Blog da Katia Rubio


Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos


Que droga!

Minhas primeiras memórias olímpicas remontam aos Jogos de Montreal quando não despreguei os olhos da televisão encantada com a magia de Nadia Comanecci. Naquela época eu era praticante de ginástica na escola, muito embora também já jogasse voleibol.

Lembro também de cenas dos Jogos de Munique, mais especificamente do atentado à Vila Olímpica, homens encapuzados, tensão, mortes. Como aqueles também eram tempos sombrios no Brasil, não sei distinguir se na minha memória ficou registrado apenas o atentado terrorista ou se aquilo era uma manifestação de todo o medo que sentia pelas coisas que aconteciam aqui. Nada como estudar a memória para agora ter isso mais claro.

Não lembro nada dos Jogos de 1968 no México. Eu só tina 6 anos, a TV de casa era em preto e branco e ninguém era aficionado o bastante para acompanhar jogos durante o dia. Faço essa volta no tempo para tentar lembrar qual é a minha primeira lembrança sobre doping e, inevitavelmente, chego em 1988 e Ben Johnson. Faço esse exercício sempre que deparo com o tema. Muito embora já tenha lido bastante sobre isso, e agora ouço o depoimento de vários atletas que conviveram, principalmente nas piscinas e nas pistas, com aqueles que fizeram uso de substâncias ergogênicas, ainda tento entender quais os caminhos que essa questão trilha.

Ontem, 02 de maio de 2012, em editorial da Folha de São Paulo, Helio Schwartsman discutiu a questão do passaporte biológico, registro eletrônico dos parâmetros biológicos que cada atleta profissional passou a ter para regular sua vida. Essa política foi instituída para coibir o uso de substâncias dopantes, que ajudam o atleta a alcançar bons resultados, a vitória, os prêmios, os patrocínios, enfim, as razões maiores do que parece ter se transformado o esporte no mundo contemporâneo, muito embora, no passado, as coisas não tenham sido bem assim. Cagigal, um grande filósofo do esporte, conta que o termo doping (drogado) começou a ser usado nas corridas de cavalos, primeiro esporte em que se utilizou fármaco clandestinamente para conseguir que um determinado cavalo corresse mais lento e perdesse. Hoje este termo designa a ingestão de substâncias usadas para conseguir justamente o contrário: tentar vencer. E se a proposta do esporte passa a ser a vitória a qualquer preço é de se esperar que qualquer meio justifique esse fim. Uma visão que tem prevalecido no esporte é a de que as metas dos atletas se concentram na competição e na conquista de marcas sempre superiores. Para tanto é preciso aprimorar cada vez mais o corpo deste individuo já excepcional para conseguir estes fins. Quando um atleta tem determinação por vencer a qualquer preço e a instituição e equipe que o cercam compartilham desse espírito, alguns excessos podem ser cometidos, fazendo com que valores éticos sejam preteridos. Assim, a auto-manipulação hormonal mostra-se como um meio eficaz para a superação dos obstáculos que se apresenta. É o que aponta do texto da FSP.

Diante da dificuldade de detectar antecipadamente as substâncias ou estratégias outras que aumentam o rendimento a atitude das autoridades esportivas caminha para a repressão máxima, a fim de punir ou mesmo banir do esporte aqueles que quebrarem as regras. Se até aqui uma amostra de urina ou de sangue era suficiente para gerar uma contraprova que poderia colocar o atleta no banco dos réus, agora as coisas caminham por outras vias.

O ideia do passaporte biológico é destituir o panóptico do controle anti-doping referendado até aqui pelas instituições esportivas para instituir um grande irmão mais poderoso: ele fará o controle longitudinal da vida do atleta denunciando qualquer alteração em seu perfil hematológico ou metabólico que possa sugerir alteração dos parâmetros apontados como normais em algum momento de sua vida. Espera-se com isso coibir, por exemplo, a remodificação genética, um dos grandes temores que ronda piscinas, pistas, quadras, ginásios e campos, favorecendo resultados.

Muito bem. Entendo que essa discussão deve ser feita sem hipocrisia considerando todos os agentes envolvidos nela, superando as questões apenas morais, alcançando a ética que norteia não apenas a prática esportiva, mas principalmente a competição. O esporte em seus primórdios era o campo privilegiado da contenda justa, um terreno metafórico para as disputas que levavam a morte, que viu as regras serem criadas com o firme propósito de garantir a igualdade de direito entre os competidores. Isso fazia dessa atividade humana uma das mais democráticas, afinal, todos eram iguais diante da regra.
Com o fim do amadorismo, o esporte converteu-se em um meio de vida, uma atividade profissional, alterando radicalmente alguns de seus princípios. Agora homens e mulheres com habilidades fora da média são altamente remunerados para cumprir determinadas atuações. Os atletas de alto nível, igual a outros profissionais destacados, permanecem em uma luta constante pela primeira posição. E para isso precisam de um corpo excepcional, perfeito, fora da média, cujo prazo de validade é cada vez mais curto em função dos altos níveis de exigência de treinamentos e competição.

Entendo que a lógica que prevalece no esporte contemporâneo é paradoxal na medida em que imputa ao atleta a responsabilidade pela manutenção de um corpo perfeito e fora da média para alcançar resultados cada vez mais improváveis a corpos comuns, absolutamente humanos. Por outro lado, espera-se desses super-humanos, heróis esportivos, atuações cada vez mais incomuns, levando-os a se sujeitarem a quaisquer métodos, técnicas ou estratégias que proporcionem esse resultado. Como ratos de laboratórios, submetem-se ao “novo”, ao “inédito”, ao “indescritível” em busca daquele centésimo de segundo que pode leva-los ao pódio ou ao recorde.

Mas não é justamente essa a lógica do esporte? Pois é. Eu responderia que, em princípio, sim. Mas a partir daqui fugimos do campo da racionalidade rasa e adentramos no terreno da ética do esporte e do doping que poucos no Brasil se atrevem a fazer. Diferente do que ocorre em outros países onde há técnicos, atletas e estudiosos dispostos a discutir essa questão em sua essência, aqui se prefere acatar as regras do jogo, ou seja, nada é possível e permitido, e por outro lado busca-se burlar essas determinações, colocando em risco, não apenas os resultados, mas a própria vida do atleta. O que quero dizer com isso é que funcionando como a Santa Inquisição que busca hereges em todos os rincões do planeta o controle anti-doping tornou o atleta um escravo de um sistema que insiste em caçá-lo, privando-o de sua liberdade de ir e vir, como qualquer outro ser humano. Não estou aqui defendendo o uso indiscriminado de substâncias ergogênicas, mas defendo sim a privacidade do atleta.

Não bastassem os scanners em aeroportos, as portas automáticas dos bancos e tantas outras formas de controle da sociedade, o passaporte biológico agora regula a vida e o corpo do atleta levando-o a ser um escravo do sistema esportivo. Curiosamente, o esporte imaginado por Pierre de Coubertin tinha potencialidade educacional e cultural do Esporte e poderia ser tomado como um agente para a paz universal e para o desenvolvimento das potencialidades humanas. Óbvio que assim como o Barão podia imaginar que o esporte olímpico pudesse se transformar na potência que agora é tampouco poderia supor que os protagonistas do espetáculo esportivo também pudessem ser uma espécie de entidade biológica manipulável em laboratório.

O que resta é desejar que um pouco da proposta inicial relacionada com a educação e a cultura volte a fazer parte do processo formativo da vida do atleta para que ao invés de regular ou policiar sua existência ele possa ser um agente de transformação. Deixo aqui registrada a proposta de alguns europeus que entendem que se o desejo do ser humano é buscar limites, e que se o esporte é um desses instrumentos, que seja então criada uma competição onde não haja restrições. Ou seja, que cada um use o que bem entender para alcançar o melhor resultado. E assim, toda a discussão gerada em torno do que é proibido ou não mudaria de rumo. Da minha parte sou levada a crer que ainda que fosse liberado o uso de substâncias em uma competição esportiva específica, o desejo de uma medalha olímpica ainda é capaz de levar o incapaz a correr qualquer risco para obtê-la, afinal o herói olímpico é forjado ali e não em qualquer outra arena. Portanto, educação e esclarecimento são fundamentais para que novos escândalos ou desilusões voltem a ocorrer.

A retomada do mito do herói

Hoje é um daqueles dias ideais para reflexão: é segunda-feira de uma semana que tem um feriado na terça, chove a cântaros, estou em Campos de Jordão com a lareira acesa desde que acordei porque também está frio, não há sinais de vida há muitos metros de distância e tenho em mãos ótimos livros, boa comida e boa companhia. Vim para cá nesse feriado disposta a fazer apenas o que meu corpo precisasse e minha alma mandasse, ou seja, nada daquilo que vem com o prólogo: você tem que…

E curiosamente em uma de minhas leituras – O graal: Arthur e seus cavaleiros – me deparei com as três tentações sofridas por Buda. Para quem não sabe, a primeira foi a luxuria, da qual ele se safou facilmente. A segunda foi o medo, condição prontamente superada. A terceira, e mais difícil de todas foi o dever. Isso porque o demônio chegou até Buda e disse que seu país estava sendo invadido e ele “tinha que” defender seu povo, sua família, seu país. E então, contrariando as expectativas geradas em torno de si, Buda superou o mais terrível de todos os momentos e não se submeteu a imposição, rompendo um de tantos condicionantes ao qual todos estamos submetidos desde que nascemos.

Já faz um tempo que me atormenta esses afazeres determinados pelas condições externas. Eles nos levam a fazer aquilo que não gostamos e não queremos, tornando-nos obrigados porque um ente maior mobilizado pela assertiva “você tem que” nos move em direção a uma sentença, que nos amarra todos os dias pela vida afora. E o mais curioso é que poucas vezes nos damos conta que esse “você tem que” não guarda nenhuma relação com o “eu quero que”.

