Blog do João Freire



Esporte de alto rendimento financeiro x esporte de alto rendimento social

Em 1848, a descoberta de ouro na Califórnia provocou o que chamamos de Corrida do Ouro, que produziu efeitos decisivos na história dos Estados Unidos. O Brasil também teve sua corrida do ouro, no final do século XVII. E em muitos outros lugares do mundo o ouro exerceu atração irresistível. Como sempre, para alguns o ouro despertava apenas cobiça e ambições de riqueza, de poder. Para outros, era símbolo de representações religiosas. No esporte passou a significar a glória suprema, em forma de medalha pendurada no peito dos vencedores. E mesmo quando o objeto da cobiça não era o metal, era como se fosse. O ouro passou a denominar muitas riquezas. E o esporte é um dos ouros modernos. Pode-se dizer que atualmente há uma verdadeira corrida do ouro esporte. E, entre os esportes, o futebol é a mina maior desse ouro jogado.

A movimentação econômica do esporte afeta diversos setores, entre eles o vestuário, a alimentação, os equipamentos, as instalações, os serviços, etc. Porém, a grande vitrine do esporte, o grande alimentador das paixões, são os eventos esportivos. São cada vez mais grandiosos, entre eles, os dois maiores: Campeonato Mundial de Futebol e Olimpíadas. O esporte dos eventos esportivos, especialmente os mais grandiosos, são os esportes que as pessoas, de maneira geral, veem e conhecem. Alguns, a depender do país, são tão exaustivamente exibidos que parte da população torna-se especialista e crítica nele, por mais ingênua que seja essa crítica. De tal maneira os eventos mobilizam as emoções dos aficionados que os atores da prática esportiva (dirigentes, jogadores, promotores, publicitários, jornalistas, etc.) podem movimentar a paixão dos fãs à semelhança de marionetes movidas por fios. Por isso, o esporte atual presta-se tão bem à satisfação da cobiça por riqueza e poder.

O esporte, no entanto, compõe uma dimensão tão grandiosa na cultura humana que infiltra-se por caminhos que não só aquele da riqueza e do poder, embora, mesmo assim, de certa forma, alimentando a economia. As pessoas podem viver suas paixões praticando esporte como lazer, entre grupos que não integrarão os espetáculos esportivos e sem ambição de glórias, a não ser aquelas das fantasias íntimas. Assim como podem viver o esporte orientadas por professores que enxergam nele uma possibilidade educacional privilegiada quando a meta é a formação da pessoa e de uma sociedade melhores.

Da mesma maneira, porém, que nas corridas do ouro metal, os gananciosos prevaleciam com seu poder econômico, no esporte o conflito estabelece-se entre seus correspondentes de hoje e os que aspiram tornar o esporte um veículo privilegiado de educação para uma sociedade melhor. O confronto, no entanto, privilegia nitidamente a busca pelo lucro desenfreado e o poder. É essa a face mais visível do esporte quando acionamos um meio de comunicação e vemos o espetáculo esportivo.

Reflexo do poder econômico do esporte atualmente no mundo é o peso dos negócios que o envolvem. As Nações Unidas informaram que o esporte representa cerca de 3% da economia mundial, e a Comissão Europeia calculou que ele representa 1% da economia da União Europeia. A consultora Deloitte indicou que o futebol é a 17ª economia do mundo, isto é, se o futebol fosse um país, estaria entre os vinte países mais ricos do mundo. Não difere muito do que afirmou o Banco Mundial, que situa o futebol entre as 24 maiores economias do mundo, próximo da Bélgica e Noruega. Na Espanha, 1,7% do PIB corresponde ao futebol, um esporte dominado por 42 empresas que formam a Liga de Futebol Profissional. Grandes marcas de produtos, esportivos ou não, espalhadas por todo o mundo, pagam fortunas para seus astros ostentarem seus logotipos.

Na outra ponta desse confronto estão as organizações sociais e humanitárias. O Unicef incentiva iniciativas em todo o mundo que mobilizam crianças e adolescentes para a prática do esporte educacional. No Brasil, entidades como a Universidade do Futebol, em parceria com o Unicef, promovem a formação de professores para a prática do esporte educacional. O Instituto Esporte Educação há mais de dez anos desenvolve tecnologias e pedagogias que apontam caminhos para o esporte educacional. Além de suas ações permanentes, o IEE é parceiro daquele que talvez seja o trabalho mais importante de divulgação do esporte educacional no Brasil, a Caravana do Esporte, em parceria com o Unicef e a ESPN Brasil. O movimento Street Football World, Futebol de Rua ou Futebol Três, movimenta cerca de 1.192.000 jovens atualmente em todo o mundo, em 62 países.

