Blog do João Freire



Criaturas extraordinárias

Tenho aprendido muito em viagens com a Caravana do Esporte e da Música, essa iniciativa da ESPN Brasil junto com a Unicef, Instituto Esporte Educação e Instituto Sol da Liberdade. Uma das coisas que aprendo é a dar aulas. E meu maior professor nesse campo é o Alexandre Arena, o Alê. Tanto isso é verdadeiro que nos cursos que dou atualmente por aí tenho dado aulas melhores, usando o que aprendo com ele. Basicamente, além do conhecimento vasto que ele tem em esporte educacional, ele consegue manter as pessoas alegres horas e dias seguidos (ele trabalha na Caravana com formação de professores da rede municipal de ensino em diversos municípios). Essa alegria, esse bom humor contagia a todos e mantém altíssima a auto-estima dos alunos. Todos se entregam de coração aberto às aulas e vejo que se aprende muito quando ele orienta as aulas. Anos atrás escrevi que, entre um grande teórico que dê aulas mecânicas e um professor pouco teórico que dê aulas amorosamente, prefiro o segundo. O Alê tem muita teoria e dá aulas amorosamente.

Castigo exemplar 2

Esse problema de crianças não irem para a aula de Educação Física por estarem de castigo em sala ocorreu algumas vezes com Dona Noêmia. Lembro que, da primeira vez, ela conteve a irritação e tentou agir com sensatez. Pediu às crianças que aguardassem um instante, deixou-as brincando e foi conversar com a diretora da escola. Pediu licença, entrou na diretoria e disse: Dona Fulana, a senhora poderia ir à sala da Dona Beltrana pedir que ela libere o Wellington para a minha aula, pois agora é o horário de Educação Física e preciso de todos os alunos? O que aconteceu?, perguntou Dona Fulana. Dona Noêmia respondeu que Dona Beltrana tinha deixado o Wellington de castigo, e que o castigo era não fazer a aula de Educação Física. E acrescentou: Olha Dona Fulana, tenho meus problemas com os alunos e Dona Beltrana tem os dela. Eu resolvo os meus e ela resolve os dela. Peça-lhe que libere o aluno imediatamente, por favor.

Diante da firmeza de Dona Noêmia, Dona Fulana foi à sala e exigiu que Dona Beltrana liberasse Wellington.

E se Dona Fulana não tivesse tomado providências, o que faria Dona Noêmia?

Uma baleia perto da minha casa

Baleias 2010É por essas e por outras que, apesar da má administração pública, dos congestionamentos permanentes nas ruas e outras coisinhas, que moro aqui em Floripa. E também por causa das pessoas da terra, os chamados manezinhos, uma gente boa que não tem comparação. Agosto e setembro recebem as baleias no mar verde e lindo das costas de Santa Catarina. Algumas ficam por aqui, geralmente amamentando seus filhotes, e dão verdadeiros shows para quem tiver tempo de parar e olhar. Eu vivo caçando baleias nessa época, caçando com o olhar.

Castigo exemplar

Cadê o Wellington?, Dona Noêmia perguntou. Ele ficou de castigo na classe, professora, responderam as crianças. E contaram para Dona Noêmia que a professora da sala falou que todos os alunos que fizerem bagunça ou não fizerem direito a lição, não farão mais a aula de Educação Física, ficando de castigo na sala. Mas isso nunca aconteceu antes, disse Dona Noêmia, surpresa com o que as crianças disseram. É, professora, continuaram os alunos, mas ela disse que agora vai ser assim. E a gente não quer ficar de castigo. A gente disse para a professora da sala que a coisa mais gostosa da escola é a aula de Educação Física, e ela ficou brava, e depois falou isso, de deixar de castigo os bagunceiros e os que não fizerem a lição direito.

Essa é uma cena muito frequente nas escolas. Os professores e as professoras de Educação Física procuram resolver esse problema, cada qual ao seu modo. Como vocês acham que Dona Noêmia resolveu o problema? E vocês, o que fariam?

Apaixonados por carros

Dizem as propagandas que os brasileiros são apaixonados por carros. Que sejam! Sendo assim, nossos governantes e a indústria automobilística providenciaram para que curtam melhor essa paixão. De sua parte os governantes nada fizeram para melhorar o transporte público e desestimular o uso de automóveis; da parte da indústria automobilística, providenciaram para entupir as ruas de carros. Aqui em Floripa, por exemplo,  sair às ruas é meter-se em congestionamentos. Com pouca estrutura urbana e excesso de carros, os brasileiros apaixonados por carros saem às ruas e ficam horas retidos em enormes congestionamentos. Dessa maneira podem ficar mais tempo em seus carros tão queridos e curtir melhor sua grande paixão.

Proximidade e distância

Por mais que a distância nos mostre a proximidade, a proximidade insiste em manter a distância.

