Blog do João Freire



Como me formei professor 7

Tudo tem começo, meio e fim. Não é só a gente que nasce, cresce e morre, também os acontecimentos são assim. Meu trabalho em S. Bernardo cresceu e envelheceu. E tive que sair. Se a gente não perceber quando uma coisa acaba, arrisca-e a morrer com ela. O fato é que eu fui embora e o trabalho continuou com outras pessoas, e existe até hoje, de um jeito diferente, e bom, com o Otaviano, a Hebe e outros professores. E eu fui embora, para a Paraíba, já que eu tinha uma atração enorme pelo Nordeste; sou filho de nordestino e mineira. Antes de ir embora de S. Bernardo, trabalhei na USP. No começo fiquei muito orgulhoso por começar uma carreira de professor universitário na grande USP. Mas me enquadraram na categoria de Docente Voluntário, uma espécie de sub-professor que não recebia salários. Só foi bom por duas coisas: aumentou meu currículo e me apresentou para alunos universitários, pessoas que sempre admirei. Saí da USP com um ano de trabalho. Não dava para aguentar. Eu saía de casa em S. Bernardo às cinco e quinze da madrugada, pegava vários ônibus para dar aulas às sete na USP, sem ganhar nem um tostão. Até que um dia, em uma reunião, enquanto se discutia a reclamação de um jovem professor pelo baixo salário que recebia, ouvi da boca de um professor veterano a seguinte frase: “O que ele quer mais, ele já é professor da USP?”. Foi a deixa para eu ir embora. E fui direto para João Pessoa, trabalhar na Universidade Federal da Paraíba, e aí sim, com salário e vivendo um maravilhoso clima universitário. Tive a sorte de participar dos melhores anos da UFPB, do grande reitor Linaldo Cavalcanti. Fundamos a Associação dos Docentes e fizemos a primeira greve de universidades durante a Ditadura, em 1978. De greve em greve ganhamos um plano de carreira que deu dignidade aos professores das federais.

Sócrates, o filósofo da bola

Viajei com Sócrates duas vezes, com a Caravana do Esporte. Numa delas, após uma de minhas falas, ele me disse que queria ter o conhecimento que eu tinha. Respondi-lhe que trocaria todo o meu conhecimento (tão pouco, afinal) pelo futebol dele. Modesto, nem lhe passou pela cabeça que ele, não só conhece o futebol muito melhor que eu, como sabe das coisas da vida bem melhor que eu. Agora ele está internado, quase morreu. Mas está se recuperando, já faz refeições leves e toma água de coco. Ele sabe muito bem que a água de coco é bem mais saudável que a cerveja, mas que a cerveja é mais gostosa que a água de coco (pelo menos para um monte de gente). Fico imaginando como seria o futebol brasileiro, como de resto, todo o esporte brasileiro, se os esportistas fossem como o Sócrates, lúcido, culto, inteligentíssimo, crítico. Sem dúvida os dirigentes seriam outros, os empresários seriam outros, e o povo brasileiro teria no esporte, um veículo de educação. Certa vez Sócrates disse que “Com uma bola nos pés a gente muda um país”. Acreditei tanto nisso que torci para que ele fosse escolhido para ocupar o cargo de Ministro do Esporte. Mas Lula escolheu outro, outros, trilhões de vezes piores que Sócrates. Olha, não quero que o Sócrates largue a cerveja, mas quero pedir encarecidamente à Ambev, Embev e outras bevs, que inventem uma cerveja que não faça mal para o fígado. E não faria mal ao povo brasileiro se as cervejas parassem de patrocinar o futebol brasileiro.

O grande mercado da bola

Torcedores apaixonados pelo futebol irritam-se com a péssima performance de jogadores famosos e milionários. Como podem jogar tão mal ganhando tanto dinheiro?, perguntam. É o caso dos torcedores do Santos, que possui aqueles que são considerados os dois melhores jogadores brasileiros da atualidade, Ganso e Neymar. Vejam o caso de Robinho na seleção, ou de Alexandre Pato. Todos esses grandes jogadores surgiram, revelaram-se excepcionalmente talentos e, rapidamente, perderam rendimento. Reparem como alguns jogadores, desconhecidos de nós, de repente são levados à seleção brasileiro e expostos ao grande público. Para ganhar preço. Esquecemos, no entanto, que, mesmo que joguem mal, os mais famosos já ganharam preço, ganharam valor de mercado. E o que interessa, no futebol atual, é o mercado. Não importa jogar bem. Possuem tanto valor de mercado que, em cada transação, em cada contrato, rendem milhões de dólares, para eles e para todos os envolvidos nas transações. Levados a grandes competições internacionais, rendem, para a FIFA e patrocinadores, milhões de dólares. Fixando neles suas marcas comerciais, as empresas de eletrônicos, telefones, bebidas etc., faturam milhões de dólares. Portanto, que ninguém se surpreenda. Os grandes jogadores brasileiros não entram mais em campo para jogar um bom futebol, mas para mostrar a cara e ganhar preço. Exceto quando começam a decair muito e são cobrados pelos patrocinadores. Aí passam algum tempinho melhorando, até consolidar novamente a imagem.

