Por dentro da Psicologia e dos Estudos Olímpicos
4.12.2011 | 4 Comentários.
Vejo com que freqüência se escreve acerca da profissionalização do esporte e as conseqüências desse movimento para o fenômeno esportivo, principalmente o que diz respeito ao esporte olímpico. Isso porque, um dos valores que fundamentou o Movimento Olímpico até o final dos anos 1980 foi o amadorismo. Romantismo a parte não é difícil entender que o esporte não sobreviveria ao Século XX se não assumisse e admitisse que era preciso profissionalizar a estrutura e o protagonista do espetáculo esportivo: o atleta.
O amadorismo foi no passado tema tão tabu quanto o uso de substâncias dopantes, considerado uma virtude humana e condição sine qua non para qualquer atleta olímpico. Mas, mais que um valor ético essa imposição era um qualificador pessoal e social dos atletas que se dispunham a seguir a carreira esportiva. Envolvida em uma discussão ideológica tanto para os que defendiam esse princípio como para os que o atacaram, a história olímpica contemporânea está pontuada por ocorrências que demonstravam o uso parcial desse preceito. O amadorismo foi esquecido como um dos elementos fundantes e fundamentais do Olimpismo no final da década de 1970, quando se intensificou um movimento de disfarce de atletas em funcionários de empresas para que escapassem à condição de profissionais do esporte. No Brasil esse esforço foi substituído definitivamente e com sucesso pelos contratos com patrocinadores e empresas interessadas em investir no esporte no início dos anos 1980.
Muitos foram os valores implicados nessa mudança. A transformação do espetáculo esportivo em um dos negócios mais rentáveis do planeta foi talvez a principal motivação para a reconsideração sobre o que era e qual a finalidade do amadorismo na participação do atleta em Jogos Olímpicos. A profissionalização acabou por imprimir uma grande alteração na organização esportiva tanto do ponto de vista institucional como na atividade competitiva em si, levando o esporte a se tornar uma carreira profissional cobiçada e uma opção de vida para jovens habilidosos e talentosos. A competição ganhou visibilidade e complexidade ao se tornar espetáculo esportivo e produto da indústria cultural. E assim, interesses econômicos aliados a disposições políticas e intervenção estatal produziram e reforçaram uma das instituições mais robustas do planeta.
Os protagonistas do espetáculo esportivo são na sociedade contemporânea figuras espetaculares, por realizarem feitos incomuns aos cidadãos médios, e públicas, por serem alvo de projeção e de identificação. Esses olimpianos são o exemplo de um profissional possível em um mundo onde o trabalho se torna escasso. O atleta competitivo é um novo tipo de trabalhador que vende sua força de trabalho em forma de espetáculo que atrai multidões a espaços públicos ou retém milhões de telespectadores diante da TV. O valor de troca de sua força de trabalho, regulado pelas leis do mercado, está determinado pelo tempo necessário para sua produção. O amadorismo deixou de existir quando esse trabalhador do esporte teve agregado ao seu esforço o distintivo de um clube ou a logomarca de uma empresa.
Enquanto ideal olímpico o amadorismo constituía um imperativo de igualdade entre os atletas. Ainda que desde cedo não tenha tido eficácia prática o princípio que lhe subsiste tem sido remetido para a diferenciação dos quadros competitivos, de acordo com as especificidades dos atletas e das suas competências, de modo a garantir uma posição mais igualitária, assim como um maior equilíbrio na dimensão competitiva. Discuti longamente essa questão em minha tese de livre docência que foi posteriormente publicada em livro (Rubio, 2007).
A atividade esportiva como profissão é um fenômeno recente. Essa nova ordem comercial se firmou com a entrada da televisão no mundo olímpico. A visibilidade que os atletas ganharam estimulou empresas a terem suas marcas associadas àqueles seres capazes de realizações incomuns e diante do risco que a celebração de contratos podia representar para a carreira dos atletas, desenvolveram-se formas de burlar essas normas por meio de estratégias que dependiam da criatividade dos atletas e da ousadia das empresas. Na lógica interna do esporte contemporâneo especialização e profissionalização são inevitáveis. Com o fim do amadorismo, o esporte converteu-se em um meio de vida, uma atividade profissional: seres humanos com habilidades fora da média passam a celebrar vultosos contratos comprometendo-se a realizar determinadas marcas. Buscando responder a essas exigências, nos últimos anos os campeões do esporte transformaram-se em rendosas mercadorias que são vendidas e negociadas em diversos pontos do planeta. Na transformação da prática da condição amadora para a profissional, não foram apenas os valores nobres e aristocráticos que se perderam. A criação de uma nova ordem olímpica indicava que o mundo do século XX havia passado por grandes e profundas mudanças práticas e morais. O atleta profissional não é apenas aquele que tem ganhos financeiros pelo seu trabalho. Ele é também a representação vitoriosa de marcas e produtos que querem estar vinculados à vitória, à conquista de resultados.
Como se pode ver há inúmeros argumentos para justificar a transformação do amadorismo em profissionalismo. O que o texto acima não dimensiona, entretanto, são as tantas questões morais e sociais que o profissionalismo excessivo desencadeia. O que tenho observado ao longo desses anos é que o profissionalismo não significa, necessariamente, uma atitude profissional por parte de atletas diante de fans ou da sociedade. Pelo contrário, profissionalismo significa, apenas e tão somente, ganhar dinheiro utilizando-se para isso uma habilidade motora fora de série. Os registros desses momentos podem ser encontrados em fotos impressas nos jornais da primeira metade do século passado, em locuções de diferentes radialistas que durante anos recriaram esses feitos utilizando-se para isso de uma capacidade singular de descrever um gesto raro que se perpetuou em um recorde ou marca histórica. Foi assim com Adhemar Ferreira da Silva, Tetsuo Okamoto ou José Telles da Conceição. E a entrada da TV nesse cenário alterou radicalmente essa lógica, uma vez que os feitos descritos passaram a ter corpo e rosto. As imagens animadas da TV ajudaram a sacralizar e santificar uma série de atletas, marcando alguns deles como verdadeiros mitos. Não é raro no presente assistirmos em programas históricos a essas imagens como se estivessem relacionadas a uma criação ficcional.
E é justamente essa condição de deidade que motiva esse texto.
Na busca dos 1.682 atletas brasileiros que foram a Jogos Olímpicos (sim, o número não pára de crescer porque aos poucos vamos descobrindo pessoas que não constam dos registros por terem sido reservas ou convocados a posteriori) me deparo com diferentes tipos de pessoas. Felizmente atletas como Jan Aten, ao saberem do projeto, apresentam-se a mim e disponibilizam-se para abrir suas memórias, histórias e considerações a respeito do que foi sua participação em Jogos Olímpicos e também sobre a vida de atleta.
Mas, uma coisa que tem me espantado é a atitude mais mercantil e menos heróica de alguns que foram ídolos, mas não heróis do esporte, que ao serem abordados para concederem uma entrevista para a minha pesquisa atual perguntam, sem qualquer pudor, quanto irão ganhar para isso.
Claro está que tipo de atleta é esse.
Não são nossos lendários heróis olímpicos, mais recentes ou antigos, como Joaquim Cruz, Cesar Scielo, Jackie Silva, Magic Paula, Lars e Torben Grael, Maurren Magy, Natalia Falavigna, Bebeto de Freitas, André Richer, Bernardinho, Mauro Galvão ou tantos outros desses mais de 600 atletas que já entrevistei, ganhadores ou não de medalhas. Falo de uma espécie rara de atleta que não percebeu ainda, estando na ativa ou não, que sua identidade não está associada apenas àquilo que realiza no ambiente sagrado da prática esportiva, mas se desdobra em suas ações como cidadão que se dá no exercício de diferentes papéis sociais ao longo de sua existência.
Vejo pós-atletas como Rogério Romero, Aurélio Miguel, Marcus Vinicius Freire, Magnólia Figueiredo, Wagner Castropil, Rogério Sampaio, Nelson Prudêncio, Conceição Geremias, Silvina Pereira ou o Dr. Grangeiro, apenas para citar alguns que mesmo ocupando cargos públicos ou com agendas lotadas com responsabilidades relacionadas ao esporte receberam a mim ou a algum dos membros de minha equipe de trabalho e colaboraram contando suas histórias e memórias. Lembro ainda de outros também atarefados com suas atividades relacionadas com o esporte dentro ou fora da quadra como foi Carlão, Tande, Nakaia, Andrade, Agberto Guimarães, Carmem de Oliveira, Christiane Paquelet, Monica Rodrigues ou Evaristo de Macedo que organizaram suas agendas e pararam por cerca de 40 minutos a 1 hora para falarem sobre suas carreiras e experiência olímpica.
Entendo que a pergunta, de forma direta ou indireta, “quanto vai custar a entrevista” indica o quão pouco se sabe sobre o valor da preservação da memória e da história. Menos se sabe sobre o valor de um trabalho acadêmico que pode produzir conhecimento para o desenvolvimento de uma atividade social e profissional que fez muitos, inclusive o autor da pergunta, ser reconhecido por aquilo que fez no passado, que como vento, pode se dissipar no esquecimento dos desavisados.
RUBIO, K. Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.
27.11.2011 | 1 Comentário.
Faço parte de uma família que carrega uma forte tradição no futebol. Pai, mãe, irmã, tios e tias, primos e primas e agora, até sobrinhas, comungam a mesma opção clubística. E toda tradição, como nos afirma Eric Hobsbawn, foi um dia inventada por alguém, atendendo a alguma intenção. Antes mesmo de conhecer os autores da área sociocultural do esporte que vão apontar as influências sociais e culturais na construção do fenômeno esportivo vi na minha própria família a influência que o esporte, e mais especificamente o futebol, é capaz de exercer em sua dinâmica. Tenho um primo chamado Rivelino, isso mesmo, não é Roberto, é Rivelino; o gato de uma prima, após um jogo histórico, passou a se chamar Tobias, e por aí vai.
