Blog da Katia Rubio


Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos


A Vida é de Morte…

Gente antiga como minha avó Maria costuma usar a expressão “é de morte” para se referir a alguma coisa absolutamente fora do comum. Por exemplo, “Aquele menino é de morte, você viu o que ele fez? Desceu aquela rampa a 145 km por hora.” Fico tentando entender o que de fato a morte tem de tão incomum se ela é absolutamente a única certeza que carregamos a respeito de nosso destino ao longo de toda a nossa, curta ou longa, existência.

Mas o que me intriga de fato, a ponto de utilizar esse espaço para divagação ou discussão, é o que leva alguém a colocar a sua existência em risco durante uma prática esportiva. Hoje cedo, aliás muito cedo porque era dia de pegar a estrada e aproveitar o descanso que os dias de carnaval nos proporciona, vejo estampada na primeira página do jornal a morte lamentável de um atleta georgiano de luge durante os treinos para os Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Dizia a matéria que ele descia a rampa a 145 km/hora em um equipamento que não possui freio nem direção e que conta apenas com a habilidade do atleta na sua condução. Outro fato importante é que vários atletas antes dele haviam se acidentado, porém não fatalmente, e reclamado do traçado da pista. Um dos candidatos a medalha perguntava, inclusive, quais eram as intenções dos criadores daquela maravilha tecnológica. Levá-los ao limite ou à morte? E foi aí que fisguei o tema dessa reflexão.

Já escrevi sobre isso em várias publicações, mas pelo que vejo essa questão continuará pulsando em meus escritos.
Qual a razão da existência dos Jogos Olímpicos?

Os Jogos Olímpicos eram um ritual agonístico que ocorria em Olímpia em honra a Zeus, o maioral do panteão olímpico, e tinham por finalidade prestar homenagem aos heróis. Faziam parte dos Jogos Pan-Helênicos, juntamente com os Jogos Píticos (realizados em honra a Apolo, na cidade de Delfos), Ístmicos (aconteciam em Corintio em honra a Poseidon) e Nemeus (em honra a Héracles eram realizados em Neméia). Havia ainda os Jogos Heranos, dedicados à deusa Hera, esposa de Zeus, com a participação exclusiva de mulheres, uma vez que estas não podiam participar de qualquer outra competição… elas não eram cidadãs; e os Jogos Fúnebres, considerados os mais antigos e talvez precursor dos Jogos Olímpicos, eram dedicados aos mortos, como descreve Homero, na Ilíada; as Panatéias eram um evento realizado em honra a Athena, em Atenas.

Vejam, trago essas informações para refletir sobre as muitas possibilidades que os gregos tinham de provar seu agon. A agonística, segundo Junito Brandão (1999) em grego agonistiké, significa luta, disputa atlética, e prende-se a agon, ‘assembléia, reunião’ e, em seguida, ‘reunião dos helenos para os grandes jogos nacionais’, os próprios jogos, os concursos, as disputas.

A agonística em seu extremo levava o atleta a buscar o seu limite, ou seja, diante da impossibilidade de alcançar a imortalidade o atleta perenizava sua existência por meio de um feito que, se bem sucedido, imprimiria o nome de seu realizador na história, dando a ele uma espécie de imortalidade. Ainda hoje consta o nome de todos os vencedores dos Jogos Olímpicos da Antiguidade no museu de Olímpia. Ou seja, essa era a possibilidade dos homens chegarem muito perto dos deuses!!!

Claro está que foram necessários vários séculos e o auxílio das metanarrativas para que essa interpretação fosse possível, no entanto, a busca pela imortalidade por meio das realizações esportivas permanece a mesma. O que vejo no contemporâneo, diferentemente da Antiguidade, é que hoje as tecnologias e os interesses econômicos levam o atleta a um nível de risco absolutamente singular. Teria o atleta georgiano chegado àquela velocidade se seu equipamento não fosse feito de fibra de vidro, com tecnologia espacial, etc? Cuidado incautos! Não uso minha pena para maldizer a tecnologia ou os avanços inevitáveis como em Lunik 9, de Gilberto Gil “Poetas, seresteiros, namorados correi! É chegada a hora de escrever e cantar. Talvez as derradeiras noites de luar”. O que discuto são os interesses em jogo que tiram o atleta da condição de protagonista maior da realização dos Jogos e deslocam para as adjacências como equipamentos, materiais, entre outras perfumarias, a condição mítica de seus feitos. Vale lembrar sempre: NÃO HÁ COMPETIÇÃO ESPORTIVA SEM O ATLETA. Isso parece óbvio, mas não é tanto assim, haja visto como nossos representantes competitivos são tratados como peças de fácil reposição de uma complexa engrenagem.

Tomo o cuidado para não me chamarem de romântica. A questão não é essa. Não desejo que essa discussão se desvie para uma trilha rousseaniana do “bom atleta” na esteira do “bom selvagem”. Nenhum atleta é puro até que a sociedade (incluindo aí todos os interesses políticos e econômicos) o corrompa.

Os atletas aceitam os riscos que hoje correm para poderem concorrer àquele lugar único no alto do pódio que além da medalha rende-lhes muitos benefícios como patrocínios impublicáveis, fama e outras coisas. E quanto mais perto estão desse ideal de vida, mais se distanciam de todas as formas organizativas e associativas que, em última instância, podem promover a proteção de suas vidas. É o individualismo neo-liberal levado para dentro das arenas esportivas que, em última instância, ajuda a promover o risco de morte daqueles que deveriam proporcionar a, nós mortais, o deleite de vê-los perto dos deuses. Pena não estar claro ainda que a imortalidade ainda não pertence a nós.

Por katiarubio
em 13-02-2010, às 17:41

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