Tubino e Crodowaldo Pavan
Nunca vou me acostumar a morrer na praia. Foi assim com o Tubino, e agora com o Prof Crodowaldo Pavan. Perdi de fazer as entrevistas. Marcadas.
No caso do Tubino estávamos preparando uma entrevista a ser feita em Foz do Iguaçu, durante o Congresso de comemoração dos 60 anos da Federação Internacional de Educação Física, FIEP, que ele nos orgulhava com a presidência. Era hora de puxar a história que ele não costumava contar, certamente constrangido pela modéstia, de quanto ele ajudou amigos e colegas de farda perseguidos pela ditadura. Arriscando tudo. Acabei conseguindo fazer apenas uma mençãozinha aqui mesmo no blog: Tubino e as ditaduras.
Em dezembro de 2007 recebi um precioso convite da Andréia e da Fernanda Ramirez (administradoras das comunidades cevgenetica, cevsarau e divulgação científica em esportes) para participar da festa de fim de ano do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da USP, onde elas estavam fazendo especialização e o Prof. Crodowaldo Pavan era o diretor científico.
Sem cerimônia imobilizamos o mestre no canto onde estava a jarra de ponche por mais de hora e meia, assombrados e encantados com as revelações.
Ele contou como iniciou a famosa jornada da implantação dos estudos de genética no Brasil que revelou cientistas importantes (inclusive o seu orientando de doutorado Prof Henrique Saldanha (orientador do mestrado da Andréia) e seus outros orientandos que ganharam bolsa da Fundação Kellogg.
Provocado, também contou sobre a convivência da SBPC com a ditadura, quando ele foi presidente (1981-87): “Nós criticávamos o governo, que não deixava de financiar as Reuniões Anuais, indicando que não deveríamos fazer alarde disso.” Esse seria um ponto a aprofundar na entrevista.
Falamos da Revista Ciência Hoje criada e feita sob o ponto de vista dos cientistas, e, de passagem, conversamos sobre as estratégias que usamos para a ressuscitação da Secretaria Regional da SBPC do Piauí durante a minha gestão de Secretário Regional do Maranhão, e responsável pela região a) AM, PA, AP, MA e PI, quando ele era presidente. Em seguida entramos no assunto do CNPq, que ele reinventou e turbinou.
Perguntamos por que essas histórias não estavam difundidas, e ele mostrou desalento com os jornalistas e mesmo com os historiadores da ciência: “Querem sensacionalismo, ou montam histórias coerentes com seus pontos de vista.” Também reclamou que nas entrevistas com ele sempre misturavam CNPq, SBPC, etc e davam pouco espaço para genética, cujos pesquisadores ele respeitava como grandes pioneiros da ciência no Brasil.
Arrisquei dizer que o problema era a falta de “crítica-inter-pares” nas entrevistas, sugerindo alguma espécie da Roda Viva da Ciência, em que o próprio cientista convidado escalaria os entrevistadores, buscando-os nos seus “colégios invisíveis”. Ele topou na hora, e pediu para gente tocar a idéia. Andréia e eu saímos a campo com a ajuda dos pesquisadores do Núcleo. Chegamos a conversar com a TV Cultura e, a despeito da boa receptividade do Presidente Paulo Markun, a idéia empacou. Fizemos outras tentativas que não vale a pena mencionar. Mas, a idéia continua viva: entrevistar nossos mestres que fizeram – e conhecem – a história da ciência no Brasil. Com o Professor Crodowaldo Pavan não vai dar mais.
Publicado em 4.04.2009.
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Por Laércio Elias Pereira