Muito bem. Há mais de 10 anos me debruço sobre a relação entre o atleta e o mito do herói. Essa temática ficou evidente em minha tese de doutorado e depois ela foi se diluindo em alguns textos, ganhando novos contornos, alcançando novos limites, mas observo que, como um chamado ela volta ao meu temário como que dizendo que é hora de re-significar alguns temas em função do acúmulo de informações dos últimos anos. Cedi a esse “você tem que” porque me pareceu justo retomar algo que me mobilizou e me mobiliza, que é meu ponto de partida e de chegada para o entendimento da busca do limite, da superação. Nesse sentido, a leitura dos livros de Mariza Zélia Alvarenga foi uma sincronicidade das mais felizes, ela que é uma junguiana de mão cheia e tem uma predileção pelos mitos heroicos.

Estamos às portas de mais uma edição dos Jogos Olímpicos e os discursos produzidos para a narrativa dos feitos dos atletas parecem sair de baús empoeirados, abertos de quatro em quatro anos, como se pudessem ser esquecidos durante esse período por todos aqueles que se dizem interessar por esse fenômeno. Já não me incomodo mais com eles, afinal também desenvolvemos a arte da dessensibilização como forma de sobrevivência à boçalidade, à banalidade e a falta de conteúdo. O que de fato me aflige nesse momento é que nem todos entraram na fila da vacina contra esse mal, principalmente os atletas, protagonistas do espetáculo esportivo, estes sim sujeitos ao vaticínio do dever, do “você tem que”. Vejo o quanto de energia é gasto na busca da manutenção de suas identidades, às vezes tão frágeis, tão suscetíveis, contrastando com a atitude heróica desejada na jornada esportiva.

O herói, frequentemente honrado pela sua comunidade em virtude de seus feitos, é lembrado através de contos populares, representado sob o ponto de vista moral ou físico, dependendo do objetivo. É, segundo Campbell (1990), alguém que encontrou ou realizou algo excepcional, que ultrapassou as esferas de sua própria realidade.

Dessa forma, ele se preserva, muitas vezes associado a um sentimento de sagrado, se opondo ao racional e melhor se expressando através do afetivo. A ligação com o herói pode se dar no relacionamento de valores, na identificação do “eu” interior com o mundo exterior, fazendo com que o indivíduo, longe do campo de batalha ou do ambiente esportivo, sinta-se unido àquele que lhe é admirado, satisfazendo a necessidade condicionada de evitar o isolamento e a solidão moral (Fromm, 1977).

É por isso que Alvarenga (2009) afirma que o herói se define “pela façanha executada. Herói e façanha, façanha e herói se fundem, gerando um nome próprio. Em seu nome reside sua força e seu esplendor. O herói é o personagem primordial que faz o que somente ele pode fazer. É a possibilidade de o ser humano tornar-se pessoa singular, fazer-se como indivíduo, traduzir-se como imparidade”.

Na prática esportiva essa representação se amplifica por viabilizar a representação da possibilidade do vir a ser. Rubio (2001) afirma que atletas já consagrados tiveram que, inevitavelmente, percorrer um caminho comum e, assim como os heróis da Antiguidade, realizaram feitos em um determinado momento que os elevaram em um nível diferenciado de seus semelhantes, tornando-se exemplo para os mais jovens e objeto de admiração para os mais velhos, alcançando muitas vezes a posição de ídolos nacionais ou internacionais.

Conforme aponta Alvarenga (2008: 20) o herói é um personagem que faz o que somente ele é capaz de fazer e por isso desperta no ser humano a possibilidade de ser singular, de fazer-se como indivíduo, de traduzir-se como imparidade. E nesse sentido desperta o processo de projeção e de identificação. “O coletivo, identificado com o seu herói, corre junto nas pistas, desafia as alturas, combate as monstruosidades, atravessa oceanos em busca de terras novas. O coletivo desfila junto com o herói, com bandeiras nas costas, como torcida organizada. E vibra por receber a medalha.”

A espetacularização e a racionalização do espetáculo esportivo têm levado o esporte, e o atleta, a serem vistos apenas como mais um produto de consumo. A consequência dessa exploração é a racionalização daquilo que ele possui de mítico. No mito o herói se dedica a outrem, a causas externas e à salvação da humanidade. Na sua versão racionalizada ele se torna um personagem necessário ao sistema e tem suas realizações voltadas para si próprio denotadas em signos manifestos em uma vida de pseudo fartura. E então chegam os Jogos Olímpicos, momento em que são postos de fato à prova e “têm que” mostrar quem são, o que de fato podem, por um coletivo que pouco sabe e nada conhece da imensidão da humanidade que habita aquela persona heróica.

Mas, como nos lembra Maria Zélia, o herói se define pela façanha executada. Herói e façanha, façanha e herói se fundem, gerando um nome próprio, tradução de sua natureza.

E é por isso que eu continuo a estudar a trajetória dos atletas olímpicos e a encontrar neles os traços que tanto os identificam com o herói. Porque, ao seu tempo, à sua maneira, eles dão sentido à efemeridade da vida de muitos que pouco seriam para seu grupo social, sua cidade ou seu país. Mas, que naquele fazer específico se destacam e têm o brilho que norteia a busca de cada um de nós. Afinal, como apontam Maria Zélia, não há como servir-se do herói do outro pra cumprir nossas próprias missões. Se assim o fizermos, continuaremos sendo filhos do pai-herói, amigo do amigo herói etc.

Que os atletas olímpicos nos inspirem na busca da condição heróica que desempenhamos nas nossas atividades, afastando-nos do dever insano que nos dirige apenas para o “tem que”.

ALVARENGA, M. Z. Édipo. Um herói sem proteção divina. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.
ALVARENGA, M. Z. O graal: Arthur e seus cavaleiros. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.
CAMPBELL, J. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
FROMM, E. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
RUBIO, K. O atleta e o mito do herói. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

Ulisses e a pesquisa olímpica

Lendo ontem o livro Ulisses, o herói da astúcia, de Maria Zélia de Alvarenga e Sylvia Mello Silva Baptista, da coleção Heróis e Heroínas da Mítica Grega, tive algumas ideias luminosas. É muito bom poder ter tempo para poder ler coisas interessantes e deixar a imaginação rolar.

Essa semana foi muito intensa com o volume de trabalho de sempre e novidades que ainda não sei avaliar bem em que direção vão, mas, aí acontecem encontros com ideias, textos, pessoas que sugerem essa instância mítica do acaso, ou da sincronicidade, como diria Jung.

Meu encontro com Homero e com Ulisses (Odisseu, em grego) se deu ainda em meu doutorado, quando estudei a relação entre a figura mítica do herói e a formação da identidade do atleta. Lembro-me de ter lido a Odisseia inúmeras vezes e do encanto que esse herói me causou. Sua astúcia e persistência em buscar seu objetivo (o retorno a Ítaca) permaneceram vivas em minha memória mesmo depois de terminada a tese. É muito bom pensar que uma atitude heróica está para além da força e da coragem para a guerra. Muitas vezes desenvolvemos a habilidade para a sobrevivência superando as dificuldades, as adversidades e isso envolve paciência, humildade, inteligência, características pouco relacionadas com um herói e essas são as grandes virtudes de Ulisses.

No doutorado já fiz uso das histórias de vida, mas tinha que me prender a autores que fundamentassem minha análise, afinal eu ainda não podia pensar por conta própria e para isso aquele título me valeria. Por isso caminhei com Joseph Campbell e Gilbert Durand pelos caminhos do Herói das mil faces e das Estruturas antropológicas do imaginário. Quando fui fazer a livre docência, e a tese era sobre os Medalhistas Olímpicos Brasileiros, lembro-me do quanto penei em busca de uma justificativa para aquelas tantas histórias. Eu não queria categorizá-las, compartimentalizá-las, recortá-las como tecido para compor uma colcha de retalhos. Não queria que delas fossem retiradas falas recortadas para algum tipo de análise de discurso ou de conteúdo. Queria ser o mais fiel possível às narrativas porque nelas encontrava o texto e o contexto. E assim nasceu Heróis Olímpicos Brasileiros e Medalhistas Olímpicos Brasileiros: memórias, histórias e imaginário. Como já era doutora podia cometer a ousadia de propor meu próprio método, muito embora corresse o risco de ser trucidada pela banca. Depois de sobreviver a esse momento, o que me pareceu a passagem de Ulisses por Cila e Caríbdis, passei então a me dedicar a estudar as histórias de vida dos atletas olímpicos brasileiros, apurando a pesquisa para que as narrativas pudessem ganhar forma, afinal elas não são menos fantásticas do que as tantas aventuras mitológicas.

Parece simples dizer isso quando se trabalha arduamente dentro de uma perspectiva metodológica por quase 15 anos, e de fato o é. Mas, isso não parece assim tão simples para os meus orientandos que questionados, as vezes de forma positiva, mas muitas vezes de forma destrutiva, não sabem muito bem como se defender de tantos ataques. Eles então partem em busca de muitas outras referências teóricas seja na História, na Sociologia, na Filosofia e mesmo na Psicologia para se sentirem mais seguros para enfrentar os tantos embates, seja nas disciplinas que cursam nas unidades da universidade, seja ainda em congressos de diferentes áreas temáticas. Nossa última reunião foi uma prova disso. Gastamos toda uma manhã discutindo um texto de um historiador para falar sobre como a história oral é vista dentro da História. E isso me fez relembrar o doutorado quando eu tinha dúvidas se me referiria ao meu objeto como estórias de vida ou histórias de vida, só para fugir dessa cilada e evitar perda de tempo com discussões estéreis sobre a validade ou não de tudo aquilo.