As iniciativas dedicadas ao esporte educacional entendem o esporte como um veículo privilegiado de educação para a cidadania, considerando cidadão, não apenas o que nasceu e foi registrado, mas todo aquele que exerce papel de protagonista na sociedade em que vive, zelando eticamente por sua própria vida e pela vida de seus concidadãos. Entidades como o Instituto Esporte Educação compreendem a atração irresistível exercida pelo jogo, ou, no caso das crianças, pela brincadeira. Trata-se, o esporte ou a brincadeira, de um mundo de fantasias, de entrega, de exercício lúdico da vida, de um viver por viver, em estado de graça. As paixões são mobilizadas no esporte como em nenhuma outra ocasião. No campo do esporte a criança e o jovem são voluntários, não é preciso convencê-los a estar. Forma-se, então, o ambiente propício para a educação. O aluno estará atento, disposto, pronto para aprender. É quando o educador pode, conhecendo os vícios e as virtudes do esporte, potencializar em ações práticas, as virtudes como coragem, protagonismo, autonomia, cooperativismo, decisão, a temperança, a justiça, a generosidade e a humildade, entre outras.

Falta ao esporte educacional a vitrine dos grandes eventos, tão comum ao esporte de alto rendimento financeiro. O esporte educacional não tem garotos propaganda para divulgar sua marca. Portanto, o esporte educacional precisa se espalhar, precisa investir em quantidade, precisa brotar em cada lugar onde houver um espaço possível de prática. Em hipótese alguma pode-se pensar a prática do esporte educacional em pequena escala.

Para que o esporte educacional possa se espalhar, é preciso que os envolvidos tenham à mão recursos pedagógicos e tecnológicos que facilitem as práticas. Por exemplo, se os custos dos materiais necessários às práticas forem altos, elas serão limitadas. A Caravana do Esporte, nesse sentido, tem mostrado como mobilizar grandes massas de crianças e jovens com material de baixo custo. Os espaços de prática também não podem exigir muita sofisticação, basta que sejam limpos, bem cuidados e utilizados de maneira racional. Uma quadra de esportes pode servir a apenas uma prática ou pode ser dividida para a prática de vários jogos ao mesmo tempo. E um último ponto, talvez o mais decisivo de todos: a formação dos professores de esporte educacional.

Um professor bem formado tem uma produção enorme. Produção, no caso da pedagogia do esporte educacional é uma educação que alcance muitas pessoas com a garantia de educação de alta qualidade. Os desafios são grandes. Para se ter ideia, não basta escrever em um plano que o esporte educacional forma cidadãos. Não se trata de mágica; é preciso realizar isso na prática. E a prática do esporte educacional tem como conteúdo principal as brincadeiras e os esportes. O desafio é, portanto, formar o cidadão servindo-se do futebol, ou do basquete, etc., como veículo pedagógico. O que se deve fazer no esporte educacional para que, ao término de um programa, reste como legado ferramentas para o exercício da cidadania?

Percebo que, embora os professores reúnam boas ferramentas pedagógicas, ainda pecam muito no domínio das questões metodológicas. O esporte não faz milagres; a simples prática do esporte não transforma ninguém em cidadão. Isso porque o esporte tem tanto virtudes quanto vícios. Quando observamos o esporte vemos, claramente, que estão presentes tanto a coragem quanto a covardia, tanto a lealdade quanto a traição, tanto os erros quanto os acertos, e assim por diante. Deixado sem orientação, tanto pode acontecer uma coisa quanto outra; com uma má orientação, os vícios prevalecerão; bem orientado, as virtudes serão dominantes.

Portanto, o esporte, para ser educacional, tem que ser bem orientado. E para ser bem orientado, deve estar nas mãos de professores muito bem formados. É preciso escrever nas intenções, nos planejamentos, que é pretensão educar para a cidadania. Em seguida é preciso pegar as bolas, as cordas, os bastões, ir para a prática e produzir, nas ações de jogo, os instrumentos que conduzem a essa cidadania.

