Blog da Katia Rubio


Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos


O ano do dragão, video game e MMA

É muito bom sair um pouco da rotina para a gente poder enxergar o que está tão perto de nossos olhos, mas acostumados que estamos com o cotidiano já não são capazes de enxergar as coisas mais óbvias. Dizem que foi assim com os grandes inventores e descobridores de todos os tempos. Isso ocorre com frequência quando trabalhamos sobre um texto. Escrevemos, lemos, apagamos, refazemos tantas vezes que já não enxergamos mais os erros, as palavras e ideias repetidas e as conclusões que, as vezes, estão logo ali, diante de nosso nariz, com uma tiara de neon e uma melancia no pescoço. E então, chega alguém de fora, lê, elogia e aponta a conclusão – não escrita – que esteve sempre ali. Por isso tenho por hábito deixar meus textos “fermentarem”, como a gente faz quando amassa pão. Sempre achei mágico aquele processo todo: água quente para fazer o fermento ”acordar”, depois um ovo, um pouco de óleo ou margarina e aí a farinha… uma, duas, três xícaras e amassa, amassa e amassa mais um pouco. Volta pra tigela, já como uma bola com aquele cheiro próprio do fermento que está agindo, coberto com um pano sequinho em um lugar quente e sem vento. E daí vem o milagre: depois de 50 minutos lá está aquele produto vivo e dinâmico que para ser assado precisa ser uma vez mais amassado e formatado para ir ao forno. Realmente, fazer pão e escrever são coisas muito parecidas. E assim como posso escolher diferentes farinhas e líquidos para fazer pães com diferentes sabores, posso escolher diferentes palavras e formas de escrever para expressar minhas ideias.

Hoje, enquanto cozinhava, pensava no fenômeno MMA e UFC.

Não pretendo aqui fazer reflexões moralistas acerca das lutas, principalmente após orientar uma tese de doutorado sobre a genealogia do judô brasileiro, de Alexandre Velly Nunes, leitura obrigatória para estudiosos e amantes das artes marciais. Uma preciosidade, posso afirmar. O que tento entender é o que acontece com uma sociedade, em pleno século XXI com tantas inovações e avanços no campo das ciências biológicas e sociais, reproduzir comportamentos anteriores ao nascimento de Cristo. Farei um esforço para poder ser entendida.
Observo que as lutas exercem grande fascínio, principalmente entre os jovens. Não é por acaso que as encontramos em inúmeros seriados infantis de National Kid a Power Rangers, o que atesta a atemporalidade desse entretenimento. Penso também que o imaginário envolvido nas lutas acaba por evocar um universo mítico que permite emergir toda ordem de criaturas monstruosas, como bem observamos nas diferentes séries que ano após ano se repetem em diferentes emissoras. Vale ressaltar que em todos episódios das diferentes séries o que prevalece nos roteiros é uma estrutura maniqueísta onde, obviamente, os mocinhos ganham dos terríveis vilões, sejam eles seres de outro mundo, uma figura mitológica ou um ser humano com poderes supremos, quase sempre aniquilando-os, destruindo-os, restituindo em seguida a humanidade do aniquilador.

Confesso que esse tipo de produção nunca exerceu sobre mim qualquer fascínio, mesmo quando eu era garota e via o “Nachonaro Kido” na sessão Zás Trás. Mas, acho que eu não sou das melhores referências para isso porque a TV nunca me encantou. Até que meu filho Toshihiro surgiu. Gerado em um mundo de tecnologia acessível e virtual, desde cedo, mas muito cedo mesmo, ele se envolveu com o mundo dos games. Lia, jogava, colecionava publicações e ainda no ensino fundamental era uma espécie de consultor para assuntos “jogos” em sua escola. Tentei por muito tempo incentiva-lo a buscar jogos próximos do RPG, mas é claro que os mais desejados eram aqueles que envolviam lutas. Lembro como ficava irritada com os jogos de lutas (e depois descobri que não eram apenas os de lutas) e a situação limite do “Ih. Morri”. Sentia aquilo como a banalização da morte, da finitude e um desrespeito pela situação do embate contra um oponente, fosse ele mais forte ou fraco. Percebo hoje que a lógica que me movia e me mobilizava era aquela praticada no “do”, entendida como caminho.

Agora sei que Gigoro Kano tentou evitar a inclusão do judô no programa olímpico por conta de um receio concreto que seu “caminho da suavidade” se tornasse apenas um combate. Por entender que o judô era um caminho para muitas coisas, principalmente para a educação, Kano evitou o quanto pode fazer da luta apenas uma briga. Isso porque as referências culturais que trazia do Japão davam a ele uma dimensão própria do que eram as lutas para seu país em diferentes momentos históricos em que elas se desenvolveram. Como aponta Nunes (2011) a formação dos monges chineses e coreanos e a classe dos Samurais são alguns exemplos bem conhecidos da formação de lutadores nessas regiões. Nesses locais, a formação para o combate quase sempre esteve associada a rituais religiosos, ao estabelecimento de padrões de comportamento e a uma ética particular. Para o treinamento utilizavam-se formas mais brandas e menos violentas de combater, daí a transição para o esporte.

Hoje a tarde fui assistir às comemorações da entrada do ano novo chinês, o Ano do Dragão, no Templo Zu Lai, próximo a Cotia, em São Paulo. E todas essas questões invadiram meu sótão acordando meus macaquinhos que andavam por lá adormecidos. Entre a dança do dragão, dos leões, apresentações de tai chi chuan e kung fu pensei no quanto tudo aquilo é significativo dentro do contexto em que foi desenvolvido. Arte, meditação, educação, religião… tudo ali se mistura de forma homogênea onde nem o mais audaz cartesiano é capaz de separar, dividir, compartimentalizar. E então me lembrei uma vez mais do mestre Carl Gustav Jung que tenta explicar no livro O Segredo da Flor de Ouro a impossibilidade de se praticar os orientalismos de forma plena fora do Oriente. E isso se deve a uma razão simples: por melhor que se possa reproduzir o que se passa no Oriente nenhum lugar será como lá. O que sempre veremos serão simulações, e as vezes simulacros como diria Baudrillard, do Oriente, mesclados à cultura local e suas idiossincrasias. Então, embora lá estivessem monges budistas, diplomatas e membros da comunidade chinesa, aqueles rituais todos que estavam sendo apresentados já eram uma mescla com a cultura brasileira.

E com esses mesmos argumentos e pensamentos voltei a lembrar no UFC e MMA. Isso porque não vejo mal nenhum em entender esses espetáculos como quaisquer outros onde alguns seres iluminados conseguiram vislumbrar uma possibilidade de fazer um grande negócio, movimentando milhões de dólares, explorando as habilidades de algumas pessoas fora da média. Nada que faça surpreender em um modo de produção capitalista! Por isso lutadores migram de suas modalidades amadoras, olímpicas ou ritualísticas porque desejam buscar fama e fortuna com um tipo de atividade que pode lhes proporcionar uma vida melhor. Não é assim em outras profissões?
Então paremos de escamotear, de tergiversar ou enganar a quem quer que seja.

Que não se confundam essas práticas de entretenimento com esporte. Muito embora tenham regras definidas, sejam institucionalizadas e organizadas não devem ser entendidas e confundidas com esporte.

Entendo que tanto o UFC como o MMA são vídeo games reais. Os combatentes são avatares criados a partir de uma referência da necessidade de luta, que para ganhar dramaticidade são nomeados com distinções míticas ou simbólicas, valendo prêmios milionários. E se no passado o imperador de sua tribuna usava os polegares para determinar a morte do derrotado, agora temos a televisão, cuja audiência qualificada aponta o céu ou os infernos para o menos habilidosos ou desfortunados no combate.

Há espaço para muitas manifestações culturais e formas de entretenimento na sociedade contemporânea e não me julgo arauta da moralidade e dos bons costumes para promover uma cruzada contra o MMA e o UFC. Entendo que essas competições não são menos nocivas que o BBB ou algumas novelas que impõe padrões de comportamento. O que talvez devesse ter pedido ao dragão, nesse ano que se inicia, é que definitivamente essas manifestações de movimento não sejam confundidas com o esporte.

NUNES, A. V. (2011) A influência da imigração japonesa no desenvolvimento do judô brasileiro: uma genealogia dos atletas brasileiros medalhistas em jogos olímpicos e campeonatos mundiais. Tese de Doutorado. Escola de Educação Física e Esporte. Universidade de São Paulo.

Ciclos que se repetem

Ano novo, vida nova.

Essa é a frase que mais costumamos ouvir no mês de janeiro, independente do ano. Ela pode ter diferentes significados, a depender de onde parte a comunicação. Vejo em casa, por exemplo, no que se refere ao ano escolar. Se as crianças foram mal, ficaram de recuperação, sofreram para alcançar o novo estágio ouço a frase profética como se fosse um misto de promessa e desejo: “espero não passar por tudo isso outra vez, então vou começar do começo pra fazer tudo direitinho”. Há também as situações que remetem ao desejo de mudanças profundas que não foram realizadas nos anos anteriores. As mudanças podem se referir à troca de emprego, de casa, de mulher, de profissão ou de vida. O ano novo é prenuncio de que coisas novas podem acontecer quase de forma mágica, afinal, basta olhar para a folhinha ganha na farmácia, no mercado ou no açougue para se ter a certeza que o velho ficou para trás e o novo está adiante, cheio de possibilidades. Ano novo, vida nova.