Não imaginava durante a infância que minha profissão quando adulta estaria relacionada ao esporte. Praticante assídua de diferentes modalidades cheguei a fazer jornalismo pensando em me tornar uma jornalista esportiva, mas a vida me levou para outras paragens embora a paixão pelo esporte e todo esse universo nunca tenham me abandonado.
Muitas das minhas lembranças de jogos estão relacionadas com a família e amigos reunidos para assistir jogo, torcer pelo time e sair às ruas para festejar. Sou de um tempo que a rivalidade entre torcidas e torcedores não passava de discurso acalorado ou infinitas piadas que tanto podiam se relacionar com a vitória como com a derrota, do próprio time ou do adversário. Lembro também de meu pai contar de suas idas ao Pacaembu e das tantas vezes em que sentou ao lado de torcedores do time adversário e de compartilharem o amendoim e as impressões sobre o jogo de forma gentil, cordial. Como não sou desse tempo, creiam, eu ouvia tudo isso e ficava pensando em preto e branco, como se as imagens descritas por ele estivessem em um filme mudo, com homens trajando terno e chapéu e as mulheres vestidos acinturados e sapatos combinando com a bolsa. Quando vou ao Museu do Futebol de São Paulo (um dos museus de esporte mais incríveis que já visitei no mundo) e observo o acervo relacionado com os anos 1930 e 1940 vejo materializada a imagem que fazia do futebol e da sociedade da época. O estádio do começo do século XX, lugar da aristocracia urbana, foi sendo invadido pela classe trabalhadora que honrou esse espaço sagrado prestigiando as pelejas com o devido respeito ao público que lá se dirigia para assistir e honrar a tradição de uma competição.
E a informalidade que assolou os muitos espaços sociais também chegou ao futebol. O respeito antes dispensado ao adversário foi aos poucos se transformando em rivalidade incontida, e em curto tempo inimizade contenciosa. E os estádios, campo com instalações destinadas a competições esportivas; para os romanos, arena, carreira; para os gregos, medida itinerária correspondente a 185 m.; todos, passou a ser um campo definido por regras sociais e delimitações físicas. E as novas gerações, criadas dentro de um clima belicoso, já não mais assistem a um espetáculo, mas vão ao campo para matar ou morrer, materializando a disputa simbólica que uma competição esportiva poderia representar.
Das muitas situações que a sociedade contemporânea me proporciona capazes de me surpreender, e também me indignar, a atitude dos torcedores do futebol é sem dúvida aquela que mais me faz lembrar do texto de Freud “Mal-estar na civilização”. Não farei aqui digressões e elucubrações a respeito da psicanálise, mas, por esse texto se referir à distinção entre civilização e cultura, não posso deixar de pensar no que o velho Sig escreveu nos anos 1930 observando a tudo o que ocorria com as “massas” na Alemanha pré-nazismo, muito embora ele já observasse a passagem da natureza à cultura em seu artigo “Totem e tabu” de 1921. Observou Freud que todo indivíduo, em sua essência, é inimigo da civilização, uma vez que neles estão presentes tendências anti-sociais, anti-culturais e destrutivas. Isso se justificaria porque como ser social, o ser humano precisa da comunidade, mas a civilização trava uma luta incessante contra esse ser que procura ser único e livre, buscando substituí-lo pelo poder do coletivo. Ou seja, o indivíduo deve ser sacrificado para o bem da sociedade.
Tudo isso para falar sobre o que vejo hoje do torcedor.
Há uns anos recepcionei um grupo de professores estrangeiros que vieram para um congresso no Brasil e me pediram para assistir a um jogo de futebol. Olhamos a tabela e vimos um jogo que aconteceria no domingo, mas para nosso azar um dos times estava com sua torcida insatisfeita. E para nossa surpresa essa torcida, desrespeitando as mais nobres tradições do esporte bretão, foi de amarelo ao estádio e assistiu ao jogo de costas para o gramado, desrespeitando as cores de seu uniforme e bandeira. Tanto o Prof. Richard Cashman, da Austrália, conhecedor dos Estudos Olímpicos e um dos grandes intelectuais dos Jogos Olímpicos de Sydney, quanto o Prof. Eckhart Meinberg, da Universidade de Colônia e um dos papas da ética no esporte, custaram a entender o que ocorria ali no estádio. Tentei de todas as formas lhes explicar que aquilo era um ato de desagravo da torcida em relação à conduta do time, considerado pouco empenhado nos jogos, mas minhas explicações foram inúteis. E o jogo morno terminou com protestos de torcedores e espectadores de forma geral. Embora torcedores isolados considerassem absurdo tudo aquilo, o que prevalecia era a força do grupo, da massa.
E as coisas inusitadas não param por aí. Mais do que representar alguém que defende o time escolhido por si, ou pela família, para gostar e defender o torcedor vive hoje uma espécie de insanidade em dia de competição. Não falo apenas daqueles que vão ao campo para cantar o hino do time, gritar pelos jogadores em campo, comemorar os gols feitos ou lamentar pelos sofridos. Falo também daqueles que do conforto de suas poltronas, alocadas diante de aparelhos de TV 40 polegadas que recebem imagens pelo pay per view, gritam como se parte do corpo fosse extirpado a golpe de machado ou pelo golpe de um dragão acuado. Acompanho em diferentes bairros, em diversas cidades brasileiras, jogos de distintos campeonatos e, surpreendentemente observo um comportamento inusitado se repetir: a firme disposição em torcer, não para o próprio time, mas por aquele que pode de alguma forma prejudicar o meu adversário.
Precisei de algum tempo para entender que torcida é como maré, ela pode variar conforme o dia, a lua e as condições climáticas… tudo depende de quem joga, e não precisa ser necessariamente o seu time, mas o time do qual se é adversário. Isso significa que os sinais antes emitidos pelos espectadores a partir de seus lares podem representar muito mais que a vitória do próprio time. Ouvir um “CHUPA PORCO” ou “CHUPA CORINTHIANS” de um desavisado do condomínio ao lado, que assistiu pela TV aberta a cena avassaladora e foi favorecido pelos dramáticos alguns segundos que separam a mesma cena da TV a cabo, precisa ser confirmado antes da comemoração ou do lamento pelo ocorrido. Feito isso serão necessários alguns momentos para que a equação se processe:

E assim, mais um espetáculo foi criado a partir do futebol brasileiro – manifestações pulmonares e vocais capazes de desafiar os mais possantes amplificadores elétricos. Visto em primeira instância isso poderia ser tomado como um ato de desagravo e desrespeito aos vizinhos que professam crenças diversas, porém, rapidamente essas manifestações da livre expressão passaram a ser esperadas pela massa torcedora que forma a maior torcida do país a partir do momento que o time corre o risco de ser campeão.
E assim, a depender da tabela e da rodada do campeonato, torcidas se formam e transformam pelo país afora como o rodar de um caleidoscópio, alterando seus gritos pró ou contra alguém. Afinal, diante da impossibilidade do próprio time ser campeão, o melhor programa é torcer contra o arqui-rival. E aquele termo, que décadas atrás seria considerado uma ofensa sem precedentes entre os senhores e senhoras bem vestidos que ocupavam as arquibancadas dos estádios, CHUPA, hoje é motivo de riso para os que não entendem ao certo o que é sentir o disparar do coração quando o próprio time faz um gol. E então as atenções se deslocam do gramado para qualquer outro espaço onde sua excelência, o torcedor, faz seu próprio espetáculo.
22.11.2011 | Comente.
Desde que comecei essa fase da pesquisa com os atletas olímpicos fiz um acordo com o grupo de colaboradores, principalmente quando viajamos para a coleta de muitas entrevistas: no reunimos ao final do dia para fazer um balanço do que ocorreu naquela jornada de trabalho. Nessas conversas apresentamos nossas impressões sobre as entrevistas em si, mas também toda a aventura que é (muitas vezes) chegar ao entrevistado. E as coisas pitorescas se somam: ônibus errados, lugares distantes, dificuldades na fala, peculiaridades da vida, situações do entrevistado em si, sensibilidades percebidas, histórias tocantes, mas, principalmente, conteúdos em off. Acredito que depois de todos esses anos trabalhando com essas pessoas e temas que se apresentam a nós o livro com o making off sairia muito maior do que a enciclopédia que escreveremos para 2015.
O making off não é só aquilo que o atleta não quer falar com a câmera ligada. É também tudo aquilo que faz parte de nosso aquecimento para ligar a câmera. Normalmente essa etapa se inicia quando conto as finalidades do projeto, minha própria trajetória com o tema e as histórias já narradas de outros atletas daquela modalidade ou da época a qual esse atleta pertence. De acordo com os manuais de metodologia é um dado que não podemos usar na pesquisa porque não temos como prová-lo (e talvez por isso mesmo é que tantos falam nessas condições), mas é inegável o quanto ele nos serve para “amarrar” informações que em princípio não têm muito sentido ou não contam plenamente uma história. E como já temos muitas versões de um mesmo episódio não é raro ouvirmos mais uma versão da mesma história ali, durante o cafezinho, contado despretensiosamente, o nosso dado, como se fosse o elo perdido de uma história sem fim.
É então que me lembro de muitos livros e artigos da antropologia que falam sobre o fazer etnográfico. Embora a minha pesquisa não seja etnográfica a imersão feita no tema olímpico às vezes imprime esse caráter de aprofundamento no objeto de análise que sugere a etnografia. E então as viagens de coleta de dados têm nos servido para isso, para esse mergulho em nosso universo de análise onde cada detalhe nos permite conhecer um pouco mais do esporte olímpico brasileiro e também de seus atores, os atletas olímpicos. Se a metodologia das histórias de vida por si só é apaixonante, aplicá-la como estamos fazendo, respeitando os atletas na sua intenção de falar e recordar, é mesmo raro. Por isso que nossas reuniões ao final do dia para discutir as várias impressões sobre o trabalho são tão importantes. E, é por isso que quando viajamos sozinhos gastamos muito tempo ao final do dia escrevendo, para nós mesmos ou para os outros, as impressões que ficaram do local e de tudo que vimos e ouvimos.
