Blog do João Freire



À esquerda nenhuma corrupção será perdoada

Ódio não se justifica, mas o ódio atual ao PT compreende-se. Não se espera que pessoas ou entidades de esquerda transgridam leis, desrespeitem direitos humanos, aliem-se aos poderosos, coloquem o lucro acima dos interesses públicos, etc. Se pessoas ou entidades reconhecidamente de direita fizerem isso, um ou outro se indignará, mas isso não causará escândalos. Historicamente a esquerda é vista como aliada dos direitos humanos e dos mais necessitados, além de combatente das falcatruas. Mesmo os que detestam a esquerda aceitam os malfeitos da direita bem melhor que os da esquerda.

E assim nasceu o PT, como representante dos trabalhadores, como defensor dos oprimidos, aliado dos direitos humanos e combatente da corrupção. Denominando-se ou não dessa maneira, o PT era visto como uma agremiação de esquerda e os votos depositados em seus representantes significavam votos na coisa correta, limpa, isenta.

Mas o PT chegou ao poder e muitos dos seus representantes quiseram perpetuar-se nele, repetindo o que sempre ocorreu na política que combateu. Afinal, que mal há em reeleger-se sempre, ficar para sempre no poder? E, para ficar no poder, o PT repetiu outras fórmulas que combatia, entre elas, a de corromper-se. Muitos de seus representantes cederam à tentação. Não fizeram nada que outros, de outros partidos, já não haviam feito, mas, quando o fizeram, causaram grande comoção, grande escândalo. Afinal, os corruptos de sempre não causavam surpresa; quando clamavam contra a corrupção ninguém lhes dava ouvidos, porque vinham de agremiações contaminadas; eram, quase sempre, da chamada direita.

Os casos de corrupção na agremiação de esquerda proliferaram e os escândalos aumentaram e serviram de munição para a propaganda contra a agremiação de esquerda. Daí ao ódio, foi um pulo. Ódio que provinha, em parte, dos decepcionados com o partido, que depositaram sua confiança em voto durante anos; ódio que provinha da classe que sempre gozou de privilégios no país, que nunca gostou do Brasil, que sempre usufruiu e sempre ficou insatisfeita, que sempre se sentiu dona da terra, dos bens de produção, e das pessoas; e ódio que provinha da contaminação pela propaganda, sentido por gente que, mesmo sendo oprimida pelos donos da terra e dos bens, acreditou neles, porque a propaganda é mesmo muito forte e incessante.

Que o PT aprenda a lição. A corrupção é bem aceita quando vem de quem se espera que a pratique. Mas que não venha de quem sempre a combateu, que não venha de quem é chamado de esquerda, porque a esquerda não pode estar aí para ser conivente com a falcatrua, mas para acabar com ela.

Se o PT é mais corrupto que os demais partidos? Claro que não, é até menos que a maioria, mas não pode ser nada corrupto, essa é a regra. Nenhuma corrupção da esquerda será perdoada.

O guardião de nossas vidas

O sistema financeiro internacional é o guardião de nossas vidas. Ele propõe ter para ter mais. Cria necessidades que não tenho para satisfazê-las, cria-me esperanças que não espero para realizá-las, cria o amor que não sinto para amar por mim, cria o ódio que não tenho para destruir por mim, me alimenta quando não tenho fome, vende-me o que eu nunca compraria, transforma meu cérebro numa máquina inesgotável de consumo… e arrasta toda a minha energia produtiva para seus cofres. E eu não digo não a ele, nunca digo não a ele, porque engoli aquela pílula que ele me deu e que matou o meu gene da escolha, aquela escolha entre o sim e o não.

