Blog do João Freire



E agora, na Universidade, já não podemos dizer nada

DESPERTAR É PRECISO

Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

Eduardo Alves da Costa (alguns acham que esse poema é de Maiakovsky)

Foi assim com os cursos de pós-graduação em Educação Física na Universidade. O que aconteceu foi uma espécie de nova colonização. Chegaram os da Fisiologia, da Biomecânica, da Psicologia, da Bioquímica, os da Estatística, e disseram que aquilo que a gente fazia não era científico. Ciência era aquela coisa misteriosa, cheia de números, e por ser cheia de números, absolutamente confiável. Nós da Educação Física só sabíamos dar aulas, e quando escrevíamos só sabíamos fazer aqueles textos didáticos, falando de crianças, de sentimentos, de aulas, e isso não era científico. Se quiséssemos ser científicos teríamos que acreditar neles, e nós acreditamos. Passado mais algum tempo, se quiséssemos ser científicos teríamos que pesquisar, e pesquisar como eles. E nós acreditamos. Nada de fazer pesquisa com palavras, nada de pesquisa qualitativa. Só os números poderiam ser confiáveis. E nós acreditamos. Depois eles nos disseram que para sermos científicos teríamos que entregar o comando da Educação Física para eles, que eles cuidariam direitinho de nós. E nós acreditamos. E passamos a encher nossos textos de números e a publicar esses textos em revistas científicas absolutamente confiáveis e a vender até a nossa alma por alguns pontinhos que eles nos dariam para provar que somos científicos. Aí nos roubaram a lua e, conhecendo nosso medo, arrancaram-nos a voz da garganta. Hoje, na Universidade, nos cursos de pós-graduação, temos vergonha de dizer que somos professores de Educação Física.

Gastos com a Copa do Mundo: deu no Kigol.com.br

O amigo Luis enviou esta matéria. Confiram:

Segundo matéria publicada no jornal LANCE!, uma planilha do Ministério do Esporte mostra que até junho de 2011 a previsão era de que se gastasse R$ 24 bilhões em toda a estrutura para a Copa-2014. No entanto, o Governo Federal já trabalha com o valor de R$ 40 bilhões, e as cifras não param de subir.

No projeto inicial estava previsto um investimento de cerca de R$ 6 bilhões de reais com os aeroportos, mas esses gastos podem ficar em R$ 10 bi. Com os estádios ocorre o mesmo problema. Inicialmente a previsão era gastar também aproximadamente R$ 6 bi neles, mas todas as arenas estão custando mais que o previsto, e já se fala em mais de R$ 8 bi para concluir todas.

A reforma do estádio do Maracanã, que receberá a final da Copa, estava orçada em R$ 600 milhões, mas a previsão oficial já ultrapassou os R$ 900 milhões e deve chegar, segundo o próprio governo, ao valor de R$ 1,1 bilhão. A explicação para o aumento do valor é que, entre outras coisas, não foi incluída a estrutura de concreto e instalações elétricas na previsão inicial dos gastos.

O Itaquerão, futuro estádio do Corinthians e que receberá a abertura da competição, também deve custar mais de R$ 1 bi. Outras arenas, como o Mineirão, e a Fonte Nova, na Bahia, também já tiveram seus custos excedidos em cerca de R$ 100 milhões cada.

Na Copa da Alemanha,em 2006, foram gastos 1,5 bilhão de euros – cerca de R$ 4,15 bilhões só com os estádios – metade do valor que está sendo gasto por aqui até agora. Na África do Sul, em 2010, foram gastos R$ 3,9 bi com as arenas. O Brasil já deveria ter aprendido a lição, pois vimos o mesmo fenômeno acontecendo no Pan-Americano disputado em 2007 no Rio de Janeiro, quando os investimentos deveriam ficar na casa dos R$ 500 milhões, mas chegaram aos R$ 4 bilhões, com a ajuda do governo.

O SIS e o combate ao Preconceito

Uma doença chamada Preconceito

Era uma vez um povo que vivia com muita harmonia e felicidade. Eram todos diferentes, mas isso não afetava a convivência, pelo contrário. Quando se vestiam, pois nem sempre andavam vestidos, usavam roupas que marcavam mais ainda suas diferenças. Por serem muito felizes, faziam muitas festas. A grande festa anual de celebração da vida para esse povo era o festival anual das diferenças. Vinham pessoas de todos os cantos do país, e cantavam e dançavam durante uma semana.