E assim volto ao livro de Maria Zélia e Sylvia lido ontem à noite, à luz e ao calor de uma lareira em Campos de Jordão, um dia depois dessa longa discussão. Leitura feita sem pressa, sem marca texto, nem computador para fichamento. Era uma leitura para mim e não tinha qualquer outra finalidade senão me proporcionar o prazer de ler para a alma. E assim como alguns deuses pontuam o caminho dos heróis lá estavam algumas passagens interpretativas de Ulisses pautadas na Psicologia Analítica de Jung. Com a competência de quem decifra mistérios fui entendendo com mais clareza o que é de fato escrever ou contar a vida de um atleta olímpico, sem dúvida um herói. Cada um, em sua modalidade e a seu tempo, marcou a história de sua família, de sua cidade e, por vezes, do país. Por isso vamos ao encontro de cada um deles pedindo detalhes, lembranças, coisas miúdas, coloridas, cheirosas, doces, amargas, azedas, enfim, uma mistura de pensamento, sentimento, sensação, intuição, conforme a tipologia junguiana.

Mas, a revelação se fez quando as autoras apontam que o Aedo, cantor e poeta na mítica grega, é a figura mais importante a seguir o herói, sempre poupado nos confrontos bélicos por ser quem leva adiante, pela via da tradição oral, as situações vividas e presenciadas. O Aedo é aquele que canta para os deuses e para os homens. Tanto é assim que ao matar todos os que se encontravam no salão importunando Penélope, Ulisses poupou o Aedo e o Arauto. Justificam as autoras: “é preciso manter alguém para contar, ou cantar, uma história. O Arauto e o Aedo são as melhores figuras para tal função. O cantor e o contador são vistos sempre com compaixão, como se, por estarem a serviço da arte, da manutenção da memória dos feitos e fatos, estivessem acima das disputas e dos lados. Há um enorme apreço pelos cantores, cuja função primeira é a de alegrar e insuflar nos corações palavras doces que encorajem o herói e todos à sua volta. Como o bobo da corte, que tem a licença de tudo observar e tudo falar, o Aedo e o Arauto são representações da consciência na sua faceta não julgadora, com a nobre função de registrar e contar – e assim, eternizar – o vivido”.

Ali estava uma resposta sobre toda essa saga que é a pesquisa sobre os Atletas Olímpicos Brasileiros. Até aqui são 1.680 atletas, antes dos Jogos Olímpicos de Londres. São 1.680 histórias marcadas por renúncias, conquistas, revezes, dor, mas todas elas realizadas por alguém mortal que foi capaz de sair da média, e pela excelência, se aproximar do divino realizando um feito heróico. Muitas delas já caídas no esquecimento, pelo véu espesso do tempo que apaga até memórias mais agudas.

Percebi que nesse sentido somos uma espécie de Aedo, com perfil acadêmico, que busca recontar essas histórias, reacendendo a chama que cada um desses atletas, a seu modo e a seu tempo, viu acesa, luminosa, numinosa. Temos esse perfil acadêmico porque retiramos das histórias muitas informações que se tornam dado de análise e nos permite fazer uma leitura atenta e apurada do desenvolvimento do esporte olímpico brasileiro.

Mas, entendi depois dessa leitura, que o combustível e o motor de tudo isso é a possibilidade de manutenção da narrativa sobre os feitos olímpicos. Perpetuando como a mitologia os feitos heroicos de todos os atletas.

Confesso que estou cansada de querer provar que isso é ciência. Já não tenho mais paciência para afirmar e reafirmar que podemos assim contribuir para uma outra metodologia dentro das ciências humanas, em que o ser é o mais importante e evidente material de uma pesquisa.

Sinto que, depois de tudo, é muito confortável afirmar que sou sim uma contadora de histórias.

ALVARENGA, M. Z.; BAPTISTA, S. M. S. Ulisses, o herói da astúcia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.
RUBIO, K. Heróis Olímpicos Brasileiros. São Paulo: Zouk, 2004.
RUBIO, K. Medalhistas Olímpicos Brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

Os valores universais do esporte

Essa semana fui procurada para falar sobre a medida do COI de punir a Arábia Saudita caso o Comitê Olímpico local insista em manter sua determinação em impedir que suas mulheres atletas representem oficialmente o país.

Como sempre, Rodrigo Cardoso, repórter da Isto É, me instiga a refletir sobre coisas que parecem banais, mas que têm dimensões muito maiores e duradouras. Foi assim com vários dados da pesquisa sobre os atletas olímpicos brasileiros e agora com essa notícia. Seria mais uma entrevista, não fosse o resgate de uma questão que parece esquecida na história do Movimento Olímpico Internacional: a participação feminina nas competições esportivas olímpicas ou não.

Hoje isso nos parece normal, natural, desejado, mas nem sempre foi assim.

Basta apenas lembrar que Pierre de Coubertin em pessoa proibiu as mulheres de participarem dos Jogos Olímpicos de 1896 e só reviu essa posição porque os Jogos de 1900 ocorrem em uma Paris mobilizada pelo movimento feminista que reivindicava não apenas o direito ao voto, mas a igualdade de direitos em geral. Embora não se falasse que a participação das mulheres na sociedade fosse uma questão de Direitos Humanos era isso que ali se estava a construir. O que de fato impedia e distanciava as mulheres do exercício pleno da cidadania? As respostas são variadas, mas passam inevitavelmente pela disputa de poder não apenas dos homens, mas de homens criados em uma sociedade específica em que viviam seus papéis sociais de forma intocada pelo fato de serem de uma determinada classe social, defensores de valores tomados como universais.

Valores universais… aí reside uma questão para reflexão.

A proibição imposta por Coubertin no final do Século XIX assentava-se em determinantes biológicos que conferiam à mulher a condição de frágil (dos nervos), com disposição para outros fazeres e papéis sociais como ser mãe ou de brilhar nas arquibancadas como as espectadoras do espetáculo masculino que era o esporte. Enfim, sempre coube aos articulados e inteligentes a criação de argumentos para justificar seja lá o que for, inclusive a injustiça. Passado mais de um século o COI se coloca agora do outro lado. Atento aos movimentos de uma sociedade multicultural e multiétnica, que age e se organiza sob a batuta de interesses políticos e econômicos de diferentes matizes e matrizes, o COI coloca-se agora em defesa daquelas que são oprimidas, relegadas à invisibilidade e ao esquecimento, conforme as avaliações realizadas por diferentes fontes do Ocidente. Afinal, esperam que o caso de Arábia Saudita seja exemplar para o mundo muçulmano que impede suas mulheres de circularem livremente!

Ah a liberdade! Que notável essa bandeira de luta!

Encontrei uma matéria no jornal O Estado de São Paulo, de 2008, que já falava sobre isso (http://www.estadao.com.br/noticias/esportes%20pequim2008,cresce-o-numero-de-atletas-muculmanas-com-veus-na-olimpiada,221279,0.htm). E embora já se tenham passado 4 anos o tema volta à baila como se fosse novo, inédito ou inusitado. Fico me perguntando por que o silêncio desses anos e o recente interesse pelo tema. Afinal, a participação da mulher na vida em sociedade é um direito humano básico e não artigo olímpico, como alguns agora fazem supor.

No preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, está escrito que o “desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,” e “que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla”. Esse preâmbulo foi escrito para apresentar o texto seguinte que é a declaração propriamente dita. Já no Artigo I encontra-se a justificativa que aponta o exercício da igualdade de direito: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”. É fato que Pierre de Coubertin não viveu para ver e ouvir essa declaração e, portanto, ele não teve oportunidade de rever seus conceitos sobre a participação das mulheres nos Jogos Olímpicos. Ou teria achado que isso não se aplicaria a elas? Isso não isenta de responsabilidade todos os demais dirigentes que vieram depois dele e pouco ou nada fizeram para impedir essa injustiça histórica contra as mulheres que teriam todos os argumentos possíveis para justificar sua participação nos Jogos Olímpicos fazendo uso do Artigo II dessa mesma declaração onde se pode ler: “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.
Pergunto então: Porque o COI esperou tanto a ponto de somente permitir que as mulheres corressem a Maratona nos Jogos Olímpicos de 1984 ou saltassem com vara apenas nos Jogos de 2000 se a Declaração dos Direitos Humanos, a mesma que agora é usada contra a Arábia Saudita, foi assinada em 1948?

É bom que se lembre que sendo uma declaração universal ela deveria estar acima de uma lei nacional ou regional, mas se assim o fosse outros tantos abusos não teriam sido cometidos após sua promulgação.

Volto novamente à possível exclusão da Arábia Saudita que mantém o veto a suas mulheres de participar dos Jogos Olímpicos, possível argumento para uma medida de sansão do COI. Seria mesmo o impedimento das mulheres o argumento para sua exclusão? Isso porque em um mundo onde essas mesmas mulheres não podem exercer o direito de usar seus véus em escolas e outros espaços públicos (como na França de Nicolas Sarkozy), mas já o fazem no esporte após muita discussão e controvérsia, o que de fato estaria ocorrendo agora?

É bom que não se esqueça que em breve teremos uma Copa do Mundo no Qatar, país que agora não impede suas mulheres de irem aos Jogos Olímpicos (embora isso tenha acontecido apenas em 2012 com a nadadora Nada Arkaji e à velocista Noor al-Malkia), mas que não tem qualquer tradição nessa questão, e que Doha é uma das cidades postulantes aos Jogos Olímpicos de 2020. Não tenho dúvidas que a disposição do Qatar em permitir que duas de suas milhões de mulheres apareçam para o mundo em uma disputa olímpica seja para “provar” que não há impedimentos para que elas pratiquem esporte. Isso nem de longe significa a universalização da prática esportiva pelas mulheres.