Mais uma vez estive no Rio de Janeiro em busca de atletas olímpicos e descubri coisas novas e pessoas por quem vale à pena trabalhar. O Rio tem essa particularidade de proporcionar várias surpresas em um mesmo dia. Não imaginei que pudesse me deslocar pela cidade, após várias vindas, como se estivesse na minha própria terra Natal. Já conheço as diferentes linhas de ônibus, os caminhos possíveis para ir de um lado a outro, que túneis usar para cruzar a cidade ou o que e onde comer alguma coisa que atice o paladar. O que ainda continua a me surpreender é a veia automobilística dos motoristas de ônibus que conseguem fazer uma viagem da Gávea à Vila Isabel em cravados 15 minutos para desespero de passageiros estrangeiros como eu. No último sábado me senti em um jogo, no qual eu não tinha joy stick, mas era sábado, e como escreveu Vinicius de Moraes, um dos poetas que melhor captou o espírito dessa cidade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
No último sábado, voltei para casa depois de 4 belas entrevistas. Dessa vez não estava com o grupo. Final de ano, muitos compromissos, relatório próximo da entrega, nossa força tarefa se dividiu em sub-grupos para aproveitar o tempo como fosse possível. Sérgio Giglio passou aqui 7 dias e voltou para casa com mais de uma dezena de entrevistas, com atletas de diferentes modalidades e décadas e nos contou por e-mail a emoção de entrevistar alguns atletas mais velhos e sua própria emoção em ouvir todas aquelas memórias. Neilton, após o fim do processo de mestrado voltou às entrevistas em São Paulo e se prepara para uma invasão à capital mineira na próxima semana atrás de quase 40 atletas que estão por lá. E eu vim ao Rio com contatos proporcionados por nossa corrente pra frente. A estratégia adotada de buscar contatos a partir das entrevistas feitas tem se mostrado eficiente e volto para casa com 10 entrevistas em 3 dias de trabalho.
Mas, o que o making off dessa vez me proporcionou foi a capacidade de olhar para o mesmo fenômeno com diferentes referenciais de avaliação. Quem me ajudou nisso foi minha sobrinha Luciana Tabarini, também psicóloga, só que hospitalar, confirmando a necessidade de elaboração dos tantos dados de pesquisa coletados durante um dia. Na volta das entrevistas contava a ela minhas aventuras diárias (dos encontros emocionados aos ônibus pilotados por motoristas tresloucados) e tentava eu mesma colocar todos aqueles dados acomodados em minhas “prateleiras” mentais, buscando organizar meus pensamentos, os dados da pesquisa e minhas sensações e emoções daquilo que vi e ouvi durante o dia.
Impossível pensar em fazer uma pesquisa como essa tratando os atletas como sujeitos e as narrativas como dados. Quantas coisas são ditas explicitamente e outras tantas deixadas soltas, voando, com a clara intenção do narrador de se fazer entender pelo não dito. Às vezes essas falas são acompanhadas de olhares que remetem a outros lugares e tempos, com palavras escolhidas a dedo para não se chegar diretamente ao ponto: para que? Se tudo aquilo já passou e restaram apenas as cenas que merecem ser descritas é então chegado o momento de degustá-las como a um bom antepasto ou a sobremesa que não foi feita para matar a fome, mas para sustentar o pecado capital da gula. E a nós, os ouvintes, cabe-nos entender as intenções que o narrador tem para conosco. Somos as pessoas privilegiadas que vão ali para escutar e quem sabe, com um pouco de talento e habilidade torná-las, em formato de texto, tão atrativas quanto quando foram contadas.
Espero ao final do projeto poder escrever também sobre a riqueza de todo esse material que “sobra” das entrevistas, o making off. Espero também não ser atacada por alguma moléstia que afete minha memória antes de passar todas essas estórias para o computador. Entendo que elas são fundamentais para o entendimento de nosso universo olímpico, mas principalmente porque elas nos ensinam a fazer ciência, “tão científica” quanto aquela produzida dentro de laboratórios, de onde são extraídos números e gráficos que provam a cientificidade, pelo simples fato deles serem objetivos, absolutos.
Os elementos retirados de todas essas histórias já começam a se tornar, objetivamente, ferramentas de intervenção junto aos atletas que atuo, ou aos profissionais que de alguma forma colaboro com o fazer profissional. As narrativas, embora pareçam ficção pela condição fantástica da vida do narrador são situações concretas ocorridas em diferentes tempos históricos, mas que muitas vezes se repetem como em uma espiral elíptica: embora o momento se altere, a história parece ser a mesma, com os mesmos cenários, as mesmas situações e, não raro, alguns mesmos personagens mesmo depois de passados muitos anos.
14.11.2011 | Comente.
Adoro minha profissão. Sim. Sou professora e pesquisadora de uma universidade pública. Não recebo o maior salário do mundo, mas tenho o privilégio de investigar os temas que provocam minha curiosidade, de conhecer pessoas diferentes ao redor do mundo e fazer coisas completamente fora do padrão das profissões ditas normais. Meu fazer está associado a produzir idéias, instigar pessoas à reflexão e provocar a angústia produtiva que advém do deslocamento das zonas de conforto.
Essa semana, por conta do Congresso da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, tive o privilégio de reencontrar pessoas muito queridas, conhecidas de outros congressos. Além dos colegas brasileiros vieram ao Brasil Joaquin Dosíl, da Espanha, Humberto Serrato e Sandra Yubelly García Marchena, da Colômbia, e Marcelo Roffé, da Argentina, que além de psicólogos do esporte são amantes dessa especialidade que se multiplica por esse país que será sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos em breve. Apesar das teorias pregarem um distanciamento de nossos objetos de pesquisa não é difícil provar o quanto somos apaixonados pelo que fazemos. E onde há uma disputa ou um espetáculo esportivo nosso coração pulsa mais forte, nossa atenção se desvia e de imediato se inicia uma discussão onde podemos desfiar nosso rosário de teorias acerca dos diferentes temas de nossa especialidade. É isso. Queiramos ou não somos capazes de ter argumentos para explicar o inexplicável no que se refere ao mundo do esporte, universo de contornos flexíveis e ilimitados.
Entre conferências, simpósios, mini-cursos e temas livres esse grupo de amigos psicólogos (ou seriam psicólogos amigos?) trabalhou na preparação do próximo congresso da Sociedade Iberoamericana de Psicologia do Esporte, que será realizado em São Paulo, em outubro de 2012, e falou muito sobre o que passa em cada um de seus países e de seu trabalho. E, quando encerramos a jornada de sábado surgiu um pedido difícil de não se negar a um visitante estrangeiro: assistir a um jogo de futebol! Consultada a tabela do domingo lá estava uma peleja digna de recomendação: Corinthians e Atlético Paranaense, no Pacaembu. Não vou escrever esse texto sob a ótica de torcedora, mas daquela que olha para o esporte como um fenômeno social complexo, capaz de inúmeras interpretações, utilizando para isso apenas uma única partida. A excitação de meus colegas era tamanha, que pareciam crianças em véspera de Natal esperando pelo velhinho Noel e seu saco cheio de presentes.
Por mais que eu dissesse que o Pacaembu ficava perto do hotel onde estavam na Avenida Paulista ficaram surpresos com a rapidez com que chegamos ao estádio, já cercado por uma multidão vestida de preto e branco, em diferentes estilos e modelos. Embora a turba se movimentasse freneticamente nada fazia sugerir o temor de um arrastão ou o receio de uma emboscada. Pelo contrário, como bem observou Sandra, aquilo era uma grande festa com muitos pais carregando seus filhos pelas mãos ou os menores pendurados nos ombros, muitas mulheres de diferentes idades e homens de todas as feições. Chegamos à bilheteria e confirmamos o óbvio: não havia mais ingressos “normais”. Só restavam os tais ingressos VIP. Interessante ter que resignificar esse tal de Very Important Person para Venda de Ingressos p/ Poucos, uma vez que adentrar ao Pacaembu com aquele bilhete era preciso desembolsar R$ 180,00, módica quantia se pensarmos no quanto custarão os ingressos mais baratos para a Copa do Mundo.
O fato é que a ausência de ingressos na bilheteria nos levou a ser coniventes com o crime, quase organizado: os vendedores do câmbio paralelo. Faço questão de enfatizar que somente participei desse tipo de patifaria por causa de meus convidados. Imaginem o que é prometer o Hopi Hari a uma criança em pleno mês de janeiro e, depois de preparar a sacola com maiô, protetor solar, óculos, sandálias e salgadinhos, descobrir que tudo não passou de um mal entendido… Com desejos infantis não se pode brincar. Acionei meu detector de faces suspeitas e comecei a perguntar a alguns senhores que se esforçavam para parecer mais um na multidão se sabiam se ainda havia ingressos. É de se supor que muitos ingressos apareceram a preços que variavam de 70 aos mesmos 180 reais da bilheteria, com a diferença que eram para o tobogã. Sem contar com a ética particular dos vendedores das cercanias do estádio. Tomando-me também como estrangeira, talvez porque me comunicasse com meus convidados em espanhol, tentaram me vender de tudo, inclusive ingresso do setor verde como se fosse meio do campo. Como é divertido parecer ignorante aos olhos de espertos!
Depois de quase uma hora de negociações com diferentes representantes dos amigos do alheio, que facilmente nos colocariam nas primeiras fileiras do G20 ou da OMC, conseguimos 4 ingressos com inscrições que anunciavam ser aqueles pedaços de papel um salvo conduto para o território livre da Gaviões da Fiel e 2 para a Camisa 12. Fiquei surpresa com aquilo: embora digam que é preciso acabar com as torcidas organizadas há espaços, e ingressos, reservados para essas organizações, que depois são vendidos por 3 ou 4 vezes mais do que seu valor na bilheteria!!!! Inacreditável! Fiquei me perguntando para que então serviria o tal do cadastro nacional de torcedores e outras iniciativas natimortas para o controle da violência nos estádios. Todo aquele comércio, sob as barbas dos senhores da lei paramentados até os dentes, me pareceu mais do que oficial e reconhecido pelos guardiões do templo sagrado da gorduchinha.