Porém, numa bela manhã de primavera, uma das moças da aldeia, enquanto passeava com seu cãozinho entre as montanhas, teve a atenção chamada por um pequeno e dourado curso d´água, desconhecido para ela. A moça abaixou-se e colocou a mão na água, sentindo sua temperatura fresca e agradável. Tão agradável que ela a levou à boca. Era deliciosa. A moça correu à aldeia para contar aos outros sua descoberta.

Ao chegar à aldeia, porém, teve uma surpresa. Estranhou serem as pessoas tão diferentes dela. Teve dificuldades para se aproximar de algumas e chegou mesmo a evitar o contato com várias delas. Contou sobre o rio dourado a uns poucos. E esses poucos, que ainda não haviam tomado da água, contaram a outros tantos, e todos se dirigiram às montanhas. E aquelas pessoas, encantadas com o pequeno rio provaram de sua água, o que lhes deu grande prazer. Na volta para a aldeia já não voltaram juntas, mas em pequenos grupos. Afastavam-se, sem saber por que, das que lhes pareciam mais diferentes.

Por serem pessoas de tradição muito pacífica, apesar da dificuldade de convivência que se instalou, não tomaram atitudes violentas. Mas a desconfiança e a tristeza se abateram sobre aquele povo. Preocupados, os sábios da aldeia se reuniram e convocaram os médicos do SIS – Sistema Integrado de Saúde, daquele lugar, para investigarem aquilo que parecia uma doença. Os médicos pesquisaram e descobriram que, de fato, havia algo naquela água que afetava a saúde das pessoas. Tudo indicava que o mal começava no intestino, mas chegava rapidamente ao cérebro. Batizaram a doença de Preconceito.

Imediatamente o SIS abriu uma linha especial de atendimento para combater o Preconceito, doença que, para eles, era até mesmo mais grave que o câncer. O trabalho dos pesquisadores prosseguiu até descobrirem que ao lado do riacho crescia uma erva que produzia um grão parecido com o trigo. Esse grão tinha propriedades que anulavam os efeitos do Preconceito. Ao mesmo tempo, desviaram o curso do riacho de modo que ele passou a correr sob a terra.

Meses depois o mal foi debelado pelo SIS e a população, livre do Preconceito, pôde voltar a conviver em harmonia.

Compromissos de homens públicos

Queiram ou não, os famosos jogadores de futebol tornam-se homens públicos, cujas atitudes refletem em milhões de pessoas, mais particularmente aquelas em formação, isto é, crianças e jovens. O cabelo do Neymar é hoje modelo para milhões e milhões. Porém, não pense ele que só o cabelo influencia; cada palavra sua, cada atitude ajudará a moldar comportamentos. Se isso não o preocupa (ele, Cristiano Ronaldo, Messi etc.), deveria preocupar seus dirigentes, seus técnicos. Por exemplo, o F.C. Barcelona ostenta em sua camisa a marca Unicef, portanto, técnico e jogadores assumiram o compromisso de ser éticos dentro e fora de campo. Quando pessoas se tornam públicas, passam a ter compromissos públicos. Particularmente eu gostaria que esses jogadores tivessem absoluta liberdade para fazer de suas vidas o que quisessem, mas não se trata da minha opinião, mas do papel que representam. Infelizmente, por muito tempo, alguns dos jogadores mais famosos do Brasil fizeram a apologia do banditismo. Passaram a achar “legal” ser amiguinhos de traficantes. Um deles foi preso por se envolver com o tráfico, outro fez um gol e homenageou um dos maiores traficantes da cidade, outro ligou, não para a polícia, mas para o amigo traficante ao testemunhar uma ocorrência, outro fazia festinhas gravadas com os amigos bandidos, outro apareceu em foto fazendo o símbolo de uma facção criminosa, um outro ainda fez jogo beneficiente para um bando criminoso. Esses episódios são alguns entre tantos. Tudo isso que fizeram refletiu entre milhões de crianças e jovens. Por qual motivo, após ficar famosos, esses homens não consideraram que suas atitudes dentro e fora do campo são pedagógicas? Pedagógicas para o bem ou para o mal. Quando um grande craque faz uma falta apitada pelo juiz e diz que não foi falta, ele mente. E milhões assistem sua mentira. Quando um outro ajeita a bola de mão e faz o gol, ele é desonesto, e comemora a desonestidade. Ou seja, homens públicos publicam o que quer que sejam que fazem, e isso é educação, queiram ou não queiram. Portanto, se estão expostos o tempo todo, é bom, no mínimo, assumir o que fazem e não posar de inocentes.