Os exemplos práticos podem ser muitos. Vamos considerar, por exemplo, que uma aula de esporte educacional pretende ensinar a todos os alunos um dos fundamentos básicos do basquetebol, que é a condução da bola. Para tanto, o professor desafia os alunos a passarem, sem bola, sob uma corda batida, sem tocar nela. Não é um desafio difícil e quando todos conseguirem fazer isso, o próximo será fazer com que passem sob a corda em sequência, até formar, por exemplo, 40 passagens. Sem bolas é um desafio perfeitamente possível e sem grandes dificuldades para crianças de 9 ou 10 anos. Assim que conseguirem, entra então a questão da condução da bola. O professor pede que os alunos, sem contagem, passem sob a corda quicando a bola, mas deixa que cada qual faça o gesto ao seu modo. Isso feito, volta-se ao desafio da contagem, de 30 ou 40 passagens em sequência.

Ao final de uma aula dessas, se for bem orientada, os alunos, não só aprenderam tecnicamente bem um fundamento, a condução, como, para cumprir a tarefa, tiveram que aprender a cooperar. O conhecimento de cooperar não se aplica só à brincadeira de corda; pode ser levado para outras situações de vida. Portanto, se a metodologia for adequada, conhecimentos necessários à cidadania podem ser produzidos em ações como a que foi descrita.

 

Páginas consultadas:

http://www.elconfidencial.com/deportes/futbol-pib-espana-20100327.html

http://www.cvida.com/component/content/article/41-boletines/6266-cataluna-estudio-sobre-el-peso-economico-del-deporte.html

http://www.fae.usach.cl/fae/index.php?option=com_content&view=article&id=2622:la-influencia-del-mundial-de-futbol-en-la-economia&catid=13:noticias-fae

http://www.iusport.es/opinion/planeta.htm

Declaração de voto

Declaração de voto: declaro meu profundo respeito pelos eleitores de Aécio Neves, mas não votarei nele. Voto pela ampliação do ensino público, pelo controle do capital financeiro internacional, pelo respeito às mulheres e às minorias, pelo fortalecimento dos projetos sociais, pela melhor distribuição de renda, pelos direitos dos aposentados, pelo aumento do emprego, entre tantas necessidades. Meu trabalho, nos últimos cinco anos, tem sido andar pelo Brasil que não passa na televisão, dando aulas para crianças, adolescentes e professores. Sei como era esse Brasil e como é agora. Constato os, ainda, enormes problemas de nosso país, mas constato também os avanços, especialmente na melhoria das condições de vida da população mais pobre, antes, miserável. Há uma enorme diferença entre um governo que, mesmo errando, mesmo atacado pela corrupção, foca nos mais necessitados, e um governo que governa para os mais ricos, e que também erra e é atacado pela corrupção. E por não querer retroceder nos avanços sociais, por não querer perder aquilo que foi tão duramente conquistado, voto em Dilma Rousseff.

O caso do futebol brasileiro – terceira parte

O fato é que, nos 24 anos seguintes, corremos atrás dos europeus, isto é, tentamos imitar seus métodos, tentamos transformar nossos jogadores em homens musculosos, velozes e resistentes, como os louros suecos, ingleses e alemães. Não nos passou pela cabeça que preparação física pode ser outra coisa, mais conectada com a técnica, com o lúdico.

Apesar disso, é tão grande a quantidade de praticantes do futebol no Brasil que os artistas continuaram a aparecer (a pedagogia da rua continua, espalhada pelo país), alguns deles anulados precocemente nas tais escolinhas e nas equipes de base, obrigados aos exercícios de repetição mecânica e aos trabalhos de força. A educação física, com seus métodos de europeização dos brasileiros, não conseguiu evitar o surgimento de craques como Romário, decisivo na conquista da Copa de 1994. Apesar disso, a vitória foi creditada aos métodos científicos de preparação do técnico na época, Carlos Alberto Parreira, que discursava com palavras acadêmicas e analisava o futebol em linguagem tão hermética que poucos o entendiam, embora, por isso mesmo, o respeitassem. O fato é que os times da Copa de 1994, de modo geral, apresentaram um futebol de tal maneira medíocre que venceu, talvez, o menos medíocre.