Linchamento político

Sim, não se preocupem aqueles que aderiram ao antipetismo, o PT será castigado, assim como o governo a ele ligado. Embora o antipetismo ou antiqualquer outra coisa nada produz, porque depende da existência do que combate; destruído o móvel da ação, ele também perderá o sentido. Se o anti não é necessário? Claro que sim, por exemplo, no caso das doenças. Quem não quer tomar um antiácido quando sofre de acidez estomacal? Porém, o remédio deixa de fazer sentido quando cessar a acidez. E quanto o PT deixar de existir? Os anti farão o quê? Governarão o Brasil com limpeza, transparência, honestidade? Quem fará isso? O PSDB, o DEM, o PSB, o PMDB? O que ocorre atualmente no Brasil lembra-me o caso Dreyfus, no final do século XIX na França. Dreyfus foi condenado independentemente de ser culpado ou inocente, de ter ou não cometido um crime. Foi julgado pela mídia e pelo povo; a justiça e o parlamento acompanhou. Se há petistas corruptos, se houve corrupção na Petrobrás? Sem dúvida, a corrupção está provada, falta provar a culpa dos corruptos, desde 1997 pelo menos (governo FHC). Deve haver muitos culpados, de vários partidos e corporações, mas também deve haver inocentes que já estão condenados. Ou estamos a favor da justiça ou não, ou somos civilizados ou nos declaramos bárbaros. No caso atual, não se trata de apurar e julgar os crimes praticados por petistas, trata-se de destruir o PT e, para tanto, basta convencer a população, coisa que a grande imprensa sabe fazer muito bem. Se há mais petistas que políticos de outros partidos envolvidos? Acredito que sim, porque o PT está no governo. Caso fosse o PSDB no governo seriam os tucanos os mais envolvidos, mas eles não estariam sofrendo linchamentos na mídia.

O conhecimento científico

O conhecimento, para ser de boa qualidade e fiel à verdade, não precisa ser científico, mas, se quisermos que seja científico, temos que seguir as regras da ciência. Para ser científica, a produção do conhecimento precisa ter rigor e método na investigação e dar provas de suas afirmações. Dar prova não significa afirmar a verdade, mas sim oferecer argumentos para serem provados, para serem apreciados, no sentido de passarem por uma verificação crítica, para que o conhecimento produzido possa mostrar ser capaz de resistir às críticas.

Quando fazemos ciência, investigamos um fenômeno que resiste à compreensão. Por exemplo, durante milhares e milhares de anos as pessoas constataram que a água congelava quando a temperatura caía muito. Para muitos, isso era perturbador, gerando inúmeras explicações. A ciência, quando fundada, não se contentou em apenas constatar o fato e aceitar explicações superficiais; investigou com método e rigor o fenômeno e saiu-se com argumentos provados e resistentes, até hoje aceitos.

Dizer que as provas científicas devem ser matemáticas, necessariamente, é inaceitável. Dizer que as provas matemáticas são fortes, é sensato. Prova científica pode ser qualquer argumento poderoso, em qualquer linguagem. A linguagem matemática tem se mostrado extremamente poderosa para demonstrar fenômenos complexos, daí sua importância. Porém, teorias científicas importantíssimas como a psicanalítica ou a da seleção natural, esgrimidas por Freud e Darwin, foram apresentadas com argumentos tão fortes que resistem até hoje às provas.

A ciência é objetiva no sentido de não aceitar tergiversações. Se eu afirmo que tal procedimento pedagógico é poderoso e alfabetiza melhor que outro, é preciso provar isso com argumentos dificilmente refutáveis. Terei que decidir sobre o método de investigação e não me afastar de minha afirmação científica. Os críticos de minha teoria deverão se ater exclusivamente à minha afirmação e ser rigorosos quanto às exigências de minhas provas. Os cuidados quanto à aplicação do método e procedimentos de pesquisa não serão tomados para satisfazer uma banca examinadora, mas para permitir que o fenômeno seja cuidadosamente estudado. Caso o procedimento pedagógico em questão não se mostre capaz de alfabetizar melhor que outro, reconhecer isso também será científico.

Ciência exige não só rigor, exige também curiosidade, audácia, coragem, porque se trata de entrar no campo do desconhecido. Trata-se também de ousar, muitas vezes, contrariar ordens estabelecidas, conceitos aceitos há muito tempo. As grandes descobertas da ciência não foram feitas por pessoas exatamente conformadas com as coisas tal como estavam estabelecidas. Basta ver o exemplo daqueles que confrontaram a explicação religiosa de todas as coisas. Ser cientista, naquele tempo, significava arriscar a vida. Hoje é comum, nas universidades, que ser cientista signifique ser burocrata a serviço de uma ideologia produtivista estéril.

