Blog do João Freire



Dona Noêmia e as tampinhas de garrafas

Na aula seguinte, Dona Noêmia prosseguiu usando tampinhas de garrafas na aula. Desta vez ela pediu que cada criança desenhasse no chão, com as tampinhas, a si mesma, do jeito que elas quisessem. Apareceram todos os tipos de desenhos: alguns pequenos demais, outros grandes demais, uns largos, outros fininhos, etc. Depois que terminaram, Dona Noêmia pediu que cada criança tentasse entrar e se encaixar dentro de seu desenho. Para muitos foi difícil, pois o desenho era muito pequeno ou muito estreito. Outros perceberam que sobrou espaço pois o desenho era muito grande. Em seguida pediu que saíssem do desenho e, se quisessem, refizessem o desenho. A maioria quis refazer o desenho. Aí ela pediu de novo que entrassem e depois saíssem do desenho.

Reparem que Dona Noêmia novamente conseguiu fazer com que as crianças voltassem a atenção para o próprio corpo por cerca de vinte a trinta minutos. Com isso, elas estavam aprendendo a conhecer o próprio corpo. Essa é uma diferença básica entre a psicologia e a pedagogia. No caso de Dona Noêmia, que não é psicóloga, ela estava munindo as crianças de recursos para formar um conhecimento do próprio corpo, estava praticando pedagogia. Se ela fosse psicóloga, estaria trabalhando com os desenhos para entender o comportamento das crianças, para analisar os desenhos, e assim por diante.

É mais grave torturar que dopar

Acho mais grave obter resultados à custa da tortura de crianças no esporte que o doping químico. Li um enorme relatório dos sulafricanos sobre o aumento do risco para crianças por ocasião de eventos como a Copa do Mundo (exploração sexual, trabalho infantil, etc.). No entanto, um dos grandes riscos para a infância quando se fala em Olimpíadas no Brasil, é a especialização precoce, os treinamentos torturantes com pequenos de seis, sete, oito anos de idade, é a morte da infância, consumida em exaustivas horas de treinamento.

Punição para as palmadas

Parece que a sociedade se alimenta de hipocrisias. A lei punirá pais que derem até pequenas palmadas em seus filhotes. Mas permitir que os filhos sejam torturados por técnicos desportivos desequilibrados, transportar os filhos em carros a 150 quilômetros por hora, quebrar o pau com a esposa na frente dos filhos, agredir torcedores adversários e xingar o juiz na frente dos filhos, isso pode. Nem palmada nem qualquer outra violência! Abaixo a tortura no esporte!

Subestimando o povo

Leio diariamente em jornais impressos e na Internet análises fantásticas sobre a atual situação política. Raramente encontro analistas que fazem suas análises do ponto de vista do povo. Sempre se pensou que o povo não pensa politicamente, que vai na onda, que obedece cegamente seus donos representados pela grande mídia, especialmente pela televisão. A Globo favoreceu a eleição do Collor, depois o derrubou. E parecia que o povo obedecia direitinho tudo que a Globo dizia. Nos últimos anos a Globo e outros grandes jornais fizeram de tudo para diminuir o atual governo. E agora, tudo indica que o povo não está obedecendo a Globo e outros veículos de comunicação. Vai votar diferente do que mandam os que acham que o povo não pensa. Há uma lógica nas decisões do povo, há uma inteligência que os analistas raramente entendem. É como aquela história de muitos intelectuais acharem que os professores comuns da rede, no seu dia a dia, só fazem as coisas mecanicamente. No entanto, fora os documentos oficiais curriculares, quem faz o currículo são os professores e professoras, no seu dia a dia, a cada instante. Quem prestar atenção no trabalho dos professores e professoras aprenderá muito sobre pedagogia.

Dona Noêmia e as tampinhas de garrafas

Aula no morro do horácioe

Na aula seguinte Dona Noêmia espalhou centenas de tampinhas de garrafas pelo chão e deixou, durante algum tempo, as crianças brincarem à vontade. Em seguida pediu que elas formassem duplas. Um dos alunos de cada dupla se deitaria no chão. Seu parceiro contornaria o colega deitado com as tampinhas. Terminado isso, o colega deitado teria que levantar sem desmanchar o desenho. Se tivesse muita dificuldade, poderia pedir ajuda ao colega para levantar. Feito isso, aquele que estava deitado teria que olhar o próprio desenho e dizer se parecia com ele. Em seguida teria que deitar dentro de seu desenho sem desmanchá-lo, com ou sem ajuda e, segundos depois, levantar novamente. Aí inverteriam: aquele que desenhou o colega se deitaria e seria desenhado na posição que ficasse, pelo colega.

