Nas asas da aviação

Estou chegando da Paraíba. Os relatos e fotos de João Pessoa e do Cariri, mostro depois. No momento estou no aeroporto. Viajo muito e acho o avião uma fantástica invenção. Mas, como sofro nas garras da Gol e da Tam! Hoje foi a Gol, aquela empresa que inventou a refeição universal, perfeita: um pacotinho de biscoitos, pequenininhos e bonitos, do tamanho de uma moeda de dez centavos. Serve como café da manhã, como almoço ou como jantar. A qualquer hora do dia ou da noite, tome de biscoitinhos. Hoje saí de João Pessoa às quatro e cincoenta da madrugada, doido para chegar em casa; eu chegaria em Floripa às doze e trinta. Porém, atrasa aqui, atrasa ali, chegando em Guarulhos, perdi a conexão. Não esperaram por mim. E aí me botaram num voo às cinco e dez da tarde. O pior é que, na escala em Brasília avisei um funcionário que talvez eu perdesse a conexão. Havia um voo de Brasília para Floripa, mas ele nem deu bola e me garantiu que, em hipótese alguma eu perderia a conexão Guarulhos, Floripa. Ele errou e eu me ferrei, E agora estou aqui, esperando o das cinco e dez, numa viagem que, se não der mais nenhum problema, terá a duração de 13 horas mais ou menos. É isso que dá, num país capitalista, não haver concorrência.

Paraíba masculina

Sabem o sentido daquela música “Paraíba masculina, mulher macho sim senhor”? É porque, antigamente, a capital do Estado da Paraíba era a cidade da Paraíba, e não João Pessoa. A valentia da cidade num episódio histórico a fez ser chamada de cidade macho, valente. Depois da morte de João Pessoa, a capital mudou de nome. Pois é, estou aqui, em João Pessoa. Enquanto escrevo, vejo da janela em frente, o mar verde e lindo de João Pessoa. Hoje e amanhã fico por aqui. Sábado vou para Campina Grande; segunda-feira vou para o sertão do Cariri, cidade de Coxixola. Seis dias de férias, a maior parte do tempo no Cariri. Depois eu conto sobre Coxixola.

Ainda Dona Zilda

Dona Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti esta semana, foi uma grande pedagoga. Coordenadora da Pastoral da Criança, era responsável por milhares, eu disse, milhares de comunidades. Nessas comunidades, a mortalidade infantil tinha níveis europeus. Mas teve uma coisa que ela criou fantástica: instituiu que as mães deveriam pesar seus filhos a cada 15 dias. Isso criou um enorme orgulho nas mães ao verem que tomar cuidado com as crianças aumentava seu peso, sua saúde, diminuía a mortalidade. As mães passaram a ter uma auto-estima melhorada e, com isso, passaram a cuidar muito melhor de seus filhos. Anos mais tarde ela criou também a Pastoral do Idoso e instituiu o hábito dos tomarem um litro e meio (se não me engano) de água por dia. Isso fez os idosos se cuidarem mais, prestarem mais atenção neles mesmos.

Morre uma das maiores brasileiras

Morreu, vítima do terremoto no Haiti, Dona Zilda Arns, uma das pessoas mais importantes, mais produtivas, que mais ajudou este país a ter alguma decência. Foi ela quem disse que a economia devia ser atrelada às questões sociais, e não o contrário. Dona Zilda era candidata permanente ao Nobel da Paz. Todos perdemos. Que sua vida de fantásticos exemplos fique em nossa memória e nos oriente.

O preço do amor é a eterna vigilância

O preço do amor é a eterna vigilância…pelo menos para muitos casais. Depois de juras de amor eterno e incondicional durante algum tempo de namoro, os casais se juntam, casando ou não. E aí começa a ciumeira, a vigilância. Que o outro não dê nenhum passo sem prestar contas, sem ser vigiado. E tome de olhar o celular, a carteira, as gavetas, os fios de cabelo, os perfumes, os olhares, as rugas na testa, coisas que fariam corar Sherlock Holmes. E aquele amor incondicional do começo vai virando o inferno que levará ao desmanche ou ao mais letárgico dos conformismos. O casal acaba dedicando boa parte de sua vida para acabar com a vida do outro. “Quem ama não mata”.