Joaquín, Isabel sua namorada, Sandra e Marcelo ficaram com os ingressos da Gaviões e entraram pelo portão da frente da Praça Charles Muller. Mal passaram pelas catracas e saíram abraçados pulando como loucos, como se fora a primeira vez que assistissem a uma partida de futebol, esquecendo-se dos demais que ficaram para trás. Quando eu e Humberto fomos passar pelo controle, nossos tíquetes apresentaram problemas e tivemos que ir para outro portão, trocar nossos ingressos, passar por uma nova revista policial, subir escadas, entrar no estádio pelo meio da multidão fiel até nos encontrar com eles novamente.
Que espetáculo! Como descrever a sensação de ver um estádio lotado e em festa?
Independente da cor da camisa, do hino que se cante ou do nome que o grupo carrega pouca coisa me parece mais emocionante do que um estádio lotado com uma torcida feliz com o desempenho de seu time. Ontem o Pacaembu era assim: 37 mil loucos que faziam uma festa para si próprios e para qualquer espectador que desejasse assistir. Ah, como lembrei de meu pai, Seo Hilário aquele corintiano louco, fanático, que até no hospital tinha a companhia de seu coringão em uma toalha que ficava pendurada na parede em frente a sua cama. Difícil não rimar coringão com coração ou com Larião. Ah Seo Larião que saudade de você e do rádio ligado nos dias de jogo do seu time querido. Como lembrei das tardes quando a casa em silêncio ouvia as transmissões de rádio que vinham de seu quarto, espaço reservado àqueles momentos privados e mágicos em que a voz do locutor se materializava em alegria ou lamento após 90 minutos de reclusão.
Mas, ontem o que assisti no Pacaembu foi a incrível conversão de 5 estrangeiros em loucos. Loucos pela festa que se fazia dentro do estádio, pela batucada incessante, pelas bandeiras que se desfraldavam a cada gol, pelo pai fiel que passou quase 90 minutos com o filho nos ombros pulando, dançando, vibrando. Como negar a existência de uma República Democrática constituída por uma torcida que se diz o povo e se prova como tal? Como lembrei das histórias dos tempos em que o Pacaembu era um espaço democrático que abrigava diferentes tribos independente de suas origens e sem demarcação territorial. Meus colegas iberoamericanos experimentaram de imediato uma sensação confortável de pertencimento.
Sei que a escolha do time, no Brasil, é algo como uma herança que se recebe quando ainda estamos sendo gestados. Daí a camisa na porta do quarto na maternidade e presentes que se sucedem com o passar dos anos. Situação diferente de quando somos adultos e fazemos escolhas motivados pelas mais distintas situações que vão desde “gosto porque gosto e não devo satisfação nenhuma a ninguém” até “fui convencido pelas razões que a própria razão desconhece”.
Ontem foi o dia em que a fiel ganhou mais 5 loucos em sua torcida. Não porque é o time do povo, ou porque tem a maior torcida do país ou ainda por estar na primeira colocação do campeonato. Somente porque, preto no branco, não há nada que se compare a um jogo jogado por onze jogadores em campo e 37 mil na arquibancada.
6.11.2011 | Comente.
Meu nome não é Poliana e há muito tempo deixei de acreditar em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, duendes, fadas e fantasias de diferentes ordens. Com o passar dos anos me vejo cada vez mais próxima das coisas que se confirmam por sua história. Isso não quer dizer que eu seja pessimista, cética ou niilista. Ao contrário. Sou uma otimista inveterada, que aposta nas ações humanas e que vê a vida melhor no futuro. Minha trilha sonora é Maria, Maria porque entendo que “quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida”. Penso que talvez essa seja a razão que me leva a estudar a trajetória dos atletas olímpicos brasileiros. E passada a casa das 500 entrevistas fico cada vez mais empolgada com essa pesquisa que me leva a conhecer, a cada narrativa, um pouco mais da história de vida de cada atleta e também a trajetória da modalidade por eles praticada.
Lembrando de Bosi (1994; 2003 ) sabemos que ao descrever a substância social da memória, evidencia-se que o modo de lembrar é individual tanto quanto social: o grupo transmite, retém e reforça as lembranças; o recordador, ao trabalhá-las, vai paulatinamente individualizando a memória comunitária e, no que lembra e no como lembra, faz com que faça permanecer aquilo que tem significado para si. Vem daí a afirmação de que toda memória pessoal é também social, familiar e grupal, e por isso ao recuperá-la é possível captar os modos de ser do indivíduo e da sua cultura.
As histórias de vida são uma forma particular de história oral e um instrumento para captar e organizar a memória, que interessa ao pesquisador por aprender valores que transcendem o caráter individual do que é transmitido e que se insere na cultura do grupo social ao qual o sujeito que narra pertence. O relato em si traz o que o narrador considera importante em sua trajetória dando uma idéia do que foi sua vida e do que ele mesmo é nesse momento. Essa atitude reflexiva permite a re-experimentação de situações passadas não apenas do ponto de vista do desenrolar dos fatos, mas pela re-significação de episódios marcantes para o narrador, que se permite inverter (ou subverter) a narrativa obedecendo a uma cronologia própria da afetividade implicada no evento ocorrido, dando ao seu texto um contexto.
O entendimento das motivações e razões pessoais que levam pessoas a transformarem seu grupo social me fascina, porque passo a entender a relação sujeito-sociedade, dando identidade tanto às pessoas como aos grupos. Por isso a cada entrevista uma nova surpresa surge não apenas para a pesquisa, mas para a minha própria reflexão sobre o que faço, porque faço, como faço e como vejo o esporte brasileiro.
Na sexta-feira, 04 de novembro, estive em Três Coroas, no interior do Rio Grande do Sul, no começo da subida da serra que vai dar em Gramado e Canela. O convite já havia sido feito por Gustavo Selbach há uns dois meses atrás quando estive em Porto Alegre para uma rodada de entrevistas. Quando o contato com Gustavo foi feito foi preciso uma engenharia em minha agenda porque naquela visita à capital gaúcha foram realizadas 9 entrevistas em 3 dias de trabalho. Gustavo percebendo a importância do projeto e a minha dificuldade em organizar tudo propôs-se, juntamente com o irmão Leonardo, a ir a Porto Alegre para a entrevista, um deslocamento de quase 80 quilômetros. Lembro que naquele dia chovia a cântaros e ele foi telefonando da estrada para notificar o atraso em função do congestionamento que assolava a cidade por causa dos alagamentos ocasionados pela chuva. Leonardo teve problemas na hora da saída e Gustavo acabou vindo só. Realizamos sua entrevista na sede da Sogipa, perto da entrada da cidade, e lá conversamos por quase uma hora. Sua vida é a canoagem. Narrou com detalhes como foi sua trajetória como atleta, mas também a aventura da organização da modalidade em sua cidade, as viagens para o exterior, o contato com atletas e técnicos de países onde a modalidade está bem desenvolvida, as duas participações olímpicas e a preparação atual para tentar uma vez mais realizar o sonho olímpico. Terminamos aquela entrevista com um convite para ir a Três Coroas, entrevistar os outros dois olímpicos que moram lá e conhecer o rio e tudo o que nele se faz.
Contando com a colaboração constante de Alexandre Velly Nunes e Helena Alves D’Azevedo, meus eternos colaboradores gaúchos recém-chegados de Guadalajara onde trabalharam no Panamericano que terminou dias atrás, partimos em direção a Três Coroas, num dia de primavera, com céu de brigadeiro, temperatura amena e a sensação de que o tempo corre em outro relógio naquelas paragens. Atravessamos os vales onde se desenvolve a indústria do calçado gaúcha, mas onde também se observa um Brasil que mescla o industrial com o rural, onde barracas na beira da estrada oferecem frutas, queijos, compotas e artesanatos locais e as placas das lojas de fábrica anunciam os melhores calçados a preços convidativos.
Gustavo, agora sabedor de nossas intenções, incumbiu-se de motivar o irmão Leonardo e o companheiro de corredeiras, Cássio Ramon Petry, a nos receber e contar suas histórias. Gustavo e Leonardo trabalham no cartório da cidade, cujo proprietário é o pai. Três Coroas, cidade de 20 mil habitantes, parece um cenário de novela. O rio cristalino, o viabilizador da carreira de nossos entrevistados, nos recepciona. Cruzamo-lo por uma ponte de mão única, coberta por um telhado, construção inusitada para os meus padrões. Ao cruzar a ponte Alexandre reduz a velocidade porque dali de cima se pode assistir ao circuito montado no rio logo abaixo, onde vários garotos e garotos praticam canoagem slalon, todos eles devidamente paramentados para a atividade.
Finalmente iniciamos a entrevista com Leonardo que nos recebeu em sua casa, muito embora tivéssemos encontrado-o no cartório, onde se realizava um casamento. Articulado como o irmão Gustavo começou a discorrer sobre sua vida e a trajetória no esporte. Fiquei agradavelmente surpresa ao ver seu envolvimento com a entrevista e o quanto de informações e análise trazia a cada fato, momento ou curiosidade de sua vida. Por várias vezes ele se emocionou com suas lembranças e no princípio tentei entender o por quê daquela emoção. E depois de um tempo ele próprio me deu a resposta: a emoção vinha porque o projeto de canoagem que ele desfrutou não era um projeto seu, pessoal, mas coletivo, de toda uma cidade. E ele deixou claro essa idéia no momento em que falou sobre o início dos Jogos Olímpicos de Barcelona, quando “a ficha caiu”. Esse momento ocorreu quando ele chegou na porta do estádio olímpico para o desfile de abertura dos Jogos, viu o arco da entrada e o que iria começar a acontecer… e naquele momento cruzaram sua memória todas as pessoas que colaboraram com sua trajetória e que não tinham, como ele, a possibilidade de viver aquele momento raro, singular, único.
