Aos professores de educação física

Vocês acham Educação Física uma coisa boa? Vocês praticam Educação Física?

Sobre o amor

Escrevo de São Paulo, onde participo do seminário de metas do Instituto Esporte Educação, uma das ONGs mais importantes do Brasil, que busca contribuir com a formação da cidadania no Brasil, recorrendo particularmente ao esporte como mote dessa educação. Betânia, uma das coordenadoras e querida amiga, pediu-me para falar às pessoas sobre o amor. Eu disse aos professores que amor é, por exemplo, ter um emprego no Instituto Esporte Educação, receber um salário de R$ 1.500,00 e fazer um trabalho que vale três mil, cinco mil, dez mil. Amor é esse dar algo de si sem nada em troca. Quanto damos de nosso trabalho sem cobrar, para que outros vivam melhor, para que haja mais justiça, para que haja mais dignidade, para que haja mais cidadania. Convido-os para conhecer o maravilhoso trabalho que o Instituto Esporte Educação faz em vários lugares do Brasil. O Instituto é uma criação genial de uma mulher maravilhosa, a Ana Moser, uma pessoa verdadeiramente amorosa.

Serviços de inteligência

No tempo da ditadura militar brasileira, falava-se o tempo todo de serviços de inteligência. Sabem o que isso significava? Inteligência, nesse caso, significava crueldade, tortura, sadismo, intolerância, preconceito, patologia mental, etc.

Campeões de desigualdade

Saiu o índice de desigualdade social no continente americano. Somos campeões. Mais desiguais, por exemplo, que Guatemala, Honduras, Colômbia, Bolívia, Nicarágua, e por aí afora. E continuamos adiando um projeto nacional de educação.

Jovens, envelheçam sem pressa

Nelson Rodrigues tornou célebre a seguinte frase: “Jovens, envelheçam!”. Eu a reformularia: “Jovens, envelheçam, mas não tenham pressa.”  Não tenham pressa porque a velhice sempre chegará, é inevitável, e guardará uma enorme saudade da juventude. Envelhecer para ser sábio? Envelhecer para ser sóbrio? Envelhecer para ser equilibrado? Mil vezes negaremos a sabedoria, mil vezes negaremos a sobriedade, mil vezes negaremos o equilíbrio… para ser jovem. Não é ruim ser velho, mas…que saudade daquelas pernas fortes, daquela pele viçosa, daquela irresponsabilidade, daquelas paixões selvagens. Adoro a idade que tenho, mas nunca, nunca mesmo, digam que estou na melhor idade. Não me serve de consolo.

Razões da velha guarda

Claro que, hoje em dia, os jovens me colocam na velha guarda. Mas a velha guarda para mim eram aqueles que já faziam as coisas da Educação Física, já tinham nome quando comecei. Depois, nos anos 1980, veio uma geração que, de certa maneira, reinventou a Educação Física. Uma boa geração, vigorosa, mas que cometeu seus erros, como todo mundo comete: passou a negar tudo que havia e passou a cobrar que cada palavra em aula, cada passo, tivessem por trás um compêndio teórico e um manancial ideológico. Mas a velha guarda tinha suas razões. Por exemplo, a Educação Física era ministrada no mesmo período das demais disciplinas. O professor de Educação Física era uma pessoa importante na escola. Se ventasse, fizesse frio, calor, ou se chovesse, ainda assim havia aula de Educação Física. Ninguém jogava uma bola para os alunos e virava as costas. Essa velha guarda dormia em paz porque acreditava, sem qualquer dúvida, que Educação Física era uma coisa que se fazia para as pessoas terem saúde e disciplina. Pronto! Problema resolvido. Só que o mundo mudou e a velha guarda, com raras exceções, não acompanhou. Essa velha guarda não acompanhou as mudanças, mas guardou o medo de que os novos fizessem uma Educação Física vazia de conteúdos. Esse medo tinha fundamento. Eu mesmo vi coisas terríveis feitas pelos jovens daquela época. Por exemplo, me convidaram para um encontro de dança em que não se dançava, só se falava. Um outro dava uma aula para adultos, em que os alunos corriam como sempre se correu no mundo. No fim ele sentava com os alunos e fazia um discurso sobre as pragas do capitalismo. Outros levavam um monte de brincadeiras para as crianças e se divertiam com elas, mas não davam aula. O desafio, portanto, permanece. E o medo da velha guarda é compartilhado por mim. Medo de que a Educação Física perca sua cara. E sabem qual a cara da Educação Física? É aquela que se vê quando a gente passa por uma aula e não tem dúvida de que é de Educação Física, porque tem corridas, bolas, gritos, jogos, exercícios. Se eu, professor, pretender tornar uma pessoa mais inteligente, fazer com que seu pensamento se fortaleça, tenho que fazê-lo com brincadeiras de amarelinha, jogos de futebol e voleibol, exercícios de alongamento, etc. Se eu quiser alunos críticos, isso terá que ser feito com a cara da Educação Física, com jogos de bola, saltos, rolamentos, ginástica. Acho que já podemos desconfiar que o segredo está, não tanto nos conteúdos, mas no método. É o método que carrega nossas intenções, que considera aquilo que o aluno é, que está bêbado de ideologia, mas também de teoria e ética. É a ética que controla a ideologia que, às vezes, cega. Meus caros amigos, vamos tentar fazer Educação Física com cara de Educação Física, para que os da velhíssima guarda possam dormir em paz.