Quem ensina tudo…novamente

Uma das coisas que dá credibilidade às disciplinas de sala de aula é a afirmação de seus conteúdos. Matemática, Geografia, Português possuem, para cada ano escolar, um corpo definido de temas a serem trabalhados com os alunos. Acho a educação feita em sala uma coisa terrivelmente medieval; não acredito que algum dia a educação terá sucesso enquanto tratar pessoas como prisioneiras, sem considerar seus gostos, interesses, necessidades, etc. A arquitetura escolar é equivocada. Porém, ter um corpo definido de temas é muito interessante. Esses temas constituem a cultura dessas disciplinas. Nada impede que a Educação Física também os tenha. Qual seria a cultura da Educação Física? Simplesmente tudo aquilo que pôde ser incorporado a ela ao longo da história. Por exemplo, não é exatamente o esporte que é tema da Educação Física, mas esporte enquanto tema de ensino, de aprendizagem, de educação. O esporte tem sua cultura própria, mas a Educação Física o tem como sua cultura na medida em que o incorpora para ensiná-lo às pessoas. O Coletivo de Autores chamou esse corpo de conteúdos de cultura corporal de movimento, um bom nome, mas eu o chamo de cultura da Educação Física, uma cultura dinâmica, que vai incorporando aquilo que lhe compete ensinar. Na Educação Infantil, por exemplo, há toda uma gama de temas que podem ser incorporados, em harmonia com o desenvolvimento das crianças nesse período de vida: rodas cantadas, atividades de sensibilização corporal (para desenvolver o conhecimento do próprio corpo), jogos simbólicos (ou faz-de-conta), jogos de construção, etc. No primeiro e segundo ano do Ensino Fundamental, temas como jogos simbólicos, jogos de regras, atividades de sensibilização corporal, brincadeiras populares, etc. Porém, esses temas, traduzidos em atividades lúdicas durante as aulas, carregam outros conhecimentos, que eu chamo de sub-temas, tais como habilidades motoras de locomoção, de estabilização corporal e de manipulação, habilidades sociais, habilidades perceptivas, habilidades esportivas, etc. Ou seja, dessa maneira, ou de outra qualquer que seja coerente, a Educação Física, uma vez que defina seus temas de trabalho, terá o que responder quando perguntarem o que ensinamos em Educação Física.

Quem ensina tudo…

Transcrevo e comento o comentário do Leopoldo:

Sempre trabalhei em uma escola profissional – Escola Técnica. O Planejamento era direcionado para as necessidades do exercício profissional. Segundo o curso, e as suas exigencias físicas… dava certo. Ainda dá certo…
E deixava claro que essa preparação física era necessária, especialmente para e no uso sadio do tempo livre…
As demais disciplinas tratavam do mundo do trabalho… a Educação Física,para além do mundo do trabalho, deve tratar do mundo do não-trabalho – o tempo livre, o lazer, a recreação…
Mas como educar para o lazer? parto de nossa querida Lenea Gaelzer… lazer: benção ou maldição?… Exemplo: Paraupebas-Pará, Vale (do Rio Doce): trabalho por turno, descanso, o que fazer no período de descanso? problemas: alcoolismo – os empregados reuniam-se no clube, e, como não sabiam o que fazer, faziam churrasco e bebiam… problemas sociais criados… mas e se tivessem sido educados para o uso do tempo livre? saberiam o que fazer? a importancia da condição física, para o exercício profissional – turnos de 24 horas – e o que fazer nas 48/36 horas de repouso?
Remeto aos 3D, de Dumazedier – sendo o ultimo D o que deve ser mais trabaklhado: desenvolvimento pessoal… recuperação da jornada de trabalho, descanso e desenvolvimento pessoal…
Temas e sub-temas a serem trabalhados: conhecimento sobre o próprio corpo; conhecimento de esportes; cultura corporal…
Lembro que nom inicio dos anos 80, século passado… – Laércio e eu, nessa discussão, ‘decidimos’ que devíamos trabalhar a cultura… como tema da Educação Física… fisiologismos à parte, o homem é um ser social… antropologia, no lugar da fisiologia…

Meu comentário: sempre que tivermos tempo livre, faremos algo para usufruir da vida, pois para isso nascemos. Creio que a maneira mais difícil de fazer isso é nada fazer, ficar completamente sem fazer nada. Isso requer um amadurecimento fantástico. Portanto, vamos nos pôr a fazer algo. Se não soubermos lidar adequadamente com o jogo, com o próprio corpo, etc., vamos fazer o que é mais fácil, ou seja, entregarmo-nos a qualquer coisa que venha de fora: beber, tomar drogas, comer como loucos. Para não fazer isso é preciso ter uma educação que mostre algo que fique no lugar disso, algo muito bom e que valha a pena. Penso que o jogo com atividade corporal é uma coisa boa, mas isso requer educação, requer boa condição física, requer boa auto-estima, etc. Ou seja, requer uma boa Educação Física desde a infância.