Esporte de alto rendimento financeiro x esporte de alto rendimento social

Em 1848, a descoberta de ouro na Califórnia provocou o que chamamos de Corrida do Ouro, que produziu efeitos decisivos na história dos Estados Unidos. O Brasil também teve sua corrida do ouro, no final do século XVII. E em muitos outros lugares do mundo o ouro exerceu atração irresistível. Como sempre, para alguns o ouro despertava apenas cobiça e ambições de riqueza, de poder. Para outros, era símbolo de representações religiosas. No esporte passou a significar a glória suprema, em forma de medalha pendurada no peito dos vencedores. E mesmo quando o objeto da cobiça não era o metal, era como se fosse. O ouro passou a denominar muitas riquezas. E o esporte é um dos ouros modernos. Pode-se dizer que atualmente há uma verdadeira corrida do ouro esporte. E, entre os esportes, o futebol é a mina maior desse ouro jogado.

A movimentação econômica do esporte afeta diversos setores, entre eles o vestuário, a alimentação, os equipamentos, as instalações, os serviços, etc. Porém, a grande vitrine do esporte, o grande alimentador das paixões, são os eventos esportivos. São cada vez mais grandiosos, entre eles, os dois maiores: Campeonato Mundial de Futebol e Olimpíadas. O esporte dos eventos esportivos, especialmente os mais grandiosos, são os esportes que as pessoas, de maneira geral, veem e conhecem. Alguns, a depender do país, são tão exaustivamente exibidos que parte da população torna-se especialista e crítica nele, por mais ingênua que seja essa crítica. De tal maneira os eventos mobilizam as emoções dos aficionados que os atores da prática esportiva (dirigentes, jogadores, promotores, publicitários, jornalistas, etc.) podem movimentar a paixão dos fãs à semelhança de marionetes movidas por fios. Por isso, o esporte atual presta-se tão bem à satisfação da cobiça por riqueza e poder.

O esporte, no entanto, compõe uma dimensão tão grandiosa na cultura humana que infiltra-se por caminhos que não só aquele da riqueza e do poder, embora, mesmo assim, de certa forma, alimentando a economia. As pessoas podem viver suas paixões praticando esporte como lazer, entre grupos que não integrarão os espetáculos esportivos e sem ambição de glórias, a não ser aquelas das fantasias íntimas. Assim como podem viver o esporte orientadas por professores que enxergam nele uma possibilidade educacional privilegiada quando a meta é a formação da pessoa e de uma sociedade melhores.

Da mesma maneira, porém, que nas corridas do ouro metal, os gananciosos prevaleciam com seu poder econômico, no esporte o conflito estabelece-se entre seus correspondentes de hoje e os que aspiram tornar o esporte um veículo privilegiado de educação para uma sociedade melhor. O confronto, no entanto, privilegia nitidamente a busca pelo lucro desenfreado e o poder. É essa a face mais visível do esporte quando acionamos um meio de comunicação e vemos o espetáculo esportivo.

Reflexo do poder econômico do esporte atualmente no mundo é o peso dos negócios que o envolvem. As Nações Unidas informaram que o esporte representa cerca de 3% da economia mundial, e a Comissão Europeia calculou que ele representa 1% da economia da União Europeia. A consultora Deloitte indicou que o futebol é a 17ª economia do mundo, isto é, se o futebol fosse um país, estaria entre os vinte países mais ricos do mundo. Não difere muito do que afirmou o Banco Mundial, que situa o futebol entre as 24 maiores economias do mundo, próximo da Bélgica e Noruega. Na Espanha, 1,7% do PIB corresponde ao futebol, um esporte dominado por 42 empresas que formam a Liga de Futebol Profissional. Grandes marcas de produtos, esportivos ou não, espalhadas por todo o mundo, pagam fortunas para seus astros ostentarem seus logotipos.