Durante um tempo chegou-se a alegar que um dos motivos para a restrição à prática seria a obrigatoriedade do véu (hijab, em alguns países, burka em outros). Porém, em Pequim, atletas como a esgrimista egípcia Shaimaa El Gammal e a velocista Al Ghasara, do Bahrain, provaram não ser esse o impedimento. Orgulhosas de sua cultura e tradições essas atletas declararam em diferentes veículos de comunicação a felicidade de poder representar seus países levando consigo as marcas de suas origens, tão diferentes das tradições Ocidentais, declaradas universais no terreno olímpico por mais de um século.

Talvez estejamos observando uma nova virada no Movimento Olímpico. Impedido de impor mais uma de suas tradições inventadas curva-se à força do poder de nações colocadas à margem desse Movimento por tanto tempo. Pena que para isso tenha que se utilizar do mesmo argumento que marca a trajetória dos excluídos: não o direito universal, mas a força.

O peso de ser olímpico

Há quase 20 anos estudo a história de vida de atletas olímpicos brasileiros.

Fui atraída para esse tema por perceber a relação dessa figura espetacular com o mito do herói, resultando em minha tese de doutorado. Para tanto mergulhei no estudo da mitologia com Eliade e Campbell, sem falar em Junito Brandão, nas estruturas do imaginário de Gilbert Duran, de Castoriadis e de Anzieu, e claro na leitura que a Psicologia Analítica faz com apurada sensibilidade aproximando psicologia e mitologia.

Aquela pesquisa me fez buscar na sequencia os medalhistas olímpicos brasileiros, afinal eles se transformaram em fonte de inspiração e projeção para muitas crianças e jovens que sonhavam em ser atletas. E assim pude ouvir histórias maravilhosas, singulares e emocionadas de pessoas como Joaquim Cruz, que não poupou esforço nem tempo para me conceder 8 horas de entrevista, que começou em São Paulo e acabou no Rio de Janeiro; a persistência de Tetsuo Okamoto e Manoel dos Santos que nadavam em uma época que não existia piscina aquecida e muitos treinos eram realizados com a água a 13º no inverno; a coragem de Jackie Silva que lutou pelo que achava justo e por isso teve que sair do país para depois voltar e ser a primeira medalhista de ouro da história brasileira; a saga de Rogério Sampaio e Aurélio Miguel na luta pelo direito de treinar e competir sem ter de se curvar aos desmandos institucionais, enfim, não há história olímpica que não seja repleta de atitudes de coragem, que só fazem reforçar a condição heróica do atleta.

Estudar a trajetória de quem foi medalhista olímpico me proporcionou a condição de entender o perfil do atleta brasileiro naquilo que se refere a superação dos limites individuais e sociais. Isso porque chegar à conquista de uma medalha não é apenas expressão de talento pessoal excepcional, porque muitos gozam dessa condição, mas é estar no lugar certo, na hora certa para usufurir de algum tipo de estrutura que permite que esse talento se desenvolva. E talvez esse seja o quesito fundamental para a manifestação do talento que alguns chamarão de motivação, outros de garra e mais alguns de determinação. Ou seja, equilibrar essa disposição pessoal com as condições do meio para que ele se desenvolva é um misto de natureza e cultura.

O final da pesquisa com os medalhistas me levou a uma nova investigação. Dessa vez meu foco eram as mulheres olímpicas brasileiras que embora debutaram em Jogos Olímpicos em 1932 só foram conquistar as primeiras medalhas em 1996. A questão central da pesquisa era: o que aconteceu ao longo dessa trajetória? Depois de passar dois anos entrevistando as atletas olímpicas entendi que ali havia outra questão paradigmática: eu comecei a ouvir o discurso de quem perdeu. Os medalhistas me contavam histórias às vezes tristes, às vezes dramáticas, mas todas elas tinham um final feliz. As mulheres, por sua vez, me contavam tudo isso também e várias delas, quando estavam prestes a abraçar seu sonho, o via escapar por entre os dedos. E ali comecei a atentar para a derrota. Ao final dessa pesquisa entendi que era preciso buscar a história de todos, independente do sexo, idade ou classe social, afinal há muito mais derrotados na história do esporte do que medalhistas.

E então, nos últimos dois anos, busco pelos atletas olímpicos brasileiros de todos os tempos. Já foram algumas centenas de entrevistas e há ainda outras centenas mais para chegar ao fim. Muitas histórias, muitas angústias, tragédias, tristezas e frustrações foram ouvidas ao longo desses anos. E por mais que eu e todos os membros do grupo que se aventuram a colher essas narrativas tenhamos nos preparado para ouvi-las, em algumas situações ficamos com uma impressão, um gosto amargo de desgosto ao final da entrevista e muitas vezes não sabemos dizer por que. Já tentei de diferentes maneiras explicar essa sensação, usando para isso, inclusive a teoria da contra-transferência, porque invariavelmente essa impressão surge após uma história incolor, inodora e insípida. Claro que não me conformava com esse tipo de impressão, afinal, ninguém chega aos Jogos Olímpicos sem ter para isso algum talento.

Essa semana, porém, acredito que encontrei uma resposta para esse incômodo que todos do grupo já sentiram em algum momento. Depois de entrevistar mais um atleta que foi aos Jogos sem conseguir um resultado expressivo e observar sua trajetória, sua vida após essa experiência e suas expectativas no presente em relação ao futuro, ficou claro que tudo aquilo aconteceu sem que ele tivesse controle, sem que tivesse planejado ou até desejado realiza-lo. Ou seja, ele treinava sim, ele competia sim, mas diferente de outros para quem viver a aventura olímpica era uma questão vital, esse atleta foi pego de surpresa por uma daquelas artimanhas que te põe no olho do furacão sem que você soubesse ao menos o que era uma chuva. E então, num estalar de dedos uma vida simples e sem muitos solavancos se torna uma montanha russa em que o controle do carrinho está nas mãos de alguém a quem não se sabe nem o nome. E de um ilustre desconhecido o sujeito se torna a celebridade da cidade, assediado pela imprensa local e nacional, que tem que responder a questões que dizem respeito a sua vida e seu futuro e para quais ele nunca ousou construir uma resposta. Levado por aquele tsunami é preciso então se preparar para falar, para vestir o uniforme certo, para treinar, competir e ganhar, porque assim todos passam a desejar e exigir… mas, até tão pouco tempo atrás a vida era só treinar… como fazer com tudo isso?

Chegam então os JO e vive-se uma experiência momentânea que se eterniza. Durante uma tarde, três jogos, tudo aquilo se apaga como as velas de um bolo de aniversário após se cantar o parabéns, anunciando o final de uma festa deseja há muito. E aquela derrota faz a vida voltar ao seu lugar de origem, cercada pelo peso do esquecimento que quase sempre acompanha quem perdeu. E, da mesma forma que a consciência não tem o apelo do esquecimento ou da volta ao estágio anterior ao contato com o conhecido, a sensação heróica também não se apaga quando a festa olímpica se acaba e o resultado foi pífio. Porque foi possível, ainda que por um breve instante, experimentar uma condição quase divina, de imortalidade, de marca para a posteridade, de eternidade. E assim como se é preciso preparação física e técnica para se chegar a esse nível de competição é preciso preparo emocional para lidar com qualquer que seja o resultado advindo dela.

Não é simples visitar o Olimpo e depois voltar à irrealidade cotidiana, ordinária.

Ao final daquela entrevista pude constatar o que já havia percebido, mas não entendido em outras entrevistas. Para muitos ser olímpico é um peso demasiado, incapaz de ser suportado em uma existência comum. Não há explicação possível para uma vida monocromática quando se chegou tão perto do brilho celeste. Contudo, lá está ele, buscando de alguma forma dar direção à sua existência normal, mortal, simples como um prato de arroz com feijão, que mata a fome sim e que pode ser tão especial como um banquete. E, assim como o contato com o conhecimento impede o retorno à ignorância, conviver com os deuses pode causar a falsa impressão da imortalidade.

E então, uma vez mais é preciso chamar à razão os dirigentes sobre a responsabilidade sobre a convocação de atletas que não tenham sido preparados para esse desafio. As sequelas de uma experiência frustrada podem comprometer toda uma existência.

Esses homens e mulheres apaixonados!

Trabalhar com memória não é tarefa fácil principalmente quando lidamos com pessoas idosas a quem o tempo se incumbiu de cobrir com o esquecimento as imagens que se referem a episódios mais próximos ou mais distantes.

Há diferentes tipos de esquecimento que em parte justificam os lampejos de memória e porque aqueles episódios, e não outros, emergiram na narrativa do sujeito. A metodologia das histórias de vida me encanta há mais de 15 anos. Entendo que por meio dela tenho acesso a dados e fatos que me fazem entender os contextos históricos macro sem perder de vista aqueles que protagonizam o fato. Tenho uma predileção especial pela frase do Caetano que diz: “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

A história de vida não está obrigada pelo ritmo e acontecimento da história cronológica. Considerada uma modalidade de história oral ela opera com os acontecimentos registrados na memória, que não obedecem a um fluxo ditado pela oficialidade do calendário, mas a importância atribuída a episódios significativos.

Assim como em outras metodologias das ciências humanas, o papel do pesquisador-entrevistador na condução da coleta da história de vida é reconhecido como fundamental. Durante a entrevista, na formulação das perguntas ou na busca dos episódios que podem oferecer a compreensão de eventos relatados, a atitude de ouvinte atento e respeitoso, mas curioso, do pesquisador pode determinar a adesão do ator ao projeto.