A linearidade com que nos acostumamos a lidar com o tempo, por conta dos calendários impressos, folhinhas e agora os muitos avisos de tempo que temos das maquininhas digitais – relógios, telefones, computadores – faz com que nos distanciemos daquilo que é próprio do tempo cíclico, ou seja, as passagens inexoráveis sejam as 24 horas diárias, os 7 dias da semana, os 30 dias do mês, os 365 dias do ano, que de 4 em 4 anos (como uma Olimpíada) ganha um dia a mais, reforçando a ideia de ciclo. E assim, mudam as estações do ano e temos uma noção aproximada do que está por vir, seja a primavera ou o inverno, muito embora não tenhamos qualquer noção do que ocorrerá além das flores ou da queda das folhas das árvores.

Tenho predileção por uma música do Renato Russo cujo título manifesta a recorrência e o inesperado do tempo. Seu título é Por enquanto e o início da letra diz o seguinte:

Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba

Pois bem, assim como as estações, as festas de aniversário, de namoro, casamento nosso calendário esportivo também é cíclico, muito embora ele as vezes costume ter mais constância. Vai ver são as mudanças climáticas que também afetam o fazer competitivo. Não tem sido assim com os verões mais chuvosos, os invernos mais secos ou as primaveras mais frias? Pois bem, cada novo ano pode trazer surpresas para espectadores e profissionais do esporte. Calendários mais longos ou concentrados, novos times, atletas, no limite alguns técnicos, mas quase nunca novos dirigentes… Parece que para isso o ciclo é como de alguns cometas decanos ou centenários… mas, esse texto não tem por finalidade se ocupar desse tema.

Esse final de semana teve início o Campeonato Paulista de Futebol. Embora eu não me ocupe de escrever com frequência sobre esse tema, não posso deixar de me manifestar sobre esse fenômeno que mobiliza a vida de milhões de paulistas e brasileiros. Tivemos ontem a primeira rodada do campeonato com Corinthian x Mirassol e hoje teremos São Paulo x Botafogo de Ribeirão Preto. Não vou entrar na discussão do absurdo da falta de transmissão de todos os jogos porque senão gastaria o espaço dedicado a discutir o tema proposto e ainda seriam necessárias muitas outras semanas para não chegar a nenhuma conclusão. Sem contar que essa semana acompanhei de perto as mobilizações contra o projeto de lei nos EUA que buscava regular (ou censurar) as mídias digitais, o chamado SOPA. Digo isso porque, se proibido ou não o fato é que todos os jogos puderam ser acompanhados pela internet, a mesma mídia que nos possibilitou um pouco de liberdade com qualidade na cobertura dos últimos Jogos Pan-americanos, em Guadalajara.

Pois bem. Isso para dizer que os ciclos se repetem. O campeonato começou e quando abri o jornal essa manhã vi lá estampadas inúmeras matérias falando dos jogos de ontem e os de hoje já lançando projeções sobre o final do campeonato. Parei para pensar um pouco no que estava lendo e se de fato era mesmo a primeira rodada do campeonato. Sim, era. Entre surpresa e perplexa li os textos que apresentavam os erros e acertos de técnicos e jogadores, as expectativas sobre o desempenho de atletas, as reclamações pela falta de reforços que garantirão o título desejado há anos, etc. etc. Incrível como as notícias permanecem as mesmas mesmo quando se tem fatos novos.

Por que será que as coisas têm que ser assim?

Fiquei pensando nos tantos fatos que aconteceram nas últimas semanas que poderiam resultar em matérias interessantes para tingir o papel. Histórias de superação de atletas, técnicos e times que iniciam uma temporada sempre com a esperança de que “esse ano será diferente”. Mas, não. A análise do jogo vem carregada as expectativas do que ocorreu no ano passado, tanto para os que ganharam, como para os que perderam. É como se o jogo descrito, comentado e avaliado não fosse o mesmo que vi em tempo real. Foi o primeiro de muitos jogos desse ano, como foi no ano passado, como será no próximo ano.

Oras, se é tudo tão igual, o que muda então?

A resposta é óbvia: a leitura mais próxima possível do que ocorreu no momento. Um cruzamento bem feito, um belo toque na área, uma ótima defesa do goleiro, uma jogada perfeita que levou ao gol. Só isso.

Lembro-me do quanto eu desejava trabalhar com esporte quando estava na faculdade de jornalismo. Lembro também do desgosto de alguns colegas que escolheram essa área pela discriminação sofrida em relação a editorias mais nobres como a economia ou política. Chegava ao esporte aqueles que iam sobrando pelo caminho e isso servia de justificativa para a pobreza que reinava no jornalismo esportivo. Felizmente esse cenário mudou. Vejo jornalistas cada vez mais bem preparados para desempenhar o seu ofício o que conferiu um novo status às editorias esportivas. Mas, a espetacularização do esporte, menos do que sua competitividade tem levado parte do jornalismo esportivo a perder novamente seu rumo, sua identidade. Vejo faltar informação e sobrar “entretenimento”. A se confirmar isso, temo pelo que efetivamente poderemos saber sobre o que se passa para além do resultado de um jogo. Afinal, jornalismo é feito para nos informar, ou isso também teria mudado no último ciclo?

Penso que o jornalismo esportivo poderia ser assim, tão simples quanto as estações do ano. Basta olhar para uma azaleia cor de rosa no mês de setembro e se saberá que é primavera, ou para as quaresmeiras lilases em abril para saber que já é outono ou os ipês amarelos para saber que o inverno está no fim… mas, embora tudo isso seja tão óbvio não há nada mais maravilhoso do que se deparar com alguma dessas belezuras para encher a alma de ânimo pelo efemeridade daquela florada. Só mais uns dias e apenas o marrom do tronco e o verde das folhas persistirão. Mas, assim como é certo o raiar do dia, no ano que vem lá estarão elas para mais um ciclo. Assim como nossos campeonatos.

Obrigação, desejo, necessidade, vontade

Acompanho de perto alguns grupo de atletas profissionais com diferentes origens e estruturas de carreira. Isso me faz refletir sobre as disparidades que envolvem essa atividade profissional ainda tão nova nesse país em que o amadorismo ainda prevalece na condução do fazer esportivo.

Como não poderia deixar de ser isso remeta a minha própria história quando a perua o clube ia buscar a mim e várias colegas na porta da escola onde estudávamos, três vezes por semana para treinarmos a alguns quilômetros de nosso bairro. Ao final do dia, satisfeitas, ganhávamos um misto quente. Uniforme só era usado em dia de jogo.

O máximo que se podia almejar era uma bolsa do “Adote um atleta” onde algumas empresas exerciam uma espécie de mecenato, contribuindo assim para o desenvolvimento do esporte brasileiro. Essa é a pré-história do esporte profissional na cidade de São Paulo. E nós, apaixonadas pela competição, por treinar e jogar, independente do dia da semana ou mês doa ano, buscávamos por uma quadra e pessoas para jogar mesmo que não nos conhecêssemos anteriormente.

Ok. Essa era a fase romântica do esporte dirão alguns e eu concordarei. Mas, lembro de disputas de Campeonatos metropolitanos, municipais e estaduais onde ginásios como o Baby Barione, no DEFE da Água Branca, ficavam lotados com muito mais que os familiares dos atletas. Lá aprendi o significado da expressão “dar o sangue”. Ou seja, tínhamos pouco ou quase nada e dávamos um show dentro de nossas limitações técnicas e estruturais. As vezes os desavisados me falam: “Imagine se vocês ganhassem para isso?”

Depois de 17 anos, atuando como psicóloga do esporte, tenho dúvidas se o dinheiro nos faria diferentes, para melhor.

Assisto no presente uma condição de vida para atletas jovens e maduros “como nunca antes na história desse país”. Isso é fato. Vejo sobrar coisas básicas como tênis, bermudas e camisetas, itens dos mais cobiçados há três décadas. Assisto maravilhada a facilidade de intercâmbio onde a possibilidade de ir e vir em menos de 40 horas comprova que o mundo realmente ficou plano. Isso também levou a uma democratização do treinamento. Hoje não há segredos sobre o que se faz “do outro lado do mundo”. E o resultado é uma possível elevação da auto-estima de nossos atletas que passam a se sentir mais competentes em relação a si próprios e mais confiantes em relação aos estrangeiros.

E diante disso seria de presumir que vamos muito bem, obrigada.

Mas, infelizmente, a resposta é não. Talvez o esporte se confirme como o palco das dramatizações sociais, como diria Roberto da Matta. A crise geracional tão bem identificada em outras atividades sociais se manifesta de forma evidente nessa, que por mais de um século viveu da perseverança e boa vontade de alguns abnegados que acreditaram no esporte como uma estratégia para dar uma formação diferenciada à juventude e, quem sabe, mudar o mundo.

Falo tudo isso para tentar elucidar o enigma em forma de discurso: “o esporte é para mim apenas uma obrigação”.

Recentemente participei da avaliação de um grupo de atletas profissionais, olímpicos e futuros olímpicos, e constatei estarrecida a insatisfação de um atleta que se ainda não sabe o que quer da vida, pelo menos sente que não é o esporte a razão da sua existência. E porque ele então continua? Pelo primeiro motivo apontado pelos estudiosos da iniciação esportiva: porque os pais assim o querem. E o que espanta é que embora a literatura nos mostre isso custamos a acreditar que essa situação de fato ocorra e os danos que isso pode causar na vida do jovem. Os desdobramentos disso para o esporte são óbvios: maus resultados, competições burocráticas e ausência do combustível básico da prática esportiva – a emoção. E assim como ocorre com médicos, advogados, engenheiros e tantos outros profissionais que determinam a vida futura do filho, como se fosse uma dinastia, é comum que pais que tenham tido uma experiência frustrada no esporte depositem em seus filhos seus desejos… e suas frustrações. E por vezes, não dêem aos filhos a chance de serem o que simplesmente desejam.