O emocionante dessa entrevista e da forma como essa narrativa foi construída foi observar que sim, é possível se construir uma estrutura institucional de uma modalidade esportiva de forma responsável, participativa e competente. O que a história de Gustavo e Leonardo nos mostra é que é possível se estruturar uma modalidade, buscar competência técnica e infra-estrutura de forma positiva e idônea e fazer as coisas acontecerem. Ele contou como foi a aproximação com a prefeitura de Três Coroas para o gerenciamento do Parque onde as atividades de canoagem acontecem e que possibilitou o desenvolvimento da modalidade lá.
O ápice dessa aventura calculada foi a realização do campeonato mundial da modalidade, na cidade, em 1997. Mesmo sem ter uma rede hoteleira milionária, nem uma pista com requintes de sofisticação Três Coroas recebeu o primeiro campeonato mundial de canoagem slalon no Brasil. E os atletas ficaram hospedados em várias casas de família que se preparam para recebê-los, os empresário do setor calçadista da região contribuíram, enfim aquela cidadezinha de 20 mil habitantes do interior do Rio Grande do Sul soube em 1997 o que era um megaevento esportivo para as suas proporções. Mas, diferentemente de outras cidades que experimentaram essa vivência, o legado material, social e educacional permitiu que a canoagem continuasse a ser um patrimônio da cidade.
E assim, novas gerações de canoístas estão sendo formadas, muito embora os irmãos Selbach reclamem da falta de praticantes para que a modalidade possa crescer ainda mais.
Sim. É possível e eu acredito que o esporte possa se desenvolver dessa forma também em muitas outras cidades brasileiras.
Sim. É possível e eu acredito que muitas comunidades possam ser agraciadas por programas regulares de desenvolvimento esportivo como esse. E entendo que não apenas os atletas habilidosos são beneficiados por ele, mas todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para o sucesso de quem foi à competição e se emocionou com o fato de poder ter chegado.
Sim. É possível e eu acredito que assim como Cassio Ramon Petry, um trabalhador da indústria calçadista foi capaz de chegar aos Jogos Olímpicos de Sydney e hoje pode se dedicar inteiramente á prática da canoagem, esporte no qual se profissionalizou, outros brasileiros talentosos, habilidosos e apaixonados também possam chegar um dia à porta de um estádio olímpico para o desfile de abertura e se emocionar ao se lembrar de quantos outros brasileiros colaboraram para que aquele momento fosse muito mais do que um sonho, mas a materialização de um desejo que é coletivo.
BOSI, E. Memória e Sociedade. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
BOSI, E. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê editorial, 2003.
30.10.2011 | Comente.
Hoje é domingo, dia de ler o jornal sem pressa e de buscar as conexões necessárias para os fatos e notícias que li durante a semana. Já nada se fala sobre a queda do ministro. Para minha surpresa leio que, em função da crise na Europa, o Brasil já é considerado a 6ª maior economia mundial! Quem diria… considerariam os mais velhos, principalmente porque a vida inteira ouviu-se que seríamos o país do futuro. Ótima desculpa para não se fazerm nada no presente e se jogar a responsabilidade para cima das futuras gerações. Essa notícia também reforçou a idéia que tive há anos atrás acerca da formação dos signos e imagens que falam sobre o Brasil e nossa cultura.
Lembro de um livro que li já faz alguns anos em que a Profa. Marilena Chauí falava sobre o mito fundador da sociedade brasileira. Naquele momento eu me dedicava ao estudo do campo simbólico pela teoria do imaginário e talvez, pelo fato de utilizar um outro referencial teórico, esse texto me chamou tanto a atenção.
Chauí falava do semióforo como algo precursor, fecundo ou carregado de presságios. O semióforo era a comunicação com o invisível, um signo vindo do passado ou dos céus, carregando uma significação com conseqüências presentes e futuras para os homens, como semáforo era um sistema de sinais para a comunicação entre navios e deles com a terra. Com esse sentido um semióforo é um signo trazido à frente ou empunhado para indicar algo que significa alguma outra coisa e cujo valor não é medido por sua materialidade e sim por sua força simbólica. Objetos como uma pedra, se for um local onde um deus apareceu, ou um simples tecido de lã, se tiver sido usado como abrigo para um herói possuem um valor incalculável como lugar sagrado ou como relíquia heróica. Embora um semióforo seja algo retirado do cotidiano e esteja encarregado de simbolizar o invisível espacial ou temporal e de celebrar a unidade dos que compartilham uma crença comum ou um passado comum, ele é também posse e propriedade daqueles que detêm o poder para produzir e conservar um sistema de crenças ou um sistema de instituições que lhes permite dominar um meio social. Chefias religiosas ou igrejas, detentoras do saber sobre o sagrado, e chefias político-militares, detentoras do saber sobre o profano, são os detentores iniciais dos semióforos.
Não é difícil de enxergar o semióforo no esporte, visto que o Barão de Coubertin em pessoa se incumbiu de criar os símbolos e signos que detêm hoje esse poder, sejam os anéis olímpicos, a bandeira, a cerimonia do pódio, a medalha, os juramentos e todo o ritual, que retirados dos Jogos Olímpicos, hoje se multiplicam pelas competições esportivas que vão de um campeonato escolar aos Jogos Panamericanos. Curioso é obsevar que sendo então um signo, como diz a Profa. Chauí, significa mais do que ele em si e seu valor não pode ser medido por sua materialidade e sim por sua força simbólica.
Ao longo dessas duas últimas semanas acompanhei os Jogos Panamericanos com os recursos de que disponho, afinal se fosse depender da emissora que detém a exclusividade dos Jogos não poderia escrever esse texto. Garimpando informações principalmente nas webpages pude observar o quanto o esporte se tornou um semióforo de si mesmo. Embora a busca pela vitória seja a razão principal do ser atleta ela se enreda em proposições que distanciam o protagonista do espetáculo esportivo da materialização de sua função. Lembrando uma vez mais a Profa. Chauí um semióforo é algo retirado do cotidiano e se encarrega de simbolizar o invisível espacial ou temporal e de celebrar a unidade dos que compartilham uma crença comum ou um passado comum. Isso pode ser observado no discurso dos que venceram. Há aqueles que se entusiasmam com a conquista, independente do metal que cobre sua medalha. Isso porque o resultado coroa uma trajetória quase sempre marcada pelo esforço individual, a superação de limites sociais e materiais, a falta de apoio ou circunstâncias momentâneas que determinariam o fracasso. A força concreta e simbólica desempenhada por essas vivências reforçam a criação do imaginário heróico no esporte e impulsionam a prática da atividade esportiva em outras gerações. Daí a importância fundamental do cuidado com o atleta quando falamos em políticas públicas para o esporte, ou sobre o legado dos megaeventos esportivos não apenas no Brasil. Não há espetáculo esportivo sem o atleta. De nada adianta grandes estádios, luxuosas vilas olímpicas ou infra estrutura impecável da cidade realizadora. A razão de ser da competição esportiva se inicia e se encerra naquilo que o atleta é capaz de desempenhar. Ele é a razão dos Jogos. E é aí que o semióforo do esporte brasileiro ainda não se firmou. Entre todos as políticas anunciadas para o desenvolvimento do esporte no país o atleta ainda está a mercê de ações parciais, descontextualizadas que pouco promevem o real desenvolvimento em relação ao que ocorre entre os países considerados mais desenvolvidos, salvo raras exceções onde as modalidades já se firmaram como potência mundial.
E, citando uma vez o texto da Profa. Chauí o semióforo é também posse e propriedade daqueles que detêm o poder para produzir e conservar um sistema de crenças ou um sistema de instituições que lhes permite dominar um meio social. Ou seja, enquanto as insituições tratarem das políticas para promoção do esporte sem incluir os diretamente interessados no seu desenvolvimento estaremos tratando de um esporte abstrato, ficcional, quase uma estória infantil.
A realização de bons resultados por um atleta é a materialização das políticas esportivas de uma cidade ou de um país. Isso quer dizer que não há discurso que supere o desempenho nas pistas, piscinas, quadras e campos. Esse é o maior semióforo que se pode construir. Ninguém duvida das capacidades que crianças e jovens brasileiros apresentam para a prática esportiva, ou das bases materiais de que dispomos no presente, incluindo aí todo o aprimoramento técnico e humano para esse desenvolvimento. O que nos falta então? O modelo, o espelho, o semióforo… não do atleta, porque isso já temos desde Guilherme Paraense, passando por Adhemar Ferreira da Silva, Rosa Branca, Tetsuo Okamoto, Aída dos Santos, Joaquim Cruz, João do Pulo, Jackie Silva, Torben Grael, Maurren Maggi, Paula, Giovani, Oscar, Marcel e tantos outros, mas de uma geração de dirigentes que pense para o desenvolvimento e aprimoramento dos atletas e instituições. E então as 89 medalhas olímpicas e os 306 medalhistas poderão se multiplicar, não para que o Brasil esteja no topo do quadro que simboliza potência, mas para que isso simbolize uma política bem sucedida de esporte que seja para todos e que oportunize, para os mais habilidosos, as condições para a projeção da sua potência.
Chauí, M. Brasil. Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.
22.10.2011 | 77 Comentários.
Acho que estou ficando velha.
Sinto essa sensação com muita intensidade quando estudo história com meu filho ou enteados e o tema da lição é algum episódio que vivi e presenciei não apenas como espectadora, mas na condição de protagonista revivendo todas as emoções detonadas por eles. Espectadora, na condição de quem assiste a um espetáculo e não de expectadora, aquela que tem expectativa.