Na pesquisa com os Atletas Olímpicos Brasileiros a questão desencadeadora da narrativa não é uma pergunta, mas um convite onde o sujeito é levado a contar sua história. A reação subsequente já indica pontos para a análise. Isso porque alguns iniciam suas narrativas pelos pais, local e data de nascimento; outro pela sua iniciação esportiva, uma vez que já foi anunciada a intenção da pesquisa sobre sua trajetória olímpica; há ainda aqueles, que mesmo tendo recebido essa informação, uma vez mais questionam: minha história de vida, ou minha história de vida no esporte.

Nos últimos tempos encontramos um grupo de atletas vivos e lúcidos que já estão próximo do centenário de suas existências. Homens e mulheres que participaram dos Jogos Olímpicos de 1936, 1948 e 1952, apenas para falar dos mais idosos, alguns mais lúcidos e saudáveis do que outros. Vários deles acompanhados de suas companheiras e companheiros, que como alter egos, auxiliam no relembrar de fatos, causos, informações que ajudam a compor o mosaico dessas lembranças, varrendo da narrativa a poeira do esquecimento.

Observo essa atitude desde as entrevistas das Mulheres Olímpicas, quando tentei por vários meses acessar uma atleta participante da delegação de 1948. Depois de conseguir seu telefone fiz várias tentativas de aproximação, mas a voz masculina do outro lado educada e pacientemente tentava me dissuadir de meu intento. Com a persistência que é particular do pesquisador continuei a telefonar, ao menos para tentar entender o por quê daquela negativa. Com o passar do tempo descobri que o dono daquela voz era o marido da atleta e depois de muito insistir ele então me convidou para ir até a casa deles para conversarmos sobre o que passava. Cheguei ao apartamento no bairro de Copacabana em uma manhã ensolarada que destacava a grande rocha logo atrás do prédio, fazendo aquele amontoado de concreto com janelas parecer uma obra em Lego perto daquela dádiva da natureza. Caminhei pelas passarelas que levavam ao elevador observando que a população do condomínio ajudava a entender a mudança das curvas relacionadas com a expectativa de vida dos últimos censos. Cheguei ao meu destino e lá estava meu interlocutor a me esperar. Um homem alto, forte, porte atlético, aparentando uns 80 anos. As paredes do apartamento estavam cobertas de fotos, registros de muitos episódios familiares onde crianças moços e velhos, trajando diferentes estilos de moda, denunciavam o momento daqueles clicks. Depois de contar uma vez mais o propósito da pesquisa e a importância da preservação da memória, ele me confidenciou: sua esposa, a quem conheceu em uma edição olímpica, estava com princípio de Alzheimer e ele não queria expô-la. Preferia guardar dela a lembrança de uma mulher altiva, orgulhosa de suas habilidades e beleza. Perguntei se a doença se manifestava já em grau severo, ao que ele respondeu negativamente. Segui com meu inquérito a respeito de álbuns com fotos, medalhas e outros pertences da vida dela como atleta. Para nossa felicidade estava tudo lá guardado, preservado, em um formato onde o tempo foi capturado como passarinho em uma armadilha, onde apenas as traças insistiam em deixar suas marcas. Sugeri a ele fazermos um teste. Eu voltaria em um outro dia, escolhido por ele. Assim seria possível prepara-la para o encontro. E então tentaríamos resgatar aquilo que ainda estava ali presente, vivo em sua memória, a salvo das mazelas do esquecimento. E se ele achasse que o resultado foi satisfatório, nós então faríamos uso do material. Aceita a proposta voltei depois de dois dias. Ao abrir a porta do apartamento, lá estava ela. Cabelo arrumado, sutilmente maquiada, usando um batom rosa claro que realçava sua pele clara e os olhos esverdeados. Sentamos os três em torno da mesa de centro onde estavam dispostos os álbuns, objetos dos clubes defendidos por ela e lembranças das viagens olímpicas. E assim ficamos, por quase uma hora, a realizar um trabalho de arqueologia de memória, sob o olhar atento, carinhoso e cuidadoso, de um marido apaixonado por aquela que foi e ainda é sua inspiração.

Embora essa história tenha se passado há aproximadamente 5 anos, seus detalhes são mantidos vivos em minha memória. Talvez pelo cuidado com que o marido conduziu todo o processo, talvez pela saída que encontramos para fazer o registro dela que foi uma olímpica em um tempo em que as mulheres não eram mais do que coadjuvantes, talvez pelo fato de vê-lo se preocupar com o que ficaria registrado da memória de sua companheira de vida.

O fato é que de diferentes maneiras isso se repetiu com alguns mais velhos, cujas companheiras e companheiros estavam atentos ao desenrolar da narrativa.

Essa semana a vida me reservou mais uma dessas histórias. De novo no Rio de Janeiro fui ao encontro de um atleta de 94 anos que competiu em 1948. Apesar dos 3 AVCs, do comprometimento motor e das perdas geradas por esses acidentes, sua memória está intacta e ele não apenas nos atendeu ao telefone, como se dispôs de imediato a nos contar sobre sua história. Cheguei ao apartamento na divisa de Copacabana com Ipanema, já com minha mala de viagem porque dali seguiria direto para o aeroporto. Desconfiado de minha pessoa o zelador perguntou onde eu pretendia ir. Depois de falar o nome do casal que estava a minha espera ele ainda tentou mais informações: “o que a senhora deseja com eles?”. Considerei atrevida demais aquela pergunta, mas ponderei que pudesse ser excesso de zelo para com os condôminos. Ao chegar ao apartamento encontrei algumas pessoas que pareciam estar a serviço: empregada, enfermeira, ajudantes. No fundo do corredor, com uma bengala, a esposa de meu entrevistado. Uma senhora pequenina, com uma bengala na mão, produzida para aquele evento: cabelos arrumados, olhos e boca pintados, brincos vistosos. Fomos ao quarto onde nosso olímpico já estava pronto para a entrevista. Sentado em uma poltrona parecia ter saído do banho: cheiroso, pijama com as marcas das dobras de um ferro quente bem passado, travesseiro no colo onde ficava postado o braço inerte, atacado pelo AVC. Embora partes de seu rosto e corpo estivessem comprometidas pelo derrame seus olhos demonstravam a vida de alguém que ainda deseja contar sobre suas aventuras. Falou então sobre sua história no esporte, a migração do Nordeste para o Rio, sua passagem por um único clube carioca ao longo de toda a sua vida, as lembranças de Londres em 1948, sua carreira profissional depois do esporte, enfim, uma narrativa de quase 40 minutos, ajudado em alguns momentos por sua esposa. Fiquei preocupada porque ele começou a mostrar exaustão, mas quando dei a entender que finalizaria a entrevista ele quis falar mais e eu respeitei. Por fim, ele instruiu sua companheira de 91 anos de idade, e 60 e poucos de casamento, a mostrar os álbuns, medalhas, diplomas. E lá fomos nós. Ela então reforçou todas as lembranças relatadas por ele e foi acrescentando alguns poucos detalhes. Por fim, disse que ela também já havia sofrido 2 AVCs, mas que, por sorte, ela podia andar e cuidar dele. Sem filhos, lembra que os dois foram grandes viajantes e boêmios. Companheiros de toda uma vida e que apesar de tudo o que estava acontecendo, ela não podia desistir. Afinal, ele é o amor de sua vida!

O futebol e os Jogos Olímpicos

Essa semana gastei umas boas horas de trabalho lendo e corrigindo o texto de qualificação de Sergio Settani Giglio. Sergio além de ser um dos criadores do site Ludopédio, que se dedica à informação e divulgação das muitas manifestações do futebol, é também um pesquisador dedicado do futebol como fenômeno social. Quando me procurou para fazer seu doutorado desejava estudar os significados e desdobramentos das peneiras na vida dos tantos garotos que arriscam seu futuro desejando ser um ídolo do esporte bretão no Brasil.
Porém, ao tomar contato com a metodologia das histórias de vida com a qual trabalho em minha pesquisa, e mais especificamente com os atletas do futebol feminino e masculino, ele resolveu alterar os rumos de sua pesquisa e mergulhou de cabeça na história do futebol dentro dos Jogos Olímpicos. Sua dedicação à pesquisa e disposição para sair do lugar comum estão fazendo-o produzir um texto inédito, repleto de informações, que dará o que falar e pensar. Nossas três horas de reunião de orientação na última sexta-feira me fizeram ter aquela sensação boa de que esse trabalho vale a pena. E vale porque eu posso contribuir com o que sei e também aprendo com as descobertas dele. E no processo dialógico entendo, invento, penso e crio sobre esse fenômeno e saio renovada para novos pensares sobre minha própria pesquisa.

Na trilha desse descobrimento começo a amarrar todas as informações obtidas por meio dos atletas já entrevistados, sejam eles do futebol ou não. Para todos do Grupo de Estudos Olímpicos que estão envolvidos com as entrevistas fica claro que os atletas do futebol masculino constituem um grupo distinto das demais modalidades olímpicas. Se para os olímpicos em geral uma medalha, ou mesmo um pódio, é o sonho maior a ser realizado, para os atletas do futebol é um título que pode ajudar na construção de uma carreira profissional mais promissora. Vale lembrar que apesar de o Brasil ser penta campeão mundial no profissional, a medalha de ouro olímpica ainda está para ser conquistada.

O que observamos no decorrer da pesquisa é que o discurso acerca da conquista olímpica vai se alterando na medida em que as gerações se renovam e o futebol profissional se transforma. Vários atletas do futebol falam com um certo desdém dos Jogos Olímpicos entendendo-os como UMA competição e que A competição de suas vidas é de fato a Copa do Mundo. Isso fica nítido na fala dos mais velhos, que viveram a profissionalização do futebol em um momento em que essa condição não se estendia aos atletas olímpicos. Ou seja, o jogador de futebol desde sempre foi profissional, ainda que não passasse de um proletário do esporte, afinal os grandes salários nunca foram um privilégio de muitos. Mas como apontou Bebeto de Freitas em sua entrevista para a revista Isto É 2016, de março de 2012, o futebol é democrático porque é mais acessível pelo número de clubes que disputam os muitos campeonatos que acontecem pelo país afora, diferente de outras modalidades em que o calendário prevê competições apenas em alguns meses do ano.