Para conhecer melhor o Brasil

Recebi um comentário do Alê, nosso querido Alexandre Arena, um dos coordenadores do magnífico Instituto Esporte Educação – IEE, a grande criação da Ana Moser. Costumamos abrir os jornais ou ligar a TV e só receber notícias ruins, como se o Brasil fosse uma grande tragédia. No entanto, há muita coisa boa acontecendo e tornando nosso país um lugar melhor para se viver. É que as coisas boas não fazem o alarde das ruins e não dão audiência para a mídia. O Alê esteve com a Caravana do Esporte na cidade de Piatã, mais de 500 quilômetros de distância de Salvador. O que ele encontrou lá o surpreendeu. Leiam o relato:

Querido João, sentimos sua falta.

Aproveito sua reflexão sobre São Bernado para falar das coisas boas do Brasil, especialmente da cidade de Piatã que fica a 572 Km de Salvador e está localizada na Chapada Diamantina.
Piatã recebeu a Caravana do Esporte e da Música nos dias 16, 17 e 18 de agosto e tem dados curiosos pra conversarmos sobre educação. Apesar de não ser tão afeito aos dados resultantes de avaliações promovidas pelos governos, chamou-me a atenção que Piatã apresenta um IDH – índice de Desenvolvimento Humano baixo se comparado a outros municípios – 0,63 e um IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica alto – 5,3 se comparado a tantos municípios do Brasil.
Do alto dos seus 1.268 m, o município que tem na produção de café sua grande fonte de renda ( O café Rigno foi escolhido o melhor café do Brasil…provei é pra quem gosta de café de dar água na boa) ainda registra a marca de ter mais de 30 anos sem ter nenhum homicídio.
Observando e conversando com crianças, professores, diretores de escola, prefeito,secretários municípios comecei a procurar respostas para as minhas inquietações.
Conheci crianças e jovens de uma educação e presteza fora do comum. Olha que há tempos faço Caravana e me surpreendi com a participação dos adolescentes nos jogos. Animados, divertidos faziam tudo com muito prazer, atenção, e com os olhos “vidrados” nas explicações dos professores. Não observei ninguém de fora das brincadeiras.
Dos professores descobri que estão em processo de formação continuada há mais de 10 anos como foco na formação para o professor reflexivo. Professores, coordenadores, supervisores e diretores formam uma grande teia de alimentação e retro-alimentação do conhecimento. E mais tudo com supervisão da prática, nada de teoria jogada no vento.
Fazem parte com mais outros 23 municípios de um programa de uma ONG para o desenvolvimento da educação na região.
Do prefeito e secretários um olhar dedicado e focado na educação. Investimento em infra-estrutura aliado ao desenvolvimento do conhecimento. Segundo o Prefeito, as notas do IDEB são um resultado do uso do dinheiro público voltado a educação com responsabilidade e planejamento. Um sujeito muito sério e comprometido com a causa.
A Secretaria de Educação ficou o tempo todo conosco, observando, atendendo pessoas, a demanda dos alunos e fazendo perguntas.
Supervisores das Escolas também estavam na arena e na formação empenhados em entender o processo para garantir continuidade. Como o esporte e a arte podem nos ajudar a melhorar o IDH do município? Esporte e Arte podem ser um caminho para envolvermos as famílias na escola?
Enfim, um bom exemplo de articulação, de “tão longe” que nos faz refletir e ficar animados com o Brasil e com a educação do nosso povo.
Claro que os desafios são enormes mais tem gente boa, que acredita no Brasil e que sobretudo faz a diferença no dia-a-dia.