Na outra ponta desse confronto estão as organizações sociais e humanitárias. O Unicef incentiva iniciativas em todo o mundo que mobilizam crianças e adolescentes para a prática do esporte educacional. No Brasil, entidades como a Universidade do Futebol, em parceria com o Unicef, promovem a formação de professores para a prática do esporte educacional. O Instituto Esporte Educação há mais de dez anos desenvolve tecnologias e pedagogias que apontam caminhos para o esporte educacional. Além de suas ações permanentes, o IEE é parceiro daquele que talvez seja o trabalho mais importante de divulgação do esporte educacional no Brasil, a Caravana do Esporte, em parceria com o Unicef e a ESPN Brasil. O movimento Street Football World, Futebol de Rua ou Futebol Três, movimenta cerca de 1.192.000 jovens atualmente em todo o mundo, em 62 países.

As iniciativas dedicadas ao esporte educacional entendem o esporte como um veículo privilegiado de educação para a cidadania, considerando cidadão, não apenas o que nasceu e foi registrado, mas todo aquele que exerce papel de protagonista na sociedade em que vive, zelando eticamente por sua própria vida e pela vida de seus concidadãos. Entidades como o Instituto Esporte Educação compreendem a atração irresistível exercida pelo jogo, ou, no caso das crianças, pela brincadeira. Trata-se, o esporte ou a brincadeira, de um mundo de fantasias, de entrega, de exercício lúdico da vida, de um viver por viver, em estado de graça. As paixões são mobilizadas no esporte como em nenhuma outra ocasião. No campo do esporte a criança e o jovem são voluntários, não é preciso convencê-los a estar. Forma-se, então, o ambiente propício para a educação. O aluno estará atento, disposto, pronto para aprender. É quando o educador pode, conhecendo os vícios e as virtudes do esporte, potencializar em ações práticas, as virtudes como coragem, protagonismo, autonomia, cooperativismo, decisão, a temperança, a justiça, a generosidade e a humildade, entre outras.

Falta ao esporte educacional a vitrine dos grandes eventos, tão comum ao esporte de alto rendimento financeiro. O esporte educacional não tem garotos propaganda para divulgar sua marca. Portanto, o esporte educacional precisa se espalhar, precisa investir em quantidade, precisa brotar em cada lugar onde houver um espaço possível de prática. Em hipótese alguma pode-se pensar a prática do esporte educacional em pequena escala.

Para que o esporte educacional possa se espalhar, é preciso que os envolvidos tenham à mão recursos pedagógicos e tecnológicos que facilitem as práticas. Por exemplo, se os custos dos materiais necessários às práticas forem altos, elas serão limitadas. A Caravana do Esporte, nesse sentido, tem mostrado como mobilizar grandes massas de crianças e jovens com material de baixo custo. Os espaços de prática também não podem exigir muita sofisticação, basta que sejam limpos, bem cuidados e utilizados de maneira racional. Uma quadra de esportes pode servir a apenas uma prática ou pode ser dividida para a prática de vários jogos ao mesmo tempo. E um último ponto, talvez o mais decisivo de todos: a formação dos professores de esporte educacional.

Um professor bem formado tem uma produção enorme. Produção, no caso da pedagogia do esporte educacional é uma educação que alcance muitas pessoas com a garantia de educação de alta qualidade. Os desafios são grandes. Para se ter ideia, não basta escrever em um plano que o esporte educacional forma cidadãos. Não se trata de mágica; é preciso realizar isso na prática. E a prática do esporte educacional tem como conteúdo principal as brincadeiras e os esportes. O desafio é, portanto, formar o cidadão servindo-se do futebol, ou do basquete, etc., como veículo pedagógico. O que se deve fazer no esporte educacional para que, ao término de um programa, reste como legado ferramentas para o exercício da cidadania?

Percebo que, embora os professores reúnam boas ferramentas pedagógicas, ainda pecam muito no domínio das questões metodológicas. O esporte não faz milagres; a simples prática do esporte não transforma ninguém em cidadão. Isso porque o esporte tem tanto virtudes quanto vícios. Quando observamos o esporte vemos, claramente, que estão presentes tanto a coragem quanto a covardia, tanto a lealdade quanto a traição, tanto os erros quanto os acertos, e assim por diante. Deixado sem orientação, tanto pode acontecer uma coisa quanto outra; com uma má orientação, os vícios prevalecerão; bem orientado, as virtudes serão dominantes.