Exceto pela Argentina de Maradona, o futebol seguiu sendo medíocre no mundo todo, incluindo, agora, a seleção brasileira, que passou a viver dos feitos esporádicos dos craques que escapavam da degola da educação física. Técnicos brasileiros passaram a se vestir durante os jogos como os técnicos europeus, tentando, pateticamente, com seus ternos e gravatas, apagar a imagem do Terceiro Mundo que somos (embora sejamos Primeiro Mundo no futebol). Depois veio a conquista da Copa do Mundo de 2002, e a educação física foi cantada em verso e prosa – pois esquecemos que essa copa foi decidida, em boa parte, pelos métodos pouco científicos mas extremamente intuitivos do senhor Luiz Felipe Scolari e por um craque espetacular, gordo e com um joelho quase inutilizado, Ronaldo Nazário, que desafia todas as análises das ciências do esporte. E, é claro, fomos favorecidos pela mediocrização do futebol mundial, que só aumentou.

O caso do futebol brasileiro – segunda parte

De meu ponto de vista, essa história explica-se da seguinte maneira: a reinvenção do futebol à brasileira deu-se à revelia da educação física. Nossos jogadores foram forjados nos campos de várzea, nos pequenos espaços de areia, terra ou grama que grassavam pelo Brasil afora. Nossos jovens não aprenderam sozinhos, não foi uma mágica; aprenderam porque havia uma pedagogia, que eu chamo de pedagogia de rua, uma pedagogia popular, uma verdadeira escola em que crianças aprendiam com crianças e com os mais velhos, os jovens aprendiam a jogar jogando. Uma pedagogia tão sábia que ensinou que o melhor jogador era o que melhor sabia jogar, isto é, o que era mais lúdico – Garrincha como exemplo maior. Nosso professor de futebol não foi nenhum sistema sofisticado de educação física. Foi exatamente porque não foi a educação física, repito, branca e europeia, a nos ensinar o futebol que pudemos praticá-lo de um jeito só nosso.

Era preciso destruir o modelo brasileiro e sul-americano; caso contrário, ele prevaleceria por muito mais tempo – e já se tornava insuportável para europeus e norte-americanos assistir a tantas vitórias de brasileiros e argentinos. O antídoto para essa cultura tão típica já existia: era preciso fazer com que a educação física assumisse o futebol, prática para a qual sempre fechara os olhos. E ela assumiu, seguindo os sábios conselhos das ciências modernas que orbitavam ao seu redor (a fisiologia do esforço, a biomecânica, etc, as chamadas ciências do esporte).

Em 1970, a conquista do título mundial de futebol pela seleção brasileira foi de tal forma espetacular que o mundo todo se empolgou com o evento. Diversos setores da ciência dedicaram-se às análises do feito. Ora, pela primeira vez um trabalho extremamente meticuloso de preparação física foi, não apenas realizado, mas amplamente divulgado por seus orientadores. De certa maneira, para os setores científicos da educação física, o trabalho de preparo físico destacou-se mais que as habilidades técnicas, ou que a arte de jogar futebol dos atletas brasileiros. A partir de então, a educação física assumiu o futebol. E, por mais que tenham ocorrido fracassos, a insistência nos chamados métodos científicos de preparação persistiu. Ninguém parou para observar que o sucesso da seleção de 1970 talvez se devesse mais à extraordinária arte de jogar futebol de nossos jogadores, vários deles herdeiros do período de ouro do futebol, como Pelé, Gérson, Jairzinho e Rivelino, que à preparação física. Não pretendo desmerecer, com isso, a importância do preparo físico, mas apenas colocá-lo em seu devido lugar, isto é, abaixo, numa escala hierárquica, do preparo técnico, ou mais, da arte de jogar futebol. Por mais eficaz que tenho sido a equipe de preparação física daquela seleção, o que definiu o sucesso foram a técnica e a arte dos jogadores e do preparador técnico. (continua)

O caso do futebol brasileiro

(a partir do livro “Os valores e as atividades corporais, organizado por David Rodrigues, Summus, 2008)