Revolução

Era assim a minha vida,

Pipa, esconde-esconde, pião,

A gente jogava bola,

Essa era minha revolução.

E foi desse jeito que eu virei gente. Aprendendo sem saber que aprendia, brincando, brincando e brincando, e só parando de brincar quando alguém, um adulto impedia, até para fazer o meu bem, mas eu não sabia. Eu parava de brincar e ia  cumprir as obrigações.

E me levaram para a escola,

Me ensinaram a lição,

De somar, multiplicar, escrever,

Não parecia uma revolução.

Quando menos percebi, assim de repente, virei gente grande, e caí no mundo. Tive a escola, e tive os amigos, meus irmãos e os meus pais. Depois veio o trabalho, logo cedo, e tanta gente diferente.

Nem sei como aprendi as coisas,

E aprendi a ganhar o meu pão,

O tempo foi passando,

E foi essa a minha revolução.

Temas e sub-temas

Ivan: não conheço a questão dos temas proposto por Coll, portanto, não posso comentar isso. Porém, quando, no livro Educação como prática corporal, eu e o Alcides falamos dos temas, o critério foi o seguinte: temas para nós, tanto na Educação Física, como na Matemática ou Geografia, etc., referem-se à cultura típica da área de conhecimento. Essa cultura deve ser ensinada aos alunos. O que é cultura típica da Educação Física? É aquela que, ao longo da história, foi incorporada por nossa área. Por exemplo, os esportes, a dança, as lutas, as ginásticas, as brincadeiras populares, a musculação, as corridas, etc. Não são conteúdos criados na Educação Física, eles têm vida própria, vivem sem a EF, mas, foram incorporados pela Educação Física para serem ensinados aos alunos. Da mesma forma os seres humanos desenvolveram a geometria, o cálculo, a álgebra, etc., e a disciplina Matemática incorporou esses conteúdos. Então, eles são os temas educacionais da disciplina. Esses temas são conteúdos culturais e são mais adequados, ora para um ano escolar, ora para outro. Por exemplo, rodas cantadas são mais adequadas para Educação Física Infantil e início do Ensino Fundamental que para o Ensino Médio. Quanto aos sub-temas, eles não dependem deste ou daquele ano escolar. São um substrato, são aquilo que formam a base dos temas e a base de um sistema educacional. No caso da Educação Física, chamamos de sub-temas as capacidades e as habilidades humanas, em qualquer dimensão (motoras, afetivas, sociais, etc.). Denomino habilidades aquilo que vira ação, que é visível, por exemplo, correr. A gente vê a corrida, constata fisicamente a corrida, ela é algo que se concretiza em ação. Denomino capacidade aquilo que não se vê, apenas se supõe. Por exemplo, não podemos ver a velocidade, mas apenas sua tradução, como as corridas. Não podemos ver a força, mas apenas o ato de levantar um peso. Ao longo da escolaridade, os alunos têm que desenvolver as capacidades e habilidades, quer sejam as motoras, como força, corridas, saltos, etc., quer sejam as afetivas, como a confiança, o respeito, o amor, etc. Essas capacidades e habilidades são realizadas nos conteúdos típicos da EF, nos temas, e efetivadas nas ações motoras, isto é, nos tipos de exercícios, nos tipos de brincadeiras, nos tipos de danças, e assim por diante.

Teo

Teo caiu do telhado / na boca da gata / foi salvo por minha mulher / foi parar na gaiola.

Quase esqueço: Teo é um filhote de canário da terra que caiu do ninho antes de saber voar.

Teo ficou uma semana na gaiola / comeu e bebeu / ficou forte e esperto / até aprendeu a voar.

Amanhã Teo fará sua primeira tentativa de voar para algum lugar para viver entre outros canários da terra.

Teo já sabe cantar / e é bravo / gosta de bicar meu dedo quando dou comida a ele.

Agora temos a cadeia completa: passarinho > gatos > cachorros. Até parece aquela história do homem que tinha que atravessar, de um lado para outro do rio, um lobo, um carneiro e um feixe de capim. Lobo come carneiro que come capim. Como atravessar todos sem deixar que um coma o outro?

Quando Teo voar por aí, não saberei quem é ele. Os canários da terra são muito parecidos. Cada um que cantar perto de minha casa eu imaginarei que é o Teo.

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