Blog do João Freire



O novo livro do Alcides Scaglia

Saiu um livro que merece ser lido por todos os brasileiros da Educação Física, e até pelos que não são da área. Chama-se “O futebol e as brincadeiras de bola: a família dos jogos de bola com os pés”, da Editora Phorte. Fiz o prefácio. Acho a melhor forma de apresentar o livro a vocês transcrever o prefácio que fiz.

PREFÁCIO

O conteúdo é apenas um instrumento de educação, para o bem ou para o mal, o que me permite tomar de empréstimo, para ensinar sobre a vida, tanto o cálculo avançado em Matemática, quanto os sistemas de ataque em Futebol. Justifico: educar é educar para a vida e engana-se o professor que acredita ser o principal objetivo de seu trabalho ensinar os conteúdos de sua disciplina. Não, eles são apenas meios, instrumentos para aprender a viver bem, para uma vida sempre melhor, para uma sociedade e um mundo melhores. Nossa missão de professores, portanto, é mais importante ainda do que muitas vezes imaginamos: ensinamos a viver. Ora, depois do pai e da mãe, os professores são as pessoas mais importantes em nossas vidas, ou pelo menos deveriam ser.

Conheço o Alcides há muito tempo, desde menino quando ele entrou na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Um menino curioso e um aluno brilhante, que logo convidei para trabalhar comigo na escolinha de futebol da FEF (Faculdade de Educação Física). Alcides era talhado para esse trabalho. Entre outras experiências, já tinha treinado no futebol profissional. E gostava de crianças. Gostava de crianças, conhecia futebol, daí foi um passo até escolher, para educar, o futebol. Como disse o nosso Sócrates, aquele que foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, com uma bola nos pés a gente muda um país. E eu acrescentaria, com uma bola nas mãos, com uma raquete, com uma caneta, com um pincel, com um violão, com um computador. Muda-se uma sociedade para melhor com muitas coisas, mas elas são apenas os instrumentos da mudança, e é isso que os professores precisam assumir: nós os professores e nossas disciplinas, somos os instrumentos de uma mudança, que, esperamos, aconteça, e para melhor.

Desde que começou a trabalhar comigo no futebol, Alcides já sabia que a vida é muito maior que o Futebol. Também sabia que nós, as chamadas pessoas comuns, nunca seremos jogadores famosos. Mas todos podemos ser beneficiados pelo esporte, se ele for educacional, se o propósito maior de nosso trabalho for servir-se de bons conteúdos, tais quais ferramentas, para formar cidadãos, no sentido de formar pessoas éticas que cumpram com responsabilidade sua tarefa de bem viver. Embora os poderosos meios de comunicação nos passem a imagem de que futebol é coisa para dar espetáculos e produzir rios de dinheiro, apenas, Alcides dedicou-se a dar demonstrações, muito bem fundamentadas, de como o futebol pode potencializar valores, virtudes, habilidades, objetivando formar cidadãos. Diga-se de passagem, nem Alcides, nem eu, temos nada contra o espetáculo futebolístico, desde que a arte esteja presente.

Quando os leitores seguirem a trajetória deste livro, de imediato saberão que o Futebol faz parte de uma grande família de jogos de bola com os pés. Nasceu do desejo de brincar com bola de muitos povos. Não é um capricho das pessoas o ato de jogar uma bola, é uma necessidade. Primeiro porque brincar é necessário; segundo porque brincar com a bola também é necessário, isto é, a bola e tudo o que ela representa. E não é pouco o que uma bola representa, basta olhar para o céu, ou olhar para nós mesmos, para todas as formas celestes ou corporais arredondadas. Sempre houve um sol brilhante tomando conta do ceu, que precisava virar Deus e ser trazido para nossas mãos e pés. Nas nossas mãos e pés o sol pode virar brinquedo e Deus. E, enfim, brincando, superaremos o medo.