Abraços fraternos

Ale

Como me formei professor 6

Meu trabalho em S. Bernardo do Campo, de 1971 a 1977 foi o melhor trabalho que fiz em toda a minha vida. Não havia limites. Eu não sabia nada de pedagogia, nem meus companheiros que em seguida vieram trabalhar comigo no Centro Esportivo de Vila Euclides, equivocadamente chamado na época de Estádio Marechal Arthur da Costa e Silva. Para quem não sabe, esse militar foi o responsável, na ditadura, pela decretação do AI-5, aquele que suprimiu as liberdades civis e deu toda a liberdade aos psicopatas para perseguir, prender, torturar, exilar e matar qualquer suspeito de ter ideias ditas subversivas, que cheirassem a comunismo. Essa doença poderia, por exemplo, fazer qualquer um ser preso se denunciado pelo vizinho. O comunismo deveria ser erradicado pela tortura e pela morte. Pois bem, nunca chamamos nosso local de trabalho de Costa e Silva, mas de Elni, como o lugar era conhecido pelo povo. Educamos mais de cinco mil crianças e adolescentes nesses poucos anos. Quando a ditadura acabou, contribuímos com milhares de jovens que acreditavam na liberdade e foram alimentar uma sociedade melhor. Campeões tivemos alguns, mas acredito que formamos milhares de cidadãos. E essse é o propósito maior de quem ensina esporte. Temos que cair na real: as crianças e jovens que passarem por nossas mãos, dificilmente serão grandes atletas; poucos podem sê-lo. Mas todos podem ser cidadãos. Quando eu falo cidadão, estou falando daquela pessoa que não age como avestruz, que não enfia a cabeça na areia, que olha para os lados e enxerga alguém além de si mesma, de sua esposa e de eus filhinhos. O cidadão ama sua família e ama as demais pessoas também, mesmo elas sendo tão diferentes.

Pedagogia eu aprendi por aí, dando aulas, vendo pessoas darem aulas, trocando ideias e metendo a cara nos livros. Mas nunca me deixei escravizar por autores: nem por Piaget, nem por Marx, nem por Vygotsky ou Freinet. Eu lia coisas que dava para aplicar na prática. Mas li muita coisa de gente importante que na prática não funcionava. Não é que a teoria fosse ruim, mas a teoria vai bem em certos contextos e mal em outros. Só a pessoa que se mantém livre pode decidir, inclusive, a contrariar os grandes autores. Sejamos nós os autores de nossas próprias ideias, de nossos escritos, de nossas palavras. Temos que publicar nossa cara como ela é, gostem os outros ou não. Essa lição eu e meus companheiros aprendemos em S. Bernardo, a cidade que, acredito, tem a mais bonita história de formação esportiva da história deste país.

Nossos verdes e amarelos craques canarinhos

Brasil e Paraguai

Aos craques da atual seleção canarinho de futebol, se lhes falta talento dentro do campo, não lhes falta habilidade como vendedores dos mais diversos produtos. A lista é grande. Fossem outdoors ambulantes, não haveria gramado para contê-los. Enquanto vemos a bola ser maltratada como nunca pelos donos da verde e amarela, compramos dos mascates futeboleiros comidas, automóveis, chuteiras, bolas, camisas, televisores, desodorantes, telefones, anticépticos, energéticos, cuecas, colírios, refrigerantes, planos de saúde, isotônicos, assinaturas de TV, roupas de grife, sandálias, cervejas, pilhas, lâminas de barbear, passagens aéreas, contas bancárias, relógios, etc. E a gente, no campo ou na frente da TV, acha que eles estão lá para jogar bola. Claro, no começo eles precisam jogar um pouco, até que se forme uma imagem vendável. Junto com ela vão os produtos. Aí, não precisam mais se preocupar com a bola. Podem, inclusive, protagonizar a inédita façanha de perder quatro penalidades máximas seguidas, como a que ocorreu no recente jogo contra o Paraguai. É impressionante a lista de craques que esqueceram como jogar bola em pouco tempo. Mas a imagem bem formada resistirá durante anos ao mau desempenho no campo. É o caso, por exemplo, de Robinho, que brilhou durante algum tempo no Santos. Há pelo menos cinco anos ele não tem um desempenho satisfatório sequer em jogos da seleção brasileira, mas a imagem ainda vende; enquanto isso acontecer, é provável que ele continue sendo um dos craques canarinhos. Ou o caso do jogador Ganso, alçado há pouco mais de dois anos à categoria de astro da constelação brasileira. Mesmo fora do campo boa parte do tempo, por contusões, continua sendo cantado em prosa e verso, e vendendo bebidas e eletrodomésticos. Neymar, embora o mais jovem de todos, vende uma lista impressionante de produtos. Sua imagem, muito bem trabalhada, carrega com ela telefones, energéticos e cuecas, entre outros produtos. Dá pinta de que tem talento para a bola, mas a imagem supera o craque largamente. Sim, o futebol sempre foi também um grande negócio, mas agora, parece, é somente um grande negócio. Os fazedores de imagem atuam mais que os treinadores. Só precisam conseguir colocar seus “craques” em campo. E que a gente, ao ver a lâmina de barbear deslizando na cara de bebê do Kaká, estenda a mão automaticamente para o produto na gôndola do supermercado. Ah, e continue acreditando que a seleção que entra em campo com a camisa verde e amarela, é mesmo a nossa seleção brasileira!

