Nossa natureza selvagem
Andei passeando pela Paraíba, primeiro João Pessoa, depois o sertão. Fiquei impressionado com o que vi na praia do Jacaré. Explico: décadas atrás, quando eu morava em João Pessoa, um sujeito dono de um boteco, inventou de, faltando 18 minutos para o sol se pôr, colocar na vitrola o Bolero de Ravel. A música dura exatos 18 minutos; seu final coincidia com o pôr-do-sol. A coisa pegou, o tempo passou e o evento virou uma atração turística. A praia do Jacaré é ao contrário; o mar dá uma volta e o sol se põe no mar, que nesse lugar está a oeste. Estive lá agora. Mal dá para andar, de tanta gente. No lugar do boteco, restaurantes, feirinhas, bares, gente, gente, gente, natureza depredada, um monte de lugares tocando boleros de Ravel. O ser humano é assim: ele chega num lugar lindo, selvagem e logo pensa: “que lindo! Quero um pedaço disso para mim”. E vai comprando, e construindo, e destruindo. No lugar da natureza selvagem que ele comprou, ele coloca sua natureza selvagem predadora, aquele pedaço de nós que destroi, que é ruim, que é perverso, e que convive com nossa natureza selvagem produtora, boa, que constroi. Que coisa: a natureza selvagem de bichos, plantas, águas, ventos, tão bonita, tão boa (apesar de haver também os terremotos, e maremotos, e vulcões, etc.), acaba sendo substituída pelo mais refinado produto de nossa natureza selvagem predadora e dá no que está dando: um Bolero de Ravel na praia do Jacaré insuportável, praias poluídas, aquecimento global, trânsito engarrafado, etc., etc. Precisamos de doses cavalares de boa educação para aprender a colocar para fora nossa natureza boa.
Publicado em 26.01.2010.
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Por João Freire
