceções de praxe). Nem matemática e português aprendemos depois de 9600 horas de ensino básico, quanto mais esporte. Mas deveríamos. E não somos por falta vontade política. Nossos governos apenas tentam remendar os buracos econômicos e explicar os estragos produzidos pela corrupção. Educação é discurso de palanque, e não sai dele. Educação esportiva até parece que seria, para os governos, um luxo, quando não é, é obrigação do Estado, pelo menos segundo a Constituição de 1988.

Esporte é um patrimônio cultural rico demais para ficar nas mãos das confederações nacionais e internacionais. Não é justo alimentarmos as máquinas de fabricar dinheiro de entidades como a FIFA. Assim como é inadmissível que, para prender facínoras do futebol brasileiro a gente tenha que chamar a cavalaria norte-americana.

Manhê!!!

Manhêêê!!!! Não sei quantas vezes por dia minha mãe ouvia isso dos filhos. Chamar a mãe assim servia para muitas coisas: para reclamar dos irmãos, para pedir comida, para dizer que a vizinha estava chamando, para reclamar dela quando brigava com a gente, para dizer que estávamos brincando na casa ao lado… Não tenho estatística das palavras que eu dizia quando pequeno, mas acho que mãe ganhava disparado. Fiz um exercício outro dia para ter uma ideia de qual palavra é mais fácil de dizer e concluí que é “mãe”. Pareceu-me que é a mais fácil porque é só abrir a boca. Experimentem; se abrirmos a boca, descolando os lábios, e colocarmos algum som no movimento, o que sai é mãe. Então, eu nem sei se a gente gritava mãe o dia inteiro porque era um som mais fácil, se porque acreditávamos que nossa mãe era sempre a tábua de salvação, ou se porque era o que estava mais à mão e nunca nos faltava. Outro exercício que fiz foi o de rastrear as possibilidades de alguém ter tanta paciência para aguentar alguma coisa como nossa mãe tinha para aguentar a gente. Não encontrei nenhum outro exemplo sequer semelhante. Meu Deus, como ela conseguia nos aguentar! Só depois eu descobri que é assim mesmo, é o jeito de educar, um jeito de brigar aqui, alisar ali, conversar, contar uma história, colocar de castigo, incentivar, e a gente vai crescendo, sem nem perceber, e quando vê já é gente grande, depois gente madura, os cabelos começam a ficar grisalhos, alguns a cair, e quando vemos, nossa mãe já é velhinha e ainda se preocupa quando a gente dá um espirro e logo pergunta se quer um chá de limão. Ah, mãe, que incuba em cada um de nós uma semente de amor. E faz de tudo para regar a semente. Mas a tarefa de ser amorosa, no fim, é da gente. Deixar a semente já é muita coisa. Foram as mulheres e mães que inventaram o amor. O amor é muito feminino e muito maternal. De forma que até os homens, quando amam, são femininos. Não, não se preocupem, ninguém vai lhes tirar a masculinidade. Só estou dizendo é que ser feminino não é coisa só de mulher, é coisa de quem ama porque recebeu a semente da mãe.

Prefácio ao novo livro de Manuel Sérgio

Prefácio de José Mourinho no Livro Novo do Manuel Sérgio

Cevnautas do Futebol, Novo livro do prof Manuel Sérgio “O futebol e eu” é prefaciado por ninguém menos do que o seu aluno José Mourinho.
Laercio
Prefácio do livro de Manuel Sérgio, «O futebol e Eu»
Por José Mourinho
«Mais um livro do Prof. Manuel Sérgio, mais umas páginas que vou ler, mais umas lições que vou receber de um filósofo do desporto, que vem ensinando aos seus leitores o que o desporto tem de mais profundo, de mais científico, de mais autêntico. O José Peseiro, meu colega na universidade e também treinador de futebol, já disse publicamente que só agora, como profissional do desporto e com a cabeça a embranquecer, é que passou a entender verdadeiramente o que o Prof. Manuel Sérgio nos ensinava nas aulas. Eu digo o mesmo. Mas, o que nos ensinava ele? Que não sabe de Desporto quem sabe só de Desporto, porque está na prática desportiva tudo o que é tipicamente humano.