Todas as crianças um dia brincarão com uma bola. Todos os gatos e todos os cachorros também o farão sempre que uma bola rolar perto deles. A bola é o brinquedo por excelência, simplesmente porque, ao rolar, não sabemos o que acontecerá, e esse não saber o fim de um acontecimento quer dizer jogar. E é por isso que tantos povos em tantas épocas brincaram com bolas, e é por isso que todas as pedagogias deveriam servir-se dela.

O futebol é uma fonte inesgotável de conhecimentos. Alcides Scaglia, o autor deste belo livro, que o diga.

Sobre a formação dos professores: um comentário

Recebi esse comentário do Prof. Dorly. Por se tratar de um tema que desperta nela tanta curiosidade quanto em mim, transcrevo seu comentário e tento respondê-lo.  A resposta vai abaixo do texto do Prof. Dorly.

Olá João Batista!!!

Algo me intriga na sua fala sobre o tema “como me tornei professor 6”, é o seguinte: você relata que o melhor trabalho de sua vida foi desenvolvido na cidade de SBernardo e que naquele momento vc não tinha todo esse conhecimento que possui agora, ou seja não sabia tanto de educação como hoje. Fala sua: Eu não sabia nada de pedagogia…isso me intriga. Como um professor que pouco sabia fez um exelente trabalho……Porque, esse mesmo professor que se tornou uma referência nacional, não desenvolveu outros trabalhos tão bons ou melhor do que aquele? Estou considerando sua fala.
Sou também professor universitário e fico sempre a me perguntar sobre que conhecimentos devo passar aos meus alunos para que eles desenvolvam um trabalho de qualidade? Quais competência/habilidades devo desenvolver com eles para otimizar um ganho na educação?
Quando faço essa indagação é porque há um tempo atrás, “batendo um papo” com um amigo, confessei a ele que meu melhor trabalho foi justamente quando pouco sabia de pedagogia, desenvolvimento infantil, etc…que ainda sei pouco, mas reconheço que nesse momento sei mais do que antes. Logo o fenômeno é o mesmo. Então de que me adiantou todo esse conhecimento se não me levou a desenvolver um novo grande trabalho? Sei que fiz outros trabalhos bons, pelo menos na minha visão, mas…também sei que vc fez e faz trabalhos espetaculares, mas e ai?
Abraço,
Dorly

Querido Dorly: também fico intrigado com isso. Eu deveria, com mais conhecimentos, fazer trabalhos cada vez melhores. Na verdade, não sei responder a você, não sei explicar como isso se passou. Só sei que naqueles anos 1970, época dura da ditadura militar, à minha enorme energia de jovem juntou-se uma motivação inigualável de fazer algo pelo meu país, pelo meu povo, algo que fosse exatamente o oposto do que os militares queriam fazer no Brasil. Acredito que pratiquei pedagogia em estado puro. Coincidiram naquele momento, para acontecer o que julgo meu melhor trabalho pedagógico, a questão da ditadura, minha juventude e entusiasmo, meus colegas de trabalho, o momento por que passava a cidade de S.Bernardo do Campo e os alunos. Os conhecimentos nós os formávamos todos os dias, lendo, conversando e dando aulas. Criávamos sem medo, éramos ousados, atrevidos. Eu não era aquilo que se pode chamar de um jovem bem comportado. Pelo contrário, meu atrevimento, meus posicionamentos políticos irritavam muita gente. Só me engoliam pelo trabalho que eu fazia, que se destacava muito.

O tempo passou, estudei mais, virei professor universitário, nunca deixei a prática fora da universidade. Fiz mestrado, doutorado, livre-docência e realizei muitos trabalhos bons. No conjunto da obra, o que fiz depois de S. Bernardo é, para mim, tão bom quanto aquele humilde trabalho inicial. Mas, ponto a ponto, não tive um trabalho tão relevante. A não ser, talvez, agora, que escrevo como um doido para preparar, de sete a oito livros sobre pedagogia da Educação Física escolar, algo que quero deixar para meus colegas e para as próximas gerações de professores.

