Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos
Uma das coisas mais importantes desse caso é observar como a comunidade internacional está mobilizada para a questão olímpica. Aqueles que estudam e pesquisam os Estudos Olímpicos, que têm o Olimpismo como um bem da humanidade e não apenas o comércio da competição, estão muito atentos às ações que colocam em risco os ideais básicos e seculares do Movimento Olímpico.
A primeira pessoa do exterior a se manifestar publicamente foi o professor Gustavo Pires, da Universidade Técnica de Lisboa, ele próprio vítima de uma ação do Comitê Olímpico Português contra seu site Fórum Olímpico. Foi um processo desgastante que durou 3 anos e que a justiça portuguesa acabou dando ganho de causa ao Prof. Gustavo, abrindo um precedente em Portugal sobre o uso da palavra “olímpico”, “olímpica”, “Jogos Olímpicos”, enfim, as mesmas questões que envolviam a ação contra mim.
Dia 02/02/2010 o Prof. Gustavo postou no site www.forumolimpico.org uma matéria denominada A Família Olímpica onde discute o meu caso e outras questões mais.
Meu muito obrigada ao Prof. Gustavo.
Outras tantas manifestações internacionais chegaram por conta dos contatos que a Bárbara, da Alesde, fez com a Sociedade Norte-Americana de Sociologia do Esporte, o que levou a mensagens imediatas de pessoas como Andrew Jennings, um dos autores do clássico “The Lords of Rings”, o que lhe rendeu um processo do COI. Curioso. Lembro que quando estudei em Barcelona procurei esse livro em várias livrarias até que me informaram que eu só o encontraria em sebos, bem escondidinho. De fato, achei um em um sebo atrás do mercado municipal, perto das Ramblas. Achei que estivesse comprando algo proibido, sensação confirmada pelo dono da loja. Disse-me ele que durante o mandato do Juan Samaranch no COI os livros foram “proibidos” na Espanha. “Proibidos”, entre aspas, porque no sistema democrático em que hoje a Espanha pós-Franco vive não permite essa ação assim tão aberta. Mas o poder subliminar exercido pelo Senhor dos Anéis levou a obra a ser sorrateiramente “indexada”. Apesar disso, esse é um livro de referência para todos os que estudam esses meandros. Vai aqui a referência de um dos que enviaram seu apoio e solidariedade e que eu usei na minha tese de livre docência.
SIMONS, V.; JENNINGS, A. Los señores de los anillos. Barcelona: Ediciones Transparência, 1992.
Acionei também todos os colegas estrangeiros que conheci em eventos fora e dentro do Brasil. Incrível a capacidade que temos de criar redes na atualidade. Não só os colegas da área de psicologia do esporte, sociologia, história, filosofia do esporte, que eu tenho contato direto se manifestaram, mas também as redes de fisiologia do exercício, biomecânica, nutrição, enfim. Essa não era uma causa das Ciências Humanas, apenas. Ela foi uma causa de todos que estudam e pesquisam o esporte e a educação física, seja de uma perspectiva humana ou biológica. Isso me fez acreditar na máxima de Thomas L Friedman, de que O mundo é plano (Ed. Objetiva, 2007).
Thomas Kistner, da Alemanha, foi outro olímpico solidário que não apenas empenhou seu apoio como, ao que tudo indica, fez um grande barulho dentro do COI. Thank you very much, Thomas.
Não vou abrir aqui todos os apoios recebidos, porque como as mensagens vieram para meu e-mail pessoal não sei se todos autorizam a publicação.
Mas, gostaria de publicar o e-mail que o colega Rogério de Almeida, da Faculdade de Educação da USP que não apenas enviou para o COB como também autorizou a publicação do texto onde mais fosse necessário.
Excelentíssimos,
É com indignação, temeridade e perplexidade que recebo a notícia de que o COB solicita o recolhimento do livro Esporte, educação e valores olímpicos, de autoria da pesquisadora, professora e escritora Katia Rubio, cuja contribuição para o desenvolvimento dos estudos acerca do esporte, do olimpismo e do imaginário olímpico é inestimável. Segundo documento do COB, o “uso dos termos ‘olímpico’, ‘olímpica’, ‘olimpíada’, ‘Jogos Olímpicos’ e suas variações… são de uso privativo do Comitê Olímpico Brasileiro no território brasileiro”.
Diante do teor do documento, gostaria de questionar em que momento o Brasil, representado pelo COB, comprou os direitos autorais dos gregos para ter uso exclusivo de um termo (Olimpíada) que foi cunhado para homenagear os deuses do Olimpo. Será que a negociação foi feita diretamente com os deuses? Sequer a língua que usamos é nossa, já que se chama “portuguesa”, a qual, por sua vez, faz parte das línguas românicas, que tiveram origem a partir do latim, antiga língua dos Lácios incorporada pelos romanos, os quais tinham muito mais respeito pelos gregos (afinal, nunca tentaram “patentear” nenhuma de suas palavras).
Também desconheço essa manobra de tornar palavras de “uso privativo”. Se isso é legal, gostaria de registrar “felicidade”, “esperança” e “vitória” para uso privativo meu. E sugiro, o quanto antes, que o COB registre “vergonha”, “censura” e “autoritarismo”, pois lhe cabem com justeza e justiça.
Num país (prefiro não dizer qual, pois temo que a palavra também já tenha sido “patenteada”) em que já nos acostumamos com o “pão e circo” promovido pelos donos do poder (de todas as esferas, inclusive do esporte), de cujos reais interesses sempre desconfiamos (para não dizer que sabemos), a palavra de ordem é festejar. Então, festejemos os “jogos modernos que aludem aos jogos gregos que homenageavam os deuses do Olimpo” (desculpem-me a perífrase, mas temo represálias pelo uso da palavra adequada e agora tornada de uso restrito)! Vamos fazer festa, já que qualquer manifestação em contrário será tachada de anti-patriótica. Sim, façamos festa! Mas nem por isso deixemos de trabalhar.
É o que pretende a profa. Katia Rubio, continuar trabalhando, como faz há anos. Só que seu trabalho é justamente investigar o imaginário do esporte, dos Jogos (vocês-sabem-quais-são) e dos atletas que o praticam. E não de qualquer maneira, mas com seriedade, rigor acadêmico, científico e reconhecimento nacional pela enorme contribuição que, muito antes da festa de 2016, e independente dela, tem prestado. Estudos legitimados por seus pares e, principalmente, pela mais importante universidade deste país, a qual felizmente posso mencionar, não por fazer parte dela, mas por ser de uso privativo – a USP.
Portanto, só pode caber repúdio à censura imposta pelo COB (posso usar a combinação destas três letras?)!
É inadmissível que se confisque palavras do dicionário, da nossa vida comum, e proíbam determinadas pessoas (sim, porque a palavra está em todo canto da mídia) de usá-las. É inadmissível que se proíbam livros, quaisquer que sejam seu teor. É inadmissível que, num país democrático e com direitos assegurados pela Constituição, qualquer cidadão seja privado de expressar suas idéias.
Dessa forma, antes de tornar público meu email, solicito que se devolvam as palavras aos seus lugares de origem, ou seja, ao povo, ao falante, ao brasileiro, seja ele escritor, atleta ou dirigente, e que cesse qualquer atitude de censura a quem contribui para o esporte e o estudo dos jogos olímpicos (desculpem-me pelo uso da palavra).
Grato pela oportunidade de usar as palavras que ainda me são permitida usar,
Prof. Dr. Rogério de Almeida
Faculdade de Educação da USP
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