Primeira parte

Quem inventou o futebol moderno foram os ingleses. De resto, quem inventou os esportes, tais como os conhecemos na modernidade, foram os europeus e os norte-americanos, salvo raríssimas exceções. Praticando-os ao modo europeu, estaríamos sempre em desvantagem nos confrontos – assim como as mulheres, que, ao praticar esportes inventados para os homens, levam nítida desvantagem. Mas nós brasileiros não inventamos os esportes. Portanto, o que fazer? Ora, simplesmente reinventamos o futebol, assim como outros sul-americanos o fizeram. E nos saímos bem, tanto quanto os argentinos. Passamos, do nosso jeito, a jogá-lo melhor que os ingleses. Um Garrincha foi capaz de submeter ingleses, russos e suecos ao seu modo de jogar. E, a partir da década de 1950, o mundo inteiro passou a observar, com assombro, uruguaios, brasileiros e argentinos jogando o futebol europeu melhor do que os europeus; mas já não era o futebol inglês, havia um jeito sul-americano de jogar. O esporte afirmava que era possível, deste lado do Atlântico, as pessoas terem atitudes que revelassem outro jeito de ser, um jeito mais ao modo de seus habitantes.

Até o início da década de 1970, o jeito de jogar futebol dos brasileiros – as habilidades originalmente exercidas pelos jogadores, o lúdico predominando sobre a força física – afirmou-se. Foi quando alguma coisa muito importante mudou. Mais ou menos nessa época, o dramaturgo Plínio Marcos, um dos mais polêmicos da história do teatro brasileiro, disse que o futebol brasileiro estava se acabando e era a ginástica (educação física) que estava causando o estrago. O excesso de preocupação com a força física atrapalhava a habilidade brasileira de jogar futebol. Creio que ele acertou em cheio. Foi exatamente na década de 1970 que começamos a acreditar que era preciso reunir as mesmas qualidades que os europeus reuniam para esse esporte. E passamos a perseguir esse objetivo, sem perceber que abríamos mão, para tanto, das qualidades que só os sul-americanos tinham. Perdemos nosso trunfo.

Toc-toc chuta!

Me descabelei no jogo da Espanha. Era um tal de toc-toc e eu gritando, chuta!, chuta! Se houvesse narração mais detalhada seria, toc-toc-toc-toc-chuta!!!!!toc-toc-toc-toc-toc-chuuuuuutaa!!!!!!!!!!!!. Ouvi dizer que o time espanhol sofre de “Toc”. A menos que houvesse um campeonato paralelo de posse de bola sem que eu ficasse sabendo. Para mim a tal Fúria é possessiva. Em compensação os chilenos, que beleza, que objetividade; guardaram-me duas vezes no fundo da rede. Delícia! O tal de Alexis Sanches botou os ibéricos para dançar. Com todo o respeito que tenho pela equipe espanhola, a melhor do mundo por muitos anos, é como dizia minha tia, futebol é eu na rede!

E não é que os australianos resolveram jogar! Gente, o que foi aquele gol do Cahil, de primeira! Eu senti quando vim na direção dele, lançada de muito longe, que ia ser bem tratada. E não de outra, fui parar nas redes, do jeito que gosto. O gol da Copa até agora. Aquilo assustou os holandeses. Um conselho aos brasileiros: escapem dos holandeses na próxima fase.

Depois vieram os camaroneses. Deprimente! Tocam tão bonito em mim, mas o jogo não flui, não é coletivo. E os croatas são terríveis, não perdoam. Gosto mais do jeito dos africanos de me tocar, mas reconheço a eficiência do pessoal da Croácia. Depois deste jogo já decidi: quando a Copa acabar não fico no Brasil para ser esquecida em algum quartinho de fundos para murchar aos poucos. Vou para Camarões, por dois motivos principais: adoro camarão com chuchu e camisetinhas molhadas!

A tia da Brazuca

“Tenho uma tia que se chama Jabulani. Ela foi a bola da Copa de 2010 na África do Sul. Hoje ela vive esquecida em um quartinho dos fundos em um bairro pobre de Joanesburgo. Quase murcha e descorada, fala desconexamente sobre Iniesta e o gol que deu a taça para a Espanha. Antes de começar a Copa no Brasil ela me mandou uma mensagem contando isso e me dizendo para não me empolgar demais com os elogios, porque depois eu também seria esquecida. Por via das dúvidas, tentarei aproveitar ao máximo meu curto reinado.

Ontem, a rodada não foi das melhores; as retrancas prevaleceram. Nada pior para uma bola como eu que raramente visitar as redes, meu recanto preferido. Os argelinos vieram para não tomar gols. Graças a Deus, foram castigados tomando dois e começando a se despedir do mundial. A Bélgica, de que falaram tanto, não é lá essas coisas.