Mas eu acho que se conseguir encontrar condições parecidas com as que encontrei em S. Bernardo do Campo, eu faria um trabalho bom como aquele. Acontece algo parecido no momento. Virei consultor do Instituto Esporte Educação. Para mim, esse instituto faz o melhor trabalho de pedagogia de esporte educacional do mundo, até onde sei. O trabalho do IEE é fantástico. Através do IEE me incorporei à Caravana do Esporte, que me permite conhecer o interior do Brasil em detalhes, e ter contato com professores e crianças do país todo. Se eu conseguir aprender o suficiente com o pessoal do Instituto Esporte Educação e com esses professores todos que conheço pelo Brasil, talvez eu conclua esse processo achando que superei aquilo que fiz em S. Bernardo. Para isso, conto com a bondade de meus amigos do IEE.

Parceiros de Ricardo Teixeira, como ele, julgam estar acima da lei

Transcrevo Recomendação da Procuradoria da República no Município de Joinville em S. Catarina:

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO MUNICÍPIO DE JOINVILLE/SC
RECOMENDAÇÃO

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelo Procurador daRepública infrafirmado, no exercício de suas atribuições constitucionais e legais,respaldado, em especial, no art. 6º, inciso XX, da Lei Complementar nº 75/93, e CONSIDERANDO

1. competir ao MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados na Carta Magna, promovendo as medidas necessárias à sua garantia, conforme prescrito pelo art. 129, II, da Constituição Federal, e arts. 5º, I, “h” e art. 6º, V, c/c art. 7º, da Lei Complementar nº 75/93;

2. que a Federação Catarinense de Futebol (FCF) lançou em seu endereço eletrônico uma Nota Oficial, na qual veta (censura prévia) qualquer manifestação nos estádios catarinenses contra a Confederação Brasileira de Futebol –CBF – ou seu Presidente, Ricardo Teixeira.

3. que a FCF ameaça impedir a entrada ou retirar dos estádios catarinense torcedores que manifestem contra a CBF ou seu Presidente.

4. que tal Nota fere de morte o direito de livre expressão de pensamento e manifestação, garantido em diversos Tratados e Convenções internacionais das quais o Brasil é signatário, além da Constituição Federal.

5. que incumbe ao MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL promover as medidas necessárias para a proteção do interesse público, sendo os principais instrumentos de atuação a expedição de RECOMENDAÇÕES, a instauração de INQUÉRITOS CIVIS e o ajuizamento de AÇÕES CIVIS PÚBLICAS;

Dessa forma, O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL RESOLVE:

RECOMENDAR,

à Federação Catarinense de Futebol e ao Estado de Santa Catarina, representado pelo Sr. Sadi Lima, que

a) revogue a determinação de inviabilizar o exercício do direito a crítica e manifestação de pensamento.

b) afaste a determinação de impedir a entrada nos Estádios, ou retirar dos Estádios, torcedores que estejam exercendo seu direito a crítica e manifestação de pensamento.

Ao Estado de Santa Catarina que não impeça a entrada, ou retire dos estádios, torcedores que estejam exercendo seu direito constitucional de crítica e manifestação de pensamento.

Por derradeiro, ADVERTE que o não atendimento da presente RECOMENDAÇÃO ensejará a adoção das medidas legais cabíveis.

Salienta ainda que as providências adotadas em virtude desta recomendação deverão ser imediatamente informadas a esta Procuradoria da República, ou, no máximo, em 48 horas.

Joinville/SC, 26 de agosto de 2011.

