18.01.2012 | Comente.
Coloco duas premissas básicas: a primeira afirma que os conhecimentos são naturais, estão inscritos nos genes de maneira básica e apenas se revelam ao sabor das experiências de vida. A segunda acredita que temos, à partida, apenas possibilidades de aprendizagens, de forma que o conhecimento é construído nas relações com o mundo natural e social. O que escreverei a seguir apoia-se na segunda. Portanto, a sociedade que somos é fruto, inevitavelmente, da educação que todos recebemos, em suas diversas formas: família, grupos de amigos, escolas, igrejas, meios de comunicação etc. De maneira geral afirmamos com frequência nosso desagrado com os rumos que tomou a sociedade humana, embora façamos parte ativa nela. Clamamos contra as injustiças, contra a violência, contra a política e por aí afora. Para ficar em apenas um aspecto da educação, porém, muito importante, vamos criticar a escola formal. A base da escola formal são os conteúdos científicos e a disciplina moral. A palavra NÃO é o mote da disciplina moral. E a matemática, a geografia, a história, a física, a química etc., são o mote da educação científica. Podemos dizer, a partir disso que essa maneira de educar é equivocada. Provavelmente é equivocada em três aspectos: peca quando coloca as disciplinas científicas como protagonistas da educação, peca quando incute uma moral de heteronomia nos alunos, afastando as possibilidades de uma moral autônoma, e peca no método, porquanto torna o aluno passivo, ao sabor dos conhecimentos e da moral que vem de fora. O resultado é uma educação de reprodução, isto é, de reprodução daquilo que criticamos todos os dias na sociedade.
A solução? É complexa. Nada se resolve em sociedade com meia dúzia de palavras. Mas para apontar algumas medidas, uma delas seria inverter os procedimentos da base educacional escolar. Nós adultos não temos moral para ensinar aos nossos alunos. Fizemos várias guerras, somos gananciosos, produzimos o neoliberalismo selvagem, somos, em vários aspectos, covardes e nos corrompemos com extrema facilidade. Os alunos teriam que participar dos projetos de sociedade, portanto, de seu futuro nela. Outro ponto: as disciplinas científicas teriam que deixar o protagonismo e assumirem ser apenas coadjuvantes. O protagonismo deveria ficar com os grandes temas da vida como saúde, relações humanas, ecologia, autoconhecimento, amor, ética etc. Por último, o método. Nenhum aluno deveria receber conhecimentos prontos. Eles precisam ser produzidos a partir de pesquisas, de construções. Os conhecimentos deveriam partir daquilo que cada aluno é, para crescerem. Os conhecimentos precisariam crescer a partir de uma orientação ética, uma ética de preservação da vida.
Enfim, se somos o que somos, é porque assim nos educamos. Se queremos que a sociedade seja diferente, a educação tem que se diferente. E não há nada mais conservador que a educação formal.
12.01.2012 | 3 Comentários.
A Copa São Paulo de Futebol Junior já foi palco privilegiado, no qual desfilaram grandes revelações do futebol brasileiro. Era aguardada com ansiedade pelo brilho que alguns jogadores e equipes apresentavam. O regulamento previa a participação de jovens de 20 anos ou menos. Com o tempo a competição agigantou-se e a idade mínima diminuiu – 18 anos. A ideologia mudou junto. Nada de equipe; quando muito, o esforço coletivo é tentativa de destaque de jovens técnicos. Porém, entram em confronto com a ansiedade dos meninos de aparecer para os empresários. Vale mais uma grande jogada individual que a taça final. E todos buscam jogar para si. Os atacantes atrás da grande jogado à la Neymar; os zagueiros num vale-tudo para impedi-los. O resultado é medíocre, porque o futebol é um esporte coletivo e a busca exclusiva de reconhecimento individual torna o indivíduo pequeno. À volta dos gramados da Copa São Paulo, dezenas ou centenas de empresários e dirigentes, ávidos pela descoberta do futuro campeão, do futuro craque, que rareia a cada edição da copa. A idade diminuiu para 18 anos, para tornar possível escolher o novilho ainda nas fraldas. Um novilho já estragado, já contaminado pela ganância do dinheiro que não virá. E os garotos são expostos nos currais futebolísticos, no melhor estilo do agronegócio, passarela dos puro-sangues das raças mais apreciadas. E assim, de negócio em negócio, de ganância em ganância, um ou outro talento mínimo descoberto valerá mais pela especulação que por seu valor de artista da bola. É como na especulação imobiliária, em que uma casa de cem mil é vendida por quinhentos mil, deixando para trás uma bolha de crédito que uma hora ou outra explodirá, como recentemente ocorreu nos Estados Unidos e na Espanha. Na ausência de craques, excesso de propaganda, de imagens. Amparados pela mídia, empresários e dirigentes vendem ilusões aos sempre anestesiados torcedores apaixonados. A continuar nesse ritmo, em breve teremos que mudar o nome dos torneios de jovens, de sub-22, sub-20 etc., para sub-futebol.