E os brasileiros, até onde pensam que vão com esse futebolzinho econômico? Tirando Neymar, não há nada que façam que lembre o grande futebol brasileiro. Dizem que Fred jogou; eu não o vi. E tem um rapaz, um tal de Paulinho, que toca em mim com tanta tensão que escapo dele o mais rapidamente possível. Achei que não o veria no segundo tempo, mas ele voltou e eu lembrei daquela música, “Eu voltei, voltei para ficar, porque aqui, aqui é meu lugar”. Coisa nenhuma, ali deveria ser o lugar só de craques, que esta não é a Copa das Confederações, mas a Copa do Mundo. Fiz umas contas rápidas e concluí que sem centroavante o Brasil teria um jogador a mais. Mas não adianta falar; pelo que percebi, a seleção brasileira não tem técnico, tem rei. Não sou torcedora. Sugiro a vocês torcedores que torçam muito e rezem se souberem rezar.

Já era noite quando jogaram Rússia e Coreia do Sul. Dormi, desisti depois de quinze minutos. Sim, eu sei que vocês me viram rolando para lá e para cá, mas eu posso fazer isso até dormindo. Foi um a um o jogo, mas deveria ter sido menos um a menos um.

Ah, eu ouvi dizer, depois da partida, que Brasil e México só não foi pior que Iran e Nigéria. Que tal?

O sangue lusitano da Brazuca

Ufa, até que enfim terminou! A tortura foi grande. Logo eu que tenho nas veias uma boa dose de sangue lusitano. Lembrei de Rui Guerra durante a fatídica partida contra a Alemanha: “Meu coração tem um sereno jeito/E as minhas mãos o golpe duro e presto/De tal maneira que, depois de feito/Desencontrado, eu mesmo me contesto/Quando me encontro no calor da luta/Ostento a aguda empunhadora à proa/Mas o meu peito se desabotoa/E se a sentença se anuncia bruta/Mais que depressa a mão cega executa/Pois que senão o coração perdoa…”. Partida para esquecer. E que, no próximo jogo, Portugal jogue como time e não como Cristiano Ronaldo. Sou brasileira, o que significa que também sou muito portuguesa, um pouco alemã, italiana, japonesa, muito índia e negra, polonesa e tantas e tantas nacionalidades espalhadas pelo mundo afora. E sendo brasileira e sendo tantas nações juntas, sou a bola de todos os povos, de todas as raças, e mais sofro com as derrotas que me alegro com as vitórias. Mas que fiquei irritada com o Pepe, fiquei. Acho que ele confundiu tudo; o técnico, antes do jogo, mandou que ele usasse a cabeça…e ele usou pá! E não é que o Cristiano Ronaldo me chamou de Vrazuca!

Depois me mandaram para aquele jogo da Nigéria contra o Irã. Ninguém merece. Dizem que parecia com jogo do campeonato brasileiro. Se for, terminada a Copa eu me mando. Gente, o que é aquilo! Ninguém merece. Sou a Brazuca, exijo respeito. Será que pensavam que sou saco de pancada. Por mim mandava os dois embora amanhã mesmo.

Menos mal que começou Estados Unidos e Gana, este, outro time africano de camisetinhas molhadas. Os africanos jogam bonitinho, mas gol que é bom, neca! E como o que vale é Brazuca na rede, corri para os braços dos norteamericanos. Mas os filhos do Tio Sam são apressadinhos; gol aos 28 segundos? Isso não é gol, é ejaculação precoce. Mas cá pra nós, aquele gol do Ayew foi o mais bonto da Copa, não foi? Sei que vocês se apaixonaram pelo gol do holandês Van Persie, mas vocês não são eu, que é quem vive grudada nas chuteiras dos craques.

Ah, e se vocês encontrarem o Cristiano Ronaldo por aí, digam que estou procurando por ele até agora.

 

Conversa com a Brazuca no dia 16 de junho

- Já repararam que os jogadores africanos estão usando camisetas apertadinhas, que ficam todas molhadinhas durante o jogo? Ufa! Não conta pro Blatter que eu fiz esse comentário, pois ele já falou um monte no meu ouvido sobre isso e me disse para manter a concentração. Argumentei que sou brasileira, tropical, mas ele insiste em querer que eu seja fleumática, que nem aqueles porres dos jogadores ingleses.