Sim, temos que admitir: nem todo mundo gosta de praticar esporte, nem deseja ser atleta profissional! E aqui falo de uma situação em que o atleta ainda não ganha nada para jogar. Diferente de um time juvenil em que os atletas já ganham muito mais do que muitos profissionais que passaram grande parte de suas vidas estudando para o exercício de uma função. Não sou contra uma boa remuneração para alguém que se dedica a fazer bem-feito o que escolheu para ser sua profissão. Fico sim indignada com aqueles que diante do ganho certo acomodam-se, escondem-se de sua obrigação e deixam no ar a justificativa de que “meu contrato me protege”. E se eles são para a sociedade um ideal de identidade para muitos jovens não atletas imaginem o que isso representa para tantos. Essa postura também dificulta a vida daqueles que vivem do esporte, reforçando uma representação social de que atleta é burro, mal instruído e vagabundo. E, pior, que a vida que ele leva é fácil, afinal é apenas jogar bola, viajar, conviver com celebridades e desfrutar do que há de melhor mundo afora. Quantos anos mais vamos ter que trabalhar pra formar atletas competentes não apenas do ponto de vista motor, mas também cognitivo, afetivo, moral e da cidadania? Dá pra imaginar alguém ser “obrigado a jogar bola e ser bem remunerado para isso”?

Nessa cabeça limitada por uma história construída no século XX, não. Vou ter que alterar, em breve, um recurso didático que uso em aula, para provocar debate, em que pergunto se ali alguém conhece alguém que é bancário, mas que não gosta de ser bancário. A reposta é sempre afirmativa. E então derivo para a engenharia, a administração, a psicologia, a química, até chegar ao esporte. Quase nunca encontro quem afirme conhecer um atleta profissional que seja insatisfeito com o que faz. Mas, diante das transformações que o esporte vem sofrendo isso já não é tão raro assim. Afinal, desde que o esporte se tornou uma profissão e uma possibilidade de ascensão social, muitos pais e responsáveis passaram a ver seus filhos como commodities. E nesse jogo, vale qualquer investimento para a valorização do produto. Eles só não sabem que os filhos, temerosos de perderem o amor familiar vão então em busca da realização do sonho de seus genitores, mesmo que isso represente a sua própria infelicidade. Não bastasse isso a sedução exercida por um ambiente construído para levar a uma atividade glamorosa ajuda a disfarçar a insatisfação ou a frustração de planos outros, afinal, estar no esporte significa ser competitivo, viril, características ultra-modernas.

Espero poder continuar a trabalhar com profissionais que enxergam essas discrepâncias a paradoxos e buscam estratégias para colocar “o bonde nos trilhos”, respeitando os sonhos de jovens que têm planos para o futuro, vontade de construir coisas e contribuir de alguma forma para deixar sua marca no mundo. Espero também encontrar mais pais que escutem de fato as demandas dos filhos e contribuam para o desenvolvimento de seus sonhos, sejam eles relacionados ao esporte ou não. E assim teremos, certamente, mens sana in corpore sano!

Quando falta inspiração

Outro dia conversando com um colega sobre a dificuldade que estava para escrever um texto fui obrigada a ouvir a seguinte pérola: relaxa – escrever para você é como comer alface… fácil, fácil. Até hoje não sei se ele queria me ajudar ou se aquilo era um indicador da banalização dos fazeres profissionais mundo afora. Depois daquilo passei a observar como a crítica à realização alheia é muitas vezes leviana. Quase sempre o pensamento circulante é: eu não sei fazer o que ele faz, mas, certamente, aquilo ali não deve ser tão difícil assim, afinal, se ele está fazendo qualquer um com um pouco de treino faz.

Alguns atribuem a Einstein a célebre frase de que a física teórica moderna é uma operação que envolve 10% de inspiração e 90% de transpiração. Mario Vargas Llosa também foi nessa direção, mas preferiu creditar a Bernard Shaw a fórmula para o talento, usando novamente as mesmas proporções: 10% de talento para 90% de transpiração. Não vou querer discutir a autoria da frase porque qualquer um dos três gênios citados acima é mais do que merecedor da paternidade da idéia. O que me agrada é discutir como as realizações são fruto de muito esforço, combinado com obstinação e criatividade. Seja na escrita de um texto, na execução de uma obra ou na construção de uma carreira esportiva.

Mas, é preciso muito tempo até que o sujeito se poste diante da tarefa para perceber o quanto de transpiração é necessário para que se consiga chegar a um produto. Observo isso com meus orientandos, da graduação ao doutorado, com muita freqüência. Vejo em nossas reuniões semanais o quanto o verbo flui em seu formato oral. Não estou negando, nem tampouco desprezando o quanto gastamos de energia produzindo idéias em muitos de nossos “torós de parpites”, como diria o matuto. Esse foi um dos motivos pelos quais passamos a gravar nossas tertúlias acadêmicas. A profusão de idéias é tamanha que começamos a perdê-las após algumas semanas pela falta de registro. Mas, daí a isso se tornar conceito, texto, tese há uma longa jornada que requer muito suor, tolerância a frustração e humildade. Só passamos a saber que pouco sabemos quando nos colocamos diante do Saber, com maiúscula. Para minha felicidade tenho recebido alguns produtos que atestam esse casamento perfeito entre a inspiração e a transpiração.

Pois bem. Essa máxima obviamente transcende o campo da produção acadêmica.

Há anos atrás eu e minha parceira de longa data de Psicologia do Esporte, Luciana Angelo, trabalhávamos com uma equipe infanto. Nosso projeto de intervenção com essa faixa etária envolvia obrigatoriamente os pais, uma vez que não é possível lidar com um jovem atleta, que está sujeito a toda a potência das mazelas familiares, ainda mais se ele for originário da classe média, que de uns anos pra cá resolveu lavar as mãos sobre a educação dos filhos, delegando-a a qualquer pessoa que tenha alguma relação com o jovem, seja na escola ou no esporte. Essa isenção tem levado a absurdos que beiram a total falta de limites das crianças, passando pelo desrespeito em relação aos outros (sejam eles mais velhos ou não) e uma inadequação ao mundo, afinal esse pedaço de terra onde vivemos é habitado por muitos mais do que caberiam dentro de nossos corações. Nesse nosso projeto de intervenção sempre reservávamos tempo para uma reunião mensal com os pais onde avaliávamos o desempenho e atitude das crianças dentro e fora do campo. Era o momento em que também aproveitamos para dar, sutilmente, alguns puxões de orelhas nos pais mais afoitos, impetuosos, mandões, impacientes, desleixados, descuidados e outros tantos atributos tão comuns nas arquibancadas de espaços de competições esportivas.

Estávamos atentas ao comportamento de alguns pais que, na condição de torcedores, eram desrespeitosos não só com o próprio filho, mas também com os colegas de equipe e com os adversários. Lembro de uma ocasião em que um pai, mais verbal que a média, chegou a dizer que achava inadmissível que se perdesse uma bola na mão, que aquilo era desatenção e falta de compromisso com o jogo. Motivadas por esse pensamento, na reunião seguinte dos pais, simulamos uma situação de treino e pusemos os pais vestindo os equipamentos todos, fazendo-os correr, receber e arremessar as bolas, com os filhos sentados na arquibancada assistindo a tudo e torcendo. O resultado foi muito positivo, uma vez que a partir dali alguns pais passaram a valorizar o esforço dos filhos, observando a sutileza dos movimentos em campo, de uma bola com efeito e a dificuldade de se chegar ao final de um jogo com a vitória.

Como tudo parece fácil quando realizado e executado pelo outro!

De um texto de meia folha a um triplo mortal carpado tudo beira a banalidade quando não se respeita o esforço despendido nessa operação. Somente seu realizador é capaz de dimensionar o esforço dispendido em uma tarefa vitoriosa, daí a emoção que muitas vezes nos toma quando chegamos ao final de uma empreitada bem-sucedida.

Ouço com freqüência atletas medalhistas narrarem suas trajetórias até chegarem à medalha. Alguns lembram os mínimos detalhes de toda a jornada e concordam com o entendimento da brevidade do instante do coroamento de todo o esforço. A subida ao pódio, o recebimento da medalha, das flores, em caso de primeira colocação alguns segundos com os acordes do hino nacional e fim. Passou. Acabou. São mais de 10 anos de trabalho árduo, diário para acabar tão rápido…

Talvez seja essa brevidade que leva o senso comum a achar que “isso é fácil”. Afinal o que é um “ace”? Alguns podem responder: foi apenas um saque bem dado, impossível de ser recebido com sucesso pelo adversário. Pois é. O atleta que treina e compete sabe quantas horas foram necessárias para fazer aquela bola ir naquele canto da quadra ou da mesa, e não em outro. Sabe avaliar com precisão qual o peso, a textura, as ranhuras daquele objeto que será o intermediário entre o seu “sucesso” e o “fracasso” de seu adversário.

E no limite dessa discussão ainda estão os críticos invejosos, inconformados com a habilidade alheia, a dizer que “ganhando o que eles ganham eu também faria o mesmo”.