E assim começamos a entender um pouco melhor a dinâmica do futebol dentro dos Jogos Olímpicos de Verão. Ele deveria ser apenas mais uma entre as 26 modalidades disputadas na última edição olímpica, mas desde sempre sua história está marcada por disputas institucionais que envolvem o COI e a FIFA, com os seus respectivos interesses a intermediar esse conflito e essa convivência. Isso só prova o quanto o esporte está sujeito às mazelas do momento histórico em que ele ocorre.

Se no princípio a marca da discórdia estava gravada nas disputas entre as ligas amadoras e profissionais, que camuflavam relações sociais pautadas em uma sociedade classista, mais do que racista, esses interesses foram tendo seus contornos alterados pelos muitos interesses emergentes ao longo do século XX. Como escrito acima, o futebol nunca precisou negar sua condição profissional e a criação da Copa do Mundo em 1930 marcou sua autonomia em relação ao Movimento Olímpico, condição que as demais modalidades só alcançaram a partir dos anos 1980, com a profissionalização e autonomia financeira adquirida em função dos grandes contratos de patrocínio.

Penso que a realização no Brasil da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016 nos dá a falsa impressão que esses eventos são distintos, porém complementares. Ledo engano… Está cada vez mais claro que a disputa pela condição de maior evento do planeta colocam essas competições em um campo de disputas de poder político e financeiro, ora percebido pelos atletas, ora não.

As muitas tentativas de retirar o futebol do programa olímpico pela FIFA apontam nessa direção. Já se tentou restringir a participação pela idade, pelo tempo de exercício profissional, pela participação em Copa do Mundo, enfim, essa disputa ainda não chegou ao seu limite. E isso ficou claro com a entrevista de João Havelange, atleta olímpico da natação e do polo aquático, e dirigente da FIFA por 24 anos. Questionado sobre as razões dos conflitos entre o COI e a FIFA Havelange foi categórico: o futebol não interessava ao COI no início do século XX porque era um esporte popular, de massa, e essa massificação não agradava à aristocracia dominante do COI.

Não é preciso nem recorrer aos autores da sociologia do esporte para reafirmar essa condição. Dominados pela aristocracia europeia do final do século XIX, e mantidos dessa forma até a segunda metade do século XX, o COI e a FIFA demonstram o eurocentrismo dominante em sua hierarquia, bastando para isso apenas um correr de olhos na lista de todos os seus presidentes: no COI dos 6, 5 deles eram europeus e apenas um norte-americano; e na FIFA dos 8, 7 eram europeus e apenas 1 brasileiro. O esporte nasceu aristocrático e assim se manteria até a II Guerra Mundial. A popularização do esporte olímpico causava espanto e constrangimento aos seus criadores e mandatários, mas o futebol já se encontrava fora desse controle desde o final do século XIX. Parte dessa responsabilidade devia-se às fábricas e igrejas que construíram campos de prática ao lado de suas instalações, ora ampliando seu quadro de funcionários, ora multiplicando um rebanho de fiéis que parecia cada vez menos interessado nos sermões dominicais. Favorecido por uma sociedade de costumes conservadores por um lado, mas absolutamente liberal no que se referia a uma cultura de apostas, o futebol fugiu ao controle dos Senhores dos Anéis desde sempre. Para praticantes e espectadores não havia qualquer problema que aquele entretenimento estivesse associado à classe operária. Ele causava emoção, e isso era o suficiente. A prática e audiência do esporte olímpico só experimentou essa massificação após o advento das transmissões das competições, o que veio a se tornar a principal fonte de renda do Comitê Olímpico Internacional.

Havelange prosseguiu em seu raciocínio enveredando por outras questões, bem menos emocionais e muito mais pragmáticas do universo esportivo do século XX: os interesses comerciais. Relatou o ex-presidente da entidade máxima do futebol que a Copa do Mundo é a grande geradora de receita para a FIFA, e sendo assim não seria razoável deixar seu maior espetáculo ser ofuscado pela disputa olímpica que provocaria uma perda de renda. Em suas próprias palavras, “não podíamos engordar o porco do outro”.

É claro que essas representações e disputas também atingem os protagonistas do espetáculo esportivo.

Observamos no presente que embora haja restrição de idade para os atletas do futebol que participam dos Jogos Olímpicos, é também cada vez maior o número daqueles que jogam no exterior e que estão absolutamente preocupados com seus contratos, mais do que com a medalha que ainda falta ao país. Talvez por isso vejamos um espetáculo que está muito longe de ser aquilo que desejamos de um bom futebol.

Talvez fosse o caso de fazer algumas recomendações àqueles que cuidam do futebol olímpico. Embora as disputas sejam em diferentes cidades, como na Copa do Mundo, a partir das semifinais os quatro times vão para a cidade sede e costumam se hospedar na Vila Olímpica, embora alguns atletas relataram que as instalações foram precárias! Lembrar também que o futebol é mais uma entre 25 modalidades do programa olímpico, e que naqueles dias, naquele espaço, há uma constelação de astros que nada devem às estrelas do futebol. E por fim, mas não menos importante, que mesmo com contratos milionários os atletas convocados a participar dos Jogos Olímpicos ainda se envolvem com um sentimento chamado “espírito olímpico”, condição que desde 1996 sobrou ao time feminino, primo pobre e discriminado do futebol masculino. Se não for assim, talvez a FIFA tenha razão. Talvez o futebol não caiba mesmo nos Jogos Olímpicos.

As palavras mal-ditas

Em julho do ano passado postei um texto nesse blog denominado “Do imperialismo linguístico ao imperialismo acadêmico” para denunciar uma situação ocorrida em um desses muitos congressos que vamos por aí onde o idioma oficial é o inglês. Convencionou-se adotá-lo como oficial porque assim nos foi imposto pelos detentores do poder acadêmico e não houve ninguém, nem nenhum movimento, que se organizasse que maneira eficaz o suficiente para contrapor essa “convenção”. E assim nos habituamos a buscar professores, cursos, tradutores para tentar ficar lado a lado com os donos do poder, afinal precisamos disso em nossas carreiras. E muitas vezes, por mais que nos esforçássemos nunca éramos bons o suficiente para sermos compreendidos no âmago de nossas questões mais urgentes ou mais pungentes. Afinal, diziam os menos respeitosos, isso são detalhes da língua que pouco e nada contribui para a construção ou ampliação do conhecimento. E quantas vezes não mordemos os lábios por nos sentirmos desrespeitados não só na nossa condição de pesquisadores, mas de cidadãos de um país ou do mundo.

Ouvi por muito tempo que o mundo era assim mesmo. Os mais fortes apontam, determinam e os mais fracos obedecem. E nessa ordem estavam não apenas pessoas com mais conhecimento, dinheiro, poder ou tudo isso junto, mas também a relação entre as instituições e seus instituídos, os países e a geopolítica. Sendo eu originária de um país colonizado isso então ganhava contornos mais agressivos. Até bem pouco tempo atrás eu era cidadã do Terceiro Mundo, depois passei a pertencer a um país em desenvolvimento, para depois ser emergente e hoje ser uma respeitada professora da sétima maior economia do mundo. Caramba! E isso tem menos de 50 anos… o que representaria isso para a História?

Representa a possibilidade de ver uma mudança de jogo em que já não admito ouvir uma referência a mim com as expressões sudaca ou brazuca. Desculpem os atrevidos, descolados ou ainda informais. Eu sou brasileira. Aquela que já foi tudo aquilo do parágrafo anterior, que pedia desculpas ao abrir uma palestra em língua inglesa por não ter domínio total daquele idioma e que via meus textos serem rejeitados nas revistas internacionais por não serem escritos por um “nativo”, afinal nossas traduções nunca eram boas o suficiente para estar ao lado de orgulhosos produtores de conhecimentos nativos.

Acompanho desde o último sábado dia 03 de março a polêmica causada por uma declaração infeliz do secretário geral da FIFA a respeito das obras da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Disse ele que o Brasil precisava de um chute no traseiro para que as obras andassem a um ritmo mais acelerado…

Como cantaria Noel Rosa: Quem é você que não sabe o que diz. Meu deus do céu que palpite infeliz…

É muito provável que na escola onde o senhor Jérome Valcke estudou não havia disciplinas bem dadas de antropologia e pouco tenha discutido o conceito de eurocentrismo, ou francocentrismo mais especificamente, que tanto atropelou o mundo ao longo de incontáveis séculos, embora no Brasil, e mais especificamente na Universidade de São Paulo onde sou professora, se tenha o maior respeito pelo Prof. Claude Lévi-Strauss. Sua fala aponta o quanto está impregnado no pensamento de pessoas como ele a superioridade de sua casta, de seus antepassados que se referiam aos povos das Américas, da África, da Ásia e até de alguns da própria Europa, como aqueles selvagens, bárbaros ou coisa que o valha. Na posição que ele ocupa, de um quase representante de Estado (afinal de contas a FIFA conta com mais países associados do que a própria Organização das Nações Unidas), não se admite esse tipo de expressão, mesmo em uma roda de amigos dos mais íntimos, quanto mais em uma coletiva de imprensa. Que coisa lamentável. Que falta de preparo. Que falta de cuidado. Que desconhecimento das coisas que passam no mundo contemporâneo.