Um grande amigo e um artista extraordinário

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O melhor trabalho educacional que fiz em minha vida foi em São Bernardo do Campo, de 1971 a 1977, em plena ditadura militar. Com meus companheiros, cuidei da educação de mais de cinco mil crianças e adolescentes. Ensinávamos esportes, teatro, música, capoeira, comemorávamos as festas populares e tínhamos biblioteca. Detalhe: não havia patrocínios de qualquer espécie, apenas os minguados salários que recebíamos, eu e meus companheiros de trabalho. Em 1974, cansados de ser escorraçados de clubes, fundamos o nosso e o chamamos de ASA, Associação Sambernardense de Atletismo. Os remanescentes se reúnem até hoje, para comemorar aquilo que foi tão importante na vida deles. Agora a prefeitura de São Bernardo, cujo prefeito é o Luiz Marinho, por sugestão do José Luiz Ferrarezi, secretário de esportes, conseguiu verba grande para fazer um estádio de Atletismo para o ASA. E no dia 6 de janeiro, fomos ao lançamento do projeto, que poderá ficar pronto em novembro ou dezembro deste ano. Acontece que, meses atrás, um grupo de jovens atletas do ASA, na melhor tradição do clube, amantes da boa música brasileira, foi a um show do Chico Cesar em São Paulo. Levaram uma faixa dizendo-se fãs do músico. No final, Chico quis saber o que era esse ASA. Os meninos e meninas explicaram, deixaram Chico Cesar entusiasmado por ver que tem gente que faz esporte educacional, que educa para a vida, e  perguntaram ao Chico por que ele não fazia um show para eles, na festa anual do ASA. Chico, com toda a sua bondade topou. No dia 6 de janeiro de 2010, saiu de João Pessoa, onde é o atual secretário de cultura, viajou a São Bernardo do Campo e deu um fantástico show para os jovens do ASA, sem cobrar nada. Eu já conhecia o Chico Cesar de João Pessoa, quando ele era bem jovem, e já sabia de sua bondade extrema, de sua lucidez. Durante o show, coisa mais linda, aquela juventude toda cantando todas as músicas do Chico. Ele se emocionou. Vida longa para esse maravilhoso músico. Aí na foto, eu, ele e minha esposa.

Ainda as férias

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Já escrevi que fui à Paraíba em janeiro, de férias. A última etapa foi em Coxixola, sertão do Cariri, um dos lugares mais bonitos do mundo. Foi bom ver aquele povo carinhoso, tranquilo, tendo, finalmente, boas condições de vida. Ninguém é rico, mas não se vê mais miséria. Trabalham com tecelagem, criam carneiros e bodes, cultivam pequenos pedaços de terra e se organizam em cooperativas, com água, fossas bem feitas, educação. Menos jovens têm saído para o Sul maravilha, preferindo ficar em sua linda terra. Coxixola não tem mais que dois mil habitantes, mas tem superpopulação de dignidade. Na foto, eu com meu amigo Zé Luiz, que fez um belíssimo trabalho educacional na cidade.

O que é ser um bom professor?

Principalmente quem estudou um pouco mais costuma ter essa mania boba de julgar o desempenho dos professores de escola, os que dão oito aulas por dia ou mais. Acho que dá para fazer algum julgamento sobre aqueles que são desonestos, que se recusam a trabalhar, os enganadores, mas, quanto aos demais, como julgar? Geralmente fala-se mal do trabalho que não bate com certas ideias, que não segue certas regras científicas, que não reza em determinadas cartilhas ideológicas. Porém, para entender o trabalho de uma professora ou de um professor, é preciso entrar na intimidade desses trabalhos. Qual o contexto em que dão aulas, como adaptam o que aprenderam no dia a dia da escola, como é feita a administração da escola, quem são os pais, quem são os alunos? Muitas vezes, aquilo que julgamos serem aulas ruins são, na verdade, as aulas possíveis. E há uma outra coisa: como os professores resolvem os problemas que aparecem subitamente, no meio das aulas? Isso é que dá a verdadeira marca de um educador, pois a educação é assim, problemas a cada instante, problemas surpreendentes. E a capacidade de resolvê-los constitui a construção de uma pedagogia. A educação não vai melhorar com o receituário das propostas curriculares, com as teses de mestrado e doutorado. Poderá melhorar no dia em que um projeto educacional partir daquilo que cada professor honesto faz, no seu dia a dia com seus alunos, quer seja do nosso gosto ou não.

Carnaval 2010, as mulheres são menos violentas

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Sábado de carnaval, centro de Florianópolis, umas 30, 40 mil pessoas nas ruas, mais da metade homens vestidos de mulheres, seguindo uma tradição secular brasileira. Muita festa, cerveja, alegria e…nenhuma briga. Os homens vestidos de mulheres não gostam de brigar. Se estivessem vestidos de hominhos, num campo de futebol, seria aquela pancadaria. Quem sabe mudando de traje a sociedade não ficaria mais pacífica.

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