E, ao dizer isto, aconselhava-nos a ler os grandes autores que nos mostram o que é a vida e quem nos ensina o que é a vida está a ensinar-nos o que é o desporto. Repetia, muitas vezes, que Desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo e que deveria ser estudado como se estuda uma ciência humana. Para ele, o treinador do futuro teria de ser um homem culto: com prática constante do futebol, mas também com grande erudição, no que respeita às grandes correntes do pensamento. E, a coroar tudo isto, tinha uma opinião, para o tempo curiosa: o treino, no futebol, ou é com bola, ou não é treino. E dava o exemplo do pianista que não se prepara, saltando e correndo, mas tocando piano. Discordava, muito frontalmente, do biologismo que dominava o treino, dizendo que era a complexidade humana que estava em jogo, na prática do desporto. D ava-nos uma síntese do cartesianismo, para concluir que a Educação Física é um produto do “erro de Descartes”. De quando em vez, falava de um ou de outro filósofo, mas não estou agora em condições para relatar, com verdade, tudo o que a sua erudição espantosa nos apresentava. Não tenho receio em acrescentar que foi um dos professores de maior e melhor cultura que tive, durante a minha vida de estudante liceal e universitário.

E uma faceta curiosa no seu ensino: procurava mostrar a filosofia como um dos fundamentos do desporto. Por isso, vários treinadores dele se aproximavam e aproximam, surpreendidos com as suas ideias, que ele não perde o ensejo de referir que só terão algum valor, se confirmadas na prática. Não esqueço uma das suas frases preferidas: “A prática é o critério da verdade”.

Nasceu, na freguesia da Ajuda, em Lisboa, a poucos metros do Estádio José Manuel Soares, ou das Salésias e, desde criança, se habituou a conviver com jogadores de futebol. E até com jogadores de mais três modalidades, em que o Belenenses daquele tempo se distinguia: o andebol de onze, o basquetebol e o râguebi. Não tendo praticado desporto federado, sente-se perfeitamente à vontade, no trato com os praticantes ou ex-praticantes de qualquer modalidade desportiva. Não é o intelectual distante, é o companheiro próximo de todos os desportistas. Nunca faltávamos às suas aulas, por dois motivos: os conteúdos eram diferentes das outras aulas e ele sabia despertar o interesse dos alunos por tudo o que dizia. É de facto um grande comunicador! As suas aulas e os seus livros permitiram-nos e permitem-nos o contacto direto com os nomes mais sonantes da Filosofia e da Cult ura. Um ponto ainda eu quero referir: muito antes de António Damásio, Manuel Sérgio falava nas aulas do “erro de Descartes”, quando nos dizia que a expressão “educação física” aparece, pela primeira vez, em França, no século XVIII. Para ele, a Educação Física é uma expressão que reflete o dualismo antropológico de Descartes.

Sou treinador de futebol, sem tempo e grande jeito, para a escrita. Sou um prático mas que não descura uma constante informação. E fui aluno do Prof. Manuel Sérgio e sou seu leitor, com grande proveito meu. Julgo, por isso, ser meu dever afirmar, publicamente, que o seu conceito de motricidade humana, que ele começou a teorizar, em 1979, ou seja, há 36 anos, se confirma inteiramente, nos dias de hoje: o desporto só como ciência humana se pode entender; a sua metodologia é a específica das ciências humanas.

O trabalho epistemológico que fez foi verdadeiramente inovador, no desporto e até na cultura, em Portugal. Só uma grande ignorância deixará de reconhecer isto mesmo. Termino dizendo, sem problemas, que Manuel Sérgio é um dos grandes teóricos mundiais do Desporto. Se acaso se pudesse fazer uma competição, eu propunha esta: comparem a obra dele, com a de qualquer outro autor, em qualquer língua, que tenha escrito sobre esta problemática. Não é o primeiro, em erudição e inovação? Mas está no pódio, com toda a certeza.

Sou um homem grato a Manuel Sérgio. Ele não me ensinou técnica, nem tática. Mas ensinou-me esta coisa simples: o Desporto é muito mais do que uma Atividade Física e só como ciência humana deverá estudar-se e praticar-se. E isso bastou-me para que o futebol, para mim, passasse a ser uma atividade de meridiana compreensão e de significação e sentido verdadeiramente humanos. Como obra da autoria de Manuel Sérgio, este é um livro que lerei atentamente, porque sei que da sua leitura sairei mais homem e mais treinador de futebol.»

O quintal do vizinho é bem melhor

Encontro passeando de bicicleta com o filhinho, um vizinho de rua. Como cresceu, diz minha esposa, referindo-se à criança. Esse já é outro, responde. Outro?, pergunta minha esposa. É, tem a menina que já está com dois anos e meio, ele diz. E agora eu não trabalho mais, não faço mais nada além de cuidar dos filhos. Sou aposentado desde os 47 anos, mas nem os serviços que eu fazia por aí faço mais. Parei com tudo. Que legal, eu digo, um pai em tempo integral. Nem precisa de babá ou creche. Exatamente, ele responde, substituo babá, professora, até a mãe. E, por falar nisso, cadê a mãe?, pergunta minha esposa. Tá em casa, ela não sai nunca, ele diz.