Caravana do Esporte em Viçosa do Ceará

Voçosa aula2A Caravana do Esporte em Viçosa do Ceará

A Caravana é um evento. Para deixar marcas um evento deve ser forte o suficiente para causar impacto duradouro, e isso é difícil; geralmente os eventos são passageiros. A Caravana permanece em um município durante três dias, durante os quais envolve milhares de crianças em atividades lúdicas, e centenas de professores. Procuramos tornar esse evento impactante o suficiente para deixar marcas fortes. Os diversos setores da administração pública se envolvem com a Caravana, faz-se uma abertura solene em praça pública e os integrantes da Caravana apresentam, inclusive, um espetáculo circense para as pessoas da cidade. Ou seja, realizamos ações que aumentem as chances de fazer com que a Caravana constitua um evento que deixe marcas duradouras.

Cada grupo de crianças permanece na arena de práticas por meio período do dia, passando por diversas estações de jogos. Em cada estação brincam durante cerca de 25 minutos, o que é insuficiente para desenvolver uma proposta pedagógica consistente, a não ser em termos gerais. A ideia é que se divirtam e se sintam incluídas nas atividades, geralmente, brincadeiras adaptadas dos esportes. É apenas para saberem que o esporte pode ser praticado por todas elas. Brincam de voleibol, brincam de basquetebol, de atletismo, entre outras modalidades, além de praticarem diversas brincadeiras populares. As aulas seguem um roteiro orientado pela metodologia de aulas observada no Instituto Esporte Educação, até onde isso é possível em tempos tão curtos. Mas que seja forte o suficiente para ficar na memória dessas crianças.

Em outro local, professores do município e vizinhança fazem três dias de formação, quando os princípios do esporte educacional, como são entendidos no Instituto Esporte Educação, são discutidos. No terceiro dia de formação, os professores, reunidos, primeiro em pequenos grupos, depois num grande grupo, constroem um plano político pedagógico, um projeto que integra um conjunto de ações possíveis para dar continuidade aos trabalhos da Caravana do Esporte. As ações desse projeto são viabilizadas nos chamados Núcleos-Movimento. Cada município pode ter um ou mais núcleos.

As ações, na área do esporte e da arte, realizadas nos núcleos, darão preferência às crianças e aos jovens, sem excluir outras possibilidades. Os conteúdos dessas ações são atividades lúdicas, de vários tipos. Os professores que dirigem e organizam os núcleos são escolhidos durante a realização do plano. Cada núcleo terá suas características, de acordo com as circunstâncias do local. Mas todos seguem os mesmos princípios, que são:

Inclusão de todos: ou seja, as atividades do núcleo têm que ser inclusivas. Não se pode fazer esporte seletivo e excludente. Portanto, os professores devem ser competentes para ensinar a todos.

Construção coletiva: a formação nos núcleos é para a cidadania, para ensinar as pessoas a viverem com dignidade, com responsabilidade. Isso supõe atividades cooperativas. O que define isso é o método, o modo de praticar os jogos.

Respeito à diversidade: em hipótese alguma poderá haver desrespeito às características individuais. As pessoas participarão das atividades dos núcleos não importa qual seja sua religião, sua cor, sua opção sexual e assim por diante.

Educação integral: integral no sentido de ser de corpo inteiro, de não existirem práticas que não sejam refletidas, compreendidas. Não nos interessa o fazer sem o compreender.

Autonomia: a idéia veiculada pela Caravana do Esporte não supõe formação que não aponte na direção da autonomia. Os seres humanos, por sua natureza, sempre precisarão uns dos outros, mas autonomia é outra coisa; autonomia é a condição de ser capaz de decidir as coisas conscientemente, e eticamente. Ser autônomo é ser responsável, é ser ético, é se responsabilizar pela própria vida e pelas vidas dos outros.

A Caravana do Esporte e da Música é muito mais que isso. Envolve muitos patrocinadores, envolve o Unicef, o Instituto Esporte Educação, o Instituto Sol da Liberdade, a ESPN Brasil. Mas tudo isso não caberia no espaço restrito de um blog.

Orgulho brasileiro

Viajei pouco ao exterior, mas, eventualmente estive na Europa algumas vezes, a primeira na década de 1970. Era terrível constatar o preconceito com que os brasileiros eram tratados. Mês passado fui a alguns países europeus. Onde eu me identificava como brasileiro, em restaurantes, na rua, museus, surpreendeu-me a maneira respeitosa como fui tratado. Muitos se apressavam em falar do Brasil como a esperança do mundo para os próximos anos. Nos anos 80 e 90, quando eu dizia que era do Brasil, além do preconceito, logo se seguiam os comentários sobre futebol, e o nome mais mencionado era Pelé. Mudou; agora o nome que mais mencionaram nesse tipo de conversa foi Lula.