Mário Sérgio Ghannagé Barbosa
Procurador da República

Como me formei professor 7

Tudo tem começo, meio e fim. Não é só a gente que nasce, cresce e morre, também os acontecimentos são assim. Meu trabalho em S. Bernardo cresceu e envelheceu. E tive que sair. Se a gente não perceber quando uma coisa acaba, arrisca-e a morrer com ela. O fato é que eu fui embora e o trabalho continuou com outras pessoas, e existe até hoje, de um jeito diferente, e bom, com o Otaviano, a Hebe e outros professores. E eu fui embora, para a Paraíba, já que eu tinha uma atração enorme pelo Nordeste; sou filho de nordestino e mineira. Antes de ir embora de S. Bernardo, trabalhei na USP. No começo fiquei muito orgulhoso por começar uma carreira de professor universitário na grande USP. Mas me enquadraram na categoria de Docente Voluntário, uma espécie de sub-professor que não recebia salários. Só foi bom por duas coisas: aumentou meu currículo e me apresentou para alunos universitários, pessoas que sempre admirei. Saí da USP com um ano de trabalho. Não dava para aguentar. Eu saía de casa em S. Bernardo às cinco e quinze da madrugada, pegava vários ônibus para dar aulas às sete na USP, sem ganhar nem um tostão. Até que um dia, em uma reunião, enquanto se discutia a reclamação de um jovem professor pelo baixo salário que recebia, ouvi da boca de um professor veterano a seguinte frase: “O que ele quer mais, ele já é professor da USP?”. Foi a deixa para eu ir embora. E fui direto para João Pessoa, trabalhar na Universidade Federal da Paraíba, e aí sim, com salário e vivendo um maravilhoso clima universitário. Tive a sorte de participar dos melhores anos da UFPB, do grande reitor Linaldo Cavalcanti. Fundamos a Associação dos Docentes e fizemos a primeira greve de universidades durante a Ditadura, em 1978. De greve em greve ganhamos um plano de carreira que deu dignidade aos professores das federais.

Sócrates, o filósofo da bola

Viajei com Sócrates duas vezes, com a Caravana do Esporte. Numa delas, após uma de minhas falas, ele me disse que queria ter o conhecimento que eu tinha. Respondi-lhe que trocaria todo o meu conhecimento (tão pouco, afinal) pelo futebol dele. Modesto, nem lhe passou pela cabeça que ele, não só conhece o futebol muito melhor que eu, como sabe das coisas da vida bem melhor que eu. Agora ele está internado, quase morreu. Mas está se recuperando, já faz refeições leves e toma água de coco. Ele sabe muito bem que a água de coco é bem mais saudável que a cerveja, mas que a cerveja é mais gostosa que a água de coco (pelo menos para um monte de gente). Fico imaginando como seria o futebol brasileiro, como de resto, todo o esporte brasileiro, se os esportistas fossem como o Sócrates, lúcido, culto, inteligentíssimo, crítico. Sem dúvida os dirigentes seriam outros, os empresários seriam outros, e o povo brasileiro teria no esporte, um veículo de educação. Certa vez Sócrates disse que “Com uma bola nos pés a gente muda um país”. Acreditei tanto nisso que torci para que ele fosse escolhido para ocupar o cargo de Ministro do Esporte. Mas Lula escolheu outro, outros, trilhões de vezes piores que Sócrates. Olha, não quero que o Sócrates largue a cerveja, mas quero pedir encarecidamente à Ambev, Embev e outras bevs, que inventem uma cerveja que não faça mal para o fígado. E não faria mal ao povo brasileiro se as cervejas parassem de patrocinar o futebol brasileiro.

O grande mercado da bola

Torcedores apaixonados pelo futebol irritam-se com a péssima performance de jogadores famosos e milionários. Como podem jogar tão mal ganhando tanto dinheiro?, perguntam. É o caso dos torcedores do Santos, que possui aqueles que são considerados os dois melhores jogadores brasileiros da atualidade, Ganso e Neymar. Vejam o caso de Robinho na seleção, ou de Alexandre Pato. Todos esses grandes jogadores surgiram, revelaram-se excepcionalmente talentos e, rapidamente, perderam rendimento. Reparem como alguns jogadores, desconhecidos de nós, de repente são levados à seleção brasileiro e expostos ao grande público. Para ganhar preço. Esquecemos, no entanto, que, mesmo que joguem mal, os mais famosos já ganharam preço, ganharam valor de mercado. E o que interessa, no futebol atual, é o mercado. Não importa jogar bem. Possuem tanto valor de mercado que, em cada transação, em cada contrato, rendem milhões de dólares, para eles e para todos os envolvidos nas transações. Levados a grandes competições internacionais, rendem, para a FIFA e patrocinadores, milhões de dólares. Fixando neles suas marcas comerciais, as empresas de eletrônicos, telefones, bebidas etc., faturam milhões de dólares. Portanto, que ninguém se surpreenda. Os grandes jogadores brasileiros não entram mais em campo para jogar um bom futebol, mas para mostrar a cara e ganhar preço. Exceto quando começam a decair muito e são cobrados pelos patrocinadores. Aí passam algum tempinho melhorando, até consolidar novamente a imagem.