Foi assim na Copa de 70. Lembro da vizinhança toda em nossa casa assistindo a final Brasil x Itália. Meu pai trabalhava na AEG Telefunken, uma das únicas fábricas de TVs no país, e por isso tivemos a oportunidade de ter a primeira TV em cores da rua. Era um caixotão que ocupava meia sala por conta de seu “tubo” que a fazia o aparelho ter 50×50x50 cm. Impensável um equipamento daqueles nas casas contemporâneas nas quais as TVs estão estampadas na parede como se fosse um quadro ou mais uma janela. Seo Paulo, um de nossos vizinhos que adorava fazer molecagens, preparou sacos e sacos de jornal picado para comemorar os gols que ele tinha certeza que aconteceriam. Lembro dele comemorando com um motorista de ônibus que passou em frente de nossa casa bem na hora de um dos gols e do dia seguinte, quando chegamos na escola: naquele dia não tivemos aula, condição reservada aos dias de feriado nacional, estadual ou municipal. Embora em casa discutíssemos política intensamente, naqueles meus 8 anos de vida, eu não era capaz de fazer qualquer análise sobre o uso daquele evento para encobrir toda a barbaridade que a ditadura militar fazia então.
Mais curioso ainda é ver essa galerinha estudar sobre a Campanha das Diretas Já, essa sim presenciada de forma intensa na minha maioridade. Desde que fui fazer cursinho no Poli, ainda no Bom Retiro, participei ativamente do movimento estudantil, da reorganização da UMES e da UBES, dos primeiros congressos da UNE pós ditadura, das passeatas pela Anistia, e óbvio, daquela manifestação inesquecível na Praça da Sé quando 300 mil pessoas se reuniram para mudar o país e a história de nossos meios de comunicação. Já naquela época a Rede Globo era a senhora toda poderosa da audiência nacional e não dava qualquer notícia sobre esse tipo de evento na cidade. E olhe que não foram poucos. Até chegar o comício dos 300 mil ocupamos a Praça da Sé várias vezes com a presença de muita gente ilustre e milhares de militantes de diferentes formações políticas. E a Globo, nada. Mas, naquele dia 25 de janeiro de 1984 foi diferente. Lembro de sair do metrô com muito esforço porque não havia um lugar disponível para ficar. Tudo estava tomado. E claro, todas as emissoras de TV estavam lá. Não era possível mais negar. E de forma cínica naquela noite uma nota no Jornal Nacional noticiava o comício que levaria às eleições diretas depois de mais de 20 anos de ditadura.
Nesse período eu já tinha me formado em jornalismo e tinha noção do que representava o monopólio da comunicação e a força que algumas emissoras começavam a ter sobre os eventos esportivos. Anos depois lendo obras como Os senhores dos anéis, de Vyv Simson e Andrew Jennings, e Invasão de campo, de Barbara Smit é que pude ter a dimensão exata do que ocorria. Lembro, por exemplo, na Copa de 82, quando a Globo tinha a exclusividade de transmissão do mundial, de pessoas como o Silvio Luis, na Band, narrar os jogos do Brasil pelo rádio como se fosse para TV. E nós, espectadores avisados, assistíamos a imagem da Globo e ouvíamos a voz do Silvio Luis. Era mais do que uma forma de burlar os narradores chatos e tediosos. Era uma forma de manifestar descontentamento à falta de opção. E foi dessa forma que vimos os pênaltis perdidos e a desclassificação daquela seleção de Telê Santana que contava ainda com nada menos que Sócrates, Toninho Cerezzo, Zico, Falcão, Edinho.
Parece que nos conformamos desde aqueles tempos a ver Jogos Olímpicos e Copa do Mundo, assim como a Fórmula 1 na fase áurea de Senna, Piquet e Fittipaldi, como uma exclusividade da Globo. Pior ainda é que endossamos o argumento de que eles “acumularam conhecimento e tecnologia” para fazerem transmissões exemplares… como as novelas. Incrível nossa capacidade de acomodação e negociação cordial.
Pois bem. Pouco tempo atrás, para surpresa de todos nós, a Record ganhou o direito de transmissão dos Jogos Panamericanos e Jogos Olímpicos de 2012. Observei no início como a Record se aproximou de alguns jornalistas competentes e experientes no ramo para compor a equipe para esse desafio olímpico, no sentido estrito da palavra. Senti um calafrio ao pensar no que o monopólio incompetente (se é que existe inteligência no monopólio) poderia causar à transmissão de eventos tão complexos como o Pan e os Jogos Olímpicos.
Não é preciso ser da área para saber que não existe informação sem linha editorial. Aquilo tudo que assistimos e ouvimos tem uma direção que é dada por quem está no “controle da nave mãe”. Diretas Já ou Jogos Olímpicos, tanto faz, quem faz a pauta sabe bem o que quer que se informe a respeito do fato transmitido. E já na fase anterior ao Pan pude pressentir que teríamos que lidar com um tipo de transmissão pobre em informação, precária em análise e sofrível no conteúdo. Não bastava colocar o Álvaro José com toda sua experiência em eventos esportivos como o timoneiro dessa empreitada, nem levar atletas consagrados em suas modalidades para fazer os comentários das competições. O problema é a linha editorial.
Quem é da educação sabe o que significa capacitação. Em parte isso quer dizer que o conhecimento não se adquire de forma natural, espontânea. Que um bom profissional, em qualquer área de atuação, precisa ser preparado para seu ofício. E, em comunicação, isso quer dizer saber fechar a boca para não falar bobagem. As besteiras que produzimos em rodas de amigos, e que servem para diversão de um pequeno grupo, ganha dimensão catastrófica quando disparada por um veículo que atinge milhões de pessoas.
É assim que percebo essa transmissão do Pan: amadora, despreparada, sem linha editorial, superficial, perdida. A função primeira que seria informar não está sendo cumprida. Sinto que o que ganhamos de público para o esporte, ao longo desses anos, acabamos perdendo nesses dias, pela falta de qualidade da transmissão. É preciso gostar muito de esporte, ou ter a necessidade de se informar com o que se tem, para poder acompanhar com afinco as transmissões desse Pan 2011.
Mas não paro aqui. Vejo que, assim como em 1984, a Globo faz de conta que nada está acontecendo. Serão necessários outros 300 mil na Praça para que algo seja apresentado no Jornal Nacional? Ao invés de ter aprendido com Silvio Luis como driblar as imposições da concorrente prefere ignorar o feito de nossos atletas, mostrando que o importante são os negócios e não o esforço cotidiano para se chegar a uma medalha. É inegável a importância dos meios de comunicação para a circulação da informação e a conseqüente consagração de feitos na sociedade contemporânea. O esporte, mais do que qualquer outra atividade, depende da mídia. Mais do que uma competição entre pessoas altamente habilidosas, o esporte é um bem cultural, um espetáculo, um produto complexo que envolve inúmeros interesses. O silêncio da Globo soa quase como um boicote, não ao espetáculo, mas ao atleta, o protagonista do espetáculo esportivo.
Onde está o discurso patriótico e ufanista produzido no Pan de 2007 ou em outros campeonatos de importância semelhante? O Tiago Pereira já não é o rei do Pan? As performances de Cielo já não são tão impressionantes, muito embora ele seja capa de jornais mundo afora? E os ouros das meninas do vôlei de quadra e de praia já não são tão preciosos quanto no passado? Não há o que se noticiar sobre a organização do evento?
Enfim, uma vez mais observamos um desserviço à informação. Atitude de criança pequena que quando excluída da brincadeira pega seu brinquedo e sai emburrada impedindo que outros brinquem. E não adianta daqui a alguns dias, caso isso seja revisto, tentar trazer ao público aquilo que se deixou de informar. A notícia, nos dias atuais, é acompanhada em tempo real. Devemos esse favor à internet e àqueles que a utilizam para cobrir os furos deixados por redes que durante gerações monopolizaram a informação e o conhecimento. E que isso nos sirva de alerta para o que está por vir em 2012. Quem quiser acompanhar os Jogos Olímpicos de Londres que comece a pensar em formas criativas para não morrer de tédio ou de raiva diante da janela de vidro.
16.10.2011 | 4 Comentários.
Por muito tempo a representação social que se tem de ciência me fez crer que ser pesquisadora fosse ficar dentro de laboratórios, manipulando tubos de ensaio, usando microscópios, descobrindo coisas que apenas seres iluminados são capazes de reconhecer e encontrar.
Foram necessários muitos anos, e bons professores, para eu conhecer a pesquisa social e saber que se pode construir conhecimento de maneira bastante distinta dessa. Nessa forma de se fazer pesquisa não existe, de imediato, um distanciamento entre aquilo que procuro e eu mesma. Isso parece meio esquisito, principalmente depois de passarmos tanto tempo ouvindo a máxima de que ciência se produz se se mantiver distância pessoal daquilo que se pesquisa. Mas, com o passar do tempo é possível observar que é justamente a proximidade com nosso objeto de pesquisa que nos proporciona a humanização da ciência. Fantástico saber que mais do que uma teoria é exatamente essa proximidade que nos move quando estamos “no campo”. Por que não dizer que humanização envolve paixão, isso mesmo, emoção, afetividade. E a medida que o tempo passa também descubro que os melhores textos que leio são aqueles em que os autores são realmente enamorados do que fazem.
Não bastasse isso na pesquisa social somos ainda obrigados a exercitar uma certa porção detetivesca, além de termos que desenvolver a certeza de que certo é a incerteza de não sabermos ao certo o que encontraremos quando estivermos diante daquilo que queremos observar. Ok, posso explicar melhor. Trabalhar, por exemplo, com histórias de vida significa estar sempre pronta a ouvir algo novo, inesperado e que, mesmo não previsto nas minhas perguntas iniciais, ali pode estar a deixa para uma ótima nova pesquisa. Como cantou a Marina Lima, “dentro de cada um, tem mais mistérios do que pensa o outro…”
Embora já trabalhe com histórias de vida há mais de 13 anos essa forma de fazer pesquisa continua a me encantar pela arte do encontro. O não saber e o inusitado são meus companheiros tão constantes quanto alguns membros do grupo de estudo. Isso quer dizer que a cada entrevista o encontro com algo inesperado pode acontecer, seja na forma da abordagem do sujeito, ou mesmo nas memórias que são relatadas. Assim como são aqueles que se aproximam desejando participar das reuniões de trabalho seja, ou não, para depois fazer mestrado ou doutorado. Já perdi a conta de quantos vieram e se foram, mas, assim como os sujeitos da pesquisa, cada um com seu estilo, à sua maneira, deixou uma contribuição, sendo difícil precisar de quem exatamente foi uma idéia. Por isso não canso de repetir… escrevam! As palavras que só são ditas são como o ar que respiramos: tão necessárias, mas se perdem na próxima inspiração.