Trata-se de um trabalho de conhecimento do próprio corpo. Durante todo o tempo que durou essa prática, Dona Noêmia fez com que a criança voltasse sua atenção para o próprio corpo. Ora, a gente aprende aquilo que é diferente e nos chama a atenção. Aquilo que é diferente cria algum nível de conflito. O conflito e a atenção produzem algo novo; no caso desta atividade, produz um certo nível de conhecimento sobre o próprio corpo. As pessoas precisam ter em seu processo de educação, ações que eduquem para o próprio corpo, para que elas conheçam melhor a elas mesmas. Muitas vezes a falta de conhecimento de si, a deformação da imagem corporal, produz distúrbios. Há doenças graves como a anorexia que decorrem dessa deformação da imagem. Além disso, o conhecimento de si produz uma originalidade, produz a imagem, o conceito de ser único, de ser inconfundível, e é isso que proporciona ricas trocas com os outros. Só quem se sabe diferente, único, original pode estabelecer as mais ricas trocas em sociedade.

Dona Noêmia e as tampinhas de garrafas

Vocês sabem que Dona Noêmia trabalha numa escola de periferia, e tem só um campinho de terra para dar aulas para seus alunos. E ela dá boas aulas, improvisa, cria, enfim, não fica choramingando as misérias e coloca a mão na massa. Dona Noêmia não retira do Estado a responsabilidade pela escola. Ela cobra o tempo todo, faz listas de materiais necessários para a Educação Física, reivindica uma quadra coberta, faz o que pode para cobrar as obrigações que todo governo tem para com as escolas. Mas não deixa de dar suas aulas quando o Estado falta. Além disso, há materiais didáticos que não estão à venda, como por exemplo,  parte do que ela usa nas Oficinas do Jogo. Ontem, um pouco antes de começar a aula, ela chamou as crianças e as convidou para dar um passeio pelo bairro. Pegou um saco grande de plástico e disse às crianças que iriam fazer uma coleta de tampinhas de garrafas. Olha, depois de trinta minutos de passeio, já tinham centenas de tampinhas no saco de plástico, de várias cores: amarelas, verdes, vermelhas, brancas e azuis. Pronto, já era possível dar uma bela aula com essas tampinhas. Amanhã eu conto como foi a aula. Adianto o tema: sensibilização corporal, mais especificamente, conhecimento do próprio corpo.

Uma nação brasileira

Há homens e mulheres brancos e brancas que se julgam superiores aos homens e mulheres negros e negras. Julgar-se superior quer dizer julgar-se ser mais humano, com mais direito à vida. A caminho do Brasil, desde que nestas terras chegaram os portugueses, quatro milhões de africanos perderam a vida, arrancados de suas nações. Outro tanto sobreviveu e, junto com os portugueses e os índios, mais tarde os italianos, os espanhois, os alemães, os ucranianos, os japoneses e tantos outros, formaram os brasileiros que somos, ou que tentamos ser. Foi muito tempo fazendo o Brasil; muito tempo e muito trabalho, muito suor, muita alegria e muita dor. Este país não é de ninguém, é de todos nós, é de todos os que constroem um pouco mais de Brasil a cada dia. Não há brancos superiores a negros, não há homens superiores a mulheres, não há intelectuais superiores a analfabetos, não há ricos superiores a pobres. É tempo de deixar para trás uma suposta elite que se sente dona do povo, é tempo de derrubar a casa grande e abrir as portas da senzala.

Madrugada no aeroporto

São quatro da madrugada. Estou no Rio de Janeiro, voltando de Quixeramobim, esperando o avião para Floripa, cheio de saudades de minha casa. Por sorte estou com o Wilton Santana aqui comigo, inventando conversas. O aeroporto está quase vazio, um sossego enorme. O Rio viveu um dia de pânico, tiroteios, invasão de um hotel. Desse jeito, como fazer Copa do Mundo e Olimpíadas?

Dia do desafio da escola

Proponho que nossas autoridades constituídas estabeleçam para um dia desses o “Dia do Desafio da Escola”. Nesse dia, no meio do período escolar, diretores e diretoras abririam portas de sala e portões de escolas e diriam para as crianças: “Fica quem quiser.” E aí a gente veria em quais aulas os alunos ficariam. Claro que, se ficarem, ficarão só naquelas aulas gostosas, nas aulas queridas, com professores e professoras queridas. Pronto, essas aulas seriam a referência. Aí as autoridades constituídas estudariam o que acontece nessas aulas de tão bom. E recomendariam que todos os outros professores e professores levassem isso em conta, que todos eles quisessem ser queridos por seus alunos. E diriam que a primeira coisa de uma boa escola é os alunos gostarem dela, é os alunos não quererem ir embora. A partir disso, nunca mais as salas e os portões seriam trancados.

Quixeramobim

Quixeramobim igreja

Estou em Quixeramobim, coração do Ceará, berço de Antonio Conselheiro. Lugar lindo, como todo o semi-árido nordestino. É quente, mas tem um vento maravilhoso. E a gente é boa, muito boa. Tenho 45 alunos aqui no curso de formação que estou ministrando. As horas passam voando, tal o empenho dos alunos.

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