Respondendo à Flávia

A Flávia me mandou este comentário, que repasso para vocês e respondo:

Oi Professor João Batista
Fiquei sabendo da pedagogia das oficinas do jogo, achei muito interessante então resolvi estudar. Só que lendo algumas coisas que encontrei na internet, me surgiu uma grande dúvida: o embasamento teórico das oficinas do jogo é de autores além do senhor claro, piaget e vigotski pois percebi algo de suas teorias ou estou enganada???
Sempre aprendi na faculdade que não não é possivel trabalhar com esses dois autores juntos, mas sei tbm que cada professor coloca sua ideologia ao repassar os contéudos.
Se puder me ajudar desde de já agradeço.
Flávia – SP

Sabe Flávia, esse reducionismo que recomendaram a você, isto é, que Piaget e Vygotsky são incompatíveis, é fruto de uma intolerância doentia, que coloca pessoas e ideias em lados opostos, que as faz inimigas, que faz com que até os mortos se tornem inimigos. Quanta perda daqueles que, por abraçarem as ideias de Vygotsky, recusaram-se a passar os olhos na teoria piagetiana. E quantos piagetianos não conheci que devotavam rancor ao pobre Vygotsky. Cada qual em seu contexto de vida, foram geniais. Coitados dos que, movidos pela intolerância fundamentalista, recusaram a leitura de um ou de outro. Como somos pobres quando fazemos isso! Pois não é que Piaget e Vygotsky coincidiram em ideias quando afirmaram que o conhecimento humano é um produto de construções decorrentes das nossas relações com a natureza e a sociedade? Segundo eles, nascemos com nossos instrumentos biológicos, sem dúvida: somos capazes de nos mover, de ter sensações, de digerir, de fazer várias coisas. Acima de tudo, quanto ao conhecimento, somos capazes de aprender, pois que o homem biológico é insuficiente; ele precisa de algo mais e esse algo mais terá que ser construído em vida. Na relação com as pessoas, com os acontecimentos, com a natureza, vamos preenchendo aquilo que falta, produzindo conhecimento, cultura. Nosso conhecimento só nasce pronto em potência, mas não serve para nada até o instante em que o colocamos em contato com o mundo, surgindo daí aquilo que, de fato, é o verdadeiro conhecimento humano.

Pois é Flávia, falei das semelhanças. Se eu fosse procurar as diferenças entre ambos, não havia espaço para tanto, tantas elas são. Eu e você também Flávia, temos imensas diferenças, mas naquilo que somos iguais, quanta igualdade!

Uma última lição

Ontem à noite fui me despedir de um amigo e acabei recebendo uma lição de vida. Ele estava morrendo, tinha acabado de perder a lucidez, a morfina aplacava a dor. Momentos antes, com o pouco que lhe restava de consciência, beijou a esposa, minha querida Atagy, por quem era perdidamente apaixonado. Passou os últimos dias fazendo declarações de amor a ela. O nome dele era Flávio, mas Atagy o chamava carinhosamente de Cheiro. Cheiro já nasceu doente e viveu boa parte de sua vida em hospitais. Não fazia planos para o futuro, pois sabia que podia morrer a qualquer instante. Tinha um amor incondicional à vida e nunca desperdiçou um instante sequer. Não por outro motivo era bem humorado. Cheiro faleceu agora de manhã, há poucos instantes. Não sem antes me ensinar como vale a pena viver. Não sem antes me confirmar que a última coisa que devo fazer em vida é morrer, e que a última coisa que devo fazer antes de morrer é viver.

Divulgando a pedidos

O Marcel me pediu para divulgar, o que faço com prazer:

Ola prof. Joao,

Por favor, ajude-nos a divulgar mais esse otimo texto do Alberto Murray Neto:

http://albertomurray.wordpress.com/2011/08/09/conclamo-o-povo-e-os-atletas-a-fazerem-uma-grande-greve-para-derrubar-carlos-nuzman-espalhem-o-texto-pela-internet/#comment-2563

Teimosia

Sou teimoso. Morrer, só em último caso.

Anterior Próximo


Arquivo:
Acompanhe: rss RSS (o que é isso?)
Outros Blogs do CEV





© 1996-2012 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.