Blog da Katia Rubio


Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos


UMA PÁTRIA DE CHUTEIRAS, CORNETAS E CAMISETAS VERDE-AMARELAS.

Uma vez mais estamos nós aqui vivendo o espírito verde-amarelo.
Lembro há 4 anos atrás, período de uma Olimpíada, ter vivido algo semelhante e ter desejado o mesmo: registrar essa sensação de pertencimento oceânico arrebatador que alguns insistem em chamar de piegas, ou manipulação. Como estudiosa do tema insisto em fugir da armadilha racionalista falaciosa que nos retira do campo da emoção para nos levar pela maré da análise fria e calculista.
Falo de uma sensação curiosa que é atravessar as ruas da cidade de São Paulo, as 14 horas do dia do primeiro jogo da seleção brasileira de futebo,l e faltando uma hora e meia para o início do jogo ver o expediente terminar em quase todos os locais de trabalho da cidade. Os bancos (sim eles!) abriram as 8 para fechar as 14h00. O reitor da Universidade de São Paulo, assim como dirigentes de outras instituições, também decretou encerramento das atividades da universidade as 14 horas, embora hoje fosse dia de prova de Dimensões Psicológicas. Claro que eu entendo tudo isso, principalmente quando me desloco pela rua em direção ao local onde assistirei ao jogo.
Não posso ficar imune à mobilização de todos aqueles que, manipulados ou não, vestem as cores verde-amarelo, portam cornetas, fitas e qualquer badulaque que o identifique como um verdadeiro torcedor de uma seleção dirigida por um técnico sobre o qual não desejo falar nesse post.
O que leva pessoas a se identificarem de tal maneira com essas cores que representam aquilo que poderíamos chamar de espírito nacional? Embora seja emotiva acima a média e tenha nascido em um dia de jogo do Brasil na Copa de 62 tendo a observar tudo isso e buscar o que há de genuíno nessas manifestações individuais e coletivas. Durante anos ouvi dizer que o futebol era uma espécie de ópio que tinha por finalidade entorpecer um povo ralado pela repressão e oprimido por uma ditadura.
Minha primeira lembrança de Copas do Mundo foi em 1970. Lembro da música 90 milhões em ação, lembro das vinhetas com o João Saldanha na TV e de meu pai dizendo que ele não foi a Copa porque os milicos não deixaram. Mas, lembro também do Jogo final Brasil e Itália e toda a vizinhança junta assistindo ao jogo na TV de casa na Rua Francisco Pedroso. Em um dos gols do Brasil um vizinho que tinha passado vários dias picotando jornal parou um ônibus que descia a rua e foi dar um beijo no motorista que, sozinho junto com o cobrador, fazia uma viagem Freguesia do Ó – Largo do Paissandu para ninguém.
O que havia de ópio em tudo aquilo? Assistindo à mobilização das ruas hoje vejo que passados 40 anos mudou muita coisa: vivemos uma democracia que pode não ser perfeita, mas é talvez a melhor que já tivemos; temos uma seleção que está longe de ser a ideal, mas quando será que teremos a perfeita?; temos uma identidade na atualidade que nem de longe se assemelha àquele espírito de cachorro vira-lata, afinal hoje matamos de inveja muitos Estados Nacionais historicamente chamados de imperialistas. Talvez o ópio de 70 seja hoje algo parecido com um prozac. Pode ser uma droga, mas não dá para afirmar que é ilícita, e embora eu seja favorável à psicoterapia as vezes a fluoxitina abrevia um sofrimento desnecessário.
Que o verde-amarelo das camisetas, cornetas, fitas e adereços possam permanecer no espírito e na identidade de todos aqueles que acompanharam hoje tantos brasileiros no trabalho, na escola, nas atividades domésticas. Que em seus corpos e corações fique gravado por mais tempo essa sensação de orgulho para que lembremos que há outros bons motivos para ser quem somos.

Por katiarubio
em 15-06-2010, às 18:24

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Comentários

[...] do famoso “pão e circo”, do ópio, ou prozac (como disse a Katia Rubio em seu blog) do povo, enfim, prefiro deixar para um outro [...]


[...] a política do famoso “pão e circo”, do ópio, ou prozac (como disse a Katia Rubio em seu blog) do povo, etc, prefiro deixar para um outro [...]


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