Blog do João Freire



Elias

Elias veio arrodeando, como quem não quer nada. Eu fazia parte do grupo de professores da Caravana do Esporte, um projeto da ESPN Brasil, a emissora de TV, junto com a Unicef, o Instituto Esporte Educação e o Instituto Sol da Liberdade. Era um domingo logo cedo, na cidade de Governador Mangabeira, Recôncavo Baiano, e a aula logo ia começar. Um mundo de crianças chegava no campo, onde a gente arma a arena para as brincadeiras, e o Elias por ali, rindo sem graça, um riso tímido que queria fazer comunicação. Você quer nos ajudar?, perguntei a ele, que logo respondeu, Quero, meio rindo, meio falando, e ficou por ali enquanto a gente organizava as crianças para a aula. Ajuda a fazer uma fila aí, eu disse para o Elias, e ele foi dizendo, Tem uma camiseta para mim?, ele queria uma igual à minha, cor de laranja, eu disse que sim, mas depois, depois, e começamos a aula que se estenderia por 16 turmas de crianças em rodízio, o dia inteiro, três dias seguidos. Durante os três dias Elias ficou por ali arrodeando, às vezes ajudando com a maior boa vontade, ganhou uma camiseta e um boné, mas ele precisava mesmo era de dentes, pois só tinha, nos de cima, metade; a outra metade a miséria levou, a falta de escola levou, a falta de assistência levou, a falta de vergonha na cara desse povo que sempre mandou no Brasil levou. Já no fim da Caravana, na cerimônia de encerramento, ele sentou do lado, sempre rindo, e eu perguntei, Você é casado Elias?, Não, ele disse, e eu continuei, Trabalha?, Trabalho, Onde?, Faço um serviço de roça, ele respondeu. Então você tem uma terra?, eu perguntei, e ele disse que sim. O que você planta Elias?, Um pouquinho de milho, de amendoim, e ele parou por aí e ficou rindo. Para continuar a conversa perguntei, Qual a melhor época para plantar o milho? Ele pensou, pensou e disse, Sei não, e se calou. Elias vive em Governador Mangabeira, quase não tem dentes, quando a gente fala com ele, ele olha pra gente como quem agradece, que se a gente estivesse fazendo um favor de falar com ele, como se dissesse obrigado por falar com a gente, por receber atenção. E só porque a gente deu atenção, ele ficou arrodeando três dias. E agradeceu cada pequena atenção rindo com timidez e se encolhendo, se curvando. Elias tem entre vinte e quarenta anos de idade.

Eu queria, queria muito que a gente tivesse neste país uma educação que desencolhesse todos os Elias, que desenrolasse todos os Elias, para que todos eles tivessem a outra metade dos dentes e pudessem rir apenas por alegria, e nunca mais precisassem agradecer cada atenção que alguém desse para eles. Um povo nunca deveria precisar agradecer a colonização recebida.

Por João Freire
em 30-07-2010, às 11:35

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Confidências.

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Comentários

JoãoZinho
Acho que todos que atuamos nesses projetos, em qualquer termpo, temos encontrado muitos Elias… eu tive o meu, se chamava Erasmos Fogoió, e tinha, quem sabe? 12 anos?
Por 27 dias, ao abrir a porta do Campus, Fogoió lá estava sentado, esperando as atividades – eram 5:30 de amnhã e as atividades só inicavam às 7:30… relutava em voltar para casa no almoço; mas no periodo da tarde, lá estava de novo…
Há uns 10 anos, voltei a Imperatriz; houve a apresentação de um show de musica popular imperauta… anunciaram um cantor/compositor da hora… Erasmos Dibel… eu estava nos bastidores – estava mestre de cerimonias – olhando a apresentação daquele grupo de jovens… e reconheci o Fogoió: era agora DiBel…
Voltei ao palco, olhei paea ele e perguntei à queima roupa: voce não era conhecido como Erasmo Fogoió? lá pelos anos de 76, não fez uma colonia de ferias, no Projeto Rondon? Era ele mesmo… nos abraçamos, rimos, choramos e ele apresentou mais duas músicas, de agradecimento falando daquela colonia…
Ano passado, durante o Vale Festejar, fui ver o show do Erasmo Dibel… chamei o apresentador – ex-aluno – e disse para ’sanaear’ o erasmo, anunciando Erasmo Fogoió… ele subiu ao palco e perguntou que havia contado o apelido de criança… só pode ser o Professor… e, dedilhando o violão, disse: Professor, essa é pelos bons tempos – e cantou o Tocantins…
Pois é. JoãoZinho, Erasmo teve escola – pública, mas teve. Hoje é um dos mais consagrados artistas maranhenses… talvez voce o tenha ouvido/visto quando de sua passagem por Imperatriz…