Mas, talvez a transpiração mais suada e sentida que eu tenho visto é aquela que escorre do rosto dos que não subiram ao pódio. Tanto quanto como os medalhistas foram gastos muitos anos em treinamentos, abdicação, adiamento de planos para que uma partícula adversativa tivesse que ser usada para justificar o resultado: mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, não obstante, senão. E na seqüência o fato para justificar o que deu errado. Ouço situações que vão do overtraining à política rasteira para justificar o insucesso, relegando os 10% de inspiração à condição de azar ou de um mal dia.

É doloroso que depois de tanto esforço ainda essas pessoas tenham que buscar justificativas para o malogro de seu projeto de vida. É perceptível observar quanta energia é gasta na organização das lembranças para se tentar entender onde o plano falhou.

E, a depender do momento da carreira, o dia seguinte é só mais um dia de trabalho. E independente da inspiração estar 100% em seus 10% na conta do talento, é preciso persistir. E isso vale para o atleta, para o pesquisador, para o mestrando ou doutorando que escreve a sua tese. Cada linha de um texto, cada passo na pista ou cada bola arremessada representa parte dos 90% de transpiração que levam a genialidade. Qualquer grande obra é o resultado de muito trabalho, de um esforço sobre humano para se sair da média na tentativa de se alcançar a imortalidade que nos cabe em nossa finitude. Seja em um artigo, um recorde ou uma medalha olímpica.

O que esperar de 2012

Desde que me conheço por gente o primeiro dia do ano é marcado por promessas dos mais variados níveis: de pactos para emagrecimento à busca dos sonhos impossíveis, já ouvi de tudo. Agora com as redes sociais pude constatar que a loucura de se prometer o impossível de ser cumprido é muito maior do que eu podia imaginar. Sem contar que será inevitável: depois do dia primeiro virá o dia 2 de janeiro… e a vida continua. E ainda vaticino: o mundo não acabará, embora os arautos do apocalipse insistam nessa paranóia! Provavelmente no dia 12 de dezembro os mais espertos verão seus ganhos aumentarem substancialmente prometendo o Paraíso (que não é o bairro próximo ao começo da Av. Paulista, em São Paulo), o Nirvana (com ou sem Kurt Cobain) ou simplesmente a vida eterna.

Mas, 2012 para mim tem um significado especial por ser ano olímpico. Incrível pensar que já se passaram quase 4 anos do final dos Jogos Olímpicos de Pequim. Ainda lembro o impacto daqueles 5 minutos que os organizadores dos Jogos de Londres tiveram para apresentar uma dose sintética da idéia do que ocorreria em 2012: o ônibus de dois andares, um dos maiores símbolos da capital inglesa, e de repente, não mais que de repente, ouvi Whole Lotta Love, um clássico do Led Zeppelin. Chapei! Estariam as tradições sendo postas a prova, justamente na terra onde grande parte das tradições contemporâneas foram criadas? Se considerarmos o Movimento Olímpico em si como uma tradição inventada em grande parte pelos ingleses no final do século XIX, 2012 poderia significar a busca de uma reinvenção ou resignificação do Olimpismo. Antes que alguém me corrija sobre a criação dos Jogos Olímpicos por Pierre de Coubertin recomendo a leitura de suas obras completas onde ele fala de forma melancólica a importância e o papel que os ingleses exerceram para a estruturação do Movimento Olímpico e o que isso representou para questões como o amadorismo e o profissionalismo na estrutura olímpica entre outras coisas. Estrategista que era ele sabia que não podia prescindir do apoio dos inventores do esporte moderno, tanto no que se referia a organização institucional do esporte amador, dos gentlemen, do esporte profissional que se referia a uma prática corporal de movimento daqueles que trabalhavam para ganhar a vida. Ao optar pelos aristocratas amadores Coubertin fez uma escolha que determinou os rumos do esporte olímpico que hoje temos e que cerca a vida de nossos atletas até o presente.

Mas, quando vi aquela apresentação em Pequim e, algum tempo depois, o logotipo pós-moderno que rompeu com os paradigmas olímpicos, tive a impressão de que mais algumas surpresas poderiam ocorrer em 2012.

O fato de Sebastian Coe estar à frente do Comitê Organizador ajudou a reforçar essa impressão. Estariam os atletas ocupando de fato e de direito o protagonismo que marcou suas vidas competitivas e que deveria ser dignamente aproveitado na vida pós-atleta?

Agora que chegamos a 2012 vejo que meu otimismo não contava com todas as voltas que o mundo podia dar nesses últimos 4 anos, nem a crise que assola o mundo e, particularmente, o continente europeu. Londres se esmera em produzir Jogos que entrem para a história como politica-ambiental-e-socialmente correto. E aí também se observa a tentativa em alterar o curso de uma história que perpetuou tradições, colocando a aristocracia à frente da organização de uma atividade humana que desde sempre deveria ser para todos, mas que privilegiou os semelhantes, fosse na prática competitiva ou no comando das instituições fomentadoras do esporte.

Mas, como canta Lulu Santos, “eu vejo a vida melhor no futuro; eu vejo isso por cima do muro; de hipocrisia que insiste em nos rodear”.

Quero crer, depois das muitas denúncias de corrupção que envolveram esses mesmos dirigentes aristocratas que, EM TESE, seriam os guardiões dos ideais e valores olímpicos, que vivemos momentos de resgate daquilo que moveu e motivou alguns em um momento em que o mundo precisava de liberdade, igualdade e fraternidade. Entendo que a busca pelo envolvimento dos atletas nas atividades fins do Olimpismo é uma forma de se pagar essa dívida que o esporte tem para com seus heróis, afinal, não há olimpismo sem o esporte praticado por esses seres humanos fora da média que tornaram-se o símbolo vivo de um estar-no-mundo. Entendo que a luta de classes que separou ricos e pobres da prática olímpica no começo do século XX possa de fato ser superada nesse século XXI. Afinal, embora o movimento olímpico tenha sempre se manifestado contra o racismo, nunca conseguiu se posicionar claramente contra a discriminação de classe social. E assim os mais pobres, fossem eles indivíduos ou países, historicamente ocuparam papéis de coadjuvantes em uma festa marcada pelo glamour dos poderosos.

E os atletas brasileiros, em sua grande maioria, se viram ao longo desses quase 100 anos de participação olímpica nessa posição. No século passado éramos, primeiro, o país latino-americano, sub-desenvolvido que tinha a pretensão de ser tão importante e imponente quanto seu território fazia supor, mas que não contava com mais do que algumas poucas dezenas de atletas em sua delegação. Depois, passamos a ser um país em desenvolvimento, que no cenário olímpico provou isso multiplicando sua delegação nos últimos 20 anos, sem apresentar, porém, os resultados esperados para uma nação com essa proporção.

E agora, começado esse ano de 2012, com o mundo em crise, a representação brasileira chegará aos Jogos Olímpicos representando uma nação respeitada por sua potência territorial, econômica e por uma democracia, com problemas sabemos todos, mas que busca seu próprio estilo de se posicionar no mundo. Nem melhor, nem pior que os outros. Apenas diferente.

Não acredito que estaremos entre as 10 potências olímpicas ainda esse ano. Isso não se dá por acaso, vontade própria ou por decreto. Assim como ocorre com o cultivo de qualquer plantação é preciso preparar a terra, escolher bem a semente, o adubo, torcer para que não chova muito, nem pouco. Colaborar com a natureza buscando toda tecnologia de que se dispõe e que ainda podemos aprimorar. E aí sim, teremos uma ótima colheita. Se quisermos medalhas olímpicas, símbolo da excelência do esporte em um país, é preciso cuidar de todo esse processo, ou mais uma vez iremos aos Jogos para fazermos outros brilharem.

Se já superamos a condição de emergentes em outras esferas é hora de fazermos isso também no esporte. Pena eu não ter visto em nenhum perfil do facebook nesse dia primeiro de janeiro resoluções de ano novo que se referissem a determinação em fazer mais investimentos no esporte, com planejamento de longo prazo e demais condições que favorecessem o lugar que o Brasil deve, por obrigação, ocupar em 2016.

E, para fechar, volto a Lulu Santos que vê um novo começo de Era; de gente fina, elegante e sincera; com habilidade pra dizer mais sim do que não. Se tivermos isso, de fato, e não apenas como resolução de ano novo, talvez cheguemos a Londres para ser protagonistas, e não coadjuvantes, desse que deve ser o grande espetáculo desse ano.

A Cesar o que é de Cesar

É fato: tenho problemas com essa época de final de ano. Não gosto dessas confraternizações forçadas, amigo secreto com quem não é seu amigo, votos de felicidades e sucesso de quem te apunhalou pelas costas durante os últimos 12 meses e, mais cruel, a necessidade de se fazer balanços. Tudo bem que o ano fiscal acaba em dezembro, mas todo mundo resolve fazer retrospectos, cenas dos melhores momentos, balanços de todas as ordens, homenagens e outros coisas do gênero. E aí, chega no dia 1 de janeiro vem aquele rosário de promessas de ano novo que quase nunca são cumpridas. Mas isso é um problema meu.

Este ano as coisas parecem ser um pouco diferentes. Não montei árvore de natal em casa… pura falta de tempo. Em pleno dia 19 de dezembro estou no Rio de Janeiro coletando dados da minha pesquisa, mesmo sob protestos da minha família que me queria em almoços, comemorações, confraternizações… Fazer o que! Ossos do orifício! E aproveitando mais uma passagem pela Cidade Maravilhosa compareci à entrega do Prêmio Brasil Olímpico 2011. Festa bonita para quem merece todas as homenagens: os atletas! O tema desse ano foi A Jornada do Atleta. E como em anos anteriores foram homenageados todos os atletas que mais se destacaram em suas modalidades, bem como um técnico de modalidade individual e outro de coletiva.