Portanto, o esporte, para ser educacional, tem que ser bem orientado. E para ser bem orientado, deve estar nas mãos de professores muito bem formados. É preciso escrever nas intenções, nos planejamentos, que é pretensão educar para a cidadania. Em seguida é preciso pegar as bolas, as cordas, os bastões, ir para a prática e produzir, nas ações de jogo, os instrumentos que conduzem a essa cidadania.

Os exemplos práticos podem ser muitos. Vamos considerar, por exemplo, que uma aula de esporte educacional pretende ensinar a todos os alunos um dos fundamentos básicos do basquetebol, que é a condução da bola. Para tanto, o professor desafia os alunos a passarem, sem bola, sob uma corda batida, sem tocar nela. Não é um desafio difícil e quando todos conseguirem fazer isso, o próximo será fazer com que passem sob a corda em sequência, até formar, por exemplo, 40 passagens. Sem bolas é um desafio perfeitamente possível e sem grandes dificuldades para crianças de 9 ou 10 anos. Assim que conseguirem, entra então a questão da condução da bola. O professor pede que os alunos, sem contagem, passem sob a corda quicando a bola, mas deixa que cada qual faça o gesto ao seu modo. Isso feito, volta-se ao desafio da contagem, de 30 ou 40 passagens em sequência.

Ao final de uma aula dessas, se for bem orientada, os alunos, não só aprenderam tecnicamente bem um fundamento, a condução, como, para cumprir a tarefa, tiveram que aprender a cooperar. O conhecimento de cooperar não se aplica só à brincadeira de corda; pode ser levado para outras situações de vida. Portanto, se a metodologia for adequada, conhecimentos necessários à cidadania podem ser produzidos em ações como a que foi descrita.

 

Páginas consultadas:

http://www.elconfidencial.com/deportes/futbol-pib-espana-20100327.html

http://www.cvida.com/component/content/article/41-boletines/6266-cataluna-estudio-sobre-el-peso-economico-del-deporte.html

http://www.fae.usach.cl/fae/index.php?option=com_content&view=article&id=2622:la-influencia-del-mundial-de-futbol-en-la-economia&catid=13:noticias-fae

http://www.iusport.es/opinion/planeta.htm

Declaração de voto

Declaração de voto: declaro meu profundo respeito pelos eleitores de Aécio Neves, mas não votarei nele. Voto pela ampliação do ensino público, pelo controle do capital financeiro internacional, pelo respeito às mulheres e às minorias, pelo fortalecimento dos projetos sociais, pela melhor distribuição de renda, pelos direitos dos aposentados, pelo aumento do emprego, entre tantas necessidades. Meu trabalho, nos últimos cinco anos, tem sido andar pelo Brasil que não passa na televisão, dando aulas para crianças, adolescentes e professores. Sei como era esse Brasil e como é agora. Constato os, ainda, enormes problemas de nosso país, mas constato também os avanços, especialmente na melhoria das condições de vida da população mais pobre, antes, miserável. Há uma enorme diferença entre um governo que, mesmo errando, mesmo atacado pela corrupção, foca nos mais necessitados, e um governo que governa para os mais ricos, e que também erra e é atacado pela corrupção. E por não querer retroceder nos avanços sociais, por não querer perder aquilo que foi tão duramente conquistado, voto em Dilma Rousseff.

O caso do futebol brasileiro – terceira parte

O fato é que, nos 24 anos seguintes, corremos atrás dos europeus, isto é, tentamos imitar seus métodos, tentamos transformar nossos jogadores em homens musculosos, velozes e resistentes, como os louros suecos, ingleses e alemães. Não nos passou pela cabeça que preparação física pode ser outra coisa, mais conectada com a técnica, com o lúdico.

Apesar disso, é tão grande a quantidade de praticantes do futebol no Brasil que os artistas continuaram a aparecer (a pedagogia da rua continua, espalhada pelo país), alguns deles anulados precocemente nas tais escolinhas e nas equipes de base, obrigados aos exercícios de repetição mecânica e aos trabalhos de força. A educação física, com seus métodos de europeização dos brasileiros, não conseguiu evitar o surgimento de craques como Romário, decisivo na conquista da Copa de 1994. Apesar disso, a vitória foi creditada aos métodos científicos de preparação do técnico na época, Carlos Alberto Parreira, que discursava com palavras acadêmicas e analisava o futebol em linguagem tão hermética que poucos o entendiam, embora, por isso mesmo, o respeitassem. O fato é que os times da Copa de 1994, de modo geral, apresentaram um futebol de tal maneira medíocre que venceu, talvez, o menos medíocre.