6.01.2012 | 2 Comentários.
Minha amiga Dirce administra como ninguém seu pequeno salário. Comprou para seu filho um notebook à vista, fez uma pequena reforma na casa à vista, viajou em férias pagando à vista. Não compra nada à prazo; economiza antes para não ter dívidas. Nunca a vi atormentada por causa de dinheiro. Dirce não sabe lidar com celulares ou computadores. Ela nunca se deixou convencer pela ideia de ter o que não necessita. Ela não acredita nas propagandas que querem nos vender o que nunca usaremos. Aí eu me pergunto: Dirce é uma pessoa de poucos conhecimentos por não dominar as tecnologias modernas? Ou é uma pessoa de muito conhecimento por dominar a sabedoria de não comprar o que não necessita, de não dever nada a ninguém, de não viver atormentada pela sedução do consumo?
31.12.2011 | Comente.
Quase todos temos essa mania de fazer um balanço do ano quando ele termina. Os profetas de plantão acertaram, como sempre: morreram famosos, desastres aconteceram, milionários se tornaram alguns etc. Economistas e meteorologistas erraram, como sempre: o PIB não foi o anunciado, a chuva foi mais que a esperada, e assim por diante. A humanidade deve ter avançado um pouquinho; afinal, no século XIII as cidades eram mais violentas e no século XVIII Paris era bem mais suja que hoje. Os brasileiros tiveram mais a comemorar que os europeus e norteamericanos. Continuamos pobres mas o país ficou mais rico e mais importante aos olhos do mundo. Fomos solidários nas tragédias, embora egoístas no dia-a-dia. Parece que não aprendemos muito com o capitalismo, pois ele continua a nos enganar vendendo-nos o que não necessitamos. Mas avançamos, sem dúvida. A humanidade é assim, balançando entre a barbárie e a civilização; uma hora a gente clama por leis, outra hora a gente quer fazer justiça com as próprias mãos. Uma hora a gente se comove às lágrimas com o sofrimento de alguém, outra hora a gente quer o linchamento de um tirano. 2012 não será muito diferente. Nossos avanços civilizatórios serão tão pequenos que mal os perceberemos. Para os males gerais da humanidade teremos nosso conjunto particular de queixas; quando elas se avolumam muito podem provocar mudanças significativas. E assim caminha a humanidade. Um feliz 2012 para todos.
24.12.2011 | Comente.
Neste Natal, penso nos mais necessitados. Penso que não preciso ser rico para me sentir bem. Penso que é mau ser miserável, mas não é mau ser pobre. Penso que o dinheiro não pode ser meu senhor. Penso que sou obrigado a ser livre. Penso na vida que me privilegia. Penso na mulher amada. Penso na mulher que me deu vida. Penso no pai que se foi. Penso nas vidas que dei aos meus filhos. Penso nos amigos que nada querem a não ser ser amigos. Penso na natureza. Penso como é bom ser criança. Penso no Jesus que todos somos ou fomos.
21.12.2011 | Comente.