Anunciado desde o começo da cerimônia o título de melhores do ano geral, um homem e uma mulher, ficou para o final, como era de se esperar. Só lamento que até na entrega de prêmio por mérito só haja uma colocação. Olhando para o trabalho e esforço de cada um minha vontade era de atribuir outros vários prêmios àqueles que se destacaram, não apenas por seus resultados, mas pelo “conjunto da obra”, quero dizer superação de adversidades, dificuldades, fossem elas da natureza que fossem. Afinal, cada um ali, a seu modo, do seu jeito, carregava as características do herói. Foram para a grande final quatro atletas incontestáveis: Fabiana Murer e Fabiana Beltrame, Emanoel e Cesar Cielo. Todos os quatro escreveram algumas linhas de façanhas esportivas neste ano. Todos eles realizaram conquistas internacionais elevando o esporte brasileiro alguns degraus acima do patamar anterior.

Isso não é pouco para quem viu a primeira medalha de ouro em uma modalidade feminina individual ser conquistada apenas em 2008 ou ainda quebrar a hegemonia norte-americana e australiana em provas tradicionalíssimas como a natação. E, lamentando por Emanuel e Fabiana Beltrame, assisti a coroação de Fabiana Murer e Cesar Cielo como os melhores do ano. Claro que isso não foi uma grande surpresa por conta dos feitos desses dois grandes atletas. O que surpreendeu foi o que cada um teve a dizer depois de apresentados os resultados.

Fabiana não me pareceu surpresa. Já havia conquistado esse prêmio no ano passado e sua trajetória vencedora desse ano confirmou seu favoritismo. Agradeceu a todos, pessoas físicas e jurídicas, e saiu prometendo empenho para chegar a uma boa colocação nos Jogos Olímpicos de Londres, já no ano que vem.

Na seqüência Cesar Cielo começou agradecendo pelo prêmio e disse ter tentado várias vezes escrever algo para falar naquele momento, mas nada pareceu expressar completamente tudo o que ele passou no ano de 2011. A emoção o fez calar. É muito difícil dominar a voz quando as lágrimas correm para chegar primeiro.

Nós que acompanhamos o esporte sabemos exatamente ao que Cesão se referia. Algumas semanas antes do mundial de natação em julho, um exame flagrou uma substância proibida na sua urina, levando-o a ser advertido e a ter que ser submetido a uma corte internacional que avaliou se a substância fora usada de forma intencional ou não.

Naquelas semanas de junho de 2011 vi de tudo pelos meios de comunicação, mais ou menos como aconteceu depois com a decisão de Santos e Barcelona. Observei experts dando veredictos duvidosos, corneteiros avaliando a relação substância X performance como doutores na matéria e também vi alguns profissionais, que de alguma forma, em algum momento tiveram contato com Cesar tentado prestar solidariedade e apoio, ainda que apenas moral. E após a confirmação do veredito Cielo foi para a piscina e conquistou aquilo que lhe era devido, mostrando ao mundo o profissionalismo no qual se fundamenta sua carreira, agindo com a maturidade e determinação de um sábio.

As lágrimas de hoje certamente estavam guardadas desde lá. Após o resultado do tribunal não havia tempo para elaborações, nem elucubrações. Por uma questão de honra era preciso mostrar dentro da piscina que aquilo tudo não passava de uma armadilha do próprio sistema, que muito bem poderia ter acabado com a sua carreira. E com a convicção de que nada havia sido feito de errado a vitória e as medalhas se incumbiram de por as coisas em seus devidos lugares… aparentemente. Quem alguma vez na vida passou pelo constrangimento de ser acusado por um crime não cometido sabe o que Cielo sentiu naquelas semanas. A injustiça apunhala os sensíveis, é uma sangria que não estanca prontamente e como uma dor profunda, mesmo que diagnosticada a sua cura, ela ainda deixa as marcas do efeito moral pela exposição pública e pela necessidade de se provar inocência. Ainda que a lei indique que somos todos inocentes até que se prove o contrário temos assistido com freqüência nos últimos tempos o quanto de recursos e energia somos obrigados a mobilizar não apenas para nos defender de uma injustiça, mas também para provar nossa idoneidade construída com o trabalho árduo de muitos anos.

Claro ficou para nós, que estávamos assistindo a tudo, quanto choro e quanta angústia Cesar Cielo teve que engolir em 2011 para enfrentar as tantas provas, dentro e fora da piscina. Para mim o prêmio dele não foi apenas pelas medalhas e títulos esportivos conquistados. Foi antes de tudo por sua batalha para se mostrar um atleta limpo e determinado. Que trabalha arduamente para chegar às marcas que tem e o faz com o espírito do artesão que a cada dia lapida um pouco mais sua peça buscando a perfeição. E consciente de seu papel e competência faz isso à exaustão porque quer estar entre os melhores, sem precisar fazer uso de meios ilícitos ou imorais. E sem ter vergonha de admitir que é um dos melhores do mundo.

Ao final de tudo Cesar encerrou seu discurso dizendo que aquele troféu era o carinho que ele precisava receber para mostrar que ele estava de volta.

Desculpe te corrigir, Cesão. Como é que você pode estar de volta se você nunca que se foi? Posso imaginar que seu coração já deva estar tranqüilo agora que tudo acabou, que o ano chegou ao fim, que seus êxitos foram coroados com os prêmios merecidos pelo seu trabalho, que você está partindo com sua família para desfrutar de férias mais do que merecidas, mas principalmente porque sua inocência foi reconhecida e premiada.

Ah… como eu gostaria de ver outros Cesões no esporte brasileiro, com essa nobreza de caráter, com esse amor pelo trabalho e com essa determinação em ser melhor a cada dia.

Nessa noite nenhuma outra frase seria mais apropriada: a Cesar o que é de Cesar, ou seja, o direito a quem tem, e não a quem só o deseja. Parabéns Cesão. Que esse ano também possa te trazer boas lembranças por tudo aquilo que te foi possível aprender. E, sempre alerta! Fariseus há por toda parte disfarçados de todos os tipos.

Quanto dura um instante?

“Adoro cortinas que se abrem

Adoro o silêncio antes do grito

Adoro o infinito, de um momento rápido

O instrumento gasto

O ator aflito”.

Zélia Duncan

 

Comecei esse texto assistindo à final Barcelona e Santos. Era início do segundo tempo e o Barcelona ganhava por 3 X 0. Vi um Santos recuado, com o semblante carregado, a responsabilidade pesando sobre as costas. Sim, afinal é a final do campeonato mundial, competição que se repete todos os anos no comecinho do nosso verão e do inverno no Hemisfério Norte, como se a emoção toda gerada ali pudesse aquecer os vários meses de frio.

Ouvi no final do jogo contra os japoneses, na última quarta-feira, que a única coisa que o Santos poderia fazer contra o Barça seria jogar para se divertir, afinal era esperado um duelo de Sansão (e não Santos x São Paulo) e Golias. Isso queria dizer o quê? Que a vitória do Barcelona já era líquida e certa? O que dizer então do locutor que falou ao menos 5 vezes que o Barça era um time de outro mundo e que não havia nada a fazer diante daquilo?

O futebol não é diferente do esporte olímpico. Tirando as quantias incalculáveis que circulam nesse comércio chamado futebol, ele envolve pessoas que competem, que vibram com a vitória e sofrem com a derrota, que dedicam suas vidas a gastar seus corpos em treinamentos sem fim, que divertem milhões mundo afora com cenas magistrais de habilidade, mas que como heróis são também sofrem como os mortais.

A vitória em um jogo ou campeonato imortaliza, ainda que por alguns dias ou semanas. Ok. Em alguns casos o efeito residual de uma vitória dura muito mais a depender da equipe de marketing que está trabalhando com esse “produto”. Mas, quando discuto a duração de um instante, procuro falar do ponto de vista do protagonista. O momento de uma competição que é ditada pelo cronômetro tem a precisão do instrumento que aufere aquela manifestação: sejam os 90 minutos no futebol, os 40 do basquete, os 5 minutos do judô, os 10 segundos dos 100 metros rasos. Embora hoje os relógios marquem precisamente os décimos, centésimos e milésimos de segundos isso pode representar a eternidade para aquele que protagonizou a ação que permanecerá na memória daqueles que assistiram, torceram e se emocionaram com algo tão raro.

São muitos os atletas que relatam não terem lembranças da competição que eternizou alguma de suas ações. E não falo apenas das modalidades cujo imperativo é a velocidade.

A memória é muito curiosa porque retrata uma condição afetiva daquilo que é lembrado e que envolve o fato em si, a emoção que envolve o fato e o desejo (ou não) de recordá-lo. Por isso lembramos com detalhes precisos algumas passagens de nossas vidas e outras simplesmente “apagamos”. Podemos chamar a isso de mecanismo de defesa, mas não é exatamente sobre isso que desejo discutir aqui. Pretendo gastar um pouco de tinta para falar sobre o significado de algum episódio que marca vidas. Falo de um momento raro, por exemplo, da vida do atleta, que por ser um figura pública protagoniza uma ação que pode significar muito para si mesmo, e também para milhões que assistem aquele episódio, as vezes magistral.

 E o que é curioso, no caso do esporte, é que podemos lembrar da competição em si, dos atletas envolvidos no jogo, de passes magistrais, gols de placa e, em casos extremos, a escalação de todo o time titular e reserva. É assim que funciona a memória. Precisão cirúrgica para aquilo que interessa.