Pequenas mentiras, grandes verdades

Pequenas mentiras, grandes verdades

Nosso jovem craque de futebol, embora quase um menino – tem apenas vinte anos – já é um ídolo. Arranca lágrimas às pequenas adolescentes, define o jeito de vestir e pentear de menininhos, tem os gestos imitados por garotos imberbes e excita a gula dos predadores sempre a rodear as presas, e que respondem pelo nome de empresários, dirigentes, tios, irmãos e pais.

Quer ser como os meninos de sua idade, mas não pode ser como eles, porque não pode mais ficar sozinho no meio das pessoas sem ser tocado, empurrado, rasgado. Quer passear com eles, festejar com eles, beber com eles, mas não pode. Quer transar com todas as meninas que voam em torno dele como mariposas em torno de lâmpadas, mas seus predadores o rodeiam e fazem um escudo para que as meninas não tenham filhos dele e o patrimônio precoce tenha que ser dividido em pensões milionárias.

Nosso pequeno grande ídolo então faz a festa com os que estão mais próximos, e tudo tem que ser escondido, e tudo tem que ser secreto. Ele é do bem, mas os do bem também bebem suas cervejas quando acontecem as festas. E os seus predadores estão sempre por perto vigiando e ensinando o menino craque que ele nunca, mas nunca mesmo, deve dizer ao público que bebe cerveja, que passa a noite na festa, que transa com as meninas, porque ele é um jovem craque do bem que deve mentir para o bem.

Todo mundo, e todo mundo são as menininhas que choram por ele, os meninos que imitam o que ele faz, os velhos e velhas que se irritam com seus modos, acreditarão nas suas mentiras, porque as mentiras bem ditas são realmente verdades. E todo mundo achará que ele bebe suas cervejas e faz festas e transa com as meninas, mas acreditará quando ele disser que isso ele não faz, que ele é uma verdadeira perfeição moral a dar para os que o seguem o grande exemplo do homem que querem que ele seja. Um grande homem moral, que bebe e faz festa e transa, embora minta sobre tudo isso. Porque mentir pode e dizer a verdade sobre todas essas coisas e mostrar a humanidade congênita que o acomete, isso sim, não pode. Porque não são os predadores que o rodeiam, não são os políticos, não são os juízes que devem dar o grande exemplo moral, mas ele, porque ele será seguido por todos os meninos e menininhos, pelas meninas, pelos velhos e pelas velhas que se irritam com ele, e que precisam acreditar que aquela cerveja que ele bebe e lhe faz tão bem, ele não bebe.

Futebol de rua: o futebol de três tempos

Particularmente acho que a escola, do jeito que atua, não formará cidadãos. Uma instituição que define como objetivos ensinar conteúdos de matemática, física, química, educação física etc., não pode desenvolver consciências. A escola deveria ensinar os grandes temas da vida, tendo as disciplinas como ferramentas. Melhor dizendo, a consciência ética deveria ser protagonista na escola e as disciplinas coadjuvantes. Porém, a escola é um bloco sólido e predomina na formação das pessoas. Existem milhares de entidades educacionais fora da escola, algumas fazendo trabalhos muito bons, mas são dispersas e não definem a formação do cidadão. Seria necessário que as boas iniciativas de educação se juntassem. Transcrevo abaixo, o modo de educar do Instituto Formação, de São Luiz no Maranhão, entidade que integra um movimento muito interessante de educação esportiva, abordando principalmente o futebol. Há um belo movimento no Brasil e em outros países chamado Futebol de Rua, ou Futebol de Três Tempos.

“A metodologia do futebol de rua consiste na utilização do esporte como ferramenta pedagógica que contribui para o desenvolvimento social dos sujeitos que se envolvem com esta atividade.

O Futebol de rua tem como características principais: a realização de três tempos de jogo; ausência de árbitro (os próprios jogadores regulam o respeito às regras estabelecidas); as equipes de jogadores são mistas, homens e mulheres jogam ao mesmo tempo; os espaços de realização dos jogos são variados: em campos, ruas, quadras, respeitando o contexto local; se somam pontos, além dos gols, com jogo limpo.

Durante a realização dos três tempos, desenvolve-se uma prática pedagógica e democrática. No primeiro tempo, realiza-se a discussão e estabelecimento das regras; no segundo, realiza-se o jogo propriamente dito e no terceiro tempo ocorre uma reflexão coletiva dos jogadores sobre as regras estabelecidas no primeiro tempo, sobre condutas adotadas durante a prática e a construção de posturas éticas frente aos acordos (regras) estabelecidos coletivamente.