Leopoldo

Por Leopoldo
em 30-07-2010, às 17:40.


Não vi o Dibel não Leopoldo, mas já vi tantos deles por aí. Sabe Leo, estou feliz por reaprender o jeito de dar aulas para as crianças e os adolescentes. A cada Caravana dou aula para centenas deles e isso é uma graça. É meu alimento atual.

Por João Freire
em 30-07-2010, às 18:52.


JoãoZinho
Quando voce aprendeu a andar de bicicleta? esqueceu? ainda nada? quando fica um tempon parado, tem que reaprender?
Depois, como voce mesmo ensina, cada aula, é uma nova aula… novas oportunidades, novos ‘publicos’… Já ensinava Hesse, em Damian: não se pode observar o mesmo rio duas vezes… além do que, o que fazemos com e por amor, não importando o tempo, não se esquece e sempre se acrescenta mais alguma coisa. A diferença entre ‘professor’ e ‘mestre’… o amor com que se dedicam aos grandes projetos de vida – ensinar crianças… e todos somos crianças, não importa a idade…

Por Leopoldo
em 31-07-2010, às 11:05.


Olá professor João!

Ao ler este texto me lembrei bem do Elias, principalmente no momento da despedida, no qual ele ganhou a camiseta e o boné.
Após a viagem da Caravana eu me senti diferente. Eu nunca fui um alienado, tão pouco alguém sem coração, mas essa experiência foi mesmo forte. Na volta a São Paulo fui rever alguns amigos que me convidaram a um passeio pela rua Oscar Freire, uma rua cheia de lojas caríssimas e pessoas com muito dinheiro. Dessa vez o choque foi grande, depois de sair de um extremo ao outro muitas questões passam pela minha cabeça. E por isso fiquei tão feliz de participar do projeto, por me sentir contribuindo para uma mudança efetiva na vida do Elias e de outras pessoas que estavam ali conosco.

Por Lumineiro
em 1-08-2010, às 2:14.


JoãoZinho
Quando faziamos os preparativos para participar do Projeto Rondon, havia um seminario sobre choque cultural. O que era nossa vida e o que iriamos encontrar. Nada mais errado. O choque se dá na volta!!! depois de 30 dias vivendo nesses rincões, a volta à ‘civilização’ choca!!! e sempre olhamos para a esquina, para ver se o carro vermelho do Rondon estará lá… a cor das pessoas, com que cruzamos pelas ruas, choca; assim como as facilidades de que se dispoem nas cidades…
Choque cultural… se dá na volta!!!

Leopoldo

Por Leopoldo
em 3-08-2010, às 9:55.


Sabe Leo, nunca achei ruim a pobreza. Nunca gostei foi da miséria. Ser pobre tendo o suficiente seria o estado normal de todas as pessoas do mundo se tudo fosse dividido. Ser pobre permite comer bem, permite a festa, permite viajar, permite cinema, esporte, etc. etc. Isso não é possível para a esmagadora do mundo porque o mundo é do jeito que é, tudo mal dividido. E você tem razão, choca mais voltar dos rincões e ver a opulência em alguns lugares. É terrível.

Por João Freire
em 4-08-2010, às 11:03.


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