Mas, faço todo esse preâmbulo para voltar ao jogo do Santos. Que lembrança teremos desse jogo daqui alguns anos ou décadas? Nesse exercício de futurologia provavelmente me lembrarei, com irritação, da afirmação do locutor esportivo de que o Barça é um time do outro mundo, e a irritação será fruto da relação que farei porque o locutor certamente quis dizer que o Santos é desse mundo, ou seja, é um time menor. Certamente lembrarei disso com irritação porque há nessa construção uma proximidade com a situação vivida pelos atletas olímpicos: eles ouvem durante quase toda suas vidas que têm que treinar e competir, mas ninguém diz a eles que chegarão a ser campeões, afinal… os outros, os estrangeiros, os americanos ou europeus, são sempre melhores.

Não sou ingênua suficiente para achar que o Santos era melhor que o Barça. Eu assisti ao jogo e vi uma equipe impecável, um espetáculo, mas daí a desmerecer o trabalho que Muricy e os jogadores fizeram é inadmissível. Não suporto ver chutarem cachorro morto. Os mesmos que hoje narraram a condição alienígena do Barça, na última quarta-feira não cansaram de endeusar Neymar e os meninos da Vila. Por que será que o brilho se apagou? O que mudou tão drasticamente no jogo da equipe da Vila Belmiro? Lembro dos comentaristas mais conscienciosos dizendo que para ganhar da equipe catalã seria preciso jogar bem mais do que contra a equipe japonesa, mas que o resultado era fantástico, que Neymar é o melhor do mundo e que não é consagrado como tal porque não joga na Europa. O Barcelona é hoje bem mais do que um time de futebol. Ele é uma escola, tanto do ponto de vista da formação de jogadores como do ponto de vista da criação de um estilo de jogar. Basta olhar para o time e ver, historicamente, como foi construído o sistema tático que prevalece até hoje. E não vou falar do Barça no qual jogaram Romário, Ronaldo e Ronaldinho, porque parecerá que só me lembro disso por causa dos brasileiros que lá jogaram. Falo de um Barcelona que marcou a história por ter amor a sua camisa sem patrocinadores, que representa a identidade nacional da Catalunha e que não transpira a arrogância de outros times que desejam ser de outra Galáxia, mas que mal conseguem ser vitoriosos no próprio estádio.

Hoje o Santos não jogou contra um time do outro mundo. Jogou contra um time que tem identidade, mesmo em um sistema determinado pelas grandes negociações que fazem os jogadores beijarem o brasão do time sem nem saber ao certo qual é a sua história recente e ainda assim declararem que “são” dali desde criancinha.

Neymar é sim um atleta espetacular, mas é desse mundo, um brasileiro tão habilidoso como tantos outros que não tiveram a sorte de ter um pai com “espírito empreendedor”, nem empresários espertos o suficiente para transformá-lo nesse grande produto no qual ele se tornou. A começar de seu colega de equipe, Paulo Henrique Ganso.

Como assisti ao jogo no Rio de Janeiro, pelo menos não ouvi os gritos, já esperados, Chupa Peixe, a cada gol do Barcelona.

Os 90 minutos do jogo de hoje me fizeram pensar na breve eternidade do instante no mundo que vivemos e o quanto o esporte contribui para isso. Quantos atletas gastam anos de suas vidas buscando o aprimoramento técnico para chegar a competições que podem definir suas carreiras. E essas vidas são construídas de instantes de treinamentos, que somados geram quase o infinito; de instantes que valem índices ou vagas que levam a competições como mundiais ou Jogos Olímpicos; de instantes nas competições que marcarão, ou não, a própria história, a história do esporte ou do país, a depender do resultado obtido. Para depois de tudo, o público, a mídia ou o próprio atleta dizer: “não me lembro ao certo o que aconteceu”, seja para poder se proteger da dor causada pelo resultado obtido ou simplesmente porque foi, de fato, tudo tão breve.

Heroínas olímpicas brasileiras

Que a história das mulheres no esporte é uma grande aventura que mescla drama e emoção acima da média, ninguém duvida. Desde sempre essa situação envolveu luta por direitos, condições mínimas de igualdade e a superação do preconceito seja ele racial, econômico ou de gênero.

No caso do esporte brasileiro isso ganha colorido próprio em função das origens da constituição de nossa sociedade e do feminismo na Brasil. Sociedade patriarcal rural com suas tradições fincadas no poder masculino, como em boa parte do Ocidente e do Oriente, a alegação de que mulheres não podiam praticar esporte caia como uma luva para aqueles que desejavam vê-las cuidando do lar e dos filhos. Vários estudos apontam que o acesso ao esporte feminino no início do século XX era um privilégio das classes dominantes ou de imigrantes que trouxeram essa prática como um dado cultural de seu país de origem. Prova disso foi a participação de Maria Lenk nos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles. Lenk, filha de alemães aprendeu a nadar com o pai, um grande incentivador e entusiasta da prática esportiva das filhas. A partir de sua dedicação à natação Maria Lenk entrou para a história do esporte olímpico como a primeira mulher brasileira, e latino americana, a participar de Jogos Olímpicos.

O que chama a atenção para essa trajetória são as décadas que separam essa primeira participação feminina das primeiras medalhas: 54 anos! Embora a participação feminina tenha iniciado em 1932 as primeiras medalhas olímpicas conquistadas datam de 1996. Essas constatações inclusive motivaram uma pesquisa que gerou um livro[i] em que o Grupo de Estudos Olímpicos, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, buscou analisar e entender os motivos para esse retardo.

E para chegar às respostas uma vez mais fiz uso das histórias de vida, metodologia que adotei há mais de 15 anos para as minhas pesquisas. Faço uso das histórias de vida simplesmente porque entendo que fatos e instituições são feitas de e por pessoas, embora nas instituições idôneas as pessoas apenas passem por elas, deixando suas marcas, sem se perpetuar no poder ou em alguma posição. Estudo as histórias de vida porque sei que uma história individual carrega as marcas do tempo e da sociedade vividos e ao mesmo tempo aponta as singularidades daquele que viveu. Para mim o narrador é único e intransferível e tudo que diz respeito a ele me interessa se narrado por ele próprio. As pistas vão se apresentando ao longo da narrativa de forma latente ou manifesta e como um bordado o desenho vai se apresentando a partir de recordações mais emocionais ou racionais. Para mim não existe nada mais precioso que uma história de vida. Tenho tanta respeito por esse método, e faço questão de reafirmá-lo sempre que posso, que um professor, talvez desconhecedor de toda a riqueza que se produz com ele, chegou a sugerir que eu desejava fundar uma religião ou dar poder demasiado a atletas. Que tolice! Ou melhor, quanta limitação e ignorância!

Hoje, 12 de dezembro de 2011, mais uma vez, pude confirmar não apenas a validade das histórias de vida, como pude comprovar o poder de mobilização gerado por elas. Nesse dia tive a honra de participar como expositora em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, sobre a Mulher e o esporte com o objetivo de instituir 2013 como o ano do esporte feminino no país. Compartilhei a mesma sessão com as atletas Aída dos Santos, Jackie Silva, Leila e Amanda.

Em função das pesquisas realizadas já tinha tido o privilégio de ouvir sem pressa a história de Aída e Jackie, que me servem como exemplos ilustrativos para muitas discussões das quais participo sobre mulher e esporte no Brasil. Não posso falar da Leila e da Amanda porque não as entrevistei e o que sei sobre elas são notícias divulgadas por diferentes veículos de comunicação.

Aída marcou a história do esporte brasileiro por ter sido a única mulher da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Isso não seria nenhuma novidade se em 1956 Mary Dalva Proença, e Wanda dos Santos, em 1960, também não tivessem sido as únicas. O que marcou a trajetória de Aída foi o fato de mesmo estando só e completamente abandonada a seu próprio destino durante a realização dos Jogos ela chegou ao 4º lugar no salto em altura, passando muito perto de ser a primeira medalhista olímpica brasileira. Desprezada pelos dirigentes brasileiros ela foi acolhida pela delegação cubana que não apenas emprestou o material esportivo que ela não tinha como ainda lhe deram cuidados médicos em função de uma lesão ocorrida durante seus treinamentos solitários em solo japonês.

Jackie por sua vez é um ícone da resistência do esporte feminino no Brasil. Figura representativa do voleibol esteve presente na primeira seleção feminina a participar de Jogos Olímpicos, juntamente com outras atletas que marcaram época como Isabel, Vera Mossa, Dora, Lenice, Fernanda. Era a primeira vez que uma modalidade coletiva feminina participava de Jogos Olímpicos e aproveitava o sucesso da primeira geração vitoriosa do voleibol masculino que veio a conquistar a medalha de prata em 1984 e que começou a se profissionalizar e formalizar contratos de patrocínio no início dos anos 1980. Enquanto os homens decolavam para a profissionalização as mulheres eram mantidas à sombra e assistiam a tudo sem ter direito a voz e voto sobre sua imagem e resultados dentro da quadra. Jackie se rebelou contra aquilo e o preço que pagou foi com a própria carreia: cortada da seleção brasileira e impedida de jogar em clubes se viu obrigada a ir embora do Brasil, o que a levou aos EUA para jogar vôlei de praia. E foi nessa condição que Jackie entrou para a história. Tornou-se a melhor do mundo e veio a conquistar a primeira medalha olímpica do esporte feminino, e de ouro.