Cantores que não cantam, jogadores de futebol que não jogam

Lembro quando surgiu no Brasil o Gerasamba. As pessoas se fixavam muito mais nas moças que dançavam que nas vozes dos cantores. Depois vieram várias cantoras internacionais, destaque para Lady Gaga, cuja voz não interessa, mas sim o entorno, a promoção, o pseudo-exotismo, que vende. E a moda pegou no futebol. Surgindo um craque, basta que ele jogue um pequeno período, para que seus promotores guardem boas imagens. E esses promotores vão colar as belas imagens desses pseudo-craques em nós, nós que somos apaixonados pelo futebol. Ora, como amamos o futebol, como amamos os craques que representam nossa paixão, se eles aparecerem se barbeando, compraremos seus aparelhos de barba. Se aparecerem próximos de uma marca de cerveja, tomaremos a cerveja deles. Se aparecerem ao lado de um carrão, queremos comprar aquele carrão, e assim por diante. Enquanto suas imagens fortes persistirem, venderão qualquer coisa e não precisarão jogar nada. Alguns deles, como o David Beckham, passam anos e anos sem fazer nada em campo, mas vendem qualquer coisa. Ou seja gente, não é para jogar futebol que os Ronaldinhos Gaúchos, os David Beckhams e os Cristianos Ronaldos ganham fortunas; é para nos venderem aparelhos de barba, roupas e carros.  E a moçada do futebol que vem surgindo por aí logo percebe o jogo, faz um contrato milionário, começa a enganar em campo, dedica-se a curtir a vida adoidado e se presta a esse jogo estúpido que, em muitos casos, lhes consumirá. Tudo bem, que façam isso, desde que o povo saiba para onde está indo seu rico dinheirinho. A prática de ganhar grandes fortunas no futebol enganando a população é de uma imoralidade incomensurável.

Tortura no esporte

Colaboração do Marcel Rossi. Creio que vale a pena lerem o que está no endereço abaixo. Lembram que eu disse que precisaríamos proteger as crianças de dirigentes, técnicos, mídia e pais? Pois bem, os pais acham que podem fazer o que bem entenderem com os filhos, mas não podem não. Os filhos não pertencem aos pais, pertencem ao mundo, nasceram para ser livres e os pais têm obrigação de proporcionar-lhes isso.

http://www.raiaquatronews.com.br/index.php?itemid=216#nucleus_cf

O blog do Guilherme

Pessoal, visitem o excelente blog do Guilherme. Sei que ele não precisa de propagandista, mas entrei lá e gostei muito. Vamos aprender uns com os outros. O endereço é:

ludocencia.blogspot.com

Olha o que tirei de lá:

Podia terminar só nisso…

Como a maioria deve pensar, eu realmente tenho o esporte como principal ferramenta de trabalho. Cabe lembrar quantas coisas bacanas acontecem no esporte: superação de limites, obstinação, compromisso, cooperação, respeito, desenvolvimento motor, saúde, lazer, satisfação…

Além de ser um promotor deste tipo de atividade em geral, também sou um entusiasta da prática. Esse gosto só veio depois de me empurrarem para uma posição em que eu não comprometia tanto com minha falta de jeito (isso foi melhorando com o tempo…). Tive muitas alegrias através do esporte, alguns sucessos, coisas das quais me orgulho. Uma pena que tenha de lembrar do “lado negro” de algo que me ajudou e ajuda tanto.

O esporte competitivo, de cobranças, desempenho, treinamento árduo, o ser humano levado ao limite completo de suas forças, a pressão pelo dinheiro investido e o abandono da ética para alcançar o objetivo (Leia post anterior O que dizer de conduta social?).

Quando vejo as crianças jogando qualquer coisa que seja, no prazer de participar e estar junto, em conseguir um feito que antes era inimaginável, penso profundamente que o esporte podia ser assim, só na base de jogar, mudar os times, trocas, experiências variadas. Uma pena que as coisas tenham tomado um rumo como esse…

Se não dá pra mudar o que já domina, pelo menos podemos inserir em cada participante a capacidade de enxergar além da necessidade de vitória e derrota. O prazer em jogar significaria mais pela situação e não pelo resultado.

Quem é o adversário?

Num jogo de futebol, de basquetebol ou voleibol, entre tantos esportes, o adversário a ser batido não é a outra equipe. A equipe que enfrenta nosso time é apenas a parceira de jogo – sem ela não haveria jogo. O adversário a ser batido é a dificuldade de superação que ela representa. A equipe adversária apenas desafia a força de nossa equipe, apenas coloca-se como obstáculo às nossas forças, apenas contesta nossa competência. Diante disso, ou seja, diante da adversidade, tentamos reunir o melhor de nós e até superar o que temos de melhor para dar conta do desafio. Esse é o mote do esporte, esse é o motor de nossas ações, esse é impulsionador primordial, íntimo, que mobiliza nossas forças para o supremo esforço de superação no esporte. Esporte é um fenômeno, entre outras coisas, de superação de nós mesmos; mas isso não ocorreria sem a adversidade, representada pela outra equipe, daí a chamarmos de adversária.

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