Claro que, hoje em dia, os jovens me colocam na velha guarda. Mas a velha guarda para mim eram aqueles que já faziam as coisas da Educação Física, já tinham nome quando comecei. Depois, nos anos 1980, veio uma geração que, de certa maneira, reinventou a Educação Física. Uma boa geração, vigorosa, mas que cometeu seus erros, como todo mundo comete: passou a negar tudo que havia e passou a cobrar que cada palavra em aula, cada passo, tivessem por trás um compêndio teórico e um manancial ideológico. Mas a velha guarda tinha suas razões. Por exemplo, a Educação Física era ministrada no mesmo período das demais disciplinas. O professor de Educação Física era uma pessoa importante na escola. Se ventasse, fizesse frio, calor, ou se chovesse, ainda assim havia aula de Educação Física. Ninguém jogava uma bola para os alunos e virava as costas. Essa velha guarda dormia em paz porque acreditava, sem qualquer dúvida, que Educação Física era uma coisa que se fazia para as pessoas terem saúde e disciplina. Pronto! Problema resolvido. Só que o mundo mudou e a velha guarda, com raras exceções, não acompanhou. Essa velha guarda não acompanhou as mudanças, mas guardou o medo de que os novos fizessem uma Educação Física vazia de conteúdos. Esse medo tinha fundamento. Eu mesmo vi coisas terríveis feitas pelos jovens daquela época. Por exemplo, me convidaram para um encontro de dança em que não se dançava, só se falava. Um outro dava uma aula para adultos, em que os alunos corriam como sempre se correu no mundo. No fim ele sentava com os alunos e fazia um discurso sobre as pragas do capitalismo. Outros levavam um monte de brincadeiras para as crianças e se divertiam com elas, mas não davam aula. O desafio, portanto, permanece. E o medo da velha guarda é compartilhado por mim. Medo de que a Educação Física perca sua cara. E sabem qual a cara da Educação Física? É aquela que se vê quando a gente passa por uma aula e não tem dúvida de que é de Educação Física, porque tem corridas, bolas, gritos, jogos, exercícios. Se eu, professor, pretender tornar uma pessoa mais inteligente, fazer com que seu pensamento se fortaleça, tenho que fazê-lo com brincadeiras de amarelinha, jogos de futebol e voleibol, exercícios de alongamento, etc. Se eu quiser alunos críticos, isso terá que ser feito com a cara da Educação Física, com jogos de bola, saltos, rolamentos, ginástica. Acho que já podemos desconfiar que o segredo está, não tanto nos conteúdos, mas no método. É o método que carrega nossas intenções, que considera aquilo que o aluno é, que está bêbado de ideologia, mas também de teoria e ética. É a ética que controla a ideologia que, às vezes, cega. Meus caros amigos, vamos tentar fazer Educação Física com cara de Educação Física, para que os da velhíssima guarda possam dormir em paz.
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Tem gente que condena o professor das antigas que desenvolve suas aulas com uma cara bem formatada, sem muito espaço para novas tendências. Eu, assumindo-me da nova geração, prefiro um professor que trabalha, mesmo que um pouco ultrapassado, do que o novo crítico que quer beber de tudo aquilo que ouve, vê e lê, desconsiderando que a Ed Física é maior e anterior a muito do que ele sabe… Quando falo disso, lembro sempre das minhas aulas, não esqueço que já fui aluno e queria ter aula, não bate bola, nem ficar sentado ouvindo por mais uma aula.
Por Guilherme
em 24-02-2010, às 20:01.