Exceto pela Argentina de Maradona, o futebol seguiu sendo medíocre no mundo todo, incluindo, agora, a seleção brasileira, que passou a viver dos feitos esporádicos dos craques que escapavam da degola da educação física. Técnicos brasileiros passaram a se vestir durante os jogos como os técnicos europeus, tentando, pateticamente, com seus ternos e gravatas, apagar a imagem do Terceiro Mundo que somos (embora sejamos Primeiro Mundo no futebol). Depois veio a conquista da Copa do Mundo de 2002, e a educação física foi cantada em verso e prosa – pois esquecemos que essa copa foi decidida, em boa parte, pelos métodos pouco científicos mas extremamente intuitivos do senhor Luiz Felipe Scolari e por um craque espetacular, gordo e com um joelho quase inutilizado, Ronaldo Nazário, que desafia todas as análises das ciências do esporte. E, é claro, fomos favorecidos pela mediocrização do futebol mundial, que só aumentou.

O caso do futebol brasileiro – segunda parte

De meu ponto de vista, essa história explica-se da seguinte maneira: a reinvenção do futebol à brasileira deu-se à revelia da educação física. Nossos jogadores foram forjados nos campos de várzea, nos pequenos espaços de areia, terra ou grama que grassavam pelo Brasil afora. Nossos jovens não aprenderam sozinhos, não foi uma mágica; aprenderam porque havia uma pedagogia, que eu chamo de pedagogia de rua, uma pedagogia popular, uma verdadeira escola em que crianças aprendiam com crianças e com os mais velhos, os jovens aprendiam a jogar jogando. Uma pedagogia tão sábia que ensinou que o melhor jogador era o que melhor sabia jogar, isto é, o que era mais lúdico – Garrincha como exemplo maior. Nosso professor de futebol não foi nenhum sistema sofisticado de educação física. Foi exatamente porque não foi a educação física, repito, branca e europeia, a nos ensinar o futebol que pudemos praticá-lo de um jeito só nosso.

Era preciso destruir o modelo brasileiro e sul-americano; caso contrário, ele prevaleceria por muito mais tempo – e já se tornava insuportável para europeus e norte-americanos assistir a tantas vitórias de brasileiros e argentinos. O antídoto para essa cultura tão típica já existia: era preciso fazer com que a educação física assumisse o futebol, prática para a qual sempre fechara os olhos. E ela assumiu, seguindo os sábios conselhos das ciências modernas que orbitavam ao seu redor (a fisiologia do esforço, a biomecânica, etc, as chamadas ciências do esporte).

Em 1970, a conquista do título mundial de futebol pela seleção brasileira foi de tal forma espetacular que o mundo todo se empolgou com o evento. Diversos setores da ciência dedicaram-se às análises do feito. Ora, pela primeira vez um trabalho extremamente meticuloso de preparação física foi, não apenas realizado, mas amplamente divulgado por seus orientadores. De certa maneira, para os setores científicos da educação física, o trabalho de preparo físico destacou-se mais que as habilidades técnicas, ou que a arte de jogar futebol dos atletas brasileiros. A partir de então, a educação física assumiu o futebol. E, por mais que tenham ocorrido fracassos, a insistência nos chamados métodos científicos de preparação persistiu. Ninguém parou para observar que o sucesso da seleção de 1970 talvez se devesse mais à extraordinária arte de jogar futebol de nossos jogadores, vários deles herdeiros do período de ouro do futebol, como Pelé, Gérson, Jairzinho e Rivelino, que à preparação física. Não pretendo desmerecer, com isso, a importância do preparo físico, mas apenas colocá-lo em seu devido lugar, isto é, abaixo, numa escala hierárquica, do preparo técnico, ou mais, da arte de jogar futebol. Por mais eficaz que tenho sido a equipe de preparação física daquela seleção, o que definiu o sucesso foram a técnica e a arte dos jogadores e do preparador técnico. (continua)