Essa notícia me pega em um momento em que tenho ouvido de atletas olímpicos o mesmo sentimento diante da tentativa de imposição da submissão por parte de alguns atletas, dirigentes ou mandatários do esporte mundial e o quanto eles têm que ser firmes em seus princípios e convicções para não sucumbirem diante de uma profecia auto realizadora de fracasso iminente.

Desde outubro do ano passado acompanho a posição do governo brasileiro diante das determinações da FIFA e do COI em relação à lição de casa brasileira para recepção dos dois maiores mega eventos esportivos da atualidade. Passada a euforia inicial de entrar para o mapa dos grandes eventos planetários veio a ressaca das negociações relacionadas a obras, soberania nacional e outras questões que esses eventos hoje contemplam. Sabe-se sim que é necessário conceder em parte para receber de outra, mas isso tudo é muito recente ao repertório do povo brasileiro que historicamente teve que dobrar os joelhos diante de interesses fossem eles econômicos, políticos, sociais ou qualquer outra categoria de análise.

Confesso que temi à concessão pura e simples das exigências impostas pelos donos dos espetáculos. Aguardei ansiosa pelo desfecho do desrespeito com que a presidenta Dilma foi tratada ao não ser recepcionada pelos altos dirigentes para negociar a Lei Geral da Copa. Pensei comigo que sendo ela a mulher que é e com o passado que tem não poderia tolerar de forma resignada às ordens ardilosas de pessoas como o senhor Valcke que punham em risco e em jogo a nossa soberania e algumas conquistas históricas. Fui levada a crer que sua postura conciliadora naquele momento fazia parte de uma estratégia que buscava o instante exato de levar à mesa de negociação os nossos interesses. Mas, pelo que vejo, os negociadores da Copa do Mundo não fizeram a mesma análise de conjuntura que o time brasileiro. E uma vez mais se puseram em campo vestidos da arrogância dos civilizadores que invadiram a América, a Ásia e a África proclamando ao mundo não a sua tomada, e sim o seu descobrimento. E não contentes com a imposição da própria cultura sobre a cultura local determinaram ainda padrões de comportamento, de pensamento e até de fé sobre os “nativos”, “desalmados” e “aculturados”. Esqueceram-se apenas esses senhores que se passaram mais de 500 anos desde que isso ocorreu e que as ciências humanas se desenvolveram ao ponto de nos proporcionar inclusive a condição de poder avaliar e julgar o comportamento dos colonizadores.

Que felicidade a nossa, senhor Valcke, e infelicidade a sua, de ter diante de si cidadãos capazes de se orgulharem de fazer parte de um momento da história do Brasil de resgate da dignidade, da capacidade de se ter figuras de projeção e de identidade que estão dentro do próprio país e não em continentes distantes com muito mais anos de existência que o nosso. Que erro de avaliação, senhor, ao acreditar que um saquinho cheio de promessas de projeção internacional seria suficiente para lhe dar o direito de tratar com a arrogância e o desrespeito não apenas um interlocutor do governo, mas toda uma nação.

Volto a dizer. Vivo no Brasil, trabalho para sua transformação porque também tenho a noção exata de nossos problemas, de nossas limitações, mas isso não dá a mim, nem a qualquer sujeito nesse mundo que não tenha direito a voto, de determinar os rumos que devemos tomar.

Parabéns ministro Aldo Rebelo. Sua atitude firme e imediata de responder à forma desrespeitosa como fomos tratados, de como me senti tratada e desrespeitada, me leva a crer que podemos ter uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos diferentes. Não apenas sendo campeões, trazendo medalhas, mas podendo erguer a cabeça e afirmando que desejamos receber a quem quiser ver esses espetáculos no Brasil, com o orgulho de ser um país diferente, cheio de imperfeições, mas com dignidade, dignidade essa que pode ter faltado a outros que pagaram um preço muito mais alto do que o lucro resultante dos espetáculos. Pagaram com o desrespeito a sua soberania.
E não tente, senhor Valcke, querer usar a mesma e velha desculpa comum ao meio acadêmico para justificar o desastre que causou: foi um erro dos tradutores que não compreenderam a intenção do que foi dito!

Pelas lentes da cultura

Cá estou na Kent State University, em Ohio, quase divisa com o Canadá, em uma daquelas atividades que tenho o privilégio de usufruir porque estou em uma universidade que incentiva não só o ensino, mas o desenvolvimento da pesquisa. Venho como professora visitante e meu objetivo é ampliar a pesquisa que faço hoje sobre os atletas olímpicos brasileiros em colaboração com a Profa. Kim Schimmel.

Diferentemente do que possam pensar alguns não fico o dia inteiro sentada na biblioteca, ou dentro de um laboratório. Também faço isso, aliás, que biblioteca! São 9 andares com quase tudo que se possa querer em língua inglesa e algumas coisas mais em outros idiomas. Mas, o que me parece mais importante nesse momento como pesquisadora é a possibilidade de conhecer outras pessoas. Não falo isso apenas com o sentido pragmático de fazer conexões e redes que me permitam publicar, publicar, publicar. Penso em estar com as minhas antenas ligadas naquilo que me possa colocar em contato com o mundo para tentar entender um pouco melhor esses seres que somos.

Por razões de logística estou convivendo com um grupo de pessoas que são professores de inglês em seus países. E assim tenho convivido, no mesmo apartamento, com uma professora do Senegal, Yacine, uma da Malásia, Sharin, e outra de Brasília, Alessandra,… isso mesmo, o mundo é tão pequeno que tem mais brasileiros por aqui… e olhe que somos apenas um pouco mais que 10% da população chinesa que está quase dominando o mundo!!! E fora do nosso grupo mais restrito de convivência tenho contato cotidiano com pessoas da Nigéria, do Marrocos, da Indonésia, África do Sul, Índia, Japão, Venezuela, China, óbvio, o que me faz apurar sempre e cada vez mais as lentes da cultura para a compreensão dessa nossa espécie.

Todas as terças-feiras 3 ou 4 pessoas do grupo abordam tópicos relacionados aos seus países, trazendo assim um pouco de informação sobre cultura, meio ambiente, política. Hoje fomos contemplados com uma apresentação sobre educação. E por quase uma hora ouvi no Gerald H. Real Center for International and Intercultural Education, Umi falar sobre o sistema educacional na Indonésia, assim como Rougi falou do Senegal e Lawrence apresentou o sistema na Nigéria. Assisti com um misto de curiosidade e emoção esses professores falarem com orgulho sobre seus fazeres pedagógicos mesmo diante da falta de recursos que impera na maioria dos países. Mais do que informações eles trouxeram imagens e sentimentos sobre o que é ser professor de ensino básico em salas com 60 alunos e ainda assim oferecer atenção e suporte a todos.

Entendo que talvez o que mais me tenha sensibilizado foi olhar para aquelas apresentações e ver ali também um pouco do Brasil. Aquele Brasil de não muito tempo atrás onde as estatísticas sobre a desigualdade eram diferentes das que temos hoje. Não sou nenhuma Poliana para achar que não temos mais problemas! Leio jornais diariamente e tenho formação acadêmica e política suficiente para compreender as mazelas que são tão nossas. Mas ali, naquele momento, pude perceber que ricos ou pobres todos temos problemas e desafios a vencer, e o que nos diferencia é o grau de dignidade com que lidamos com nossos problemas.

Isso ficou claro, quando ao final das apresentações, durante as discussões, Agneta, uma combativa professora da Nigéria, pediu a palavra para complementar uma resposta que seu colega tinha dado sobre a precariedade das condições de ensino em seu país. Disse que embora as salas sejam super povoadas e que o número de alunos por professor seja elevado, em seu país ensina-se na escola de dois a três idiomas, além da língua natal e que há outros componentes na educação que fazem os cidadãos de seu país serem quem são.

Fui ao encontro dela depois dessa discussão porque na semana anterior ela havia feito uma exposição sobre questões ambientais e me chamou a atenção como ela apresentou os programas de economia de água que são feitos nas escolas em um país onde o stress hídrico é crônico. Lembro de ter ficado atenta não apenas à forma como apresentou as informações, mas principalmente porque buscou apontar saídas, alternativas mesmo diante da escassez não apenas da água, mas de diferentes tipos de recursos. Para mim estava claro que mesmo com tanta falta, sobrava esperança. Depois de cumprimenta-la por mais uma intervenção digna de nota perguntei sobre os corredores de longa distância da Nigéria, reconhecidos como os melhores do mundo, afinal, tudo o que se relaciona com esporte me interessa diretamente.

E então ela me respondeu que correr é uma forma de se manifestar aquilo que cada um tem de melhor. Que as crianças na Nigéria percorrem longas distâncias para chegar à escola e o fazem correndo, porque aquilo lhes dá prazer. Não é apenas uma obrigação, pelo contrário, elas vão ao encontro da escola, correndo. E com um sorriso estampado no rosto foi me contando que esse prazer é um misto de orgulho e dedicação àquilo que está dentro de cada um, que é intrínseco àquelas pessoas. E com a mesma intensidade com que fez sua apresentação me falou sobre o que significa correr na Nigéria.

Esse diálogo me valeu por muitos semestres das Dimensões Antropológicas da Educação Física disciplina que lecionei durante muitos anos. Isso porque sempre evitei as discussões estéreis sobre os embates natureza x cultura que tanto ainda se tenta fazer nos estudos sobre o esporte. Sem contar que durante muito tempo os argumentos produzidos nessas discussões serviram para justificar muitas coisas, inclusive o preconceito e a discriminação contra as mulheres, os negros, os baixos, os magros, os fora de padrão de maneira geral. Teorizar sobre a diversidade e a cultura é fundamental para se entender o que se passa no esporte na atualidade. Isso porque mais do que justificar os resultados incomuns que ocorrem em diferentes modalidades é preciso entender que o mundo se ampliou para além das nações que historicamente determinaram o “quadro de medalhas”.