Para conhecer melhor o Brasil

Recebi um comentário do Alê, nosso querido Alexandre Arena, um dos coordenadores do magnífico Instituto Esporte Educação – IEE, a grande criação da Ana Moser. Costumamos abrir os jornais ou ligar a TV e só receber notícias ruins, como se o Brasil fosse uma grande tragédia. No entanto, há muita coisa boa acontecendo e tornando nosso país um lugar melhor para se viver. É que as coisas boas não fazem o alarde das ruins e não dão audiência para a mídia. O Alê esteve com a Caravana do Esporte na cidade de Piatã, mais de 500 quilômetros de distância de Salvador. O que ele encontrou lá o surpreendeu. Leiam o relato:

Querido João, sentimos sua falta.

Aproveito sua reflexão sobre São Bernado para falar das coisas boas do Brasil, especialmente da cidade de Piatã que fica a 572 Km de Salvador e está localizada na Chapada Diamantina.
Piatã recebeu a Caravana do Esporte e da Música nos dias 16, 17 e 18 de agosto e tem dados curiosos pra conversarmos sobre educação. Apesar de não ser tão afeito aos dados resultantes de avaliações promovidas pelos governos, chamou-me a atenção que Piatã apresenta um IDH – índice de Desenvolvimento Humano baixo se comparado a outros municípios – 0,63 e um IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica alto – 5,3 se comparado a tantos municípios do Brasil.
Do alto dos seus 1.268 m, o município que tem na produção de café sua grande fonte de renda ( O café Rigno foi escolhido o melhor café do Brasil…provei é pra quem gosta de café de dar água na boa) ainda registra a marca de ter mais de 30 anos sem ter nenhum homicídio.
Observando e conversando com crianças, professores, diretores de escola, prefeito,secretários municípios comecei a procurar respostas para as minhas inquietações.
Conheci crianças e jovens de uma educação e presteza fora do comum. Olha que há tempos faço Caravana e me surpreendi com a participação dos adolescentes nos jogos. Animados, divertidos faziam tudo com muito prazer, atenção, e com os olhos “vidrados” nas explicações dos professores. Não observei ninguém de fora das brincadeiras.
Dos professores descobri que estão em processo de formação continuada há mais de 10 anos como foco na formação para o professor reflexivo. Professores, coordenadores, supervisores e diretores formam uma grande teia de alimentação e retro-alimentação do conhecimento. E mais tudo com supervisão da prática, nada de teoria jogada no vento.
Fazem parte com mais outros 23 municípios de um programa de uma ONG para o desenvolvimento da educação na região.
Do prefeito e secretários um olhar dedicado e focado na educação. Investimento em infra-estrutura aliado ao desenvolvimento do conhecimento. Segundo o Prefeito, as notas do IDEB são um resultado do uso do dinheiro público voltado a educação com responsabilidade e planejamento. Um sujeito muito sério e comprometido com a causa.
A Secretaria de Educação ficou o tempo todo conosco, observando, atendendo pessoas, a demanda dos alunos e fazendo perguntas.
Supervisores das Escolas também estavam na arena e na formação empenhados em entender o processo para garantir continuidade. Como o esporte e a arte podem nos ajudar a melhorar o IDH do município? Esporte e Arte podem ser um caminho para envolvermos as famílias na escola?
Enfim, um bom exemplo de articulação, de “tão longe” que nos faz refletir e ficar animados com o Brasil e com a educação do nosso povo.
Claro que os desafios são enormes mais tem gente boa, que acredita no Brasil e que sobretudo faz a diferença no dia-a-dia.