O caso do futebol brasileiro

(a partir do livro “Os valores e as atividades corporais, organizado por David Rodrigues, Summus, 2008)

Primeira parte

Quem inventou o futebol moderno foram os ingleses. De resto, quem inventou os esportes, tais como os conhecemos na modernidade, foram os europeus e os norte-americanos, salvo raríssimas exceções. Praticando-os ao modo europeu, estaríamos sempre em desvantagem nos confrontos – assim como as mulheres, que, ao praticar esportes inventados para os homens, levam nítida desvantagem. Mas nós brasileiros não inventamos os esportes. Portanto, o que fazer? Ora, simplesmente reinventamos o futebol, assim como outros sul-americanos o fizeram. E nos saímos bem, tanto quanto os argentinos. Passamos, do nosso jeito, a jogá-lo melhor que os ingleses. Um Garrincha foi capaz de submeter ingleses, russos e suecos ao seu modo de jogar. E, a partir da década de 1950, o mundo inteiro passou a observar, com assombro, uruguaios, brasileiros e argentinos jogando o futebol europeu melhor do que os europeus; mas já não era o futebol inglês, havia um jeito sul-americano de jogar. O esporte afirmava que era possível, deste lado do Atlântico, as pessoas terem atitudes que revelassem outro jeito de ser, um jeito mais ao modo de seus habitantes.

Até o início da década de 1970, o jeito de jogar futebol dos brasileiros – as habilidades originalmente exercidas pelos jogadores, o lúdico predominando sobre a força física – afirmou-se. Foi quando alguma coisa muito importante mudou. Mais ou menos nessa época, o dramaturgo Plínio Marcos, um dos mais polêmicos da história do teatro brasileiro, disse que o futebol brasileiro estava se acabando e era a ginástica (educação física) que estava causando o estrago. O excesso de preocupação com a força física atrapalhava a habilidade brasileira de jogar futebol. Creio que ele acertou em cheio. Foi exatamente na década de 1970 que começamos a acreditar que era preciso reunir as mesmas qualidades que os europeus reuniam para esse esporte. E passamos a perseguir esse objetivo, sem perceber que abríamos mão, para tanto, das qualidades que só os sul-americanos tinham. Perdemos nosso trunfo.

Toc-toc chuta!

Me descabelei no jogo da Espanha. Era um tal de toc-toc e eu gritando, chuta!, chuta! Se houvesse narração mais detalhada seria, toc-toc-toc-toc-chuta!!!!!toc-toc-toc-toc-toc-chuuuuuutaa!!!!!!!!!!!!. Ouvi dizer que o time espanhol sofre de “Toc”. A menos que houvesse um campeonato paralelo de posse de bola sem que eu ficasse sabendo. Para mim a tal Fúria é possessiva. Em compensação os chilenos, que beleza, que objetividade; guardaram-me duas vezes no fundo da rede. Delícia! O tal de Alexis Sanches botou os ibéricos para dançar. Com todo o respeito que tenho pela equipe espanhola, a melhor do mundo por muitos anos, é como dizia minha tia, futebol é eu na rede!

E não é que os australianos resolveram jogar! Gente, o que foi aquele gol do Cahil, de primeira! Eu senti quando vim na direção dele, lançada de muito longe, que ia ser bem tratada. E não de outra, fui parar nas redes, do jeito que gosto. O gol da Copa até agora. Aquilo assustou os holandeses. Um conselho aos brasileiros: escapem dos holandeses na próxima fase.

Depois vieram os camaroneses. Deprimente! Tocam tão bonito em mim, mas o jogo não flui, não é coletivo. E os croatas são terríveis, não perdoam. Gosto mais do jeito dos africanos de me tocar, mas reconheço a eficiência do pessoal da Croácia. Depois deste jogo já decidi: quando a Copa acabar não fico no Brasil para ser esquecida em algum quartinho de fundos para murchar aos poucos. Vou para Camarões, por dois motivos principais: adoro camarão com chuchu e camisetinhas molhadas!

Próximo


Arquivo:
Acompanhe: rss RSS (o que é isso?)
Outros Blogs do CEV





© 1996-2015 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.