Isso representa uma transformação na geopolítica esportiva que vem ocorrendo a passos largos desde que o continente africano, a América Latina e a Ásia de forma mais ampla deixaram de ser os países “café-com-leite” do movimento olímpico, ou como diriam os colegas do atletismo “aqueles que vêm para preencher raias”, para buscarem o protagonismo que os europeus e norte-americanos tiveram ao longo do século XX. Se a falta de acesso às condições materiais eram as grandes responsáveis por esse distanciamento no passado o que se assiste hoje é que, com maior ou menor frequência, o acesso a essas condições e às teorias do treinamento está levando a uma maior participação na repartição das premiações. O bolo começa a ser dividido em mais pedaços. E quem está com o prato e o garfo nas mãos são aqueles, que como Agneta me falou, trazem em si o desejo da conquista. E esse desejo não está a venda nem em lojas especializadas, nem nos melhores sites de material esportivo. Isso está na cultura, na transmissão de valores, na educação que se recebe de professores como ela e alguns outros que tenho encontrado por esse mundo. Pessoas que têm a ousadia de pensar que podem mudar o mundo e trabalham para isso.

Vejo o esporte cada vez mais mobilizado pelo dinheiro. Nunca se pagou tanto para que alguns nos maravilhassem com suas performances sobre humanas. Nunca se mobilizaram tantos recursos para que cidades e nações recebessem em seu território competições capazes de receber público de todo o mundo. E por outro lado, nunca se falou tanto sobre a preocupação com as novas gerações que perderam o encanto pela competição em si, pela prática esportiva que forma esse sujeito que olha para os desafios com a satisfação em supera-los.

E a resposta talvez esteja nessa ausência de alma, nesse desânimo, nessa perda de orgulho que está vinculado a um valor… valor esse que não tem preço.

Quanto dói uma dor

Já faz um tempo que me detenho a estudar as questões relacionadas com a dor. Motivada pela história de vida de alguns atletas quando escrevi os Heróis Olímpicos Brasileiros passei a observar com mais atenção as narrativas e discursos a respeito desse tema.
Comecei notando que vários dos atletas entrevistados falavam espontaneamente de uma dor que é cotidiana, e, portanto passa a ser normal na vida deles, que eu acabei por nomear como dor de treinamento. Nesse tipo de dor o atleta se sente quase confortável e associa sua intensidade e frequência ao reconhecimento de um dia intenso de trabalho. É uma dor quase prazerosa, diriam os mais sádicos.

Há, por outro lado, uma dor indesejada, dolorida de dar dó, porque impede o treino do dia seguinte, e quem sabe das próximas semanas, até mesmo finaliza o campeonato ou a carreira. Essa é a dor da lesão. Dor perigosa não apenas pelos impedimentos de ordem física, mas porque representa uma grande ameaça do ponto de vista emocional por testar o limite da superação do atleta, e porque do ponto de vista material coloca em risco contratos e a própria carreira.

Ao longo da minha atual pesquisa em que tenho ouvido todos os atletas olímpicos tomei contato com outros tipos de dor. Claro que em se tratando de seres humanos, poderemos ter tantas percepções e qualificações sobre a dor quantos atletas forem entrevistados, principalmente se eles forem alguns tipos particulares que olham a vida com óculos de lentes especiais, aquelas que permitem olhar não para as coisas, mas para além delas.

E assim pude ouvir narrativas a respeito da dor da derrota, por exemplo. E, acredite, ouvi algumas coisas de espantar, e outras, simplesmente de cortar o coração. Há derrotas que marcam a vida de atletas muito mais do que as vitórias. Isso, às vezes, está relacionado com a onipotência que o atleta vive naquele momento da vida e é muito difícil para um deus se ver falível, menor, derrotado. O que há de interessante nessas circunstâncias é que se bem elaboradas, essas situações podem representar verdadeiros pontos de transformação na vida desses atletas. Por outro lado há aqueles que mesmo depois de muitos e muitos anos ainda continuam a remoer aquele resultado, carregando-o como a um trem cheinho de minério de ferro… pesado, pesado. Compreensível essa dor na vida de quem foi educado e preparado apenas para vencer.

Ouvi também sobre a dor do corte entre alguns atletas que posteriormente se tornaram técnicos. E que, curiosamente, após a inversão de papeis passaram a redimensionar a carga que aquela situação carregava. Claro que isso está presente na fala daqueles menos egoístas, endeusados ou ensimesmados com a própria fama e glória. Afinal, ser técnico pode fazer supor coisas imponderáveis. Falo de técnicos que, como bem pesquisou David Alves de Lima em seu mestrado, assemelham-se a mestres. Esse tipo de técnico mais do que ensinar técnicas e boas jogadas a seus atletas tem o cuidado de olhar para o sujeito que executa a ação antevendo os muitos desdobramentos que aquilo provoca tanto em quem assiste, como em quem executa ou ainda no adversário. Não é à toa que a referência de comparação para esse tipo de técnico seja o Centauro Quíron, o preparador dos grandes heróis da mitologia. Uma das características marcantes desse centauro, e, portanto imortal, é que ferido por uma flechada mortal é fadado a sofrer para o resto de seus dias, uma vez que não pode experimentar a morte. E, para poder lidar com a própria dor, passa a cuidar das dores alheias.

O que vejo então dessas muitas manifestações e representações sobre a dor é o quanto há de marcas pessoais, carregadas a partir da própria história de vida dos sujeitos, e também sociais e culturais. Em toda a literatura sobre a dor encontramos essa questão específica da cultura, daí a dificuldade de se construir ou traduzir instrumentos de avaliação sobre o tema. Isso porque, toda avaliação do sujeito sobre a dor é subjetiva, e por mais que se tente objetiva-la a sua construção está referenciada em parâmetros desenvolvidos social e culturalmente.

Por isso a dificuldade de se entender a exata dimensão do quanto dói uma dor, seja ela de que tipo for. De uma pancada na quina da mesa, ou o acúmulo de ácido láctico na panturrilha, ou o erro na execução do último ponto do jogo, ou a dispensa do 13º jogador nas vésperas do embarque para os Jogos Olímpicos, enfim, não há muito a dizer se isso foi pior ou melhor daquilo que eu senti, assim como é trágica a frase: “eu sei exatamente o que você está sentindo…”. É trágico porque embora pareça reconfortante uma frase dessas, como canta Marisa Monte, “a dor é minha só, não é de mais ninguém”. Sei que é duro dizer isso e nem quero ser injusta com todos aqueles que se solidarizam com quem precisa de algum tipo de apoio ou conforto nas piores horas da vida. Falo isso por conta das muitas situações já vividas como psicóloga em que sou procurada justamente pela necessidade de se elaborar uma perda. Por mais que eu me prepare para oferecer uma boa resposta ou acolhida, não está escrito em nenhum manual qual a melhor maneira de fazê-lo. E então novas respostas, novos entendimentos vão surgindo à medida que posso ouvir mais, entender aonde dói a dor e porque ela dói tanto, quais os desencadeantes e porque ela gera sofrimento.

E então chegamos ao ponto. Como bem escreveu o poeta Drummond

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

E voilá. Por que será que às vezes optamos por sofrer, por arrastar nossa dor como o paninho do Linus do Snoopy aonde quer que a gente vá?

Lembro de ter lido essa construção do Drummond exatamente há um ano, na sala de espera de uma clínica em que meu pai foi atendido quando ele teve um problema cardíaco. E embora ela tenha reverberado em mim a ponto de eu adotá-la como uma de minhas citações preferidas, eu não tinha a menor ideia que estaria fazendo seu uso justamente para falar de uma dor, que é a dor da perda de alguém que se ama. E que, embora nenhum dos atletas tenha falado sobre ela posso afirmar que diferente da dor do treinamento eu não espero encontra-la no dia seguinte indicando que tive um bom dia de trabalho. Que ela não é a dor da lesão, porque não haverá cirurgia que a faça recrudescer. Que ela não se parece com a dor da derrota, muito embora guarde semelhanças com algumas reflexões como: o que será que eu fiz de errado, que ponto fundamental eu deixei de fazer para esse resultado ou pior ainda, será que eu estava no time certo para esse campeonato? Mas, como o tempo não volta, já não vale mais a pena gastar tempo pensando nisso. Talvez ela se aproxime da dor do corte, afinal embora aquele que se perdeu possa ser representado pela camiseta que ele usaria ou pela foto montagem para suprir a falta física, mas a ausência está lá, profunda, aguda, dolorida pela impossibilidade de se substituir quem falta. E então sobram os vestígios: músicas, situações, palavras e a constatação de que o dia em que isso vai passar também é uma variante pessoal, porque se para alguns bastam semanas, para outros talvez seja necessária uma nova vida.

DAVID ALVES DE LIMA. Técnico-Mestre e Atleta-Herói. Leitura Simbólica dos Mitos de Quíron e do Herói entre técnicos de voleibol. Dissertação de mestrado. Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. A ser defendida em 23/03/2012.
RUBIO, K., GODOY MOREIRA, F., RABELO, I. Percepção do esforço e da dor pelos atletas de multiathlon. Revista Dor. v.11, p.37 – 44, 2010.
GODOY MOREIRA, F., RUBIO, K. A dor em corredores com fascite plantar: o uso da acupuntura. Revista Dor , v.9, p.1290 – 1296, 2008.
RUBIO, K., GODOY MOREIRA, F. A representação de dor em atletas olímpicos brasileiros. Revista Dor , v.8, p.926 – 935, 2007.

Próximo


Arquivo:
Acompanhe: rss RSS (o que é isso?)
Outros Blogs do CEV





© 1996-2012 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.