E a conversa prossegue assim, sobre filhos, casa, trabalho, até que ele pergunta. Vocês conhecem Portugal? Conhecemos eu respondo. Pois estive lá a semana passada, e fala assim, como se tivesse ido à rua ao lado. Que país lindo, ele prossegue, que ordem, que limpeza. É, realmente muito lindo, pena que estão atravessando crise tão grave, completo. Não, ele retruca, eles estão saindo da crise. Mas, e a dívida com a União Europeia?, insisto. Estão pagando tudo, ele responde. Logo não deverão mais nada. É um exemplo para nós. Em Portugal tudo funciona, não tem violência, não tem pobreza. Não é como aqui, com essa corrupção, esse mundo de problemas que não se resolvem. Portugal é que é país. Quem dera o Brasil fosse assim.

E por aí foi, tecendo as maravilhas de Portugal e as misérias de nosso país, reclamando de sua situação aqui. Afinal, aposentado, só cuidando dos filhos, passeando o tempo todo de bicicleta e viajando para onde quiser. Precisamos melhorar, do jeito que está não pode mais ficar, ele conclui.

Conto com seu bom humor

Tem remédio para mau humor? Ele perguntou, e ela não respondeu, mas riu um riso mais bonito!, que a dona atendida antes dele não viu, mais preocupada em desfilar seu mau humor pelos balcões e corredores da farmácia. Que coisa hein! Ele disse, e ela completou É verdade, e ali ficaram no maior papo, enquanto a fila aumentava. A moça do riso lindo, linda linda, morena que nem índia, trouxe os remédios e até se espantou mas ele riu e confirmou É câncer sim, e tem até gente achando que morro logo, mas eu não tenho pressa. E saiu bem devagar, foi pagar a conta no caixa, levando o riso mais lindo que a morena deu no dia, dele. Ele era assim, onde ia conversava, fazia uma espécie de campanha contra o mau humor no bairro. Só almoçava no restaurante conhecido, onde conversavam com ele. Compras só na quitanda, porque era amigo do dono. No boteco, açougue, padaria, se não lhe dessem um dedo de prosa ele não ficava. Seu velório foi o mais concorrido da história do bairro. A morena do riso lindo estava lá. E, no caixão, ele ainda ria. E não houve quem chorasse.

A insanidade totalitária

 

As pessoas saem às ruas ou entram nas redes sociais e pregam a ditadura, fazendo eco a uma plêiade de insanos que espera a primeira oportunidade para destilar seu veneno e sua crueldade sobre supostos inimigos de sua ideologia. Não brinquem com ditaduras, é de mau gosto e perigoso. Toda ditadura rapidamente emprega o terror para alcançar seus objetivos e aspira ao totalitarismo para que o terror seja total. Segundo Hannah Arendt, “No corpo político do governo totalitário, o lugar das leis positivas é tomado pelo terror total, que se destina a converter em realidade a lei do movimento da história ou da natureza.” P. 617 do livro Origens do totalitarismo, Editora Companhia de Bolso.

Os insanos sequiosos de totalitarismo preparam o terreno que talvez lhes forneça os motivos suficientes para o golpe. Geralmente se apegam a casos de corrupção e criam toda uma comoção em torno disso, pois sabem que isso é capaz de mobilizar as massas. Sabem que a corrupção pode ser combatida de outras maneiras, mas não lhes interessa, pois se a corrupção fosse combatida pelas leis democráticas, não alimentaria suas aspirações. Além disso sabem como fazer convergir o ódio latente nas massas para pessoas e instituições; em 1964 foi o comunismo. Durante a ditadura que se seguiu ao golpe militar de 1964, comunistas e suspeitos foram cruelmente perseguidos, torturados e mortos. Agora os insanos tentam canalizar o ódio para petistas e suspeitos, uma vez que a fonte do comunismo secou.

O autor deste texto certamente seria perseguido por ser petista ou suspeito, tanto faz, caso fosse bem sucedida a tentativa atual de instalar em nosso país uma ditadura como remédio para nossos males. As ditaduras, em sua paixão pelo totalitarismo, pouco se interessam ou temem o comunismo ou o petismo; eles são apenas meios, alimentos para algo bem maior que é o movimento sem fim totalitário, engrenagem que consome, mais que tudo, vidas humanas, por assassinato ou destruição moral.

Em tempo: não acredito que haja condições, atualmente, para um golpe. Os insanos terão que aguardar outras oportunidades. Manter-se-ão, como sempre, de plantão.

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