Ontem assisti a um filme sobre guerra. Mulheres foram feitas prisioneiras de japoneses em Sumatra. Os maus tratos a que eram submetidas eram terríveis. A uma certa altura, os japoneses pegaram uma delas, jogaram no chão, jogaram gasolina e atearam fogo. As amigas assistiram horrorizadas e alguns soldados japoneses deslumbrados. Foi por causa da guerra? Não, foi por causa deles mesmos (na segunda guerra esse tipo de crueldade era praticada por militares de várias nacionalidades). A guerra só favoreceu manifestações que, em tempos de paz, são contidas pela lei. Foi por causa das patologias controladas em tempos de paz. Mas, quando o ambiente favorece, elas se manifestam. Foi assim durante a ditadura militar com os torturadores, foi assim em todas as guerras, foi assim em muitos jogos de futebol, foi assim em linchamentos. Costumamos dizer que é por causa do futebol, por causa da guerra, dos embates políticos; mas é por nossa causa mesmo. O ambiente só favorece. Tanto é que nas patologias incontroláveis, psicopatas, sem o filtro da moral social, praticam crueldades estarrecedoras; jovens são capazes de invadir uma escola e matar dezenas de colegas, pais matam filhos, filhos matam pais etc. É por isso que nessa discussão sobre a Comissão da Verdade, que deveria investigar crimes cometidos durante a ditadura, torturadores não poderiam ser perdoados, porque torturaram porque quiseram, porque eram crueis, sabiam perfeitamente o que sentiam; a ditadura só liberou suas patologias, porque a lei foi suspensa para eles.
9.12.2011 | 2 Comentários.
Houve um tempo em que a Faculdade de Educação Física da Unicamp se destacou pela enorme quantidade de publicações em livros a respeito da pedagogia da Educação Física. Em outras faculdades isso também aconteceu. Porém, parece que a fonte secou. Esse tipo de publicações anda raro. Há quem julgue que os cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) são o carro-chefe da Educação Física. Mas não são. Dedicam-se, quase que exclusivamente, a manter espaços de pesquisa e publicação de artigos para engordar os relatórios de avaliação. Revistas “conceituadas” estão fora da Educação Física, e as chances dos pesquisadores aumentam se pesquisarem fora da Educação Física, isto é, se se tornarem arremedos de fisiologistas, de psicólogos, de sociólogos, de bioquímicos, de anatomistas, físicos etc. Em Educação Física quase não se pesquisa e pouco se publica (porque as revistas são raras e as que existem não aceitam artigos que não desfilam números). Portanto, creio que não poderemos depender dos cursos de pós-graduação para desenvolver aquilo que eu e muitos outros entendemos que é Educação Física, isto é, uma disciplina que educa corporalmente as pessoas. Teremos que encontrar outros nichos para desenvolver conhecimento pedagógico. Quais seriam? Não sei responder, mas há possibilidades em ONGs, em empresas, em grupos de estudo, nas redes sociais, em associações educacionais etc. O lamentável, o mais lamentável de tudo é constatarmos que a Educação Física perdeu o mais privilegiado de todos os espaços para desenvolver esse conhecimento: os cursos de pós-graduação em Educação Física.
9.12.2011 | Comente.
Sou professor, e isso parece um vício. Às vezes sou até chato,discutindo banalidades como se estivesse dando aulas. Há mais de dois anos deixei de dar aulas na Universidade. Presencialmente só dou aulas quando viajo com a Caravana do Esporte ou quando dou palestras por aí. Porém, descobri que ferramentas como o Twitter ou o Facebook, estão aí à disposição da educação, para quem quiser usá-las. Foi quando inventei de organizar aulas temáticas abertas pelo Facebook. Marco dia e hora, coloco um texto inicial e, durante uma hora, as pessoas, com absoluta liberdade, escrevem o que querem sobre o tema. A primeira aula foi realizada no dia 17 de novembro, e teve uma participação enorme. Por falta de experiência o tema foi mal conduzido e me vi numa grande confusão na hora de compilar o material. No fim consegui e o arquivei na biblioteca do CEV. Ontem, dia 8 de dezembro, realizamos a segunda aula aberta. O tema proposto foi O Jogo. Consegui orientar melhor a aula e o resultado foi maravilhoso.