Hoje, durante a audiência pública, ouvi uma vez mais Jackie e Aída contarem suas histórias e fiquei lembrando das inúmeras situações em que fiz uso daqueles relatos para exemplificar questões relacionadas à discriminação e superação por mulheres no esporte brasileiro. Tive também a oportunidade de ouvir a história de Leila, que saiu de Taguatinga aos 17 anos para jogar voleibol em Belo Horizonte, mesmo contra a vontade do pai, e muitas das agruras vividas em função de sua escolha. Amanda, jogadora do futebol do Clube Atlético Mineiro, falou também com firmeza do alto de seus 18 anos, o que é ser atleta de uma modalidade que mesmo apresentando resultados expressivos, como é o caso do Brasil, continua a ser tratada como algo menor e sem prestígio quando o carro chefe é o masculino pentacampeão mundial, e que continua a perseguir o ouro olímpico nunca antes conquistado.

Percebo que a iniciativa das deputadas Luci Choinacki e Jô Moraes em nos convidar para essa audiência foi uma forma de iluminar a questão relacionada à mulher no esporte, principalmente em um momento em que as atenções mundiais se voltam para o país que sediará uma Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. É preciso de uma vez por todas admitir a discriminação vivida pelas mulheres ao longo de décadas de submissão em geral, e das mulheres atletas em específico. E são muitos os temas a serem abordados tais como a diferença de prêmios e patrocínios, o impedimento da prática de modalidades que contribuíram para o retardo do seu desenvolvimento, a especificidade do treinamento para as mulheres e o assédio vivido e quase nunca relatado em função do temor de represálias.

Entendo que vivemos novos tempos para a mulher na sociedade e no esporte. Tempos esses que ainda não expressam de fato a importância que as mulheres passaram a ter para o esporte brasileiro, e para isso basta ver a curva ascendente de participação nas últimas edições dos Jogos Olímpicos e os resultados obtidos pelas atletas brasileiras na última edição olímpica em Pequim. Mas acredito que essa é uma condição irrefutável. E espero que dirigentes, técnicos e patrocinadores tenham a sabedoria de enxergar esse cenário para não retardar ainda mais esse processo que tem rendido bons frutos. A ignorância pode ser perdoada. A má intenção não.

 


[i]  Rubio, K. (org.) As mulheres e o esporte olímpico brasileiro. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

Nota sobre um trabalho de base

Não canso de dizer que é um privilégio trabalhar com o que se escolheu e, obviamente, se gosta. Já escrevi sobre isso anteriormente, mas a cada novo projeto, e novos resultados sinto-me reforçada a repetir essa frase, como um mantra.

Há um ano acompanho o trabalho do psicólogo Augusto Carvalho e da assistente social Mariana Grassia nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Em 2009, o coordenador técnico da base do SPFC, Marcelo Lima e Mariana me procuraram falando sobre o que estava sendo feito nas categorias de base do clube e do quanto esse trabalho social era importante para o desenvolvimento dos “meninos”, e conseqüentemente, lá na frente, no profissional. Essa disposição em fazer um trabalho diferente calçava como uma luva com aquilo que penso e ajudo a construir na Psicologia do Esporte há quase duas décadas: entender o atleta no seu contexto, buscar sua história de vida para entender o que ocorre no presente e se projeta para o futuro e, depois sim, aplicar uma intervenção específica nas questões relacionadas ao rendimento como motivação, treinamento mental, controle de ansiedade e outros subitens do rendimento esportivo.

E a partir do final de 2010 passei a acompanhar esse trabalho de formiga que Augusto e Mariana fazem, com quase 300 garotos que vão dos 13 aos 20 anos, naquele espaço de 220 mil metros quadrados de um antigo haras em Cotia transformado em Centro de Formação de Atletas que leva o nome do antigo presidente do clube, Laudo Natel, sob os cuidados de Marcos Tadeu Novais, diretor das categorias de base do Tricolor, e Geraldo Oliveira, gerente de futebol.

Confesso que a primeira vez que visitei o Centro imaginei que a qualquer momento fosse surgir o senhor Roarke e o pequeno Tattoo dando as boas vindas aos visitantes. Do compo oficial com estádio para 1.500 pessoas, passando pelos 8 campos oficiais e 4 sociais de treino e competição, ao hotel para 150 hóspedes e 4 alojamentos para 100 pessoas, aos jardins bem cuidados e toda infra-estrutura disponível aos atletas, nada ali sugere as infra-estruturas precárias que já conheci do esporte olímpico e que são oferecidas aos atletas como se eles fossem obrigados a se acostumar com pouco para não se sentirem muito.

Pois bem. A vida dos atletas em Cotia é muito mais do que se tornar máquinas de jogar futebol. Freqüentar a escola e ser aprovado é condição básica para os meninos se manterem no clube. Estudo? Treino? Isso mesmo. A tônica do trabalho no Centro de Formação é preparar esse garoto para ser um profissional da bola e não apenas um jogador. E é sobre essa cruzada que os profissionais ali envolvidos se debruçam e se empenham para fazer cada vez melhor.

Parte dessa saga reside em uma mudança de mentalidade, ou eu chamaria de cultura, que implica em entender o futebol como uma profissão como tantas outras: é preciso talento, determinação, mas também conhecimento, capacidade técnica que podem ser desenvolvidos como uma habilidade que se aprimora para se chegar à perfeição em uma instituição que alguns poderiam dizer que se assemelha a uma escola. Perseguindo essa meta, então, os vários profissionais, tanto da parte técnica, como social, da saúde e administrativa realizam uma proposta inovadora para o futebol brasileiro, e ouso dizer a partir das minhas andanças por congressos e centros esportivos, para o futebol mundial.

Eis que no meio das muitas discussões a respeito da condução do trabalho surge uma questão que não quer calar: qual o perfil do jogador que se deseja formar?

Pergunta aparentemente banal, mas que baliza qualquer ação relacionada ao desenvolvimento de carreira, a busca do perfil levou a uma mobilização não apenas do Centro de Formação de Atletas em Cotia, mas de todo o São Paulo Futebol Clube. Embora a resposta pareça simples o que está por traz dessa pergunta é toda a trajetória do clube, sua história e a cultura da instituição. Tendemos a falar do futebol de forma generalizada, mas observamos na atitude dos atletas como a estrutura do clube no qual ele foi formado acaba por influenciar não apenas seu estilo de jogo como o enfrentamento das diferentes situações da vida ao longo da carreira profissional.

Começou-se então um trabalho de arqueologia cultural onde as ferramentas não foram espátulas ou carbono 14, mas a memória daquelas pessoas vinculadas à história do clube. Desnecessário dizer sobre a importância do ex-presidente Laudo Natel nesse processo. Dirigente visionário foi um dos pioneiros no entendimento da necessidade de transformar o gerenciamento do futebol tornando-o em empresa. Ao entender a importância do resgate dessa história recebeu a equipe em seu escritório no centro da cidade para uma entrevista. Com 92 anos o ex-presidente do tricolor paulista tem a vitalidade que falta a muitos jovens que conheço. Trabalha todos os dias e tem a memória de um garoto. Contou-nos sobre as idéias que levaram à construção do estádio do Morumbi e o quanto isso determinou a identidade do torcedor são paulino. Falou sobre a mobilização da diretoria e dos membros do clube para que o estádio do Morumbi fosse construído sem deixar dívidas para o futuro, alavancando outras ações como a construção do Centro de Formação inaugurado em 2005. Foi interessante observar nas memórias relatadas como o futebol, embora profissionalizado desde há muito para os jogadores, foi amador em sua gestão até tão pouco tempo. Laudo Natel recordou o empirismo de ações que mais tarde seriam chamadas de marketing esportivo o que conferiria ao SPFC o pioneirismo na profissionalização da gestão do clube em geral e de seu futebol em particular.

Se o ex-presidente representava as origens o atual presidente, Juvenal Juvêncio, nos indicaria o pensamento presente sobre o tipo de jogador desejado e os caminhos para o futuro. E fomos então a ele. Recebeu-nos no Centro de Treinamento da Barra Funda, paradeiro desejado para os garotos formados em Cotia, na última semana do Campeonato Brasileiro. Por quase uma hora e meia conversamos francamente sobre o que acontece com os atletas brasileiros, formados ou não pelo SPFC. Enquanto conversávamos observei a seriedade com que ele conduzia aquela discussão. Embora seu telefone tenha tocado várias vezes preferiu não perder a linha de raciocínio que o levava a refletir sobre o perfil do jogador do São Paulo e os rumos do futebol de maneira geral. Acostumado a falar com a imprensa sobre temas espinhosos percebi que começou nossa conversa como se fosse mais uma dessas tantas coletivas, mas foi mudando o tom a medida que fomos ampliando os questionamentos que mais pareciam um diagnóstico institucional.

Terminamos nossa entrevista com a sensação de dever cumprido e com várias dicas sobre o futuro do trabalho com os “meninos de Cotia”.

A lição que tiro dessa experiência é o quanto a integração entre as várias instâncias e profissionais de uma mesma instituição faz a diferença no resultado final de um trabalho. Quando falamos do jogador profissional de um clube nos referimos a alguém que tem uma história marcada por vários episódios que emergirão de diferentes formas quando ele estiver submetido a diferentes tipos de pressão. Por isso afirmo que um bom trabalho com o profissional começa na base, em todas as vertentes daquilo que compõe a vida de um atleta, seja do ponto de vista técnico, motor, cognitivo ou afetivo. Da mesma forma que um atleta bem formado do ponto de vista técnico e motor pode significar a diferença em um time profissional, aquele que aprendeu a lidar com as próprias emoções e a desenvolver estratégias para lidar com suas limitações ainda nas categorias de base conseguirá enfrentar os desafios de um time profissional com maior segurança. Essa já é a realidade do futebol, e de várias equipes olímpicos, ao redor do mundo. Espero que o exemplo do São Paulo Futebol Clube, venha fazer mais uma vez a diferença no futebol brasileiro.