Este processo de trabalho permite desenvolver uma metodologia abrangente que fomenta uma cultura de valores éticos, desde a prática de normas de convivência à resolução de conflitos; recupera a essência real do futebol como jogo alegre e solidário, atribuindo maior importância à participação em lugar da competição; cria espaços de mobilização, integração, decisão nos quais se favorece a autonomia dos sujeitos, em lugar de sua subordinação a regras arbitrárias.”

Como me formei professor 8

Como eu ia dizendo, saí da USP, de S. Bernardo do Campo, e fui para João Pessoa, na Paraíba. Eu tinha uma enorme atração por essa cidade. Uma vez fui visitar um amigo de lá e passamos uma manhã de domingo na praia de Manaíra. Detalhe: quando me dei conta, estávamos há umas duas horas conversando com água pelo peito, água quentinha, água verde. Fiquei encantado e disse para ele que precisava morar num lugar daquele. Depois conheci uma feira que tinha as coisas todas expostas no chão: inhame, pimentão, melancia, macaxeira, feijão verde. Pronto! Era ali que eu queria viver. E fui. Eu e minha esposa na época, Silvana, fomos contratados e começamos uma carreira de professores universitários. Isso foi em 1977. Comecei a dar aulas, me apaixonei por meus alunos paraibanos e passei a ajudar nos treinos da equipe de Atletismo da cidade. Logo me envolvi com as questões políticas locais. Era um tempo em que a ditadura militar esmorecia a olhos vistos. O país estava à beira da falência. As obras faraônicas dos dirigentes militares acabava com as finanças do Brasil. Não tinham competência para administrar o país, embora mandassem com mão de ferro e atos extremamente violentos. Quanta gente perdeu o emprego, foi presa, torturada, exilada ou morta porque tinha ares subversivos. Porém, lá em João Pessoa resolvemos fundar a Associação dos docentes da Universidade Federal da Paraíba, a Adufpb e começamos o primeiro movimento de protesto de professores universitários depois do AI-5. Foram muitos anos de movimentos, greves prolongadas, sofrimento, até que conseguimos a organização da carreira docente que deu um mínimo de dignidade aos professores das universidades federais. Em 1978, quando fundamos a associação, resolvemos fazer uma greve contra a situação dos professores da universidade e contra os desmandos da ditadura. Foi difícil porque os professores estavam desacostumados com movimentos políticos e com medo da ditadura. Parar as aulas não foi fácil; fizemos piquetes e muitas vezes invadimos aulas e paramos as atividades de forma bem pouco acadêmica. Mas funcionou e ganhamos status político. Eu não tinha mestrado, porque tinha tentado entrar no curso de pós-graduação da USP mas não fui aprovado. Passei a não me preocupar mais com isso e só pensava em dar aulas, dar treinos e fazer política. A parte de como voltei a estudar conto depois.

A pobreza da educação mundial

As boas realizações educacionais no mundo são raras. Constituem, geralmente, exceções, quase sempre em escolas particulares; uma ou outra em escolas públicas. De modo geral, confundimos educar com ensinar os conteúdos típicos das diversas disciplinas. Achamos que educar bem um aluno na escola é fazê-lo aprender o suficiente de português, matemática, geografia ou história. Claro que educar bem é um conceito que depende do ponto de vista de cada pessoa ou instituição. Tenho por mim que o plano de poder mais diabólico que já se concebeu foi educar a população de modo que ela engolisse conteúdos e nunca tivesse acesso à consciência. A consciência conduz às reinvidicações por partilha de bens, de direitos, de oportunidades. A consciência conduz à divisão do poder, e isso os poderosos não podem admitir. Portanto, do ponto de vista desse poder, aprender os conteúdos das disciplinas é um bom objetivo. No entanto, de meu ponto de vista, e de outros, educar é mais que isso. Talvez aprender os conteúdos das diversas disciplinas seja mesmo imprescindível, mas não pode ser um fim da educação. O fim deve ser a consciência. Consciência no sentido de autogoverno. A pessoa consciente  se autogoverna, embora respeitando os governos de todas as outras pessoas, e os governos institucionais justos. A pessoa consciente governa suas ações, e não é governada por elas. A pessoa consciente segue regras justas, mas não se deixa conduzir cegamente por elas. Portanto, não se trata de simplesmente aprender conteúdos de química, física ou educação física. O problema é o modo como esses conteúdos são ensinados, e o modo é o método, isto é, um método que conduza à conscientização.

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