Algumas entrevistas são verdadeiros prêmios, seja pela dificuldade de consegui-las, pelo teor de seu conteúdo, pela trajetória singular do narrador, pelo estilo da narração ou ainda pela possibilidade de me fazer pensar em algo que eu ainda não tinha visto em qualquer outra entrevista. Depois do texto pronto, apenas quem acompanhou a pesquisa tem idéia do que é o making off de um projeto que envolve mais de um milhar de pessoas.
Meu atual projeto de pesquisa compreende todos os atletas brasileiros que foram a Jogos Olímpicos desde a primeira participação brasileira, ou seja, 1920. De fato ele acumula experiência e dados de outros projetos e remota 10 anos de trabalho contínuo. Não há limites para se chegar a algum atleta que em qualquer modalidade tenha realizado essa façanha. E assim, graças à Fapesp e ao CNPq, eu cruzei o Brasil de ponta a ponta. Já são mais de 500 entrevistas com diferentes gerações olímpicas que somam centenas de horas de memórias emocionadas registradas em vídeo, inclusive de alguns atletas que já morreram.
E quanto mais histórias eu ouço, mais eu entendo as mazelas do esporte olímpico brasileiro em suas diferentes modalidades. Seja do ponto de vista da formação da identidade, da transição de carreira, das políticas públicas, da dor, do caráter das instituições, dos dirigentes, das forças que gravitam em torno do cenário e do circo que se monta a cada período de treinos, concentração ou competição. Entendo mais do que nunca o que é ser atleta olímpico no Brasil, no presente e o que foi no passado porque os atletas me contam sobre suas conquistas. Além disso contam também as mazelas do que é querer ser o melhor, mas sem ter as mesmas condições que os melhores têm e, de repente, encontrar as forças ou bases para poder se surpreender e aos outros também.
Escrevo esse texto em Valkenswaard, na Holanda, após duas ótimas entrevistas: Bernardo Alves e Rodrigo Pessoa. Eles estão por aqui concentrados para os Jogos Panamericanos de Guadalajara e eu aproveitei um congresso na Alemanha para vir até eles. Persigo Rodrigo desde 2004. Uso o termo perseguir porque ele é um dos exemplos de que não bastam todos os recursos materiais para se fazer uma boa pesquisa social. É preciso persistência, paciência e, às vezes, um pouco de sorte. Não dimensionei na previsão de custos as viagens internacionais da minha pesquisa porque não sabia ao certo quantos seriam os atletas a morar fora do país, mas ao longo dos últimos 20 meses descobri que esse número é superior ao que imaginava. A sistemática adotada então foi cercá-los (sempre que possível) quando de sua visita ao Brasil ou, como dessa vez, fazer uma busca apurada aproveitando uma viagem marcada por outro motivo. Pois bem. Alguns chamam isso de maximizar custos. Eu diria que é mais um desafio ao pesquisador: aprender a fazer previsões orçamentárias para o projeto não acabar antes de ficar pronto por falta de verba. E como projeto não é como obra para a Copa… se o dinheiro acabar, não há o que fazer. E não adianta deixar para o final porque licitação, em nosso caso, só funciona para compras acima de 8 mil reais. O crime não compensa, definitivamente. Ou seja, se não viesse para esse congresso teria perdido mais uma oportunidade de conseguir a entrevista com o Rodrigo, e também com o Bernardo, que atualmente mora na Bélgica. São as sortes do caminho.
Chegar a Valkenswaard foi uma aventura possível graças ao convite dos organizadores da Conferência Play the Game, que ocorreu em Colônia, na Alemanha, e a hospitalidade infinita de Maggy e Roland Renson, que me hospedaram em Leuven, na Bélgica, e junto comigo esperaram pacientemente os dias passarem com a resposta de onde seria a concentração da equipe de hipismo para que eu pudesse fazer as entrevistas. O outono é minha estação do ano preferida no Brasil, mas estar esses dias em Leuven observando o avermelhar das árvores, o amarelar da grama, os cogumelos brotarem no quintal e a temperatura cair foi mais do que recompensador. Foi um dos momentos de prazer que a pesquisa reserva.
Lembrei muito nesses dias da minha querida Ana Mesquita, que por duas vezes fez o Canal da Mancha e na segunda bateu o recorde da travessia, recorde esse mantido até hoje. No seu livro A Travessura do Canal da Mancha ela conta da ansiedade que era passar cada dia esperando pela melhor maré, pelas condições do tempo mais adequadas, e que sem essa paciência todo o projeto podia ser perdido. Não bastava apenas sua tenacidade hercúlea para cumprir uma tarefa digna de uma heroína… era preciso uma paciência odisséica para não se perder no canto de uma sereia ou num debate ingênuo com um ciclope. Vento, maré, condições pessoais e desejo institucional precisavam estar perfeitamente casados para que tanto esforço não se perdesse.
Claro que me lembrei muito também dos alpinistas que vão ao Aconcagua ou ao Everest em busca do cume. Quantos meses são gastos para que a expedição possa ocorrer, quantos detalhes são necessários do ponto de vista logístico e operacional para que a montanha possa ser conquistada. E como dizem os alpinistas: a montanha tem a sua própria vontade e cabe ao alpinista respeitá-la e aproveitar quando seus humores permitem a escalada.
Dessa vez tive sorte: vim, esperei, entrevistei. Mas, há também muitas viagens que são realizadas que nos deixam um gosto amargo de tempo perdido, seja pela ausência do entrevistado, pelo imprevisto que faz um atraso se tornar ausência ou a ainda a falta de entendimento do que a pesquisa se propõe.
Volto para casa com a sensação de alma cheia. A conferência foi uma oportunidade rara de encontrar pessoas interessantes, de pensar em projetos futuros e organizar coisas no Brasil. E as entrevistas… bem, essas poderão ser lidas na terceira edição dos Heróis Olímpicos Brasileiros e na Enciclopédia Olímpica Brasileira prevista para 2015. Aguardem.
4.10.2011 | 2 Comentários.
É incrível como sair do cotidiano e ouvir coisas novas me inspira a escrever. Ou seria o contrário? Parece que não, mas o cotidiano e os muitos afazeres diários não deixam sobrar tempo para se pensar coisas diferentes.
Estou em Colônia, na Alemanha, participando do Congresso de um movimento denominado Play the Game. É movimento porque não pode ser chamado de associação, sociedade ou coisa assim. Tem como objetivo fortalecer o fundamento ético do esporte e promover a transparência, a democracia e a liberdade de expressão no esporte e está ligado ao Instituto Dinamarquês para Estudos Esportivos, uma instituição independente criada pelo Ministério da Cultura dinamarquês, cuja tarefa é criar uma visão geral e oferecer proposições para o campo do esporte nacional e internacional www.playthegame.org.
Pois bem. Mais do que falar sobre todas as pessoas que estão aqui (pessoas de dentro e de fora das instituições esportivas) gostaria de me deter no que costumamos chamar de postura. Há aqui vários professores, pesquisadores, ex-atletas olímpicos e jornalistas dos cinco continentes acostumados a lidar com temas sociais controversos ou complexos que estão incluídos no universo esportivo. Infelizmente no programa só há 3 brasileiros, embora muito se fale sobre a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. O que me surpreendeu nesse primeiro dia de trabalho foi a presença de vários goveranantes do chamado primeiro escalão como ministro do Parlamento Europeu e da Alemanha, presidentes de instituições esportivas, incluindo o Comitê Olímpico Internacional, UEFA.
Melhor eu me explicar. Essas pessoas não vieram até aqui para participar de uma cerimonia de abertura, tirar fotos, falar as coisas que se costuma dizer em cerimonias de abertura e depois ir embora. Esses dirigentes estão aqui para participar de um debate sério e maduro sobre temas como corrupção, doping, inclusão, gênero, violência para além de um discurso oficial que estamos tão acostumados a ouvir no Brasil. Na condição de organizadora de eventos de caráter nacional ou internacional vejo com que desprezo os convites são tratados por dirigentes que optam por não respondê-los, ou enviar, quase sempre de última hora, uma desculpa qualquer indicando pessoas do terceiro ou quarto escalão, em um jogo de faz-de-conta-de-que-temos-apreço-pelo-que-está-sendo-feito.
Vejo aqui uma disposição verdadeira de se enfrentar questões polêmicas e controversas sobre o futebol e o esporte olímpico de maneira geral, de forma madura como se espera que fenômenos dessa ordem mereçam. Vejo também que assuntos delicados como a pobreza ou as questões relacionadas com a Primavera Árabe também circulam por aqui, sem que para isso se fale de lado ou se cerre a boca com o receio de que cause constrangimento a alguém. Aí está a questão da postura.
Penso que esse é um desafio que temos que enfrentar para melhorar o nível das discussões que temos no Brasil. Observo com desapontamento que nossos congressos são encontros de pessoas conhecidas que têm receio de se enfrentrar como se a discordância no plano das idéias pudesse representar uma “briga”. Poucos entendem o quanto é importante apontar as dúvidas que uma afirmação contém para que o conceito se desenvolva e aí deveria residir a razão de ser dos nossos congressos.
Ontem participei de uma discussão a respeito do controle de doping e, na sequência, um dirigente trouxe a público uma polêmica envolvendo o voleibol. Estavam na mesa para debater o tema uma pessoa do COI e outra da UEFA. E de forma polida, mas firme, ambos apresentaram seus argumentos, contra-argumentos, sem haver, necessariamente consenso no final. Porém, para nós do público que ouvimos a discussão foi pedagógico, informativo. Fiquei com a disposição de buscar mais informação a respeito, inclusive porque fiz relação com algumas histórias contadas pelos atletas brasileiros dessa modalidade.