Ou seja, meu vício de dar aulas agora pode se manifestar também nas redes sociais. Elas não foram criadas para servir necessariamente a banalidades. E não há mal nenhum em usá-las para isso, eventualmente. Mas podemos usá-las, e muito bem, na educação. Há espaços educacionais que não foram ocupados pela educação formal. E a educação formal está longe de dar conta das necessidades educacionais de nossa população. Portanto, sempre que houver oportunidade, usemos as redes sociais para educar. Afinal, nós, educadores, temos que ir onde o povo está.
4.12.2011 | Comente.
Este blog está de luto. Morreu aquele que disse que “com uma bola nos pés a gente muda um país”. Sócrates ajudou muito a mudar o Brasil. Liderou um movimento que levou os jogadores do Corinthians, na década de 1970, a clamar por democracia no meio da ditadura. Primeiro o conheci nos campos, encantando o mundo com seus passes geniais, seus gols magistrais. Depois viajei com ele em duas Caravanas do Esporte. Bondoso, crítico, de humor finíssimo. Conversamos algumas vezes, bem menos do que eu gostaria. Meus pêsames ao futebol, que ficou mais pobre, que sentirá uma saudade que dificilmente passará. Meus pêsames à bola, sua cúmplice, sua amante. Meus pêsames aos adversários. Meus pêsames à nação corintiana. Meus pêsames à família. Meus pêsames aos jornalistas, aos locutores que ficarão com o grito de gol do Magrão entalado na garganta. Meus pêsames a todos os brasileiros por terem perdido um brasileiro tão brasileiro. Meus pêsames a mim, que ainda bem que escrevo, porque se tivesse que falar, não conseguiria.
27.11.2011 | Comente.
UNIVERSIDADE PAPEL E CELULOSE
Estive semana passada na Unicamp, onde trabalhei por quinze anos. Há algo de estranho no ar. Mudou o ambiente; poucos alunos circulando pelo Campus, muito silêncio. Onde estariam as pessoas? Mas isso não importa, pode ter sido apenas uma impressão causada por má observação. Mas também pode refletir as mudanças que ocorreram na Universidade desde que a referência de produção acadêmica deixou de ser ensinar bem e pesquisar com relevância. Nos últimos anos, sob os auspícios da CAPES, cujo objetivo é engordar as estatísticas do governo federal, a referência passou a ser, pasmem, a avaliação. Pobre avaliação, ao que foi reduzida! Nesse ponto a avaliação da produção acadêmica se transformou num monstro parecido com o Vestibular. Talvez eu tenha encontrado o Campus um tanto vazio porque os alunos estejam enfiados nos laboratórios de pesquisa. Fazendo o que? Ajudando a produzir o próximo paper que o professor orientador precisa publicar, caso contrário, será descredenciado do curso de pós-graduação. É só isso que importa, isto é, o paper. Professores universitários devem sonhar, quando dormem, com montanhas de papel. Quem diria que nossos professores e alunos universitários seriam reduzidos um dia ao deprimente papel exercido pelos pinheiros plantados todos iguaizinhos em imensas extensões de terras: papel. Papel e celulose, como se denominam algumas fábricas das folhas que compramos para imprimir nossos textos. Talvez os professores universitários não percebam que estão todos vivendo dentro do Campus como os pinheiros no campo. Crescem rápido para serem rapidamente abatidos e virarem papéis. Fazem das tripas coração para pesquisar alguma coisa que possa ser aceita em uma revista de prestígio internacional (no caso da Educação Física, leia-se, revista norteamericana que não seja da Educação Física). E os alunos, o que aspiram? Continuarem a ser mão de obra barata de produção de papel e celulose? Aspiram transformar-se em pinheiros? O pior, mas o pior de tudo mesmo, é que tudo isso em nome de um modelo que arrasta os Estados Unidos e a Europa para o buraco. Sem dúvida, pelo que vejo atualmente, a Universidade brasileira perde cada vez mais a cara de Brasil.
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