O jogo do Equador com a Suíça? Sabe que não reparei muito? Foram quase noventa minutos de monotonia, nada que chamasse a atenção. Só no final. Aí ficou bom. Eu já estava quase dormindo quando disse para os equatorianos, “Vai, façam alguma coisa”, e eles desceram com a defesa suíça desprevenida. Atirei-me aos pés do Arroyo, que substituía o Caicedo, aquele que nem chegou a levantar, mas o Arroyo levou duas horas pensando o que fazer comigo. Ah, aí eu desisti e me entreguei para os suíços, “Vamos lá que ainda falta um minuto”, e eles partiram como um raio, a defesa do Equador parecia um queijo suíço, e não perdoaram, não pensaram, só jogaram, e eu fui dormir no fundo da meta equatoriana, cansada que já estava de tudo aquilo.

Alezanfan de La patriii… Estão rindo do quê? Eu não sei escrever em francês mas fui a única que cantei o hino da França, porque o sistema de som falhou e os franceses não cantam à capela como os latinoamericanos. Se cantarem derrubam de novo a Bastilha e não querem correr o risco. Aproveitaram que os hondurenhos ainda não inventaram o futebol e jogaram para descansar, pensando nos próximos jogos. Poderiam ter me jogado mais vezes para o fundo do gol hondurenho, mas vocês sabem como os franceses gostam de economizar gols. O destaque ficou para o primeiro gol.com do futebol mundial.

E aí vieram los hermanos. Tinha tanto argentino nas arquibancadas do Maracanã que confundi las lenguas. No início parecia que teríamos uno vareio de pelota. Mas qual, los hermanos bósnios engrossaram. Gente, olha só, quando o Messi me pegou a primeira vez, que emoción, tremi de la cabeza a los pies. Alguém sabe se ele tem namorada? Está certo que ello está um poquito flaco, até parece doentinho. Mas o time todo de los hermanos é um tanto confuso. Com o tempo eles pegam el ritmo. Deu pro gasto. Essa coisa de achar que futebol depende de um ou dois jogadores dá nisso. Futebol é coletivo; não basta fazer uma convenção de craques.

Estou satisfeita, tenho visitado bastante as redes. Espero que os treinadores brasileiros vejam isso porque, depois da Copa, vou rolar nos pés dos jogadores brasileiros e não quero saber de economia de gols.

Conversa com a Brazuca sobre os jogos do dia 15

- Até parecia que os jogadores da Grécia falavam grego – disse Brazuca -, não se entendiam entre eles e nem comigo. Olha só, fiquei toda roxa. Já os colombianos, esses eram mais finos, está certo que pouco coletivos, mas me trataram bem. Eu gostei mesmo foi dos costarriquenhos. Aquele Campbell gente, que é isso? Por enquanto, o craque da Copa. Não vão me contar isso para o Blatter, aquele porre!, ele quer que eu seja neutra, fleumática, como os ingleses, mas, cá entre nós, fiquei apaixonada pelos da Costa Rica. E o Navas, o goleirão deles, que mãos, que gestos! A hora que ele me pegava, pegava pra valer. Eu até tentava escorregar, fazer um charminho, mas ele segurava firme mesmo. Sabe mesmo? E agora que venham os italianos, embora eu tenha que suportar os ingleses. Credo, ninguém merece!

– E por que você está esbaforida assim Brazuca? – perguntei, horas depois.

– É porque acabou agorinha o jogo da Itália contra a Inglaterra. Acho que os ingleses ficaram tão preocupados com as onças, as cobras e a malária da Amazônia que perderam o sentido do jogo. Os italianos também reclamaram muito, mas foi do calor, 31 graus, como se na Europa 38 graus não fosse comum no verão. Esses europeus não perdem a empáfia. Enfim, eu estava ansiosa para ver como o veterano Pirlo faria para derrotar a Inglaterra. Descobri: bastou fazê-los correr bastante no primeiro tempo, puxados por dois garotos, Sturridge e Sterling. Os mais veteranos abriram o bico. Só um segredinho: aquela falta que o Pirlo cobrou e bateu na trave, foi culpa minha. O homem bateu com tanta sutileza, tanto carinho, que eu me derreti toda e subi um pouquinho a mais.

Próximo


Arquivo:
Acompanhe: rss RSS (o que é isso?)
Outros Blogs do CEV





© 1996-2014 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.