Abraços fraternos

Ale

Como me formei professor 6

Meu trabalho em S. Bernardo do Campo, de 1971 a 1977 foi o melhor trabalho que fiz em toda a minha vida. Não havia limites. Eu não sabia nada de pedagogia, nem meus companheiros que em seguida vieram trabalhar comigo no Centro Esportivo de Vila Euclides, equivocadamente chamado na época de Estádio Marechal Arthur da Costa e Silva. Para quem não sabe, esse militar foi o responsável, na ditadura, pela decretação do AI-5, aquele que suprimiu as liberdades civis e deu toda a liberdade aos psicopatas para perseguir, prender, torturar, exilar e matar qualquer suspeito de ter ideias ditas subversivas, que cheirassem a comunismo. Essa doença poderia, por exemplo, fazer qualquer um ser preso se denunciado pelo vizinho. O comunismo deveria ser erradicado pela tortura e pela morte. Pois bem, nunca chamamos nosso local de trabalho de Costa e Silva, mas de Elni, como o lugar era conhecido pelo povo. Educamos mais de cinco mil crianças e adolescentes nesses poucos anos. Quando a ditadura acabou, contribuímos com milhares de jovens que acreditavam na liberdade e foram alimentar uma sociedade melhor. Campeões tivemos alguns, mas acredito que formamos milhares de cidadãos. E essse é o propósito maior de quem ensina esporte. Temos que cair na real: as crianças e jovens que passarem por nossas mãos, dificilmente serão grandes atletas; poucos podem sê-lo. Mas todos podem ser cidadãos. Quando eu falo cidadão, estou falando daquela pessoa que não age como avestruz, que não enfia a cabeça na areia, que olha para os lados e enxerga alguém além de si mesma, de sua esposa e de eus filhinhos. O cidadão ama sua família e ama as demais pessoas também, mesmo elas sendo tão diferentes.

Pedagogia eu aprendi por aí, dando aulas, vendo pessoas darem aulas, trocando ideias e metendo a cara nos livros. Mas nunca me deixei escravizar por autores: nem por Piaget, nem por Marx, nem por Vygotsky ou Freinet. Eu lia coisas que dava para aplicar na prática. Mas li muita coisa de gente importante que na prática não funcionava. Não é que a teoria fosse ruim, mas a teoria vai bem em certos contextos e mal em outros. Só a pessoa que se mantém livre pode decidir, inclusive, a contrariar os grandes autores. Sejamos nós os autores de nossas próprias ideias, de nossos escritos, de nossas palavras. Temos que publicar nossa cara como ela é, gostem os outros ou não. Essa lição eu e meus companheiros aprendemos em S. Bernardo, a cidade que, acredito, tem a mais bonita história de formação esportiva da história deste país.