Hoje assisti a uma situação no mínimo curiosa para os nossos padrões. Um pesquisador da Dinamarca acabou de apresentar seu trabalho denominado “Anatomia dos Escândalos”, com uma metodologia bastante interessante de como avaliar um episódio polêmico no esporte. Aberto o debate várias pessoas fizeram comentários e alguns elogios até que uma pessoa da platéia se apresentou e iniciou sua intervenção dizendo: “discordo absolutamente do que você apresentou. Sua metodologia é frágil e seus resultados não se sustentam”. Precisou de alguns minutos para apresentar seu ponto de vista até que o pesquisador, de forma sóbria e elegante, defendeu seu trabalho, sendo ainda mais valorizado pelo público que assistia ao deabte.
Transparência é a palavra da vez aqui em Colônia. Há um entendimento da importância que o esporte tem para a sociedade contemporânea e a necessidade de mecanismos de controle sobre uma atividade que tem tantos envolvidos e desdobramentos. Não seria razoável da minha parte dizer que aqui se faz melhor as coisas que no Brasil. Estou entre pessoas originárias de países com culturas muito distintas da nossa e que, cada um com seu processo, construiu uma história de participação nos rumos de suas sociedades com maior ou menor grau de envolvimento, empenho ou violência. O fato é, aqui discute-se os rumos que devem tomar, por exemplo, os recursos públicos, como o controle da loteria e a sua aplicação. O que encanta nessa situação é que não é necessário a realização de um grande evento para que essas discussões sejam desencadeadas. A importância do esporte é inquestionável tanto quanto a crise econômica internacional, o combate à fome ou a cura do câncer. A razão de sua existência já é motivo suficiente para que se discuta os rumos que ele toma.
Como já afirmei em outras oportunidades sou uma otimista inveterada em relação ao Brasil e ao que estamos fazendo. Falo de nosso processo de desenvolvimento, do momento privilegiado que vivemos e tento interpretar nossas mazelas considerando nosso contexto cultural para que não seja interpretada precipitadamente como “coisas de tuipiniquins”. Vejo como somos criativos e esperançosos. Quando mostro as soluções criativas que encontramos para problemas novos ou velhos sinto a admiração de muitos e uma dose de inveja em outros. Hoje falava com uma pessoa da Bélgica sobre o papel das empresas brasileiras no financiamento de projetos relacionados com o esporte, que desejam um esporte “diferente” ele pensou um pouco e respondeu: essa pode ser uma saída. E na seqüência arrematou: você poderia me dar mais informações sobre isso?
De fato não somos melhores, nem piores, apenas diferentes. Confio e acredito que essa forma de ser e estar no mundo pode fazer a diferença nesse mundo atual. E para quem acreditou que o Brasil seria o país do futuro… pois bem, o futuro já é agora.
28.08.2011 | 1 Comentário.
Curiosa essa situação de você se deparar com pessoas que pensa serem suas referências bibliográficas, teórica, ideológica, ou simplesmente humana. Semana passada fui convidada pelo pessoal da ESPN Brasil a participar do programa Bola da Vez, uma espécie de Roda Viva do esporte, tanto por seu cenário como pela proposta de ter um convidado a ser entrevistado por vários entrevistadores. Para quem já passou por essa experiência é uma espécie de banca de defesa de tese! Nesse caso a banca é composta por nobres e doutos senhores do saber, que do alto de sua sapiência argüi um neófito, postulante ao título de bacharel (sendo esse um graduando), ou ainda de mestre, doutor, livre docente ou ainda titular. O que chama a atenção nesse caso é que o entrevistado era o célebre neurocientista Miguel Nicolelis.
No momento em que Ana, da produção do programa, me disse quem seria o entrevistado fiquei tão feliz e ao mesmo tempo tão surpresa que tive vontade de chorar de emoção. Quem me conhece sabe que choro com situações de alegria ou de tristeza. O choro para mim não tem qualquer conotação de fraqueza ou vergonha. Choro porque alguma coisa me toca, seja ela triste ou alegre.
Há tempos sigo a trajetória de Miguel Nicolelis, mais precisamente desde o dia em que vi uma entrevista onde ele falava alguma coisa a respeito do orgulho que sentia de seu país e do desejo de fazer sua terra dar certo. Esse discurso, óbvio, me agrada muito, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato dele ser um cientista das chamadas hard sciences e, na atualidade isso significa distanciamento dessas discussões demasiadamente humanas, como diria Nietzsche. Achei interessante que uma pessoa com o peso que ele conquistou no cenário acadêmico internacional pudesse pautar sua produção e carreira não apenas na publicação desenfreada para satisfazer aos ditames das universidades e agências de fomento que instituíram o sistema vale quanto pesa, mas por entender a dimensão social que seu trabalho poderia alcançar em um país com tantas necessidades básicas como o nosso.
Tudo isso parecia irreal até conhecê-lo pessoalmente. Não vou aqui construir perfil psicológico de ninguém, ainda mais dele. Pessoa calma, comedida, quase introvertida eu diria, Miguel chegou ao estúdio e começou a conversar sobre coisas do cotidiano como o frio que fazia na cidade naquele dia, sobre o jogo de seu time, o Palmeiras, contra o São Paulo no dia anterior, proporcionando uma certa aproximação para nosso debate que se seguiria na seqüência. Diferentemente de uma banca de defesa não li o texto previamente, nem preparei a argüição, ritual indispensável a essas situações. No melhor estilo “let it be”deixei rolar na expectativa de que pudéssemos abordar mais do que questões relacionadas à neurociência. Não que as próteses cerebrais idealizadas por ele não me interessem. Isso para mim leva todo jeito de filme de ficção científica ou os videogames e mangás do Toshi, principalmente quando o cientista intenciona fazer um paraplégico ou um tetraplégico andarem, ou melhor, darem o pontapé inicial da Copa do Mundo de futebol do Brasil em 2014! Que espetáculo!
De fato espetacular, mas o que de fato inebria, e só fui me dar conta disso após ver o programa no ar, são as articulações possíveis dessa produção científica de ponta com o Brasil. Tenho falado e escrito sobre isso nos últimos tempos com tanta freqüência que até eu mesma começo a me achar chata, mas não agüento mais ver tantos colegas se curvarem ao que se faz fora daqui como sendo a única possibilidade de produção inteligente ou passível de ser designada de verdadeiramente científica.
Já quiseram me tomar como piegas e como tola por eu ter orgulho de ser brasileira e falar isso aqui ou fora. Um sujeito que me conhecia pouco disse que eu era nacionalista, e que isso podia ser usado contra mim, afinal essa marca também tinham os nazistas e defensores de outros regimes totalitários… quanta tolice. Lembro de uma situação passada na mercearia ao lado de meu apartamento em Barcelona durante o pós-doutorado quando uma catalã, ao saber de minha ascendência espanhola, me inquiriu sobre meu desejo de pedir cidadania. Em seu discurso improvisado, e certamente tomada pela onda xenofóbica que já assolava a Europa, terminou sua fala batendo o calcanhar como se estivesse dançando flamenco e vaticinou: yo soy catalã, catalã, catalã. E antes que outros republicanos pudessem tomar aquilo como um entrevero sério lancei mão do melhor Olavo Bilac que me ocorreu (Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste. Criança, não verás nenhum país como este!) e despejei sobre ela o que faz do brasil, Brasil (obrigada Roberto da Matta) apontando tudo o que há de tão desejado nesse nosso pedaço de terra tomado dos índios pelo portugueses e colonizado por tantos. E para por fim àquilo que poderia ser o desencadeador de uma nova desavença internacional respondi em estilo sevilhano, armando-me de castanholas, e respondi: e eu sou brasileira, brasileira, brasileira.
Não vou entrar na discussão sobre quanto o nacionalismo e nossos símbolos nacionais foram usados por dirigentes e governantes inescrupulosos ao longo da história do Brasil. Isso nos fez nos distanciar da bandeira, do hino, dos brasões etc com receio de sermos taxados de direitistas ou coisa assim. Pois é. Nem combinação de verde com amarelo, que cai tão bem, era vista com bons olhos. Mas, os anos passaram, os tempos mudaram e os governantes também. E então, o Brasil e tudo o que é feito aqui, passou a gerar curiosidade do mundo e dos produtores de conhecimento, mas ainda eram poucos os que eu conhecia que de fato faziam isso naturalmente. Um deles foi o Ayrton Senna, mas ele era piloto. Vi também Joaquim Cruz, que sempre que pode fala disso com todas as letras. E agora vi e confirmei que Miguel Nicolelis, um dos 20 maiores cientistas contemporâneos também o faz. E não como estratégia de marketing, mas porque de fato acredita nessa nossa rapaziada (não foi à toa que ele escolheu Gonzaguinha para fechar o programa).
Precisei de quase uma semana para escrever esse texto porque sentia que era preciso esperar decantar todas essas sensações vividas no momento em que gravamos o programa. Durante esses dias pensei como seria bom encontrar colegas não apenas competentes, mas também apaixonados por essa gente toda que segue em frente e segura o rojão. Como seria bom se pudéssemos trabalhar no sentido de aumentar a segurança de nossos alunos, atletas e profissionais que saem pelo mundo ainda temendo que os outros (seja lá quem for essa entidade!) sejam melhores, simplesmente porque não têm o português como idioma materno. Como eu gostaria de fazê-los acreditar que o mundo de fato nos olha com curiosidade, e não aquela do visitante que passeia pelo zoológico e observa as jaulas ou do explorador que quer para si as preciosidades que encontra numa terra que não é sua, mas com o desejo latente de ter e fazer as coisas que temos e fazemos com paixão e criatividade.
Por isso Nicolelis me emocionou. Ele vai à luta com essa juventude e não foge da raia a troco de nada. Que bom pensar que temos sim perspectiva para o futuro e que há quem construa a manhã desejada.
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