O preço de uma memória

Vejo com que freqüência se escreve acerca da profissionalização do esporte e as conseqüências desse movimento para o fenômeno esportivo, principalmente o que diz respeito ao esporte olímpico. Isso porque, um dos valores que fundamentou o Movimento Olímpico até o final dos anos 1980 foi o amadorismo. Romantismo a parte não é difícil entender que o esporte não sobreviveria ao Século XX se não assumisse e admitisse que era preciso profissionalizar a estrutura e o protagonista do espetáculo esportivo: o atleta.

O amadorismo foi no passado tema tão tabu quanto o uso de substâncias dopantes, considerado uma virtude humana e condição sine qua non para qualquer atleta olímpico. Mas, mais que um valor ético essa imposição era um qualificador pessoal e social dos atletas que se dispunham a seguir a carreira esportiva. Envolvida em uma discussão ideológica tanto para os que defendiam esse princípio como para os que o atacaram, a história olímpica contemporânea está pontuada por ocorrências que demonstravam o uso parcial desse preceito. O amadorismo foi esquecido como um dos elementos fundantes e fundamentais do Olimpismo no final da década de 1970, quando se intensificou um movimento de disfarce de atletas em funcionários de empresas para que escapassem à condição de profissionais do esporte. No Brasil esse esforço foi substituído definitivamente e com sucesso pelos contratos com patrocinadores e empresas interessadas em investir no esporte no início dos anos 1980.

Muitos foram os valores implicados nessa mudança. A transformação do espetáculo esportivo em um dos negócios mais rentáveis do planeta foi talvez a principal motivação para a reconsideração sobre o que era e qual a finalidade do amadorismo na participação do atleta em Jogos Olímpicos. A profissionalização acabou por imprimir uma grande alteração na organização esportiva tanto do ponto de vista institucional como na atividade competitiva em si, levando o esporte a se tornar uma carreira profissional cobiçada e uma opção de vida para jovens habilidosos e talentosos. A competição ganhou visibilidade e complexidade ao se tornar espetáculo esportivo e produto da indústria cultural. E assim, interesses econômicos aliados a disposições políticas e intervenção estatal produziram e reforçaram uma das instituições mais robustas do planeta.

Os protagonistas do espetáculo esportivo são na sociedade contemporânea figuras espetaculares, por realizarem feitos incomuns aos cidadãos médios, e públicas, por serem alvo de projeção e de identificação. Esses olimpianos são o exemplo de um profissional possível em um mundo onde o trabalho se torna escasso. O atleta competitivo é um novo tipo de trabalhador que vende sua força de trabalho em forma de espetáculo que atrai multidões a espaços públicos ou retém milhões de telespectadores diante da TV. O valor de troca de sua força de trabalho, regulado pelas leis do mercado, está determinado pelo tempo necessário para sua produção. O amadorismo deixou de existir quando esse trabalhador do esporte teve agregado ao seu esforço o distintivo de um clube ou a logomarca de uma empresa.

Enquanto ideal olímpico o amadorismo constituía um imperativo de igualdade entre os atletas. Ainda que desde cedo não tenha tido eficácia prática o princípio que lhe subsiste tem sido remetido para a diferenciação dos quadros competitivos, de acordo com as especificidades dos atletas e das suas competências, de modo a garantir uma posição mais igualitária, assim como um maior equilíbrio na dimensão competitiva. Discuti longamente essa questão em minha tese de livre docência que foi posteriormente publicada em livro (Rubio, 2007).

A atividade esportiva como profissão é um fenômeno recente. Essa nova ordem comercial se firmou com a entrada da televisão no mundo olímpico. A visibilidade que os atletas ganharam estimulou empresas a terem suas marcas associadas àqueles seres capazes de realizações incomuns e diante do risco que a celebração de contratos podia representar para a carreira dos atletas, desenvolveram-se formas de burlar essas normas por meio de estratégias que dependiam da criatividade dos atletas e da ousadia das empresas. Na lógica interna do esporte contemporâneo especialização e profissionalização são inevitáveis. Com o fim do amadorismo, o esporte converteu-se em um meio de vida, uma atividade profissional: seres humanos com habilidades fora da média passam a celebrar vultosos contratos comprometendo-se a realizar determinadas marcas. Buscando responder a essas exigências, nos últimos anos os campeões do esporte transformaram-se em rendosas mercadorias que são vendidas e negociadas em diversos pontos do planeta. Na transformação da prática da condição amadora para a profissional, não foram apenas os valores nobres e aristocráticos que se perderam. A criação de uma nova ordem olímpica indicava que o mundo do século XX havia passado por grandes e profundas mudanças práticas e morais. O atleta profissional não é apenas aquele que tem ganhos financeiros pelo seu trabalho. Ele é também a representação vitoriosa de marcas e produtos que querem estar vinculados à vitória, à conquista de resultados.

Como se pode ver há inúmeros argumentos para justificar a transformação do amadorismo em profissionalismo. O que o texto acima não dimensiona, entretanto, são as tantas questões morais e sociais que o profissionalismo excessivo desencadeia. O que tenho observado ao longo desses anos é que o profissionalismo não significa, necessariamente, uma atitude profissional por parte de atletas diante de fans ou da sociedade. Pelo contrário, profissionalismo significa, apenas e tão somente, ganhar dinheiro utilizando-se para isso uma habilidade motora fora de série. Os registros desses momentos podem ser encontrados em fotos impressas nos jornais da primeira metade do século passado, em locuções de diferentes radialistas que durante anos recriaram esses feitos utilizando-se para isso de uma capacidade singular de descrever um gesto raro que se perpetuou em um recorde ou marca histórica. Foi assim com Adhemar Ferreira da Silva, Tetsuo Okamoto ou José Telles da Conceição. E a entrada da TV nesse cenário alterou radicalmente essa lógica, uma vez que os feitos descritos passaram a ter corpo e rosto. As imagens animadas da TV ajudaram a sacralizar e santificar uma série de atletas, marcando alguns deles como verdadeiros mitos. Não é raro no presente assistirmos em programas históricos a essas imagens como se estivessem relacionadas a uma criação ficcional.

E é justamente essa condição de deidade que motiva esse texto.

Na busca dos 1.682 atletas brasileiros que foram a Jogos Olímpicos (sim, o número não pára de crescer porque aos poucos vamos descobrindo pessoas que não constam dos registros por terem sido reservas ou convocados a posteriori) me deparo com diferentes tipos de pessoas. Felizmente atletas como Jan Aten, ao saberem do projeto, apresentam-se a mim e disponibilizam-se para abrir suas memórias, histórias e considerações a respeito do que foi sua participação em Jogos Olímpicos e também sobre a vida de atleta.

Mas, uma coisa que tem me espantado é a atitude mais mercantil e menos heróica de alguns que foram ídolos, mas não heróis do esporte, que ao serem abordados para concederem uma entrevista para a minha pesquisa atual perguntam, sem qualquer pudor, quanto irão ganhar para isso.

Claro está que tipo de atleta é esse.

Não são nossos lendários heróis olímpicos, mais recentes ou antigos, como Joaquim Cruz, Cesar Scielo, Jackie Silva, Magic Paula, Lars e Torben Grael, Maurren Magy, Natalia Falavigna, Bebeto de Freitas, André Richer, Bernardinho, Mauro Galvão ou tantos outros desses mais de 600 atletas que já entrevistei, ganhadores ou não de medalhas. Falo de uma espécie rara de atleta que não percebeu ainda, estando na ativa ou não, que sua identidade não está associada apenas àquilo que realiza no ambiente sagrado da prática esportiva, mas se desdobra em suas ações como cidadão que se dá no exercício de diferentes papéis sociais ao longo de sua existência.

Vejo pós-atletas como Rogério Romero, Aurélio Miguel, Marcus Vinicius Freire, Magnólia Figueiredo, Wagner Castropil, Rogério Sampaio, Nelson Prudêncio, Conceição Geremias, Silvina Pereira ou o Dr. Grangeiro, apenas para citar alguns que mesmo ocupando cargos públicos ou com agendas lotadas com responsabilidades relacionadas ao esporte receberam a mim ou a algum dos membros de minha equipe de trabalho e colaboraram contando suas histórias e memórias. Lembro ainda de outros também atarefados com suas atividades relacionadas com o esporte dentro ou fora da quadra como foi Carlão, Tande, Nakaia, Andrade, Agberto Guimarães, Carmem de Oliveira, Christiane Paquelet, Monica Rodrigues ou Evaristo de Macedo que organizaram suas agendas e pararam por cerca de 40 minutos a 1 hora para falarem sobre suas carreiras e experiência olímpica.

Entendo que a pergunta, de forma direta ou indireta, “quanto vai custar a entrevista” indica o quão pouco se sabe sobre o valor da preservação da memória e da história. Menos se sabe sobre o valor de um trabalho acadêmico que pode produzir conhecimento para o desenvolvimento de uma atividade social e profissional que fez muitos, inclusive o autor da pergunta, ser reconhecido por aquilo que fez no passado, que como vento, pode se dissipar no esquecimento dos desavisados.

RUBIO, K. Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

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