Nossos verdes e amarelos craques canarinhos

Brasil e Paraguai

Aos craques da atual seleção canarinho de futebol, se lhes falta talento dentro do campo, não lhes falta habilidade como vendedores dos mais diversos produtos. A lista é grande. Fossem outdoors ambulantes, não haveria gramado para contê-los. Enquanto vemos a bola ser maltratada como nunca pelos donos da verde e amarela, compramos dos mascates futeboleiros comidas, automóveis, chuteiras, bolas, camisas, televisores, desodorantes, telefones, anticépticos, energéticos, cuecas, colírios, refrigerantes, planos de saúde, isotônicos, assinaturas de TV, roupas de grife, sandálias, cervejas, pilhas, lâminas de barbear, passagens aéreas, contas bancárias, relógios, etc. E a gente, no campo ou na frente da TV, acha que eles estão lá para jogar bola. Claro, no começo eles precisam jogar um pouco, até que se forme uma imagem vendável. Junto com ela vão os produtos. Aí, não precisam mais se preocupar com a bola. Podem, inclusive, protagonizar a inédita façanha de perder quatro penalidades máximas seguidas, como a que ocorreu no recente jogo contra o Paraguai. É impressionante a lista de craques que esqueceram como jogar bola em pouco tempo. Mas a imagem bem formada resistirá durante anos ao mau desempenho no campo. É o caso, por exemplo, de Robinho, que brilhou durante algum tempo no Santos. Há pelo menos cinco anos ele não tem um desempenho satisfatório sequer em jogos da seleção brasileira, mas a imagem ainda vende; enquanto isso acontecer, é provável que ele continue sendo um dos craques canarinhos. Ou o caso do jogador Ganso, alçado há pouco mais de dois anos à categoria de astro da constelação brasileira. Mesmo fora do campo boa parte do tempo, por contusões, continua sendo cantado em prosa e verso, e vendendo bebidas e eletrodomésticos. Neymar, embora o mais jovem de todos, vende uma lista impressionante de produtos. Sua imagem, muito bem trabalhada, carrega com ela telefones, energéticos e cuecas, entre outros produtos. Dá pinta de que tem talento para a bola, mas a imagem supera o craque largamente. Sim, o futebol sempre foi também um grande negócio, mas agora, parece, é somente um grande negócio. Os fazedores de imagem atuam mais que os treinadores. Só precisam conseguir colocar seus “craques” em campo. E que a gente, ao ver a lâmina de barbear deslizando na cara de bebê do Kaká, estenda a mão automaticamente para o produto na gôndola do supermercado. Ah, e continue acreditando que a seleção que entra em campo com a camisa verde e amarela, é mesmo a nossa seleção brasileira!

Respondendo à Flávia

A Flávia me mandou este comentário, que repasso para vocês e respondo:

Oi Professor João Batista
Fiquei sabendo da pedagogia das oficinas do jogo, achei muito interessante então resolvi estudar. Só que lendo algumas coisas que encontrei na internet, me surgiu uma grande dúvida: o embasamento teórico das oficinas do jogo é de autores além do senhor claro, piaget e vigotski pois percebi algo de suas teorias ou estou enganada???
Sempre aprendi na faculdade que não não é possivel trabalhar com esses dois autores juntos, mas sei tbm que cada professor coloca sua ideologia ao repassar os contéudos.
Se puder me ajudar desde de já agradeço.
Flávia – SP

Sabe Flávia, esse reducionismo que recomendaram a você, isto é, que Piaget e Vygotsky são incompatíveis, é fruto de uma intolerância doentia, que coloca pessoas e ideias em lados opostos, que as faz inimigas, que faz com que até os mortos se tornem inimigos. Quanta perda daqueles que, por abraçarem as ideias de Vygotsky, recusaram-se a passar os olhos na teoria piagetiana. E quantos piagetianos não conheci que devotavam rancor ao pobre Vygotsky. Cada qual em seu contexto de vida, foram geniais. Coitados dos que, movidos pela intolerância fundamentalista, recusaram a leitura de um ou de outro. Como somos pobres quando fazemos isso! Pois não é que Piaget e Vygotsky coincidiram em ideias quando afirmaram que o conhecimento humano é um produto de construções decorrentes das nossas relações com a natureza e a sociedade? Segundo eles, nascemos com nossos instrumentos biológicos, sem dúvida: somos capazes de nos mover, de ter sensações, de digerir, de fazer várias coisas. Acima de tudo, quanto ao conhecimento, somos capazes de aprender, pois que o homem biológico é insuficiente; ele precisa de algo mais e esse algo mais terá que ser construído em vida. Na relação com as pessoas, com os acontecimentos, com a natureza, vamos preenchendo aquilo que falta, produzindo conhecimento, cultura. Nosso conhecimento só nasce pronto em potência, mas não serve para nada até o instante em que o colocamos em contato com o mundo, surgindo daí aquilo que, de fato, é o verdadeiro conhecimento humano.

Pois é Flávia, falei das semelhanças. Se eu fosse procurar as diferenças entre ambos, não havia espaço para tanto, tantas elas são. Eu e você também Flávia, temos imensas diferenças, mas naquilo que somos iguais, quanta igualdade!

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